Adolpho Lutz e os anfíbios

Até o início do século XX, praticamente todos os estudos sobre a fauna de anfíbios e répteis brasileiros foram realizados por estrangeiros. Inicialmente a Coroa Portuguesa mantinha a colônia fechada aos exploradores, mas depois, com a vinda da Família Real para o Brasil, em 1808, grandes expedições de naturalistas puderam entrar no país para estudar sua fauna e flora. Pode-se citar, para essa época, as viagens de Spix e Martius e do Príncipe Maximilian de Wied-Neuwied, entre outros. Porém, o material era coletado e enviado à Europa para estudo, praticamente nada permanecendo no Brasil. Eram ainda incipientes as iniciativas para a formação de pesquisadores no país.

A década de 1920 marcou o início do estudo dos anfíbios no Brasil – isso se desconsiderarmos a mal-sucedida iniciativa de João Joaquim Pizarro (1842-1906), que em 1876 apresentou seu Batrachychthis. Portanto, Adolpho Lutz, no Instituto Oswaldo Cruz, e Alípio de Miranda-Ribeiro, no Museu Nacional, podem ser considerados os primeiros brasileiros a estudar esse grupo de animais e a publicar ativamente sobre ele (sobre Miranda-Ribeiro, veja Pombal, 2002). Entre 1920 e 1939, Adolpho Lutz (1855-1940) publicou uma série de trabalhos sobre anfíbios anuros, referentes sobretudo ao Sudeste do Brasil, além de fazer pequena incursão pelo estudo de serpentes.

Na tabela 1 estão listadas as espécies de anfíbios descritas por A. Lutz, com sua atualização nomenclatural. Das 58 espécies por ele descritas, 37 são atualmente reconhecidas como válidas, e uma é considerada incertae sedis (o que significa que não se sabe em que gênero classificá-la e, neste caso em particular, se é uma espécie válida). Atualmente, 63% dos nomes ainda são válidos, uma boa proporção se considerarmos o conhecimento da época.

As primeiras descrições de espécies feitas por Adolpho Lutz foram apresentadas de maneira muito resumida. Dessa fase há dois trabalhos publicados no Comptes Rendus, em 1925, onde são apresentadas as descrições de 24 novas espécies em apenas sete páginas. Na verdade, foi uma estratégia dele para garantir a prioridade sobre as aplicações dos nomes, com o intento de complementá-las posteriormente. Porém isso nunca foi feito, de maneira que muitas vezes essas descrições não permitem a associação com populações naturais, causando problemas nomenclaturais, alguns deles resolvidos apenas décadas depois (e.g., B. Lutz, 1973; Pombal & Cruz, 1999). Ainda na década de 1920, A. Lutz publicou alguns trabalhos de revisão de gêneros (e.g. Bufo e Leptodactylus), apresentando descrições detalhadas e ilustrações de ótima qualidade. Tais estudos equiparavam-se aos melhores trabalhos produzidos no mundo, na época.

Atenção especial deve ser dada aos três últimos trabalhos, que foram publicados com sua filha, Bertha Lutz (1894-1976). As descrições são muito detalhadas e, além da morfologia dos adultos, houve a preocupação de apresentar informações adicionais, como vocalização e girinos. Uma dessas publicações é o estudo sobre espécies do gênero Phyllomedusa -que no conceito atual também inclui Phasmahyla e Phrynomedusa (veja A. Lutz & B. Lutz, 1939) –, onde encontramos extenso estudo sobre girinos, incluindo desenvolvimento e observações comportamentais. Na mesma publicação, são apresentadas também observações sobre anuros picados por mosquitos e fragmose em anuros (fragmose consiste no fechamento de uma abertura do ambiente com o próprio corpo; e.g., o fechamento do tubo central de uma bromélia com a cabeça do anuro). Este trabalho excelente foi o primeiro de uma série de estudos de Bertha Lutz com viés comportamental. Alguns dos seus estudos posteriores são hoje considerados clássicos.

Bertha Lutz continuou os estudos com espécimes da coleção de anuros reunida por seu pai. Alguns apresentaram descrições mais detalhadas de espécies já descritas por A. Lutz apenas de maneira sucinta, adicionando novas informações. Descreveu três espécies em que atribuiu a autoria a seu pai (B. Lutz, 1950; B. Lutz & Carvalho, 1958). No tocante a duas destas espécies, Phyllomedusa burmeisteri distincta e Aplastodiscus perviridis, a autoria não pode ser conferida a A. Lutz, uma vez que não fez uso de diagnoses ou descrições feitas por seu pai (usou apenas desenhos realizados sob a supervisão dele). Ela apresentou descrições mais detalhadas, baseadas inclusive em exemplares mais recentes, coletados após a morte de A. Lutz. Assegura Bertha Lutz que seu pai havia notado que as espécies eram inéditas e que havia escolhido os nomes científicos. Todavia, isto não é critério para reconhecer autoria. De maneira distinta, na descrição de Paratelmatobiuspictiventris (B. Lutz & Carvalho, 1958) foi apresentada uma diagnose preparada por A. Lutz, a qual está escrita à mão no verso da aquarela desenhada sob sua supervisão. Neste caso, a autoria deve ser A. Lutz in B. Lutz & Carvalho (1958). Infelizmente, esta espécie havia sido descrita anos antes por Doris M. Cochran (1898-1968), do Smithsonian Institution, Washington, DC, USA, com base nos mesmos exemplares que A. Lutz usou para sua diagnose (veja Pombal & Haddad, 1999).

Em anfíbios, além das publicações, Adolpho Lutz reuniu boa coleção científica, hoje depositada no Museu Nacional, com exemplares de várias partes do mundo, mas principalmente com espécimes coletados no Sudeste do Brasil. Considerando a antiguidade, essa coleção está razoavelmente bem preservada, mas alguns exemplares-tipo (espécimes usados para a caracterização da espécie, portanto de excepcional importância para a taxonomia) de diversas espécies descritas por ele estão em péssimas condições, o que dificulta os estudos taxonômicos atuais (as razões disto são desconhecidas, mas é possível que esses exemplares não tenham sido adequadamente fixados quando foram preservados).

Em meados da década de 1930, A. Lutz cedeu a Doris M. Cochran mil exemplares de sua coleção, incluindo espécimes-tipo, que ainda continuam depositados na Smithsonian Institution. Tais exemplares, adicionados aos coletados em excursões durante os cinco meses da visita daquela pesquisadora ao Brasil, foram a base para seu importante livro sobre anfíbios do Sudeste do Brasil (Cochran, 1955).

Sobre serpentes, Adolpho Lutz publicou apenas dois trabalhos. O primeiro continha a descrição de um gênero, Paraphrynonax A. Lutz & Mello, 1920 (atualmente sinônimo de Pseustes Fitzinger, 1843), e duas espécies atualmente também inválidas por serem sinônimas de outras mais antigas, quais sejam Paraphrynonax versicolor A. Lutz & Mello, 1920 [atualmente sinônima de Pseustes sulphureus (Wagler, 1824)] e Xenodon hemileucurus A. Lutz & Mello, 1920 [atualmente sinônima de Xenodon neuwiedii (Günther, 1863)]. No segundo trabalho apareceram as descrições de Elaps ezequieli A. Lutz & Mello, 1922 [atualmente sinônima de Micrurus decoratus (Jan, 1858)] e Rhinostoma bimaculatum A. Lutz & Melo, 1922 [atualmente sinônima de Phimophis iglesiasi (Gomes, 1915)].

Em uma época em que as pesquisas sobre a fauna brasileira, em especial os anfíbios, eram produzidas em sua maioria por estrangeiros, Adolpho Lutz pode ser considerado um pioneiro. Sua importância pode ser avaliada considerando-se a qualidade e o alcance até os dias de hoje de seus estudos. Todavia, não de menor importância terá sido seu exemplo para seus contemporâneos e as gerações seguintes.

José P. Pombal Jr. & Ulisses Caramaschi

Departamento de Vertebrados, Museu Nacional

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Referências

Cochran, D.M. 1955. Frogs of Southeastern Brazil. United States National Museum Bulletin, 206: 1-423.

Lutz, A. & Lutz, B. 1939. I. Notes in the genus Phyllomedusa Wagler. A) Observations on small Phyllomedusidae without vomerine teeth or conspicous parotids found in the region of Rio de Janeiro. B) Phyllomedusa bahiana Lutz. II. Mosquitoes biting batrachians and phragmosis in casque headed frogs. Annaes da Academia Brasileira de Sciencias, 11(3): 219-263 + 8pls.

Lutz, B. 1950. Anfíbios anuros da Coleção Adolpho Lutz. V. Locomoção e estrutura das extremidades. Va Phyllomedusa (P.) burmesteri distincta A. Lutz. Vb Aplastodiscus perviridis A. Lutz. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 48: 599-637 + 7pls.

Lutz, B. 1973. Brazilian Species of Hyla. University of Texas Press, Austin and London, xviii + 260 pp.

Lutz, B. & Carvalho, A. L., 1958. Novos anfíbios anuros das serras costeiras do Brasil. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 56: 239-249 + 5pls.

Pombal Jr., J. P. 2002. Ribeiro ou Miranda-Ribeiro? Nota biográfica sobre Alípio de Miranda Ribeiro (1874-1939). Revista Brasileira de Zoologia, 19(3): 935-939.

Pombal Jr., J. P. & Cruz, C. A. G. 1999. Redescrição de Eleutherodactylus bolbodactylus (A. Lutz, 1925) e a posição taxonômica de E. gehrti (Miranda-Ribeiro, 1926) (Anura, Leptodactylidae). Boletim do Museu Nacional (N.S.) Zoologia, 404: 1-10.

Pombal Jr., J. P. & Haddad, C. F. B. 1999. Frogs of the genus Paratelmatobius (Anura: Leptodactylidae) with descriptions of two new species. Copeia, 1999(4): 1014-1026.

TABELA 1. Espécies de anfíbios anuros descritos por Adolpho Lutz. Quando o nome científico for seguido por nome de autores, na coluna da direita, significa que a espécie de Lutz é atualmente considerada um sinônimo de um nome mais antigo.

TABLE 1. Species of anuran amphibians described by Adolpho Lutz. When the scientific name is followed by names of authors, on the right column, it means that Lutz’ species is now considered a synonym for a former name.