Observações sobre batráquios brasileiros*

Parte I: o gênero Leptodactylus Fitzinger

(Com as estampas 30-37)

O primeiro impulso para o presente trabalho foi dado pela observação de girinos esquisitos e aparentemente desconhecidos que fiz no decorrer de outros trabalhos. Para a sua determinação era preciso obter primeiramente as formas adultas. Feito isto encontrei sérias dificuldades na verificação dos nomes científicos, porque, não somente o número de espécies descritas era enorme, mas as descrições, tiradas de material conservado, mal se aplicavam ao animal vivo. É verdade que Spix deu grande número de desenhos coloridos de batráquios brasileiros, mas reconheci logo que essas cores eram absolutamente fantásticas e as descrições muito insuficientes. Os originais ainda existem, mas em mau estado; a sua comparação e as sinonímias dadas por Peters só nos informam sobre um pequeno número de espécies características e comuns. As descrições de Guenther, Boulenger e muitos outros autores baseiam-se em caracteres anatômicos e proporções, completamente insuficientes para distinguir as numerosas espécies. Sendo feitos sem conhecimento dos animais vivos, dão idéias completamente erradas sobre a coloração de muitas espécies, e as dimensões muitas vezes referem-se a um único exemplar, quando não faltam completamente. Existem, na verdade, alguns desenhos bons que ajudam muito o trabalho, mas são poucos em relação ao grande número de espécies brasileiras, que regulam entre 150 e 200.

Certos caracteres, observados principalmente nos machos, dependem da atividade sexual e por isso não podem ser empregados para distinguir gêneros e espécies, como aconteceu algumas vezes. Muitas espécies mostram variedades individuais constantes ou podem mudar rapidamente de cor e desenho. A ponto de os exemplares, que na véspera eram semelhantes, na manhã seguinte parecerem pertencer a duas ou três espécies diferentes. Assim, não é para estranhar que na literatura, aliás muito vasta e espalhada, a mesma espécie apareça com vários nomes, ou espécies diferentes sejam consideradas sinônimas.

Reconheci logo que, para bem conhecer os nossos batráquios, é mister observar séries de indivíduos em vida e fixar os aspectos típicos nas suas cores naturais. Tendo reunido em pouco tempo grande número de batráquios vivos ou bem conservados, lembrei-me da utilidade de incluir um atlas das espécies indígenas nas publicações, projetadas para a comemoração do centenário. Combinei com o Prof. Bruno Lobo, então diretor do Museu Nacional, de fornecer o material para esse fim e dirigir os trabalhos de um artista, empregado pelo Museu. Depois de algum tempo de progresso satisfatório, o trabalho parou por falta de verba para a publicação, mas a coleção continuou a progredir e conta hoje perto de cem espécies brasileiras já descritas e mais umas trinta aparentemente novas. Mais tarde o instituto pagou pela reprodução de muitas espécies em aquarela e outras foram fotografadas, de modo que hoje qualquer exemplar vivo pode ser comparado com a maior facilidade.

Sendo impossível publicar já todo o atlas, escolhi para a primeira parte o gênero Leptodactylus, que contém a nossa rã mais conhecida. Mais tarde, espero publicar, pelo menos, as espécies novas em boas aquarelas e tratar depois das espécies já mais ou menos conhecidas.

As estampas e fotografias vão acompanhadas de observações apropriadas e deveriam bastar para determinar as espécies brasileiras dos estados mais conhecidos. Não repeti minuciosamente as descrições antigas, contidas na monografia de Nieden (Tierreich, v.46, Anura, I) que resume os conhecimentos sobre Batráquios aglossos e arcíferos até o fim de 1914, dando quase todas as referências bibliográficas. Os trabalhos publicados depois sobre espécies nossas são poucos e devem ser citados ocasionalmente.

Espécies brasileiras do gênero Leptodactylus

As Leptodactylidae lembram as rãs do velho mundo pelo aspecto e pelos hábitos, mas são arcisternios [sic] e têm uma distribuição diferente. O gênero mais importante, Leptodactylus (ou Cystignathus) se caracteriza pelo esterno com estilo ósseo, dentes vomerinos por trás das cóanas, dedos da mão e do pé sem discos ou membranas interdigitais, os do pé bastante compridos, às vezes com crista ou suturas laterais; os últimos metatarsos sempre unidos. As pupilas são horizontais; a língua oval ou claviforme, com chanfradura posterior, é livre por trás; o tímpano é sempre muito distinto. Uma prega discoidal, mais ou menos distinta, parece constante. O focinho pode ser pontudo e saliente, principalmente nos machos. O primeiro dedo, mais longo do que o segundo, e uma saliência média em cima do maxilar são caracteres freqüentes.

Na face dorsal o fundo é oliváceo, pardo ou bronzeado, algumas vezes avermelhado. Pode mostrar muitas manchas escuras e raramente falta uma mancha interocular. Geralmente existem pregas glandulares longitudinais, distribuídas sobre todo o dorso ou limitadas aos lados.

Somente nas espécies maiores, os machos adultos têm os braços espessados e excrescências terminais e laterais no rudimento do polegar, excepcionalmente também no peito.

Muitas espécies são aquáticas, mas outras são terrestres e algumas se escondem em buracos. Lá também depositam os ovos sem contato imediato com a água, da qual os girinos mais tarde precisam. As aquáticas observadas depositam massas de ovos, envolvidas em espuma, nas águas onde freqüentemente são vigiadas pela mãe. Sobre o desenvolvimento de várias espécies existem boas observações por Kate e Miguel Fernandes, parte das quais posso confirmar por observação própria.

Os girinos parecem desenvolver-se rapidamente. Os adultos, em princípio de metamorfose, são assaz grandes, prevalecendo cores escuras. A cauda é pouco alta, mas longa, e persiste ainda quando os caracteres do adulto já estão indicados.

As espécies brasileiras, enumeradas por Nieden, com as novas, descritas por Lorenz Mueller, regulam em vinte. Algumas têm de ser eliminadas por serem sinônimas ou não pertencerem ao gênero. Assim, o número total com as minhas adições não deve exceder muito de quinze.

Chave das espécies brasileiras de Leptodactylus, observadas por mim

1. Espécies muito grandes e fortes, com cabeça larga. Os machos conhecidos desenvolvem forte espessamento do braço e excrescências nupciais no rudimento do polegar. Hábitos aquáticos e crepusculares.
Ambos os sexos com manchas decorativas na região inguinal e na coxa: Região ileofemoral vermelha com manchas pretas ..................................................................................................... pentadactylus.
A mesma amarela com manchas pretas.
Dorso oliváceo com manchas escuras maiores .......................... gigas.
Dorso pardo sem manchas maiores, extremidades com barras transversais escuras ................................................................... flavopictus.
Faltam as manchas decorativas: dorso com manchas escuras menores e pregas glandulares sobre fundo oliváceo ou bronzeado. Espécie comum e espalhada ...................................................................... ocellatus.

2. Parecidas com ocellatus, porém menores e com focinho comprido. Mancha da nuca mais ou menos dividida, pregas glandulares escuras, coxa por dentro com estria branca longitudinal. Macho com sacos vocais exteriores. Terrestre. Assobia ................................................. typhonius.
Mais delgado, as pernas muito compridas. Pregas em parte brancoamareladas. Macho sem distintivo. Semiterrestre. Não assobia ....................................................................................................... gracillis.

3. Espécies menores que assobiam e se escondem em buracos; diferem das espécies anteriores pela falta das pregas longitudinais submedianas. Os nomes se referem a uma estria escura no lábio superior, comparada com bigode.
Pregas glandulares dorsilaterais em partes brancas.
Estria coccígea branca, prolongada sobre as pernas ................ mystaceus.
Sem pregas ou estrias brancas ......................................... mystacinus.

4. Espécies vizinhas ao grupo anterior, de hábitos pouco conhecidos, provavelmente terrestres. Parecem raros.
Costas e uma estria marginal do lábio superior avermelhadas. Lembra muito o mystaceus ....................................................... rhodomystax.
Faltam estes caracteres. Dorso com muitas manchas escuras sobre fundo claro ..............................................................................troglodytes.

5. Espécies terrestres, muito miúdas e escondidas:
Dorso com estrias longitudinais de cor terracota, uma marginal de cada lado e uma submediana incompleta .................................... trivittatus.
Estrias vermelhas faltam. Grande mancha escura com alvéolos claros na nuca ...................................................................................... nanus.

As seguintes espécies, citadas na literatura, mas não observadas vivas em material brasileiro, não foram incluídas na chave: Leptodactylus andreae Lorenz Mueller, brevipes Cope, bufo Andersson, caliginosus Girard, diptyx Boettger, hylaedactylus Cope, longirostris Boul, prognathus Boul e pustulatus Peters. L. andreae aproxima-se de nasus, mas parece limitado ao estado do Pará e o macho tem dois sacos vocais laterais. Algumas espécies enumeradas por Nieden foram eliminadas, por não terem os caracteres de Leptodactylus. As outras precisam de nova comparação e determinação.

As maiores espécies de Leptodactylus

Com o nome Rana pentadactyla Laur. foi descrita uma espécie sul-americana que se distingue pelo tamanho extraordinário, a coloração e os caracteres nupciais do macho. Spix descreveu uma R. labyrinthica, uma coriacea e uma gigas, consideradas sinônimas de pentadactyla por Peters. Parece-me, contudo, que gigas deveria ser referida a outra espécie grande que descobri no norte do Brasil. O tipo de Spix ainda existe, mas, como informa o Prof. L. Mueller, em tão mau estado que não permite resolver a questão. É preciso sempre lembrar-se que as cores mais vistosas desaparecem com o tempo. Observei a fêmea de uma terceira espécie grande, que se distingue claramente das outras, e nomeei-a L. flavopictus. Parece haver em outros países mais espécies deste grupo, mas aqui só trato das brasileiras.

Quanto a L. bufo de Andersson, a probabilidade indica que se trata apenas de pentadactylus, espécie bastante variável, mas incluindo exemplares muito parecidos. A cor vermelha provavelmente empalideceu. É verdade que o pentadactylus adulto geralmente tem os dedos rombos no ápice, mas isto parece dever-se a uma espécie de desgaste que falta em exemplares novos. De outro lado nenhum Leptodactylus grande tem os dedos tão pontudos, como são representados nos desenhos de Andersson, o que me parece indicar uma alteração devida às condições de conservação. (Compare-se a estampa 36.)

As grandes espécies de Leptodactylus têm o lado ventral carregado de manchas e vermiculações escuras que são um tanto variáveis, mas assim mesmo podem servir para diferenciar as espécies. Com o tempo, a sua intensidade também pode diminuir.

A biologia destas espécies não é bastante conhecida para ajudar na diferenciação. A primeira e a terceira espécies foram observadas na mesma zona, mas a que chamo de gigas parece limitada ao norte.

Leptodactylus pentadactylus Laur.

Est. 30, figs.1, 2, 5, e 6; est. 34, figs, 2 e 3; est. 36, figs. 1 e 2.

São considerados sinônimos:

Leptodactylus labyrinthicus Spix e gigas Spix

O primeiro nome que se refere ao desenho da parte ventral deve cair em sinonímia, mas me parece que o nome gigas deve ser referido a outra espécie observada por mim.

Os adultos são facilmente reconhecidos pelo tamanho extraordinário, podendo o comprimento alcançar 16 cm, pela cabeça larga e chata com boca grande e pela coloração das diferentes regiões que se conhecem bem nas estampas. Num macho verificamos o peso extraordinário de 850 gramas, mas geralmente não passa de 500 gramas.

O lado dorsal é pardo, variando de café-com-leite até cor de canela, com ou sem manchas escuras, formando faixas transversais nas extremidades. O lado ventral tem o fundo claro com muitas manchas irregulares formando um labirinto. As regiões escondidas pelas pernas encolhidas mostram um fundo de cor salmão intensa passando ao cinábrio e marcado de manchas pretas. Esse desenho característico não se percebe logo depois da transformação, mas já aparece em indivíduos meio crescidos. Em alguns indivíduos existe também nas axilas. A cor vermelha pode passar à cor branca da barriga por meio de uma zona citrina, mais ou menos larga.

O queixo superior mostra faixas perpendiculares escuras muito mais largas do que os intervalos claros que as separam. Este caráter pode aparecer logo depois da transformação.

Na região mental o queixo pode ser mais uniformemente escuro, apresentando apenas manchas claras relativamente pequenas.

Há duas pregas glandulares mais ou menos completas que se estendem da região superocular para trás, separando o dorso dos lados. O dorso é granulado e apresenta glândulas elevadas e às vezes pigmentadas de preto, redondas ou formando estrias. Podem ser muito ou pouco acentuadas.

Nas regiões laterais a vista e o tato também reconhecem glândulas bastante grandes, mas não observei nada na descrição que Guenther deu desta rã que possa justificar a sua inclusão no gênero Pleurodema.

Os lados da cabeça e os do corpo, principalmente na parte superior e anterior, como também a face inferior e interna das coxas, são distintamente granulados. A barriga apresenta a dobra discoidal fina, mas distinta.

A íris tem uma cor de bronze amarela ou avermelhada, principalmente na metade inferior. Entre as duas metades pode haver uma barra escura. A pupila é ovalar, mais longa do que alta. Percebe-se no meio da margem inferior e às vezes da superior um pequeno risco preto que dá a impressão de um coloboma imperfeito.1 O tímpano, com dois terços do diâmetro do olho, tem no centro uma área mais clara que se pode prolongar para cima.

Os machos desta espécie, quando adultos, apresentam os braços bastante espessados e o rudimento do polegar bem desenvolvido e coberto de substância córnea preta, no ápice e de lado. No peito há excrescências nupciais em forma de duas ou três papilas, cujo enduto córneo se pode tornar muito preto. Em período de inatividade sexual quase não são percebidas.

Como já se poderia concluir do tamanho da boca, estes batráquios se alimentam de animais maiores. Os adultos podem facilmente engolir um pinto ou uma rã de tamanho considerável. O seu aspecto e comportamento lembram mais os sapos que as rãs. A secreção cutânea é acre e muito lubrificante.

A espécie parece largamente espalhada na zona intertropical, tornando-se rara ou desaparecendo mais para o sul. No Distrito Federal parece faltar. Geralmente se recebem exemplares isolados, mas obtivemos número maior da Bahia e de Belo Horizonte. Neste último lugar também encontramos girinos quase adultos e observamos a transformação. No norte o nome vulgar desta (e talvez de outras espécies maiores) é gia.

Existe, sem dúvida, muita variação de cor e desenho de um exemplar para o outro, mas os extremos se encontram em exemplares da mesma procedência e também não podem ser considerados como dimorfismo sexual.

Leptodactylus gigas Spix (?)

Est. 30, figs. 3 e 4; est. 31, figs. 1 e 2.

Spix descreveu uma Rana labirintica cujo desenho ventral explica o adjetivo e que deve ser referida ao L. pentadactylus. Se a Rana gigas do mesmo autor for diferente, pode designar outra espécie do norte cujas dimensões justificam o adjetivo. Desta espécie obtive três exemplares em independência, caçando à noite na margem de um açude. As aquarelas foram tiradas de exemplares conservados em formol que tinham sido observados em vida, mostrando claramente tratar-se de boa espécie. Difere de pentadactylus tanto na cor das costas, como no desenho do lado ventral, e onde este tem o fundo vermelho, ele é amarelo no gigas. O material não chega para decidir qual das duas espécies seja mais longa ou mais larga, mas parece que nos adultos haverá pouca diferença nas dimensões e no peso. Os gigas machos têm os braços espessados e as excrescências nupciais da mão como o pentadactylus, mas as papilas córneas no peito não foram observadas.

Os desenhos dispensam uma descrição.

Infelizmente, em muitos anos não me foi possível obter mais material desta espécie que, contudo, não deveria ser muito rara na zona onde foi apanhada.

Leptodactylus flavopictus n. sp.

Est. 31, figs. 5 e 6.

Desta espécie, procedente de Mont Serrat, na base do Itatiaia, obtive apenas uma fêmea adulta, mas esta era perfeita. Foi observada durante a vida e tão bem reproduzida que dispensa uma descrição. Parece claramente ocupar uma posição intermediária entre pentadactylus e gigas, sendo bem distinta de ambos. Distingue-se também de L. bufo de Andersson, que é mais parecido com pentadactylus. O dorso lembra o de pentadactylus, mas o desenho ventral é bem diferente de todos os Leptodactylus observados. Como em gigas o fundo das manchas ornamentais é amarelo, mas esta cor no flavipictus é mais intensa e menos limitada. As curiosas decorações do dorso das extremidades são muito características.

Leptodactylus ocellatus (L)

Est. 31, figs. 3 e 4; est. 33, fig. 7; est. 35, figs. 3 e 4.

A espécie de Leptodactylus hoje geralmente conhecida sob o nome de ocellatus que se refere ao tímpano, é a rã mais conhecida em todo o Brasil, onde não há falta absoluta de água. Não pode ser confundida com as três maiores espécies já mencionadas, por ser de coloração e desenho diferente, mas aproxima-se delas pelo tamanho e pelos caracteres nupciais do macho, a voz e os hábitos aquáticos. Pelos mesmos caracteres se distingue de typhonius e gracilis, espécies menores de aspecto semelhante. Se os grandes machos não podem ser confundidos, o mesmo não se dá com indivíduos menores dos dois sexos. De fato, a literatura mostra muita confusão com várias outras espécies, tanto mais fácil que a comparação não foi feita em material vivo, mas em rãs mortas e, muitas vezes, mal conservadas.

Nossa espécie é muito característica em primeiro lugar pela aparência geral, em segundo pelas pregas glandulares longitudinais do dorso e, em terceiro, pelas cristas laterais dos dedos do pé; este caráter é pouco acusado durante a vida e não tem valor absoluto, tampouco como o segundo.

Examinando maior número de indivíduos de regiões afetadas, nota-se bastante variação de tamanho, forma, coloração e desenho. O tamanho enorme, observado em alguns machos, é excepcional. As glândulas sexuais podem funcionar já em machos muitos menores que não mostram ainda os braços muito grossos; também fêmeas bem menores já produzem ovos maduros. A forma da cabeça em indivíduos novos pode ser mais estreita e o rostro relativamente saliente. O fundo, oliváceo ou bronzeado no dorso, pode ser tão escuro que mal aparecem as manchas enegrecidas, ou tão claro que estas chamam logo a atenção. Na região inguinal o fundo pode tornar-se um tanto esverdeado, azulado ou citrino, e o desenho na margem dos queixos também varia; onde, porém, se notam as maiores variações, é na pigmentação do lado ventral. Pode faltar completamente, deixando o fundo branco, ou cobri-lo quase completamente com um pontilhado denso, mesmo em indivíduos novos, lembrando as descrições de L. caliginosus. Estas variações, embora de freqüência desigual em diferentes lugares, não podem ser classificadas simplesmente de variações geográficas.

Dada a variabilidade considerável da espécie, desisto da descrição minuciosa de um exemplar só, que teria apenas um valor individual. O exame das figuras, a comparação com maior número de indivíduos (que se podem encontrar mesmo nos mercados) e a observação em vida darão uma idéia boa dos caracteres desta espécie.

Não obstante a freqüência da espécie, o canto não é daqueles que mais se observam. Quando é ouvido até de dia (o que no Rio de Janeiro se dá em períodos vários) parece indicação do início da postura. Notei isso no princípio do verão, antes da entrada do calor intenso, e outra vez em fevereiro, do dia 15 em diante, na estação de Amorim, perto do Instituto. Achei então posturas com ovos e também com girinos bastante grandes de posturas anteriores. As fêmeas encontram-se no meio da bola que os ovos formam na água dos brejos. Neste, e em muitos outros pontos, só posso confirmar as observações minuciosas, dadas pelos Fernandes.

Os ovos muito pigmentados, apenas com um segmento amarelado, têm um diâmetro de 1-1,5 mm. O girino novo é preto com os brânquios mais claros, quando tem 5 mm de comprimento, incluindo a cauda. Alcança finalmente 4 cm, conservando um tom escuro com linhas oblíquas de pontinhos amarelos. A cauda é relativamente longa, 2-3 vezes mais comprida do que alta.

A voz, emitida em intervalos, lembra grandes bolhas de ar saindo de um tubo largo e cheio de água. É mais fraca do que a do L. pentadactylus, que tem o mesmo tipo. Quando há muitas rãs os sons sucedem-se rapidamente; no outro caso pode haver grandes intervalos. Com os Fernandes pode-se dar o som como ” Mwu,” mas as consoantes são pouco distintas.

Espécies menores de Leptodactylus

Leptodactylus typhonius (Daudin)

(Rana sibilatrix (Wied.) Cystignathus typhonius Dum. e Bibr. Ex parte).

Est. 33, figs. 1, 2 e 3; est. 34, figs. 1 e 2.

A espécie L. typhonius é boa e bem discriminada, embora freqüentemente confundida. As fêmeas não diferem muito de exemplares menores de ocellatus, mas os adultos deste são muito maiores do que os de typhonius, cujos machos possuem caracteres muito distintivos. Faltam as verrugas córneas no rudimento do polegar e o espessamento do braço, mas existem sacos vocais exteriores, geralmente recolhidos em duas fendas longitudinais. Estas e toda a região submental são enegrecidas, contrastando com o branco lácteo da face ventral. A mancha da nuca é subdividida ou desagregada em duas ou três manchas menores. As manchas dorsais são numerosas e pequenas, formando séries longitudinais entre as pregas glandulares bem evidentes. Alguns exemplares mostram uma faixa vertebral branca assaz larga. A aparência de bigode é menos acentuada do que em mystaceus e mystacinus, que diferem pela falta das pregas submedianas. A cabeça tem o focinho saliente, o corpo é um tanto alongado e as pernas são bastante compridas. Exemplares em metamorfose reconhecem-se facilmente pelo aspecto mais variegado. Nieden dá o typhonius como menor do que o gracilis, mas no Brasil observei o inverso.

A espécie é terrestre e encontrada longe da água. Esconde-se em tufos de capim ou embaixo de excrementos secos de boi. Sendo muito espalhada, desde a Argentina até as Guianas, deve formar uma parte importante nos grandes concertos noturnos, nos quais os assobiadores têm um papel importante. Os sacos vocais devem aumentar consideravelmente a intensidade de voz. Já Wied., que teve ocasião de observar os seus hábitos, a denominou Rana sibilatrix.

Colecionei esta espécie também na Ilha de Trinidad e na Venezuela (entre Valência e Caracas). A sua voz é ouvida com muita freqüência.

Leptodactylus gracilis d'Orbigny

Est. 32, figs. 4 e 5; est. 33, figs. 3 e 6.

Esta espécie, descrita e figurada por d'Orbigny, é bastante espalhada desde as planícies do Rio da Prata e do Rio Grande até os limites da zona tropical, onde habita lugares acima de mil metros. Colecionei-a em Porto Alegre, Alto da Serra de Cubatão e na Serra da Bocaina, e recebi numerosos exemplares de São Bento, em Santa Catarina.

Pela cor e pelo desenho, gracilis lembra exemplares novos de ocellatus e typhonius, mas distingue-se pela forma alongada, cabeça muito pontuda, manchas muito numerosas sobre as pernas e entre as pregas salientes do dorso, onde muitas são longitudinais. Os machos adultos não têm os distintivos do polegar, nem os antebraços espessados e o saco vocal, simples e interno, pouco aparece.

Nos hábitos parece intermediária entre as espécies mencionadas.

Não é francamente aquática ou terrestre. Gosta da vizinhança da água, que aproveita para esconder-se e fazer as posturas, mas encontra-se passeando a bastante distância.

A voz também distingue a nossa espécie das outras. Segundo K. e M. Fernandes, que fizeram um bom estudo desta espécie, o som da sua voz parece-se com aquele produzido por um martelo metálico batendo numa chapa de metal. Os mesmos autores dão uma figura do girino que também encontramos na Serra de Cubatão.

Dou em seguida uma descrição tirada de exemplares da Serra da Bocaina. O comprimento não excede 40 mm. (A medida indicada por Nieden (57 mm) só pode ser excepcional.) As extremidades posteriores são compridas; a articulação tíbio-tarsiana quase que alcança a ponta do focinho, e a distância dela ao ápice do dedo maior é quase igual ao comprimento dos dois segmentos superiores. Os dedos mostram suturas laterais, mais acentuadas nos dedos mais longos. Os meta-tarsos últimos são quase unidos, os outros separados por uma membrana. Os tubérculos subarticulares são bem distintos dos do metatarso; apenas o interno é bem desenvolvido. No metatarso há um tubérculo exterior muito grande. Existe uma prega fraca em continuação do quinto dedo do pé, e um vestígio do apêndice no calcanhar. Os dedos da mão são bastante curtos, o segundo mais curto que o primeiro.

O ventre, com disco muito acentuado, mostra a cor branco-amarelada, virando para o citrino nas ilhargas. A cabeça é bem comprida. O focinho, pontudo e saliente sobre a boca. No dorso existem cinco pregas branco-amareladas, das quais a mediana é muito mais longa. As submedianas são menos distintas que as laterais. Entre as pregas encontram-se muitas manchas pretas, sobre fundo oliváceo ou bronzeado, e algumas brancas na metade posterior entre as duas linhas laterais.

O tímpano, menor do que o olho, é castanho com mancha central escura e margem branca ou amarelada. Embaixo do canto há uma faixa escura que desce do focinho até o olho, sendo mais larga na parte posterior. Abaixo desta há outra branca, sinuosa, com ramificação diante do olho, e na margem do queixo, uma linha lateral escura sobre o fundo branco. Nos lados da mandíbula, manchinhas escuras formam uma estria marginal.

Os lados do tronco são escuros, com manchas glandulares brancas.

As pernas marcadas com grande número de manchas escuras, correndo em várias direções, formam barras longitudinais no fêmur e transversais no resto das extremidades posteriores, apenas no lado dorsal. Metatarso e tarso escuros por baixo e brancos do lado exterior. Os braços variegados de escuro e claro.

Os dentes vomerinos formam dois arcos quase contínuos, distintamente por trás das cóanas. Mandíbula com um dente mediano, entrando numa cova do maxilar. Os olhos são muito aproximados; a distância entre eles é quase igual à largura da pálpebra superior.

Leptodactylus mystaceus (Spix)

Est. 32, figs. 6 e 7.

R. mystacea Spix ex parte. Cystignathus typhonius Dum & Bibr. ex parte. Cystignathus poecilochilus Cope.

Esta rã, embora freqüente, muito espalhada e bem característica, ficou geralmente confundida com outras espécies, com as quais tem alguns hábitos e caracteres em comum, como sejam a voz sibilante, o risco preto em forma de bigode e o costume de viver muito escondida, às vezes longe da água. Para obtê-la é geralmente necessário cavar a terra onde habita em buracos, às vezes com duas saídas. Neles mesmos faz a criação, perto mas não por dentro da água, como Hensel já descreveu para o L. mystacinus. Acham-se então em cavidades com as paredes perfeitamente lisas, provavelmente transformações de depressões naturais ou buracos de camundongos. Os girinos maiores podem ser encontrados em cavidades contíguas que contêm água; eles se deixam criar facilmente, até que a metamorfose permita classificá-los. A caça destas rãs é muito difícil, porque cantam dentro ou perto dos buracos, escondendo-se imediatamente quando o caçador chega. A localização da voz que sai dos buracos é muito difícil. Marcando-se o lugar onde cantam à noite, podem ser procuradas de dia, nos buracos, sendo às vezes preciso roçar primeiro. Aparecem também quando se fazem trabalhos agrícolas.

A voz destas rãs (e de mais duas ou três espécies) é um assobio curto e repetido soando como "huif, e que se atribuiria antes a um pássaro do que a um batráquio. Dificilmente se distingue do assobio das outras espécies, sendo preciso ter prática e um bom ouvido para fazê-lo. Cantam com freqüência durante a noite. Na região da Capital Federal existem em algumas baixadas, mais ou menos cultivadas, faltando em outras e principalmente nos lugares montanhosos onde a água corre muito. Ocorrem provavelmente em todos os estados do Brasil.

Pela coloração e o desenho distingue-se facilmente do L. typhonius, que também assobia. A estria preta, designada como bigode e que corre da ponta do focinho, abaixo do canto, e atravessa o olho, é bastante característica, mas existe também em algumas outras espécies. Nas costas há uma prega glandular marginal, em parte branca, e uma linha coccígea branca que continua na coxa, caracteres que faltam ao mystacinus. As extremidades apresentam faixas transversais escuras, e o dorso, algumas manchas pouco acentuadas, sendo uma interocular. O fundo do dorso geralmente é oliváceo, mas, em condições ainda mal acertadas, pode apresentar um matiz avermelhado.

As larvas desta espécie foram encontradas na mata, numa poça de água, que poucos dias depois já tinha secado. Os adultos assobiavam no seco a pouca distância. Observei a transformação, obtendo uma pequena rã nova. Numa segunda visita foram apanhados mais doze exemplares embaixo da terra. Logo depois da metamorfose o comprimento é de 15 mm. Os girinos eram acinzentados, mais claros que os de ocellatus, e com as linhas de pontos amarelos menos marcados.

Leptodactylus mystacinus (Burmeister)

Est. 32, figs. 8 e 9.

Esta espécie foi denominada por Burmeister em 1861 e minuciosamente descrita por Hensel, sob o nome errôneo de mystaceus. Foi mais vezes confundida com outras ou considerada nova. Méhely deu uma cromolitografia de um macho conservado, em que estranho a cor do fundo dorsal. Os demais caracteres combinam com a minha figura, tirada do vivo. Hensel dá o comprimento de 42 mm, mas alcança 55 ou mais. A semelhança com sapo, indicada por Hensel, cabe mais à parte posterior do corpo, por serem as pernas relativamente curtas e grossas, mas falta na cabeça.

No lado dorsal o fundo é de cor variável, amarelo oliváceo, um tanto bronzeado, pardacento ou mesmo avermelhado. O dorso é limitado por pregas glandulares laterais inteiramente negras, faltando as submedianas. Há estrias e pápulas glandulares de cor preta nas costas, e outras em forma de grânulos transparentes, disseminados sobre o tronco e as extremidades. Nos lados notam-se manchas semianulares pretas muito típicas. A face posterior das coxas é variegada, e o lado de cima das extremidades mostra faixas escuras transversais, como em outras espécies. O lado ventral é quase totalmente branco. O bigode é muito evidente. O tímpano é grande, pardo escuro, com disco central mais escuro e uma tarja branca bem distinta.

Nos dedos do pé nota-se, entre o lado dorsal e o ventral, uma linha de demarcação apenas saliente. O tubérculo metatarsal exterior é bastante grande, o interior bem menor.

Os sexos não se distinguem morfologicamente.

Esta rã também assobia. Ouvido fora do buraco, o som parece mais metálico do que nas outras espécies. Esconde-se em buracos tão grandes que não podem ser atribuídos a seu trabalho só. Os hábitos são exclusivamente terrestres. A oviposição é feita em buracos, como no mystaceus.

A espécie é evidentemente muito espalhada, da Argentina até a Venezuela segundo Nieden. Parece-me, contudo, um pouco mais rara do que o mystaceus e o typhonius. Pessoalmente não consegui achá-la na Venezuela.

Leptodactylus rhodomystax Boulenger

Est. 32, fig. 13

Esta espécie foi baseada sobre um Leptodactylus muito novo, com 25 mm de comprimento, apanhado em Yurimaguas, nordeste de Peru. Mais tarde Lorenz Mueller descreveu dois exemplares do Pará, um novo de 20 e um macho adulto de 68 mm. Ruthven assinalou exemplares da Guiana Inglesa, mas Noble declara que se trata de exemplares novos de L. pentadactylus. Na mesma ocasião ele descreve de Kartaabo, na Guiana Inglesa, um macho adulto, bastante semelhante, com 56 mm de comprimento, que denominou L. stictigularis. Tenho também um macho, não completamente adulto, apanhado na Bahia, observado em meu laboratório e representado em cores naturais; mede cerca de 55 mm.

O que há de comum em todas estas observações é tratar-se de uma espécie, bastante grande em estado adulto, que se distingue por uma cor rósea ou avermelhada das costas e uma fita rosada submarginal na mandíbula. Existem pregas laterais glandulares, e a face posterior das coxas é escura com manchas claras. A face ventral não é completamente branca, mas salpicada de escuro em maior ou menor extensão, mas principalmente na margem maxilar, na gula e no peito. No meu exemplar esta pigmentação se limita às margens da maxila, ventre e duas zonas laterais na gula, mas no stictiigularis é mais intensa e muito mais extensa. O que os autores não salientam é a grande semelhança com o Leptodactylus mystaceus que noto no meu exemplar, além da coloração e da diversidade de tamanho, para negar que se trate de duas espécies, embora vizinhas, das quais a maior parece mais localizada no norte. Talvez o stictiigularis represente uma terceira espécie, mas estas questões só poderão ser decididas com o estudo de mais material e, se for possível, a comparação dos típos.

Joaquim Venâncio, empregado de meu laboratório, que apanhou o rhodomystax, compara a sua voz com o piar do inhambu no princípio do seu canto.

Leptodactylus troglodytes n. sp.

Est. 32, fig. 12.

Fêmea adulta de 50 mm de comprimento longitudinal do tronco. Apanhada pelo Dr. Conrado Guenther de Friburgo, em casa de saúva, e dado em maio de 1924. Procedência: Pernambuco.

Coloração: Fundo branco, mais ou menos misturado com pardacento, e desenhos cor de chocolate (no exemplar conservado em álcool).

Parte anterior da cabeça fazendo, acima da boca, uma saliência oblíqua arredondada. Canto rostral obtuso e região loreal um tanto escavada. Tímpano mais largo do que alto, quase do tamanho do olho, mostrando no centro um ponto branco no meio de um círculo pardo, a margem preta, a parte intermediária pardacenta. Por cima e por trás do tímpano há uma prega semilunar um tanto saliente, de cor preta. Espaço interorbital oblíquo, pouco largo. Mandíbula com cova mediana recebendo um dente de maxila. Ventre com disco circular. Língua ovalar, livre por trás. Dentes vomerinos em duas séries, ligeiramente convexas e pouco separadas, colocadas em eixo transversal, logo atrás das cóanas, que são bastante grandes. Pele lisa em cima e embaixo, granular apenas na face ventral das coxas. Faltam glândulas maiores ou bem acusadas. O ventre tem um disco e está cheio de ovos branco-amarelados de 1-2 mm de diâmetro. A perna de trás, aplicada ao tronco, alcança com a articulação tíbio-tarsal pouco além do olho.

Na cabeça há uma mancha subcuneiforme mediana com a base entre os olhos e a ponta pouco para trás do nível das narinas. Um pouco em frente destas, há de cada lado uma estria escura, composta de manchas em série, que passa sobre as narinas e a região frenal e continua em forma de traço fino, abaixo do olho, alargando-se depois entre este e o tímpano. Uma parte continua em forma de tarja larga e irregular do lado superior e posterior do tímpano; outra forma duas pequenas manchas insulares sucessivas e mais para dentro. Abaixo da parte anterior do olho há uma mancha escura sub-rômbica, que se dirige obliquamente para a margem mandibular que, no resto, é clara ou apenas ligeiramente enegrecida. Entre a metade posterior das pálpebras e invadindo a direita há uma mancha em forma de W cheio com as duas pontas viradas para trás. Há mais duas manchas maiores sobre as vértebras e processos transversais, e, por trás destas, várias pequenas que se estendem até a prega anal. As zonas laterais são pardacentas e contêm uma estria longitudinal, formada por pequenas manchas esbranquiçadas. Os membros em cima com faixas transversais escuras. Face interna das coxas com fundo escuro, salpicado de branco na parte proximal. Existe uma prega discoidal.

Mãos com tubérculos subarticulares e tubérculos palmares bem desenvolvidos, podendo servir para cavar. Dedos afilados e bastante curtos; o primeiro bem mais longo do que o segundo. Dedos do pé sem membrana lateral ou interdigital distinta; dois tubérculos metatarsais moderadamente desenvolvidos. Não há tubérculo tarsal.

O exemplar parece relativamente grosso e largo, devido em parte ao desenvolvimento dos ovários.

Leptodactylus nanus Mueller

Est. 32, figs. 10 e 11

Esta espécie, obtida do Paraná por Lorenz Mueller, não é francamente aquática, mas esconde-se debaixo da terra ou da vegetação depois de secarem as águas superficiais, em que se criou. É bastante espalhada, mas passa facilmente despercebida.

A descrição original é muito detalhada e combina bem com os meus exemplares, aliás reconhecidos por Mueller. Nos exemplares vivos, machos e fêmeas, acho o tom geral quase sempre um tanto ferrugíneo; também a pele ventral pelúcida se torna ligeiramente encarnada. A mancha escura da nuca contém alvéolos da cor do fundo, e a mancha em forma de lambda abraça um espaço da cor da linha vertebral clara que se percebe bem na metade posterior do dorso. Acho a distância interocular maior do que a largura da pálpebra superior, aproximando-se mais da sua distância. A tíbia tem mais ou menos o comprimento da cabeça, não da cabeça e do tronco, como está indicado no texto de Mueller por erro casual.

Os ovos, relativamente grandes, aparecem através da pele abdominal em cor creme, sem parte preta.

A voz nunca foi ouvida distintamente.

O comprimento pode alcançar 25 mm desde a ponta do focinho até a prega anal.

Temos vários exemplares de três lugares: Niterói, Campo Belo e Angra dos Reis, e outros isolados de mais alguns pontos. Parecem preferir as regiões um pouco acidentadas.

Leptodactylus trivittatus n. sp.

Est. 32, figs. 14 e 15.

Esta espécie é, sem dúvida, muito vizinha do L. nanus no tamanho e na biologia, mas as diferenças, tanto do desenho como da coloração, e a falta de transição não permitem reuni-las. Foi encontrada nas mesmas regiões, mas em pontos diferentes. O trivittatus, observado vivo, mostra muita tendência a esconder-se durante o dia.

A fêmea adulta mede cerca de 22 mm em comprimento. A língua é livre por trás, e os dentes vomerinos formam dois pequenos grupos retilíneos com pequeno intervalo.

No dorso do tronco há três estrias longitudinais de cor terracota ou um pouco mais vermelhos. A dorsomediana limita-se à metade posterior do dorso. As laterais principiam sobre a pálpebra superior e terminam pouco antes da prega inguinal. Nos últimos 4 mm a cor avermelhada torna-se creme. A mesma cor aparece numa fita sinuosa que principia abaixo do olho e acaba na raiz do braço. Passando por baixo do tímpano, torna-se mais estreita. A cor terracota aparece também no lado dorsal do cotovelo e do joelho, estendendo-se sobre as partes vizinhas. Num exemplar menor a estria mediana invade também a metade anterior do dorso, tornando-se mais fina e interrompida.

Tenho um exemplar do Alto da Serra de Cubatão e alguns de Campo Belo, encontrados dois debaixo de troncos de árvores derrubadas e os outros no capim. Não se conhece a voz.

Leptodactylus caliginosus Girard

L. caliginosus, que só conheço de exemplares da Guiana Inglesa2 recebidos em troca do Am. Mus. of Nat. Hist., foi observado na Bahia, em Pernambuco e Mato Grosso, também na América Central e até no México. Assim, teria uma distribuição muito vasta, caso não se trate de mais de uma espécie, de que há alguma probabilidade. O meu exemplar tem todos os caracteres de Leptodactylus, mas a membrana marginal dos dedos (que Berg dá com um caráter distintivo) chama pouco a atenção, ao contrário do que se dá com certos exemplares de Crossodactylus gaudichaudii, que foi erroneamente transferido para Leptodactylus. A falta de pregas glandulares longitudinais, usada na chave de Berg, verifica-se também no meu exemplar. A pigmentação do lado ventral distingue esta espécie de todos os meus Leptodactylus, menos alguns exemplares de ocellatus. Talvez o L. brevipes, descrito do Mato Grosso por Cope em 1887, possa ser considerado equivalente de nosso caliginosus.

Leptodactylus longirostris Boulenger

Est. 33, figs. 4, 4a e 4b.

Creio que esta espécie foi achada apenas uma vez, em Santarém. Parece-me aproximar-se de mystaceus e mystacinus. Baumann pensa ter encontrado a mesma espécie em material da Serra dos Órgãos, mas os seus exemplares não combinam bem com a descrição de Boulenger e, por isso, pode-se excluir que esta espécie, um tanto duvidosa e só conhecida das margens do Amazonas, ocorra também nas montanhas do Rio de Janeiro.

Para comparações desejadas dou uma reprodução da figura de Boulenger.

Leptodactylus prognathus Boulenger, 1888

Est. 35, figs. 1 a 4.

A espécie prognathus, baseada sobre um exemplar semiadulto do estado do Rio Grande do Sul, foi observada também no Paraguai, Uruguai e na República Argentina. Segundo os Fernandes deve ser comum perto de La Plata, porque o seu canto, que soa como "pinc, pinC, é ouvido em toda parte. Esses autores, dos quais recebi um ou ambos os meus exemplares, estudaram a espécie e seu desenvolvimento. O comprimento indicado é 33 mm, mas o meu exemplar maior tem 36-37. Assim, é menor que todas as outras espécies com exceção de nasus e trivittatus. Tem a cabeça alongada com o focinho saliente; no dorso há duas pregas glandulares laterais, além de umas manchas escuras, das quais uma interocular. O ventre, com disco bem acentuado, não mostra pigmentação escura. Os dedos dos pés sem indício de membrana lateral ou basal. O macho não pode ser confundido por ter por dentro dos ramos maxilares duas fendas escuras que indicam a existência de sacos vocais.

Dou a fotografia dos meus exemplares, que já estavam conservados há bastante tempo. O maior é um macho adulto, o menor é uma fêmea semiadulta.

Leptodactylus pustulatus (Peters)

Est. 35, figs. 5 e 6.

Debaixo do nome Entomoglossuspustulatus Peters descreveu um novo batráquio do Ceará de 46 mm de comprimento e com a língua cordiforme. Este caráter não exclui o gênero Leptodactylus, em que foi colocado por Boulenger.

Tenho um exemplar semiadulto da Bahia que se parece bastante com um Crossodactylus, mas os dedos pontudos e os dentes vomerinos indicam o gênero Leptodactylus. Tem a língua bem chanfrada posteriormente e combina geralmente com a descrição de Peters. Apenas acho o lado ventral claro com vermiculações escuras, em vez de apresentar numerosas manchas redondas e branco-amareladas. Não posso filiar meu exemplar a outra espécie conhecida, e a procedência fala em favor de colocá-lo, pelo menos provisoriamente, na espécie de Peters, que parece não ter sido reencontrada.

Aditamento

Numa estampa não colorida (Est. 37) junto ainda reproduções de duas espécies de Leptodactylus que estudei na Venezuela e que podem ainda ser encontradas em território brasileiro. Ambas são boas espécies, embora pouco conhecidas.

Leptodactylus bolivianus Boulenger

Est. 37, figs. 1 e 2.

Os exemplares descritos vieram da Bolívia, mas a espécie é comum na Venezuela e recebi um exemplar já determinado do Panamá, dado pelo Museu Americano, o que prova que a espécie é bem espalhada. A primeira descrição é pouco acessível, mas pode ser consultada a tradução na monografia de Nieden, p.482.

L. bolivianus distingue-se do ocelatus, com que pode ser confundido à primeira vista, por ter nas costas apenas duas cristas glandulares marginais, faltando as submedianas. Podem ser cobertas ou ladeadas de uma listra preta. O dorso é também verde garrafa ou oliváceo com manchas negras, irregulares e em número variável. Existem geralmente uma mancha subtriangular na nuca e uma interescapular, fenestrada ou dividida, e barras transversais no dorso das extremidades. O lado inferior pode ser pontilhado ou salpicado de preto, principalmente no macho. Este nunca atinge o tamanho extraordinário, observado em machos de ocellatus, mas também tem os braços espessados e, em tempo de cio, uma escova nupcial terminal e outra lateral no rudimento do polegar. A fêmea alcança o mesmo tamanho, mas se distingue pelos braços finos. Ambos os sexos podem mostrar no dorso verrugas glandulares alongadas. A face inferior das coxas é granulosa, os dedos das mãos e dos pés têm cristas laterais pouco elevadas, e também nos outros caracteres esta espécie se aproxima muito do ocellatus, que parece substituir.

A voz nunca foi ouvida, mas deve se parecer com a do L. ocellatus, a julgar por uma observação de Robinson que provavelmente se refere ao bolivianus e não ao ocellatus, cuja existência no litoral da Venezuela é muito problemática.

O comprimento indicado por Boulenger (105 mm) é excepcional. O maior número de exemplares não alcança 80 mm.

Leptodactylus diptyx Boulenger (nec diptyx Boettger)

Est. 37, fig. 3 e 4.

A descrição, tirada de um só exemplar com indicação de localidade: Andes de Venezuela, apareceu em The Annals… of Nat. Hist., 1918, ser. 9, v.2, p.431. O comprimento indicado é 44 mm, mas os meus adultos dos dois sexos medem de 37 a 40 mm.

Leptodactylus diptychus não é tão comum como L. bolivianus e vive mais escondido, mas é bastante espalhado, sendo à noite a sua voz característica (intermediária entre coaxar e assobiar) ouvida com freqüência. Costuma conservar-se em buracos na margem da água.

Os machos não mostram escovas nupciais, nem espessamento dos braços, mas conhecem-se por duas manchas pigmentadas, ocupando as regiões laterais da gula e correspondendo aos sacos vocais.

Os dentes vomerinos formam por trás das cóanas dois crescentes com convexidade anterior. O focinho é muito saliente em cima e retrocede embaixo, como no prognathus, do qual se aproxima. O dorso tem o fundo pardo-acinzentado com manchas irregulares escuras, e quase sempre uma mais clara na linha vertebral. O canthus rostralis arredondado é indicado por uma estria escura pouco distinta. Há de cada lado uma pequena dobra acima do tímpano e uma crista glandular retroocular e dorsomarginal de cor mais clara. Sobre os lados do corpo há verrugas glandulares formando estrias com interrupções largas. Lado dorsal das pernas com faixas transversais escuras e pontos glandulares disseminados, de cor branca. Há também no lado interno das coxas uma linha clara, tarjada de escuro. O lado ventral do corpo é branco.

Explicação das Estampas 30-37

Estampa 30

Figs. 1 e 2. Macho adulto de Leptodactylus pentadactylus, visto de cima para baixo. ¼ do tamanho natural.

Figs. 3 e 4. Macho adulto de Leptodactylus ½ gigas Spix. ¼ do tamanho natural.

Figs. 5 e 6. Larva adulta e rã apenas transformada. Tamanho natural.

Estampa 31

Figs. 1 e 2. Fêmea adulta de L. ? gigas. ¼ do tamanho natural.

Figs. 3 e 4. Leptodactylus ocellatus. Macho enorme e muito escuro. ¼ do tamanho natural.

Figs. 5 e 6. Leptodactylus flavopictus n. sp. ¼ do tamanho natural. Fêmea adulta.

Estampa 32

Figs. 1 e 2. Macho adulto de L. typhonius. ½ do tamanho natural.

Fig. 3. Cabeça do mesmo vista de lado.

Figs. 4 e 5. L. gracilis apenas transformado. ½ do tamanho natural.

Figs. 6 e 7. L. mystaceus adulto. ½ do tamanho natural.

Figs. 8 e 9. L. mystacinus adulto. ½ do tamanho natural.

Figs. 10 e 11. L. nanus L. Mueller, macho e fêmea, adultos. Tamanho natural.

Fig. 12. L. troglodytes n. sp. Fêmea adulta. ½ do tamanho natural.

Fig. 13. L. rhodomystax Boulenger (?). Adulto. ½ do tamanho natural.

Figs. 14 e 15. L. trivittatus n. sp. Ex. muito novo. Tamanho natural.

Estampa 33

Figs.1 e 2. L. typhonius, macho adulto, visto de cima e de baixo. Fotografia original em tamanho natural.

Fig. 3. L. gracilis adulto com listra vertebral branca. Tamanho natural. Copiado de uma figura dos Fernandes.

Figs. 4, 4a e 4b. L. longirostris, reproduz do original de Boulenger.

Fig. 5.L. prognathus adulto.

Fig. 6. L. gracilis, girino em metamorfose.

Fig. 7. L. ocellatus, girino em metamorfose.

As figuras 5 a 7 foram tiradas da publicação de K. e M. Fernandes.

Estampa 34

Fig.1. L. typhonius adulto com listra vertebral branca, achado em Belo Horizonte. Tamanho natural.

Figs. 2 e 3. L. pentadactylus (da Bahia). Exemplares meio adultos, mostrando 2 o tipo unicolor e 3 o tipo variegado. ½ do tamanho natural.

Figs. 4 e 5. Macho de L. ocellatus. 4 de cima mostra 2 listras brancas, sendo as cristas glandulares pouco visíveis; 5 aspecto ventral com fraca pigmentação. ½ do tamanho natural.

Estampa 35

Figs. 1 e 2. L. prognathus. Macho bastante grande.

Figs. 3 e 4. Fêmea nova.

Figs. 5 e 6. L. (Entomoglossus) pustulatus Peters. Exemplar novo (?).

Estampa 36

Fig. 1. Leptodactylus bufo Andersson. Macho (de Ponta Grossa).

Fig. 1a. Pé do mesmo.

Fig. 2. L. pentadactylus do mesmo tamanho para comparação.

A fotografia da figura original de Andersson e do meu exemplar foram reduzidas na mesma proporção (pouco mais de um terço).

Estampa 37

Figs. 1 e 2. L. bolivianus, macho adulto. ½ do tamanho natural.

Figs. 3 e 4. L. diptychus macho adulto. Tamanho natural.

See plates 30, 31 and 32 in colour in p. 569-71.