Parte IV – Répteis e Anfíbios/Reptiles and Amphibians

1922/1939

Hyla venulosa Daudin, 1800. Detalhe de prancha maior. [Detail of larger plate]. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Contribuição para o conhecimento dos ofídios do Brasil. Descrição de um novo gênero e de duas novas espécies de colubrídeos áglifos*

Paraphrynonax n. gen.

Dentes mandibulares anteriores mais compridos. Dentes maxilares dispostos em linha contínua, levemente crescentes para trás (12 no único exemplar examinado). Cabeça destacada do pescoço. Olho grande. Pupila redonda. Corpo alongado, comprido lateralmente. Cauda longa, afilada. Escamas dorsais, inclusive as caudais, distintamente carenadas. Fosseta apical dupla. Um subocular, separando, parcialmente, e 4° supralabial do rebordo orbitàrio.

Este gênero é muito vizinho de Phrynonax, do qual se distingue pelo menor número de dentes maxilares e pela presença de um escudo subocular.

Paraphrynonax versicolor n. sp.

Escudo rostral apenas visível de cima, de largura igual a 1½ vez sua altura. Internasais mais compridos do que largos, a sutura entre eles igual à sutura entre os pré-frontais. Comprimento do frontal pouco maior do que a sua largura e do que a sua distância do rostral, muito menor do que o dos parietais. Um pré-ocular, separado do frontal. Nasal semidividido. Frenal mais comprido do que alto. Um subocular separando, parcialmente, o 4° supralabial do rebordo orbitàrio. Três pós-oculares. Temporais 1 + 1 + 3. Ocipitais: um maior, lateral, e um mediano. Oito supralabiais, o 5° contíguo à órbita, o 4° separado dela parcialmente pelo subocular. 6 infralabiais em contato com os mentais anteriores, que são muito mais curtos do que os posteriores. Escamas dorsais estreitas com fosseta apical dupla, dispostas obliquamente em 21 séries, todas carenadas, incluindo as caudais, com exceção das séries mais exteriores; as carenas, não marcadas por cor especial, terminando perto do ápice. 200 escudos ventrais, com ângulo lateral arredondado. Anal inteiro. Subcaudais duplos, 135 de cada lado.

Cabeça em cima cor de couro pardo-amarelado, os escudos largamente tarjados de preto nos bordos posteriores; nos supraoculares e parietais as tarjas são substituídas por duas manchas que ocupam os ângulos posteriores naqueles e as margens interna e posterior nestes. Lateralmente a cabeça é branco-amarelada; os 6 primeiros supralabiais e os infralabiais, com exceção do último, são tarjados de preto na margem posterior. Uma faixa preta, principiando no pós-ocular médio, ocupa o temporal anterior e o médio inferior e grande parte do póstero-inferior, invadindo também a margem superior dos três últimos supralabiais. Esta faixa escura continua sobre as escamas do pescoço em direção à linha médio-dorsal, que é atingida em um ponto que dista do occipício como este da ponta do focinho. Região mental amarelada, com manchas pretas nas margens posteriores dos escudos.

Corpo: o dorso é muito variegado, o que se observa até em uma mesma escama. As cores são pouco brilhantes e variam do amarelo claro para o verde oliváceo e o pardo, mais ou menos enegrecido. Formam desenhos apagados que não se prestam a uma descrição. Apenas na metade posterior do corpo, acentua-se gradualmente a formação de anéis escuros e claros. Na cauda distinguem-se uns nove anéis enegrecidos, estreitos e bastante distantes entre si; por fora têm uma tarja branca, apresentando outra vez uma orla escura. Esses anéis se tornam indistintos na ponta da cauda. Ventre geralmente cor de chumbo, com algumas manchas creme, a porção anterior sendo quase totalmente desta cor.

Dimensões: comprimento total: 130 cm, da cauda: 36.

Localidade: Cataguazes, Minas Gerais. Um exemplar.

Da coleção do Posto Ofídico de Belo Horizonte.

Xenodon hemileucurus n. sp.

Número de exemplares examinados: 3

Dentes maxilares 12 + 2. Cabeça pequena, deprimida. Corpo deprimido. Rostral de largura igual ao duplo da altura, sua porção visível de cima igual à terça parte de sua distância ao frontal. Internasais tão largos quanto compridos; a sutura entre eles igual a 2/3 da sutura entre os pré-frontais. Frontal mais comprido que largo, mais comprido que sua distância ao rostral, mais curto que os parietais. Nasal dividido. Frenal mais alto do que comprido. Um pré-ocular e dois pós-oculares. Temporais 1 + 2. Supralabiais 8, o 1° e o 5° contíguos à órbita. 5 infralabiais em contato com os mentais anteriores, que são mais compridos e mais largos do que os posteriores. Escamas em 21 séries. Ventrais arredondados, 162-170. Anal dividido. Subcaudais duplos, 48-56.

No dorso a cor geral é cinzenta de chumbo, tornando-se pardo-olivácea brilhante com a idade das escamas. Sobre este fundo cinzento há um desenho irregular de pequenas manchas alongadas em vários sentidos e compostas de grupos de escamas enegrecidas; a princípio espaçadas, aproximam-se mais para trás e constituem, finalmente, na extremidade caudal, anéis, variáveis nos diferentes exemplares. Na cabeça há um desenho de linhas escuras, que passam de um escudo para outro. Uma faixa escura, bastante larga, corre do ângulo posterior do olho à comissura da boca. Os supralabiais são brancos na sua porção inferior, formando, pelo seu conjunto, uma faixa branca irregular. O ventre é branco leitoso, variegado de plúmbeo. No exemplar mais novo, o quarto anterior é quase uniformemente leitoso. A face ventral da cauda é de um branco leitoso uniforme. A cabeça, embaixo, é branca, tornando-se creme com a idade; apenas os infralabiais têm riscos marginais escuros, de extensão e intensidade variáveis.

Dimensões dos exemplares, tronco e cauda: 104:15, 70:9,7, 75:13 cm.

Localidade: São Simão do Manhaçu, Minas Gerais.

Remetente: Teofilo Teotonio Vieira.

Os exemplares pertencem ao Posto Ofídico de Belo Horizonte.

Bibliografia

1) AMARAL, Afranio (1921). Um trabalho inédito de Florencio Gomes: Duas espécies novas de Colubrideos opistoglifos brasileiros (Philodryas oligolepis Gomes e Apostolepis Longicauda Gomes). Comunicação à Soc. Med. Cirurgia de S. Paulo, sessão de 15.7.1921.

2) AMARAL, Afranio (1921). Contribuição para o conhecimento dos ofídios do Brasil. A. Anexos das Memórias do Instituto de Butantan, Of., v. I, fasc. I.

3) BOULENGER (1898-1896). Catalogue of Snakes of the British Museum.

4) BOULENGER (1898). List of the reptiles and Batrachians collected by Mr. Rosenberg in Western Ecuador. Proc. Zool. Soc., London, p.115-8.

5) BOULENGER (1902). List of the Fishes and Batrachians and Reptiles collected by the late Mr. P.O. Simons in the provinces of Mendoza and Cordoba, Argentina. Ann. Mag. Hist. s.7, v.9, p.336.

6) BOULENGER (1903). On a small collection made in Chapada, Mato Grosso. Proc. Zool. Soc., London, I, p.69-70.

7) BOULENGER (1908). On a new Genus of Snakes from Brazil. Ann. Nat. Hist., s.8, v.2, p.31.

8) BOULENGER (1914). Description of new species of Snakes in the collection of British Museum. Ann. Nat. Hist., s.8, v.14, p.482-5.

9) BOULENGER (1920). Description of 4 new Snakes in the collection of the British Museum. Ann. Nat. Hist., s.9, v.6, p.108-10.

10) BOULENGER (1915). On a Colubrid Snake (Xenodon) with a vertically movable maxillary bone. Proc. Zool. Soc., London, 1915, p.83-5.

11) COPE (1862). Catalogues of the Reptiles obtained during the explorations of the Paraná by Capt. Page. Proc. Ac. Phil., 1862, p.348.

12) DUMÉRIL & BIBRON. Erpétologie générale, 1844-1854.

13) GOMES, J. Florencio (1915). Contribuição para o conhecimento dos Ofídios do Brasil. Ann. Paul. de Med. e Cir., v.IV, n.6.

14) GOMES, J. Florencio (1918). Contribuição para o conhecimento dos Ofídios do Brasil. II. Rev. do Museu Paulista, tomo X, p.503-27.

15) GOMES, J. Florencio (1918). Contribuição para o conhecimento dos Ofídios do Brasil. III. Memórias do Inst. de Butantan, tomo I, fasc. I.

16) GUENTHER, Albert (1885-1902). Reptilia and Batrachia. Biologia Central-Americana.

17) IHERING, Rodolpho (1911). As cobras do Brasil. Rev. do Museu Paulista, tomo 8, p.273-379.

18) LOENNBERG, E. (1902). On a collection of Snakes from North-western Argentine and Bolivia containing new species. Ann. Nat. Hist., s.7, v.10, p.457-62.

19) MARTINS, Naur. Das Opistogluphas brasileiras e seu veneno. Coletânea de trabalhos de Butantan, 1901-1917, p.429-96.

20) NEIVA, Arthur & PENNA, Belisario (1916). Viagem científica pelo Norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul de Piauí e norte de Goiás. Mem. do Inst. Oswaldo Cruz, tomo VIII, fasc. III, p.101.

21) PERACCA, M. G. (1896). Nuovo genere di Colubride aglifo dell'America meridionale. Boll. Mus. Zool. Anat. Comp., v.XI, n.266.

22) PERACCA, M. G. (1896). Rettili ed Anfibi raccolti nel Darien ed Panama dal Dott. E. Festa. Boll. Mus. Zool. Anat. Comp., v.XI, n.253.

23) PERACCA, M. G. (1896). Sopra alcuni ofidi nuovi o poco noti dell'America meridionale. Boll. Mus. Zool. Anat. Comp. Torino, v.XI, n.252.

24) PERACCA, M. G. (1896). Sopra un nuovo genere ed una nuova specie di colubrideo aglifo dell'America meridionale. Boll. Mus. Zool. Anat. Comp., v.XI, n.231, p.1.

25) PERACCA, M. G. (1897). Intorno ad una nuova specie di S. Paulo, riferibile al genero Uromacer. Boll. Mus. Zool. Anat. Comp., v.XII, n.282.

26) PERACCA, M. G. (1897). Sopra un nuovo genere di colubrideo opistoglifo della republica Argentina. Boll. Mus. Zool. Anat. Comp., v.XII, n.278.

27) PERACCA, M. G. (1897). Viaggio del Dr. Enrico Festa nell'Ecuador e regioni vicine, Ofidi. Boll. Mus. Zool. Anat. Comp., v.XII, n.300, p.14-20.

28) PERACCA, M. G. (1904). Viaggio del Dr. Borelli nel Mato Grosso. Boll. Mus. Zool. Anat. Comp., v.XIX, n.460.

29) PERACCA, M. G. (1904). Nouvelles espèces d'Ophidiens de l'Asie et de l'Amérique. Rev. Suisse de Zool., n.12, p.662.

30) PERACCA, M. G. (1904). Viaggio del Dr. Festa nell'Ecuador. Boll. Mus. Zool. Anat. Comp., v.XIX, n.465.

31) PERACCA, M. G. (1910). Descrizione di alcune nuove specie di Ofidi del Museu Zoologico dall R. Università di Napoli. Annuario del Museo Zool. Napoli., v.3, n.12.

32) PHISALIX, Marie (1922). Animaux venimeux et venins, t. II.

33) PROCTER, Jean B. (1918). On the variation of the Pit-Viper, L. atrox. Proc. Zool. Soc., London, part. I-II, p.163.

34) ROUX, Jean. (1910). Eine neue Helicops-Art aus Brasilien. Zool. Anz. Bd. 36, p.439.

35) SCHLEGEL (1837). Essai sur la Physionomie des serpents.

36) SCHNEE (1900). Ueber eine Sammlung südbrasilianischer Reptilien und Amphibien. Zool. Anz., n.23, p.460-4.

37) SERIE, Pedro. Notes de Erpétologie. Anales del Museo de Buenos Aires, n.26.

38) SPIX (1824). Animalia nuova.

39) STEJNEGER, Leonhard (1902). An annotated list of batrachians and Reptiles collected in the vicinity of la Guaira, Venezuela, with description of two new species of snakes. Proc. U. S. National Museum, v.24, p.184-92.

40) VITAL BRASIL (1914). La Defense contre l'Ophidisme.

41) WERNER (1908). Ueber neue oder seltene Reptilien des naturhistorischen Museums in Hamburg, Schlangen. Mitt. Nat. Hist. Hamb., n.26, p.205-45.

42) WERNER (1910). Neue oder seltene Reptilien du Musée Royal d'Histoire Naturelle de Belgique, Brüssel. Zool. Jahrb., n.28, p.264-84.