Prefácio/Preface

Os estudos malacológicos de Adolpho Lutz

Os estudos malacológicos de Adolpho Lutz foram precedidos de investigações sobre a esquistossomose, iniciadas em 1916, nove anos após a proposição, por Sambon, do nome de Schistosomum mansoni para o agente da forma intestinal da parasitose, e oito anos após sua identificação, no Brasil, por Pirajá da Silva. É digno de nota o fato de ter trabalhado no assunto durante a Primeira Guerra Mundial, conhecendo pouco das pesquisas de Leiper no Egito, publicadas de 1915 a 1918, e que só veio a compulsar quando iam adiantadas suas investigações e já havia reproduzido todo o ciclo vital do parasito. Além disso, realizou com Oswino Penna observações em regiões endêmicas no Nordeste do país, e estudou quase todas as espécies de planorbídeos brasileiros. A parte malacológica de sua produção científica constituiu o assunto que me foi atribuído nesta edição de sua Obra Completa.

A malacologia segundo Lutz está concentrada em um artigo intitulado “Caramujos de água doce do gênero Planorbis, observados no Brazil,” publicado em 1918 nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Aí estão descritas e discutidas 14 espécies nominais provenientes de sete estados, do Pará ao Rio de Janeiro. Além dessas, apresenta uma lista de planorbídeos de outros países sul-americanos (Argentina, Bolívia, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela) referidos na literatura contemporânea, e um apêndice com as descrições originais de 14 espécies nominais copiadas de outros autores: Orbigny (9), Lesson (1), Moricand (1), Dunker (2) e Martens (1).

Essa monografia de Lutz está ilustrada de maneira primorosa, com desenhos de Castro Silva e Rudolf Fischer, mostrando as conchas de frente e de ambos os lados, em corte diametral, e a superfície das partes moles vista através da concha. A apresentação de cortes diametrais é uma inovação que mostra o contorno dos giros da concha e sua disposição. Pena que não adotasse a investigação anatômica, especialmente do sistema reprodutivo, já praticada por alguns grandes autores da época. Mesmo assim, a descrição detalhada das conchas e as figuras permitem reconhecer quase todas as espécies por ele mencionadas, especialmente duas das três transmissoras do Schistosoma mansoni: Biomphalaria glabrata e B. tenagophila.

Das 14 espécies nominais descritas nesse trabalho, seis são de sua autoria e atualmente são consideradas sinônimas: Planorbis centimetralis = Biomphalaria straminea; Planorbis confusus, depois (Lutz 1923) emendado para Planorbis immunis = Biomphalaria tenagophila; Planorbis nigrilabris e Planorbis incertus = Biomphalaria schrammi; Planorbis melleus e Planorbis nigellus = Drepanotrema anatinum.

Convidado pelo governo da Venezuela, esteve naquele país estudando aspectos importantes da zoologia e da parasitologia, com ênfase nos moluscos e nos trematódeos (Lutz, 1928). Quanto aos moluscos, com exceção da Biomphalaria prona, que não transmite o Schistosoma, encontrou outras espécies que também ocorrem no Brasil.

Ao lado das investigações malacológicas, ocupou-se Adolpho Lutz das relações entre moluscos e trematódeos, descrevendo mais de vinte espécies de cercárias (por exemplo, Lutz, 1933).

Familiarizado com a fauna malacológica brasileira, confirmou com nossos planorbídeos todos os resultados obtidos por Leiper no Egito. Estudou detalhadamente o ovo e o miracídio. Observou a penetração do miracídio em vários moluscos de água doce e seu desenvolvimento, através dos estágios de esporocistos, até a formação das cercárias de cauda bifurcada. Reconheceu como hospedeiros intermediários o Planorbis olivaceus e o P. guadaloupensis (ambos sinônimos de Biomphalaria glabrata) e o P. centimetralis (sinônimo de Biomphalaria straminea), assinalando as lesões principais neles produzidas pelo parasito. Descreveu a cercária, que identificou à Cercaria blanchardi descoberta por Pirajá da Silva (1912), observando as condições de sua libertação do corpo do molusco e sua penetração em animais de experiência. Confirmou a caracterização dos vermes adultos feita por Pirajá da Silva e por Leiper. E ocupou-se, finalmente, da infecção humana e experimental sob os aspectos sintomatológicos, patogênicos, anatomopatológico, terapêutico e profilático.

A título de curiosidade, quero referir a técnica recomendada por Lutz para a pesquisa de ovos do Schistosoma nas fezes. Consta em seu trabalho de 1919 sobre o Schistosoma mansoni, entre parênteses:

"(O exame torna-se mais fácil pela lavagem repetida das fezes, seguida de sedimentação simples ou centrifugação. Com estas combina-se o uso de tecido de arame e de gaze de moleiro para reter todos os corpos mais grossos. Assim obtém-se um sedimento que contém quase exclusivamente corpúsculos amiláceos e ovos parasitos, sendo fácil de examinar)."

Esse processo costuma aparecer na literatura como método de Hoffman, Pons e Janer.

Wladimir Lobato Paraense

Chefe do Laboratório de Malacologia

Instituto Oswaldo Cruz / Fundação Oswaldo Cruz

Referências

Lutz, A. Caramujos de água doce do gênero Planorbis, observados no Brazil. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, v.10, p.65-82, 1918.

Lutz, A. O Schistosomum mansoni e a schistosomatose segundo observações feitas no Brasil. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, v.11, p.121-55, 1919.

Lutz, A. Planorbis immunis n.n. Nautilus, v.37, p.36, 1923.

Lutz. A. Moluscos de agua Dulce recogidos y observados en Venezuela. In: Estúdios de zoologia y parasitologia venezolanas. Rio de Janeiro, 1928, p.75-89

Lutz, A. Notas sobre Dicranocercarias brasileiras. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, v.27, p.349-76, 1933.

Pirajá da Silva, M. A. Cercaire brésilienne (Cercaria blanchardi) à queue bifurquée. Archives de Parasitologie v.15, p.398-400, 1912.