Cena três

CENÁRIO: Uma sala na casa do Sumo Sacerdote em Tebas. No mesmo dia.

Há uma janela ao centro. Entrada pela E.

O Sumo Sacerdote, Nezzemut, Tutankhaton e Ho­remheb estão sentados em torno de uma mesa redonda. Horemheb está melancólico, perdido em pensamentos.

Sumo Sacerdote: No principal, então, estamos de acordo?

Nezzemut: De acordo.

Sumo Sacerdote: Pelo amor de nosso país está resolvido que o rei Amenhotep IV, conhecido por Akhenaton, precisa ser impedido de governar? Isso decidimos não no espírito de rebelião, mas pela boa e duradoura paz do Egito.

Nezzemut e Tutankhaton: Sim.

Sumo Sacerdote: (para Tutankhaton) Ao senhor, Alteza, oferecemos fidelidade e a dupla coroa egípcia, sendo que seu direito a ela é através da mão de sua esposa, Sua Alteza Real Ankhepaaton. Jura que vai defender o bem-estar de nossa nação?

Tutankhaton: Isso eu juro.

Sumo Sacerdote: E que, uma vez que a dupla coroa esteja segura sobre sua cabeça, vai restaurar no Egito o culto a Amon e a outros deuses, e vai consertar e restaurar os templos de Amon?

Tutankhaton: Juro que vou restaurar o culto a Amon.

Sumo Sacerdote: E que vai, no devido tempo, abandonar o nome de Tutankhaton e assumir, em lugar desse, o de Tutancâmon?

Tutankhaton: Sim.

Sumo Sacerdote: Então eu, Meriptah, sumo sacerdote de Amon, em nome de Amon, juro que o clero de Amon vai apoiar sua reivindicação ao trono. Da casa do tesouro de Amon, ouro será fornecido para sua mobília funerária e será feito de tudo para torná-lo um rei grandioso e pujante. (Tutankhaton baixa a cabeça, agradado e com uma emoção infantil.) (Para Nezzemut.) A Vossa Alteza ofereço o título de Suma Sacerdotisa, divina consorte de Amon, como era a antiga Rainha Tyi, o título mais elevado que Amon pode oferecer, e com o controle do dote real da consorte do Deus. (Nezzemut baixa a cabeça.)

Cabe a você falar agora, meu lorde Horemheb. Sem o senhor não podemos fazer nada. Está conosco nesta questão? (Horemheb está em silêncio.) Vamos, o destino do Egito está em jogo.

Tutankhaton: Meu senhor, não me falte. Sem o senhor com certeza vou fracassar.

Horemheb: (devagar) Fica entendido que o rei, Akhenaton, permanecerá em sua Cidade do Horizonte e será tratado com total honraria?

Sumo Sacerdote: Estamos de acordo.

Horemheb: (levanta e anda de um lado a outro) Não há nenhum outro jeito?

Nezzemut: Não.

Horemheb: (gaguejando) A confiança dele em mim... o amor... nunca fraquejaram...

Sumo Sacerdote: Simyra caiu, Byblos foi atacada... O tesouro está vazio... o Egito está falido... As minas de ouro não são mais exploradas, nenhum imposto estrangeiro entra aqui, logo a terra vai morrer de fome e entrar em decadência...

(Horemheb solta um grunhido.)

Nezzemut: Venha comigo. (Ela o conduz para a janela C. Abre as cortinas, e ele sai para a varanda. Um grande clamor se eleva do lado de fora.)

Multidão: Horemheb... Horemheb...

(Ele cambaleia ao sair da janela. Ela volta a fechar as cortinas.)

Sumo Sacerdote: Escutou a voz do Egito. O Egito confia em ti. Que caminho vai escolher, aquele do amor pessoal, uma lealdade pessoal, ou o caminho mais amplo do patriotismo?

Horemheb: (de cabeça erguida) Eu escolho... o meu país. (Sai de repente pela E. O Sumo Sacerdote e Nezze­mut suspiram aliviados.)

Nezzemut: Temi até o fim.

Sumo Sacerdote: Por misericórdia, terminou bem. (Para Tutankhaton.) Meu senhor, seria bom, creio, que acompanhasse lorde Horemheb e o distraísse de seus pensamentos tristes.

Tutankhaton: Vou atrás dele.

Sumo Sacerdote: Até breve, ó Majestade. (Tutankhaton sai. Nezzemut e Sumo Sacerdote se entreolham.) Enfim! Fez um bom trabalho, minha filha. Tem um cérebro inteligente e ambicioso.

Nezzemut: Espero receber minha recompensa.

Sumo Sacerdote: Não vai demorar muito. Não se pode apressar as coisas.

Nezzemut: Suponho que não.

Sumo Sacerdote: (depois de uma pausa) Devo ser explícito?

Nezzemut: Sem sombra de dúvida.

Sumo Sacerdote: O menino, você percebe, não passa de uma fachada. Horemheb será o poder governante do Egito.

Nezzemut: Isso não me basta.

Sumo Sacerdote: (escolhendo as palavras com peso proposital) Em um ano ou dois, pode acontecer de o rapaz adoecer e morrer. Na verdade, creio que é quase certo que isso acontecerá...

Nezzemut: Dois anos?

Sumo Sacerdote: Precisamos ir devagar. O próprio Horemheb precisa amadurecer a ideia. Ele jamais ia querer saber de suplantar Akhenaton. Mas se o m­enino fosse gradualmente enfraquecendo e adoecendo... (Pausa.) Isso pode ser arranjado, então as pessoas seriam unânimes em apoiar Horemheb. A estátua de Amon carregada na procissão vai parar e se curvar para ele. Ele vai aceitar a vontade dos Deuses e do povo. Para consolidar o direito dele ao trono e para que tudo seja feito de forma decente e nos conformes, precisa se casar com uma dama de sangue real, a divina consorte de Amon.

Nezzemut: Ah!

Sumo Sacerdote: Essa é a minha parte da tratativa. (Com gravidade.) Agora a sua. Horemheb ainda suspira pelo herege. Enquanto Akhenaton viver (pausa), nunca teremos certeza sobre Horemheb.

Nezzemut: O rei já é um homem doente. Desde que Nefertiti o deixou, só enfraquece e definha. Se fosse para morrer de repente... uma síncope... (Abre um sorriso.)

Sumo Sacerdote: Consegue prometer isso?

Nezzemut: Minha anã, Para, sabe o segredo de preparar uma morte súbita.

Sumo Sacerdote: Que Amon prospere a empreitada! (Exultante.) Logo os templos serão restaurados à sua glória completa, e Amon reinará novamente nesta cidade. A heresia de Akhenaton será eliminada da memória humana.

Nezzemut: Nada de ruim pode acontecer com minha irmã, a rainha Nefertiti. Seu nome foi apagado, não é mais realeza. Mas pode retornar para Akhenaton.

Sumo Sacerdote: Nada de ruim recairá sobre ela.

Nezzemut: Ela não dará motivos para deixá-lo ansioso. É uma criatura doce. Vai ficar de luto por Akhenaton e não vai perturbar a cabeça com política. Não tem verve.

Sumo Sacerdote: É uma mulher inteligente, Nezzemut.

Nezzemut: O elogio é recíproco. O senhor é um homem inteligente. Foi tão somente a incompetência de Akhenaton que causou toda a desmoralização desta cidade?

Sumo Sacerdote: (sorridente) Ah! Nós sacerdotes temos nossos métodos. Como toupeiras, trabalhamos nos subterrâneos. Organização, este é o segredo, organização.

Nezzemut: A rainha antiga tinha razão em temer o senhor.

Sumo Sacerdote: (fazendo o papel do abade adulador) Talvez seja uma sorte nossa que o filho não tenha herdado a natureza desconfiada da mãe.

Nezzemut: Será que um dia ele teve alguma chance contra o senhor?

Sumo Sacerdote: Se tivesse respondido ao ardil com ardil, à intriga com intriga. (Meneia a cabeça.) Mas escolheu fazer uma guerra aberta. (Desdenhoso.) Um trouxa! Ora, se jogar contra o poder de Amon e de seus sacerdotes.


CAI O PANO