Observações sobre batráquios brasileiros. Taxonomia e biologia das Elosiinas *
Introdução
Com o nome de Elosiinae pode-se designar um grupo de Leptodactylidae caracterizado pela forma especial dos discos terminais dos membros que na face superior mostram uns sulcos separando dois lóbulos laterais. Diferem também dos discos comumente observados em outros grupos, principalmente na família Hylidae, por ter a margem anterior e posterior truncada, de modo que o diâmetro transversal se torna superior ao longitudinal. As falangetas mostram distintamente a forma de ‘T’ e não a forma observada nas Hylidae. Este tipo de discos pertence quase exclusivamente às Elosiinae. Apenas alguns Hylodes (Eleutherodactylus) mostram formas semelhantes, mas distinguem-se pelos dedos não fimbriados e as pernas mais compridas, como também pela biologia. Até agora as Elosiinae são conhecidas somente no Brasil, e as espécies são pouco numerosas. Há dois gêneros antigos: Elosia e Crossodactylus. Uma subdivisão do primeiro é o gênero monotípico Megaelosia (corretamente Megalelosia) de Miranda Ribeiro. O mesmo autor estabeleceu o novo gênero Basanitia com duas espécies que oferecem o mesmo caráter principal. Nos três primeiros gêneros ocorrem dedos fimbriados com membrana interdigital rudimentar, o que não foi observado em Basanitia. O tímpano é sempre visível e os dentes vomerinos faltam apenas em Crossodactylus.
Em seguida apresentarei umas notas históricas referindo-se a esta subfamília: O nome Elosia foi dado por Tschudi em 1838 a uma rã, chamada Hyla nasus por Lichtenstein em 1823. Foi incluída no gênero Hylodes por Fitzinger (1826) e depois em Enydrobius por Wagler, mas este gênero não foi aceito. Na sua memória: Classification der Batrachier… (Neufchâtel, 1838), Tschudi escreve:
Caput trigonum, acutum, oblique truncatum, rictum oris latum; linguam ovatam, crassam tote affixam; dentes palatinos perpaucos (tres utrinque), tympanum conspicuum; pedes breves, fortes, musculosos; palmarum digitos liberos, scelidum basi membrana connexos omnes digitos ápice dilatatos, utrinque appendicibus cutaneis, quinti digiti appendicem ad marginem tarsi externum expansum.
Patria: Brasilia.
Tschudi considerava nasus como tipo e única espécie do gênero. A sua descrição podia ser referida a E. bufonia Girard, que têm as pernas mais curtas. Ele cita o nome de Lichtenstein na forma nasuta e inclui o gênero Elosia nas Hylidae, mas salienta as suas relações acentuadas com as rãs legítimas.
(Se o nome Elosia foi escolhido para indicar uma relação com os pântanos, é pouco feliz, porque todas as espécies deste gênero evitam os brejos e pântanos e favorecem os córregos encachoeirados.)
Duméril & Bibron (1871) aceitam o nome de Tschudi e consideram E. nasuta (nasus) como espécie única. A sua descrição da espécie e do gênero ocupa quase três páginas. Contudo, não me parece impossível que este material, procedendo do Brasil e quiçá da zona da capital, já contivesse mais de uma das três espécies menores que podem ser encontradas num raio de menos de cem quilômetros. A descrição parece referir-se a E. lateristrigata de Baumann, mas contém assim mesmo caracteres que mais indicam a E. bufonia de Girard. Esta, todavia, não tem nos flancos a faixa longitudinal parda abaixo de um risco esbranquiçado, e as pernas são mais curtas.
Na sua descrição do gênero os autores mencionam as vesículas vocais dos machos e as falangetas em forma de ‘T’, caracteres que faltam na definição de Tschudi.
Girard (1885) estudou as Elosia, colhidas em 1838 pela expedição Wilkes no Rio de Janeiro e na Serra dos Órgãos, incluindo a parte hoje ocupada pela cidade de Petrópolis, e descreveu três espécies: nasus (que talvez corresponda à aspera de Lorenz Mueller) e duas novas que denominou bufonia e vomerina. Destas duas a bufonia representa a espécie mais comum, que se cria em todos os mananciais que fornecem a água potável da Capital Federal, assim como nos pequenos rios, causadores de inundações freqüentes. Na descrição entrou também o Crossodactylus gaudichaudii, que julgou ser o macho de E. bufonia. A vomerina Girard considerou como exemplar aberrante de E. lateristrigata Baumann, espécie única que combina com a descrição de Girard.
Sob o nome de Hylodes truncatus Steindachner descreveu em 1864 a Elosia bufonia, apanhada por Natterer em 1818 no Corcovado, onde ainda hoje é freqüente. O desenho permite reconhecer uma Elosia pela forma dos discos das últimas falanges. Achou quatro fêmeas que não alcançavam o comprimento normal dos adultos.
Em 1907 Wandolleck apresentou descrição e figuras de Elosia divisa n. sp. com linha branca dividindo completamente o corpo. Parece tratar-se apenas de um Hylodes comum, ainda novo e mostrando uma estria dorsomediana branca. Esta se vê, em largura variável, em muitos dos meus exemplares novos de H. guentheri cujos discos lembram o gênero Elosia.
Em 1912 Baumann descreveu a Elosia lateristrigata, espécie característica e pouco rara em condições apropriadas, mas escapando facilmente aos colecionadores. Foi redescrita como espécie nova sob o nome de perspicillata por Miranda Ribeiro.
Na mesma ocasião Baumann descreveu, com o nome de Hylodes goeldii, a espécie maior, mais rara e mais arisca deste gênero. Miranda Ribeiro a confundiu com a Elosia bufonia de Girard e a colocou num novo gênero, Megaelosia.
Além disso, Miranda Ribeiro estabeleceu ainda uma Elosia glabra. Trata-se de um exemplar novo e sem caracteres marcados. Quando muito pode ser considerada uma species inquirenda.
Lorenz Mueller também estabeleceu uma nova espécie, que ele chamou aspera. É baseada apenas num exemplar incompletamente desenvolvido. Na sua descrição, muito minuciosa, não menciona as vesículas laterais, o que prova que se trata de uma fêmea e não de um macho, como ele se inclina a pensar. Pelo resto reconhece-se facilmente a espécie, que não é rara acima de certo nível. Exemplares vivos distinguem-se à primeira vista; os mortos, não muito bem conservados, se distinguem de bufonia pela falta de vermiculação na barriga, pela abundância de verrugas glandulares no dorso e pelas pernas mais compridas.
Em 1927 Robert Mertens forneceu a descrição e figuras de uma Elosia colecionada no estado de Rio Grande do Sul em lugar montanhoso, a 900 metros acima do mar. Chamou-a Elosia nasus subsp. n. meridionalis. Prefiro considerá-la como nova espécie, porque parece diferir das três espécies reunidas sob esse nome. A barriga pigmentada lembra a lateristrigata que ocorre no estado de Santa Catarina. Pelo resto assemelha-se mais com a bufonia, mas parece menor e um tanto diferente. Também é duvidoso que a bufonia se estenda tanto para o sul.
Biologia e ontogenia das Elosiinas
Os gêneros Elosia, Megalelosia e Crossodactylus, tanto quanto se sabe, pouco diferem nos seus hábitos e nas suas fases de evolução. As fêmeas maduras mostram a barriga cheia de ovos bastante grandes de cor creme. Sobre a cópula e a postura pouco se sabe.
Em cativeiro uma fêmea de Elosia pôs alguns ovos isolados sobre musgo, saturado de água. Estes provavelmente não eram fecundados. Em 17 de junho de 1930 obtive de um Crossodactylus uma postura de cerca de 80 ovos, de cor creme e 25 mm de grossura, com invólucro gelatinoso do mesmo diâmetro. Eram isolados e afundavam-se lentamente.
Girinos pequenos são raros. Apenas de Crossodactylus tenho visto maior número, e estes pareciam-se com os adultos pelos hábitos, pelas cores e pela forma. Os girinos crescidos e perto da metamorfose vivem exclusivamente nos córregos, relativamente frios, das montanhas, e morrem facilmente quando transportados, mas dão-se bem na água, correndo lentamente das torneiras do abastecimento da capital. O crescimento, porém, é lento. Procuram lugares onde a correnteza é moderada e assim podem permanecer no lugar, nadando contra a corrente. Escondem-se muito no fundo e debaixo das margens dos poços ou atrás das pedras maiores. Alcançam um tamanho considerável. O corpo é sub-ovóide e a cauda, em forma de lanceta, é muito mais comprida. Têm os queixos grossos e denticulados, mas alimentam-se principalmente de detrito e sedimento acumulados nos remansos. São obtidos com mais facilidade quando se consegue desviar a maior parte da água. Os girinos adultos, que lembram peixinhos, começam a metamorfose na água que abandonam no fim, trepando sobre as pedras quando ainda munidos de cauda.
Os adultos, que têm o lado dorsal protegido por cores mates, são ativos durante o dia e podem ser encontrados adormecidos à noite. Geralmente se escondem em buracos ou debaixo de folhas, perto da água. De dia gostam de ficar sentados em pedras dentro ou perto da água, de onde ao menor perigo se atiram na corrente. São facilmente observados perto dos córregos, e raras vezes afastam-se deles. Também é lá que se ouve a sua voz. Os machos pouco se distinguem das fêmeas e não são sempre menores. Indivíduos meio crescidos são encontrados com bastante freqüência, e os indivíduos chegados ao maior tamanho podem ser relativamente raros.
A subdivisão da subfamília Elosiinae
Reconheço três gêneros bem definidos que constituem o grupo bastante homogêneo das Elosiinae: Elosia, Megalelosia e Crossodactylus. Um quarto gênero, Basanitia Miranda Ribeiro, afasta-se mais dos outros, e sua inclusão é feita com reserva. Em seguida procurarei caracterizar brevemente os quatro gêneros.
Gênero Elosia Tschudi
O gênero Elosia pode ser considerado o mais típico, como é o mais antigo do grupo. As suas espécies são de tamanho médio e mais ou menos igual. Mostram bem a forma típica da cabeça e dos discos digitais e ocasionalmente as orlas membranáceas, tanto nas mãos como nos pés. Nas espécies bem conhecidas os machos mostram um saco vocal eversível com membrana fina e enrugada quando não está distendida. Pelo resto não se distinguem claramente as fêmeas.
Gênero Megalelosia
Com a necessária emenda do nome para Megalelosia, o gênero Megalelosia de Miranda Ribeiro pode ser separado das outras espécies de Elosia que formam um grupo homogêneo. A única espécie deve ser chamada goeldii Baumann e não tem nada a ver com a E. bufonia de Girard, que tem apenas a metade do seu tamanho.
O gênero Megalelosia difere pela ausência dos sacos vocais exteriores nos machos, que mal se distinguem das fêmeas. Apresenta dos dois lados da sínfise mandibular um processo em forma de dente e a margem superior das metades mandibulares mostra uma lâmina serrada, descoberta e desenhada por Miranda Ribeiro. Não parece existir nas espécies menores de Elosia e na própria Megalelosia é de verificação bastante difícil, exigindo a denudação do osso. Os machos não são necessariamente menores que as fêmeas, mas podem atingir o mesmo tamanho. As fímbrias dos dedos podem ser bem desenvolvidas e os discos terminais são típicos e muito largos. Visto em cima, o contorno do corpo e mais oval e o da cabeça é ogival. O tamanho dos adultos e dos girinos é cerca de duas vezes maior que nas outras espécies de Elosia. Não parece haver diferenças importantes na ontogenia e na biologia.
Gênero Crossodactylus Duméril & Bibron
O gênero Crossodactylus foi estabelecido em 1841 por Duméril & Bibron, que já salientaram a sua afinidade com Elosia. O nome do gênero se refere às orlas membranáceas dos dedos do pé, bem desenvolvidas em alguns exemplares. Reconheceram apenas uma espécie: gaudichaudii, trazida por Gaudichaud do Brasil e quiçá do Rio de Janeiro. Limnocharis fuscus Bell 1843, colhido na viagem do Beagle por Darwin (provavelmente perto da capital), é considerado sinônimo, como também Tarsopterus trachystomus Reinh & Luetk. 1862, cujo desenho, reproduzido no Tierreich, e a descrição concordam; apenas as cerdas córneas do lábio superior nunca mais foram observadas, provavelmente porque se tratava de uma anomalia individual. Este material era de Minas e não do Rio de Janeiro. Tenho indivíduos da mesma espécie, apanhados na mesma região.
Como indica uma nota de Steindachner (1865), Fitzinger determinou em 1860 os Crossodactylus, colecionados durante a viagem da fragata “Novara” (18571859), como gaudichaudii; outros, que não tinham pés fimbriados, chamou Phyllobates fuscigula, nome que só se pode referir aos machos de uma segunda espécie. Também na expedição Wilke foi colecionado um Crossodactylus, porém considerado por Girard como o macho da sua Elosia bufonia, erro que se explica pela semelhança das duas espécies, que ocorrem juntas.
Hensel em 1867 também descreveu um Crossodactylus do Rio de Janeiro, indicando bem a forma dos discos.
Lorenz Mueller (1924) descreveu duas espécies de Crossodactylus: bresslaui e aeneus. O primeiro, de que só conhecia a fêmea, tinha sido observado por mim desde 1923 e demonstrado com o nome dispar, em virtude da diferença entre os sexos, mas publiquei a descrição apenas em 1926. O nome de L. Mueller tem prioridade sobre aquele de Lutz, mas cai em sinonímia com o nome fuscigula, de Fitzinger. No fim do mesmo ano apareceu o livro de Miranda Ribeiro onde menciona a mesma espécie com o nome de Crossodactylus vomerinus. Para fazer entrar a espécie de Girard, modifica a diagnose de Crossodactylus, tirando-lhe um dos caracteres mais essenciais. Quanto à espécie aeneus não me parece outra que gaudichaudii, revestindo em certas épocas uma coloração mais brilhante.
Hensel também indicou claramente que as orlas membranáceas nos dedos de Crossodactylus não são uma feição constante, fato aliás muito evidente também para os outros gêneros, mas que tantos autores não compreenderam.
Em 1880, Boulenger incorporou Crossodactylus ao gênero Leptodactylus, erro em que foi seguido por vários autores. De outro lado alguns autores, como Lorenz Mueller, pensaram que o gênero Crossodactylus podia ser unido com Elosia. Mas as diferenças não se limitam à presença ou ausência de dentes vomerinos, e convém manter o gênero Crossodactylus.
Caracteres e diferenciação do gênero Crossodactylus
Comparando indivíduos adultos dos dois gêneros Crossodactylus e Elosia, distinguem-se facilmente (mesmo quando vivem misturados, o que é freqüente), à condição de comparar indivíduos perfeitos, vivos ou bem conservados. Dou em seguida os caracteres diferenciais:
A ocorrência dos espinhos, geralmente chamados nupciais, na mão dos dois sexos pode parecer paradoxal, mas é bem constatada nas duas espécies. Não faltam em fêmeas com ovos bem desenvolvidos. (Os machos têm os testículos negros e bem evidentes.) As pontas córneas variam em número de 3 a 6 e são colocadas em duas séries longitudinais. Excepcionalmente e em indivíduos novos, o número é menor. O espessamento do antebraço pode faltar em machos grandes que não copularam ainda, mas geralmente é bem acusado, mostrando o dobro da grossura vista na fêmea adulta, o que permite distinguir os sexos.
No antebraço a hipertrofia se limita à musculatura; no braço superior, que é menos grosso, o osso (úmero) parece muito volumoso no macho. As falangetas, contrariamente à afirmação de Duméril e Bibron, oferecem a forma de ‘T’.
Quanto aos girinos do gênero Crossodactylus, eles têm o mesmo tamanho antes de entrar em metamorfose.
Gênero Basanitia Miranda Ribeiro, 1922
Deste gênero se conhecem sete indivíduos (nem todos adultos) que pertencem a pelo menos duas espécies. Pouco se sabe da evolução e dos seus hábitos. Estes nos adultos parecem diferir dos geralmente observados nas Elosiinae. Se os coloco com estes, pelo menos provisoriamente, deve-se isso a terem nos dedos discos da forma especial, observada principalmente nesta subfamília.
Característica deste gênero é a redução do disco do primeiro dedo da mão, que, como na do homem, é um pouco virado para dentro, facilitando assim a oposição aos outros dedos e tornando a mão apreensora. Pode-se considerar esta particularidade como adaptação a trepar em plantas, sendo desnecessária para as espécies que geralmente pousam em pedras. De fato, um macho de Basanitia foi apanhado à noite, chamando de cima de um arbusto.
As espécies conhecidas correspondem em tamanho às Elosiinas menores. Foram achadas em vários lugares dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, bastante distantes entre si, mas geralmente montanhosos. Ocorriam isoladamente, e podem ser consideradas raras, embora bastante espalhadas.
Neste gênero a língua é mais livre, e não foram observadas as orlas mem-branáceas nos dedos do pé. Talvez seja esta a razão que levou Miranda Ribeiro a grupá-lo com o gênero Hylodes (Eleutherodactylus), onde algumas espécies apresentam discos semelhantes. Somente o conhecimento de mais material e de todos os estados evolutivos poderá decidir em que subfamília devem entrar, ou se representam um grupo inteiramente novo. Se ficar confirmado que os primeiros estados de Basanitia vivem em córregos de montanhas, este fato os afastará de Hylodes e os aproximará de Elosia.
Discussão das espécies
Para classificar as espécies precisa-se de exemplares completamente adultos e bem conservados, porque os caracteres mais importantes podem perder-se ou alterar-se quando a conservação é defeituosa. Para determinar o sexo e o período de atividade sexual convém fazer uma incisão na barriga (que pode ser lateral, para não prejudicar o exemplar). Retirado o intestino da rã ou apenas o seu conteúdo, pode-se verificar o sexo e garantir uma conservação melhor.
Elosia nasus Lichtenstein
(Est. LXIV, figs. 1 e 2; est. LXVI, figs. 21 e 22; est. LXVII, figs. 25, 29 e 30)
Elosia bufonium Girard.
Hylodes truncatus Steind.
Elosia nasus é o nome que tem prioridade, mas infelizmente há três espécies que ocorrem na zona do Rio de Janeiro e provavelmente foram confundidas sob esse nome. Pela descrição curta, o tipo de Lichtenstein corresponde à espécie mais comum, descrita depois por Girard sob o nome bufonium. Tschudi, que chama atenção para as pernas curtas, o que fala em favor de bufonium Girard, não menciona a pigmentação característica da barriga. Na descrição de Duméril e Bibron já aparecem caracteres que se podem referir somente a lateristrigata, misturados com outros que mais indicam a bufonia. Girard descreveu na zona do Rio de Janeiro uma Elosia nasus que parece referir-se à forma descrita sob o nome aspera por L. Mueller; a sua bufonia parece ser a nasus Licht. E a sua vomerina, um exemplar aberrante de lateristrigata. Quanto à hipótese de existir outra espécie que se poderia considerar como nasus legítima, tive de abandoná-la depois de pesquisas extensas e prolongadas. Assim, temos Elosia nasus Licht.= bufonia Girard, aspera L. Mueller = nasus ex parte e lacteristrigata Baumann (= nasus ex parte). Esta ocorre também em Santa Catarina. Para nasus citam-se como outras localidades Bahia e o estado de Santa Catarina. Não tenho meios para determinar de que espécie se trata. A nasus meridionalis Mertens é uma species inquirenda; talvez independente e nova.
Elosia nasus Lichtenstein
E. bufonium Girard
É bastante freqüente nas montanhas em redor do Rio de Janeiro, onde se cria em todos os mananciais. Sendo relativamente fácil de apanhar, deve ter caído no poder de muitos colecionadores. Suponho que quase sempre tenha sido classificada como nasus. O seu território se estende de poucos metros acima do mar até a cerca de 800 m de altitude. Em elevações maiores é substituída por outras espécies. Corresponde ao Hylodes truncatus de Steindachner, mas é muito menor do que a Elosia goeldii com quem foi identificada por Miranda Ribeiro. De aspera, única espécie com que pode ser confundida, difere, quando viva ou bem conservada, pelas pernas indubitavelmente mais curtas e o lado ventral intensamente vermiculado. A coloração geral é mais ferruginosa, o que aparece bem durante a vida. O dorso é ora uniformemente pardo-escuro e finamente chagrém, ora mostra, sobre fundo pardacento mais claro, manchas escuras em número e forma indeterminados. As verruguinhas glandulares são menos numerosas e conspícuas que na E. aspera. Como na aspera parte dos discos e dedos da mão pode ser branco-nívea em exemplares frescos, mas isto é menos marcado em material velho. Há exemplares bastante claros e outros muito escuros, quase pretos, em que a vermiculação do ventre se torna muito intensa.
A descrição e as gravuras de Girard e Steindachner bastam para a identificação, auxiliadas pelas figuras que acompanham esta memória. Os machos conhecem-se pelas vesículas vocais eversíveis debaixo dos ângulos da boca; quando estão recolhidas, percebe-se uma área redonda de pele fina e enrugada. Não há outros sinais sexuais exteriores suficientemente distintos. Nos dois sexos as fímbrias do pé podem ser encontradas ou faltar. A indicação de espinhos córneos nos dedos do macho no período da propagação, citada por Nieden, nunca foi verificada e parece devida a uma confusão, feita por Girard com o Crossodactylus gaudichaudii.
A descrição, dada de Elosia nasus por Niedem, não se distingue claramente da de E. bufonia; parece um compromisso entre descrições das três espécies menores. Além do desenho completamente diferente, distingue-se de lateristrigata pela falta de ângulos dorsilaterais e as pernas mais curtas.
Os girinos desta espécie (figs. 29 e 30) podem alcançar um comprimento de 65-70 mm, sem mostrar o começo da metamorfose. Quando, por acaso, nadam em algum remanso, podem facilmente confundir-se com peixinhos, mas não se percebem facilmente porque se conservam perto do fundo e quase sempre completamente escondidos. Têm o dorso enegrecido, o lado ventral branco amarelado e a cauda com manchas pretas sobre fundo mais claro. São bastante variáveis e não se distinguem claramente dos de Elosia aspera, que também variam. A boca é um tanto virada para baixo, os queixos são grossos e uniformemente denticulados. A alimentação se limita a humo e detrito. O orifício expiratório é situado no meio do flanco sinistro, e o ânus, no princípio da cauda, desviado um pouco para a direita.
Nos girinos grandes aparecem linhas sinuosas correndo em direções longitudinais e formadas por pontos brancos, distantes entre si. Representam órgãos sensórios, conhecidos de anfíbios e peixes.
Elosia lateristrigata Baumann
(Est. LXIV, figs. 3 e 4; est. LXVI, figs. 23 e 24; est. LXVII, figs. 31 e 32)
Elosia nasus, ex parte.
Elosia vomerina Girard.
Elosia perspicillata Miranda Ribeiro.
Esta espécie, descrita por Baumann e geralmente aceita como nova, distingue-se por caracteres que já entram nas descrições de Elosia nasus por Duméril e Bibron, e de vomerina por Girard. Por enquanto o nome, característico de Baumann, pode ser mantido porque se refere a exemplares normais e sem mistura com outras espécies.
A E. lateristrigata é encontrada nas montanhas vizinhas do litoral, desde o estado do Rio de Janeiro até o de Santa Catarina. Também ocorre na Serra da Mantiqueira. Nos estados de Rio de Janeiro e São Paulo falta abaixo de 600 metros, mas alcança uma altitude superior a 1.100 metros.
Esta espécie é a única que mostra índices de pregas glandulares dorsilaterais, sendo mais raros os pequenos tubérculos glandulares, comuns em outras espécies, de modo que a pele é descrita como completamente lisa. As costas de cor chocolate, às vezes quase preta, só excepcionalmente permitem reconhecer manchas mais escuras ou claras. A fita lateral escura que falta às outras espécies é salientada nas descrições de Duméril e Bibron, como naquela de Girard. A linha branca que acompanha o bordo lateral só excepcionalmente deixa de ser visível, por ser apagada ou encoberta por uma prega cutânea, mas ainda se encontra a segunda linha branca que vai do olho até o ombro com uma dilatação por trás do tímpano. Raras vezes existe uma linha dorsal branca sobre as vértebras.
O lado ventral, incluindo braços e pernas, é distintamente vermiculado em pardo-sépia, geralmente com estria média longitudinal na região mandibular e gular. Tenho alguns exemplares em que a pigmentação se tornou tão extensa que o branco forma apenas manchinhas irregulares e isoladas sobre o fundo ventral escuro. A ausência completa de pigmentação ventral só pode dever-se a conservação defeituosa.
A face póstero-inferior das coxas é marmoreada por manchas escuras e irregulares sobre fundo branco.
A língua é um tanto mais chanfrada posteriormente que nas outras espécies.
O lado superior das pernas acompanha a cor do dorso. Em exemplares mais claros pode haver barras transversais escuras, mais ou menos perfeitas. O comprimento relativo das pernas é ligeiramente inferior ou igual ao da E. aspera, porém é maior do que na bufonia. Os dentes vomerinos, bastante compridos e ligeiramente convergentes para trás, podem chegar com a base exterior dos grupos separados muito perto da linha que liga o nível anterior das cóanas.
Os machos têm as vesículas vocais bem desenvolvidas, mesmo antes de alcançar o tamanho completo, que é de cerca de 4 cm para os dois sexos. Um macho desse tamanho mostrou os testículos ainda pouco desenvolvidos. Assim, não se pode afirmar que o tamanho dos machos seja muito inferior ao das fêmeas.
Nesta espécie os girinos já bastante grandes (figs. 31 e 32) são caracterizados por uma estria larga e intensamente preta que se estende de cada lado da cauda, perto do eixo. Vista de cima a cauda apresenta duas estrias paralelas, divididas por um espaço ocráceo claro. Assim se distingue facilmente da Elosia aspera, que se cria nos mesmos córregos.
Elosia vomerina Girard
Esta espécie foi baseada por Girard numa fêmea de Elosia procedente da região do Rio de Janeiro. A sua identificação não foi feita de um modo completamente satisfatório, por causa da posição dos dentes vomerinos, indicada pelo autor e que não se observa em nenhum batráquio da região. A anomalia dessa posição foi ainda exagerada na descrição da espécie, fornecida na segunda edição do catálogo do British Museum, de onde passou para aquela de Niedem no Tierreich. Girard diz que os dentes vomerinos são dispostos numa linha transversal, interrompida no meio e colocada e colocada em nível com a margem anterior das narinas internas; porém, os autores citados dizem imediatamente em frente da mesma linha, o que ainda aumenta a anormalidade.
Quando Girard (com alguma hesitação) colocou o seu exemplar no gênero Elosia, tinha indubitavelmente razão. Sendo conhecido e bem investigado por mim o território de onde veio o material, a escolha limita-se a três espécies menores, o que corresponde ao número indicado por Girard. Tendo ele já mencionado nasus (correspondendo a aspera L. M.) e bufonia (= nasus Licht.), só resta a lateristrigata que os zoólogos puderam apanhar na sua visita à Serra dos Órgãos. Não creio que possa existir por aqui uma quarta espécie, a não ser a E. goeldii (hoje Megalelosia), que é duas vezes maior.
Abstraindo-nos dos dentes, achamos na descrição muitos pontos em favor, por exemplo: a língua emarginada, a fita larga lateral pardo-escura ou preta, que se estende até o terço posterior do tronco, a estria estreita alvacenta que se estende do olho ao ombro passando abaixo do tímpano. Tudo isso não pode ser aplicado às outras espécies. Acresce a pele lisa, a coloração da parte anterior do dorso e o comprimento das pernas. Os outros caracteres, descritos de um só indivíduo, conservado havia já muito tempo, não são incompatíveis com os caracteres ou variações da mesma espécie. Há um caráter negativo que a princípio parece muito importante: é a ausência da linha branca lateral extensa que justifica o nome lateristrigata. Essa linha algumas vezes falta completamente em exemplares conservados; outras vezes desaparece debaixo de uma prega cutânea dorsilateral.
Examinei a posição dos dentes em numerosos exemplares de E. lateristrigata. Geralmente pouco difere da de outras espécies. Encontrei, contudo, um exemplar em que a base dos dentes vomerinos exteriores alcançava o nível anterior das cóanas. Assim a posição anormal, indicada por Girard e um pouco exagerada nas citações subseqüentes, não se torna tão incompatível e pode ser atribuída apenas a uma variação individual.
O que Miranda Ribeiro chama Crossodactylus vomerinus não corresponde à espécie de Girard, mas ao Cr. fuscigula Fitz.
Elosia nasus, subespécie meridionalis Mertens
Não me foi possível obter um exemplar desta forma, da qual existem uma descrição de Mertens e uma ilustração que reproduz umas aquarelas, tiradas pelo descobridor Emrich de um exemplar vivo. Infelizmente esta não saiu muito nítida e não se presta para nova reprodução. Ambos os documentos não permitem excluir com certeza tratar-se de uma forma um tanto aberrante de uma das espécies já mencionadas. A julgar pela estampa, a vista dorsilateral lembra a bufonia, cuja existência no estado vizinho (Santa Catarina) é muito duvidosa. A vista ventral lembra mais a lateristrigata que lá existe. Faltam, contudo, elementos para identificar a forma de Rio Grande do Sul com essa. A julgar pelas dimensões indicadas (adulto maior 34,8 mm), esta forma, a mais meridional conhecida, pode bem representar uma espécie separada, menor, com a garganta amarelada e o desenho do lado ventral diferente. Aproxima-se mais da nasus (=bufonium Girard).
Elosia aspera Lorenz Mueller
(Est. LXVI, fig. 20; est. LXVII, fig. 33 e 34)
Elosia nasus Girard
Lorenz Mueller forneceu uma descrição desta espécie que considerava nova, baseado apenas num indivíduo, pequeno, mas bem conservado. Não pode ser um macho, como um autor inclina-se a pensar, porque ele não menciona as vesículas vocais, constantes e bem evidentes nos machos desta espécie que não é rara em elevações de 800 metros para cima. Examinei ainda ultimamente adultos e girinos vivos da mesma Serra dos Órgãos e muitas fases evolutivas da Serra da Bocaina. Aproxima-se muito da espécie bufonia de Girard, mas os adultos vivos se distinguem facilmente, porque aspera tem o lado ventral imaculado e o dorso com o fundo mais acinzentado, tirando sobre o oliváceo e não misturado de ferruginoso. Nota-se maior número de pontos níveos e grande abundância de grânulos glandulares escuros. Tudo isso pode ser difícil de observar em material conservado e acresce que a aspera, quando nova, pode apresentar o ventre marmoreado de pardacento. De outro lado a pigmentação ventral, muito notável na bufonia viva, pode ser apagada em indivíduos conservados, mas sempre permanece a diferença notável no comprimento das pernas. Nesse ponto aspera não difere de lateristrigata, aliás tão diferente que uma confusão só será possível com material pessimamente conservado. Os dois girinos bastante grandes tampouco se confundem, mas os de aspera se parecem assaz com aqueles da bufonia.
Da descrição detalhada de Lorenz Mueller dou apenas a parte mais importante: nos dedos dos pés havia além de uma membrana basal curta, membranas laterais pouco desenvolvidas, e, no lado interno do tarso até a junta do pé, uma prega lateral pouco larga. A pele do lado dorsal com rugas e depressões distintas, a do lado ventral quase lisa, apenas no lado inferior das coxas granulada. Verrugas em forma de tubérculos no dorso e nos flancos, nestes em parte branco-amareladas.
Lado dorsal pardo-escuro, com manchas indistintas, mais claras ou mais escuras. Sobre o lábio superior algumas manchas mais claras. Parte posterior das coxas com vermiculações mais claras. Gula de cor branco-prateada. Ventre branco-amarelado. Poucas manchas branco-acinzentadas nos lados do peito. Lado inferior sem desenho.
Distingue-se de E. nasus pelo olhar maior, focinho mais curto com as arestas mais afiadas e a pele verrucosa do lado superior do dorso.
Com algumas divergências pouco importantes, visto que esta descrição se refere apenas a um indivíduo pequeno e conservado, concordam as minhas observações, feitas em grande material. As indicações aqui apresentadas e o desenho, tirado de um exemplar típico, bastam para caracterizar e diferenciar a espécie.
Esta espécie foi encontrada nas montanhas perto de Petrópolis e Teresópolis, nas Serras da Bocaina e de Cubatão, como também perto de Angra dos Reis. Tudo isso faz parte da grande Serra do Mar que acompanha o litoral. Com exceção de numerosos exemplares, colhidos em Angra dos Reis, em lugar muito mais baixo, foram todos observados em altitudes entre 800 e 1.150 metros, muitas vezes em companhia de lateristrigata. Até hoje nunca se achou misturada com a bufonia, nem se tem conhecimento de híbridos. Podia-se pensar que se tratava apenas de uma forma de bufonia, influenciada pela maior elevação, mas contra isso falam a ocorrência perto de Angra dos Reis e outras considerações.
Como consta das figuras que apresentamos, o girino crescido (figs. 33 e 34) tem os caracteres que pertencem ao gênero Elosia. Assemelha-se bastante ao de Elosia bufonia Girard e, sendo o desenho de ambos um tanto variável, não se distingue claramente, mas a presença exclusiva de uma forma adulta serve para caracterizar a espécie.
Megalelosia goeldii (Baumann,1912)
(Est. LXV, figs. 12 e 13; est. LXVII, figs. 26-28)
Esta espécie foi descrita em 1912 por Baumann sem indicação do tamanho. Não obstante a conformação do pé, representado em desenho seu, colocou-a em Hylodes. A espécie foi dedicada a Goeldi, que forneceu o material, provavelmente colhido em Teresópolis. Dez anos depois Miranda Ribeiro descreveu a mesma espécie sob o nome Megaelosia bufonia, supondo tratar-se da espécie de Girard, que é muito menor, mas também tem o lado ventral vermiculado. Indica como pátria Petrópolis, Teresópolis e Macaé (ou Nova Friburgo) e não os arrabaldes da cidade de Macaé. Estas montanhas formam um único maciço, e assim, a área onde ocorre esta espécie parece muito limitada. Meu material procede de Petrópolis e Teresópolis e criou-se em três diferentes arroios, muito encachoeirados. Os adultos, por causa do seu tamanho e seus hábitos diurnos, são facilmente percebidos, mas dificilmente aproximados. Quase todos os meus exemplares foram mortos a tiros de chumbo fino, antes que tivessem tempo de atirar-se na água corrente, perto da qual se mantinham; mas mesmo este processo falhou muitas vezes. Adultos dos dois sexos alcançam um comprimento de 8-9 cm. A cor e o desenho do lado dorsal são um pouco variáveis, como nas espécies de Elosia. O dorso pode ser uniformemente pardo-escuro ou o fundo mais claro, acinzentado ou oliváceo e semeado de manchas escuras maiores ou menores. A vermiculação da barriga é muito grossa e intensa como no Leptodactylus pentadactylus, e aparece já em exemplares meio crescidos, embora mais fraca. Os discos são bem desenvolvidos e as membranas laterais e basais podem ser bem notáveis. Pelo resto mostram o tipo de Elosia com as diferenças indicadas para o gênero Megalelosia, representado apenas por goeldii.
Os machos têm os testículos pretos, que podem ser pequenos, mesmo em exemplares bem crescidos. Alguns têm os antebraços um pouco espessados. Nunca se ouviu a voz.
Apresento as figuras de adultos desta espécie em metade de tamanho natural.
Girinos. Tenho um grande número de girinos, apanhados: um em 9.11.1929 e mais um no mesmo lugar (alto Paquequer) em 20.4.1930; outros mais numerosos (no riacho Quebra-frasco), em 21.4.1930, pouco diferem em tamanho, sendo o comprimento total entre 7,5 e 9 cm. Não mostravam rudimento de pernas. Conservavam-se muito escondidos. Diferem dos de outras Elosiinae pela cor uniformemente negra; pelo resto são muito parecidos. Mostram bem umas linhas de pontos brancos que parecem indicar órgãos cutâneo-nervosos. O corpo, em forma de saco, é grosso e pesado, a cauda em forma de lanceta pode terminar em ponta aguda ou arredondada. É bastante larga, com margem membranácea, sendo o resto grosso e musculoso. A boca é um pouco virada para baixo e distingue-se apenas pela grossura do queixo. Nem por isso o intestino em espiral contém apenas massas amorfas. Apresento um desenho em tamanho natural.
Miranda Ribeiro observou a metamorfose e dá um croqui de duas larvas sem pernas de 12 a 12,5 cm de comprimento. Lorenz Mueller descreveu minuciosamente uma larva em começo de metamorfose com 12,5 cm de comprimento.
Crossodactylus gaudichaudii Duméril & Bibron
(Est. LXIV, figs. 5-9)
O Cr. gaudichaudii e a espécie mais comum e fácil de colecionar das Elosiinae descritas. Acompanha todos os córregos encachoeirados das montanhas perto da capital do Brasil. Com a descrição do tipo, as observações e as ilustrações já dadas, é fácil reconhecê-lo. O lado ventral é sempre branco e o dorso geralmente pardo-escuro uniforme. O comprimento alcança 32 mm. O dorso das pernas varia no número e na largura das barras escuras transversais ou ligeiramente oblíquas. As margens do dorso formam um ângulo mais pronunciado com os lados do corpo e são mais paralelas que em Megalelosia e Elosia (com exceção de lateristrigata). As verrugas glandulares podem ser mais ou menos acentuadas. As orlas membranáceas dos dedos faltam na maioria dos exemplares, mas podem ser bastante desenvolvidas, ao menos nos pés. A forma dos discos só aparece claramente em vida ou com boa conservação. As espinhas “nupciais” podem ser observadas nos dois sexos em número variável. O espessamento do braço se observa nos machos bem desenvolvidos.
Em certas ocasiões e lugares todos os exemplares aparecem com brilho bronzeado, em outras ocasiões ele falta em todos os indivíduos do mesmo lugar. Não parece um caráter de espécie, tampouco como uma leve vermiculação na gula e nas manchas brancas na mão, que podem existir simultaneamente. Esta forma, que parece corresponder ao aeneus de Lorenz Mueller, foi colecionada perto do Rio de Janeiro em grande número. Mais tarde os Crossodactylus, sempre abundantes no mesmo lugar, não se distinguiam do gaudichaudii comum.
Antes da descrição detalhada do tipo de Crossodactylus aeneus o autor escreve:
Muito perto de Crossodactylus gaudichaudii de Dum. & Bibr., mas se distingue desta espécie pelo focinho com ângulos e cantos mais acusados, o espaço interocular mais largo, a narina mais aproximada da ponta do focinho, a presença de uma prega dorsilateral mais ou menos distinta e o revestimento de cores diferentes.
Os girinos encontram-se mais facilmente que os de Elosia, com os quais se parecem bastante, mas o comprimento antes da metemorfose é distintamente menor.
Crossodactylus fuscigula (Fitzinger)
(Est. LXV, figs. 14-16)
Phyllobates fuscigula Fitzinger
Crossodactylus bresslaui L. Mueller
Crossodactylus dispar Lutz
A seguinte descrição foi tirada de um macho vivo, apanhado à noite perto de um pequeno córrego na Serra da Bocaina, numa altitude de 1.150 metros.
Cor geral, quando visto sentado, pardo-olivácea com estreita linha vertebral branca. Há muitas verruguinhas glandulares, brancas e pretas, ora redondas, ora alongadas em estrias; as de cor mais escura ocupando principalmente o fim do dorso e as regiões laterais, em disposição bastante característica.
Comprimento: 27 mm.
Cabeça escura em cima e largamente branca na margem maxilar. Cantos rostrais salientes, porém um tanto escavados. Parte anterior do focinho proeminente, retrocedendo obliquamente para a boca. Os olhos distam de pouco mais que a largura da pálpebra superior. Íris bronze-dourado, um tanto enegrecido. Pupilas em oval horizontal. Região gular com intensa vermiculação escura sobre fundo branco. A língua é ovalar, pouco larga e livre apenas na parte posterior. Dentes vomerinos faltam.
Os antebraços são subcilíndricos e distintamente espessados, o que parece indicar uma cópula prolongada. O primeiro dedo é mais largo do que o segundo e na base dele há três espículos córneos curtos com a base triangular de cor de azeviche. Há uma calosidade maior do lado exterior da palma, e vestígios de membrana basal entre os dedos 2-4.
Os braços são mais escuros em cima. Os lados do tronco são finamente reticulados em branco e preto, e as coxas mostram pontos brancos sobre fundo escuro. Nas pernas há manchas transversais escuras formando barras dorsais. Os dedos do pé de comprimento regular, sem membranas laterais ou basais bem desenvolvidas e terminando em ponta arredondada apenas dilatada. Dos tubérculos metatarsais o exterior é indistinto, o interior alongado e continuado em prega fina.
Uma fêmea apanhada de dia perto do mesmo córrego tem o comprimento pouco maior, de 28 mm. O fundo do dorso é mais pardo-ocráceo. Na região lateral posterior do tronco existe uma barra oblíqua de cor branca, que é bastante larga e corre de diante e acima para trás e abaixo. (No macho, já descrito, esta barra é menos larga na primeira parte e pouco distinta na segunda.) Mandíbula com pontinhos brancos em frente seguidos por tarja branca. De lá até a metade da barriga a face ventral mostra uma reticulação parda com malhas largas separadas por linhas finas. Uma estria escura corre na linha mediana do peito para trás, desaparecendo no terço posterior do ventre.
A espessura do braço corresponde apenas à metade da do macho.
As diferenças que existem entre o macho e a fêmea, justificando o nome dispar, não se limitam à espessura do braço, mas aparecem também na pigmentação do lado ventral. Os espinhos existem também nas fêmeas.
Esta espécie distingue-se claramente de gaudichaudii e nunca foi encontrada no mesmo lugar. Com nome C. bresslaui L. Mueller descreveu cuidadosamente um único exemplar (provavelmente fêmea). Procedia da Serra dos Órgãos, abaixo de Teresópolis. É comum nos arrabaldes dessa cidade.
Miranda Ribeiro viu a mesma espécie, a que aplica o nome de vomerina, supondo tratar-se da Elosia vomerina de Girard. Isso, todavia, é impossível porque Girard indica dentes vomerinos em certa posição, o que leva Miranda Ribeiro a fazer entrar a indicação de Girard na definição geral de Crossodactylus, que assim perde o seu caráter principal. Na descrição da espécie não afirma ter visto dentes vomerinos na posição anormal indicada.
Basanitia lactea Miranda Ribeiro, 1922
(Est. LXIV, fig. 10 e 11; est. LXV, fig. 19)
Da descrição extensa da B. lactea, dada pelo autor, deduz-se que o tipo apresenta no álcool uma cor láctea. Entre parênteses põe "carnea ?,” o que deve referir-se à cor que podia ter existido durante a vida. (Uma cor semelhante observa-se também em hilas verdes que estiveram muito tempo no álcool.) Os meus dois exemplares também mostram hoje esta cor. O primeiro, da Serra da Piedade, data de 1917, e a cor original não foi notada, mas no segundo, hoje branco sujo, era pardacenta durante a vida. O tipo tinha 32 mm de comprimento, o meu primeiro exemplar tem 31 e o meu segundo (um macho de Petrópolis) tem 26 mm de comprimento. O tipo mostra um desenho quase apagado, formado por algumas manchas irregulares nas costas e umas barras transversais do lado dorsal das pernas que faltam nos meus exemplares. Pelo resto correspondem à descrição do autor. Apresento também uma figura do exemplar maior.
Também apresento a fotografia de uma aquarela, feita há muitos anos, de um girino e de uma rã ainda com cauda comprida que naquele tempo atribuía a uma Elosia por causa dos discos. Todavia distingue-se hoje por falta completa de pigmento pardo no dorso e o ventre imaculado da bufonia, que é a única Elosia da mesma região. Seria também pequeno demais para uma Elosia em metamorfose.
Neste exemplar e num outro que têm a cauda mais reduzida os dedos têm discos da forma típica, apenas o do primeiro dedo da mão é mais reduzido e um pouco virado. O próprio dedo tem uma tendência a ficar em oposição ao resto da mão.
O tronco desta forma parece mais estreito, com os olhos mais aproximados das margens laterais.
Basanitia gehrti Miranda Ribeiro, 1926
(Est. LXV, figs. 17 e 18)
A segunda espécie de Basanitia, chamada gehrti por Miranda Ribeiro, escapou aos naturalistas até 1926. É rara e conhecida apenas em exemplares que não apresentam distintivos bem marcados. Também observei uma segunda espécie de Basanitia, muito mais escura que lactea e que deve ser classificada como gehrti, a menos que seja nova. Meu exemplar, todavia, quando observado em vida, mostrava desenhos distintivos e uma combinação de cores completamente fora do comum. Foi achado embaixo da terra e de folhas secas cobrindo uma pedra grande, bastante distante da água permanente. O lugar era a Serra da Bocaina, numa elevação acima de 1.100 metros, e a data janeiro de 1930.
O único exemplar tem comprimento de 22 cm.
A cor do dorso era pardo-canela, bastante claro quando foi apanhado, tornando-se mais escuro quando morreu. O lado ventral era cinzento azulado, com reflexos prateados com vermiculação negra na gula e na parte superior da barriga. Há também alguns pontos enegrecidos. Muito característica é também a cor encarnada nas regiões póstero-laterais do ventre, nas coxas e nas pernas, principalmente do lado ventral. Notam-se também barras transversais escuras, quatro nas coxas, quatro mais abreviadas nas pernas e três a quatro nos tarsos. Nos calcanhares há um pequeno apêndice triangular escuro, visível apenas de cima.
Dedos das mãos e dos pés com discos do tipo de Elosia, mais rudimentares apenas no primeiro dedo das mãos, que é virado lateralmente. As pontas são um tanto enegrecidas. Levada a perna para diante, o calcanhar atinge o olho.
Forma da cabeça parecida com a de Crossodactylus. Focinho saliente um tanto arredondado, pelo menos 1½ vez mais comprido do que o olho. Narinas aproximadas à ponta do focinho. Canto rostral distinto, porém um pouco escavado. Língua obcordiforme. Dentes vomerinos em dois pequenos grupos um pouco para trás das cóanas. Íris com zona de bronze avermelhado. Tímpano coberto pela pele, pequeno e indistinto.
Suplemento
Entre a conclusão do manuscrito e a impressão da presente memória passou bastante tempo, em que recebemos mais material e literatura e fizemos observações adicionais. Por intermédio do Dr. Wolterstorff, em Magdeburgo, recebi um cotipo de Elosia nasus, forma meridionalis Mertens. É uma fêmea com 29 mm de comprimento que corresponde perfeitamente à descrição e ao desenho do tipo, notando-se apenas um espessamento do antebraço perto da mão. Não tenho dúvida de que se trata de uma boa espécie, tanto mais que a existência de Elosia nasus em Santa Catarina continua a ser duvidosa. Examinei mais um exemplar de museu determinado nasus, mas pertence a lateristrigata.
De Elosia aspera observei uma fêmea viva, apanhada na Serra de Petrópolis, com 32 mm de comprimento. Era tão escura que o fundo parecia quase preto, e muito cheia de verrugas glandulares. Na gula e na barriga existia ainda um pouco de vermiculação de cor ora pardacenta, ora enegrecida, mostrando que a pigmentação do lado ventral pode persistir excepcionalmente em exemplares já bastante crescidos. Tratava-se certamente de aspera, e a junta tibiotarsal, levada para frente, excedia bastante a ponta do focinho.
Durante a primeira parte do inverno os Crossodactylus eram bastante escuros e não mostravam a cor clara e bronzeada. No fim de agosto e em princípio de setembro começaram a mostrar o dorso com cor e brilho de bronze, que podia aparecer e desaparecer no mesmo indivíduo no espaço de poucas horas. Uma fêmea ofereceu o tipo de aeneus quando fez uma postura de cerca de oitenta ovos. No mesmo vidro havia machos, mas estes não mostravam atividade sexual e os ovos não pareciam fertilizados. Mais tarde a mesma fêmea passou a mostrar o dorso de cobre escuro alternando com pardo ou amarelo bronzeado. A variabilidade da cor foi observada em muitos outros exemplares conservados vivos. Não posso acreditar que o aeneus de Mueller seja espécie separada.
A fêmea aqui citada fez a sua postura em musgo úmido. Era uma massa gelatinosa de ovos aglutinados formando um disco de 2-2,5 cm de diâmetro e menos de um centímetro de altura. Havia outro menor, e alguns ovos isolados. Os ovos, em número aproximativo de oitenta, contêm uma massa vitelina ovóide de 3,5 e 4 mm de diâmetro, um tanto escavada de um lado dentro de um invólucro gelatinoso, completamente esférico. Há mais uma cápsula gelatinosa exterior em que o microscópio mostra fibrilas muito finas. Ambos os invólucros intumescem na água e os ovos ficam grudados entre si e no substrato. Um dos ovos isolados era maior, com uma massa vitelina de 5 mm em dimensão maior.
As larvas da E. nasus (bufonia Girard) foram conservadas vivas durante a maior parte do inverno, mostrando-se pouco ativas. Ficavam no fundo dos aquários e procuravam esconder-se. Não havia indicação de metamorfose. Davam-se bem em aquários ligados ao encanamento ou ventilados por bolhas de ar.
Ultimamente apareceu mais uma publicação sobre batráquios brasileiros, sob o título Liste des Reptiles et Batraciens, récoltés au Brésil par la Mission Massart 1922-23… Extrait de “UneMission Biologique Belge au Brésil…,” Tome II, Bruxelles. O autor é Gaston-Fr. de Witte, attaché au Musée du Congo Belge. Nesse trabalho entram quatro Elosiinae. A primeira chamada de Elosia nasus e a segunda Elosia massarti n. sp., ambas do Alto da Serra de Cubatão. O único exemplar da segunda corresponde perfeitamente à Megalelosia goeldii, cujo território assim fica mais estendido, a terceira é o Crossodactylus gaudichaudii, descrito e figurado claramente como Phyllobates brasiliensis sp. n., e a quarta é o Crossodactylus fuscigula que aqui figura como Calamobates boulengeri n. gen., n. sp. Os desenhos indicam claramente um Crossodactylus, e as mãos são bem características. O fuscigula é do Alto da Serra de Cubatão, e o gaudichaudii dos matos de Cachoeira, na Serra de Nova Friburgo.
Bibliografia
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Niden, F., 1923. Anura I. Das Tierreich, Lief. 46.
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Miranda Ribeiro, 1926. Notas para o estudo dos Gymnobatrachios Brazileiros. Archivos do Museu Nacional, v.27, Rio de Janeiro.
Mertens, R., 1927. Neue Froschlurche aus Rio Grande do Sul. Blaetter fuer Aquarien-und Terrarienkunde, Jhrg. 38, Heft 2.
Explicação das estampas LXIV – LXVII
Estampa LXIV
Figs. 1 e 2. Elosia nasus (bufonium Girard), fêmea adulta, de coloração escura: 1. vista de cima; 2. aspecto dorsal, com barriga aberta mostrando os ovos.
Figs. 3 e 4. Elosia leteristrigata, macho adulto: 3. aspecto dorsal; 4. aspecto ventral.
Figs. 5 e 9. Crossodactylus gaudichaudii e metamorfose.
Figs. 10 e 11. Metamorfose de Basanitia lactea.
Estampa LXV
Figs. 12 e 13. Megalelosia goeldii, adulto, em 9/20 do tamanho natural.
Figs. 14 e 16. Crossodactylus fuscigula Fitz.
Figs. 17 e 18. Basanitia (?) gehrtii Mir. Rib.
Fig. 19. Basanitia lactea Mir. Rib.
Estampa LXVI
Fig. 20. Elosia aspera, L. M., macho adulto.
Fig.21. Elosia nasus (bufonium Girard), fêmea de coloração clara.
Fig.22. Idem, fêmea escura com manchas.
Figs. 23 e 24. Elosia lateristrigata, macho adulto.
Estampa LXVII
Fig.25. Elosia nasus (bufonium Girard), fêmea de coloração clara.
Figs. 26 a 28. Megalelosia goeldii, girinos em 3 posições.
Figs. 29 e 30. Elosia nasus (bufonium Girard), girinos perto da metamorfose.
Figs. 31 e 32. Elosia lateristrigata, girinos perto da metamorfose.
Figs. 33 e 34. Elosia aspera L. M., girinos perto da metamorfose.
Fig. 35. Elosia nasus (bufonium Girard), boca de girino, perto da metamorfose (X 6).
Com exceção de 12, 13 e 35, todas as figuras são em tamanho natural.
As aquarelas, reproduzidas em fotogravura, foram executadas pelos Srs. P. Sandig, R. Honório e A. Pugas, os desenhos em nanquim da Estampa LXVII por A. Pugas e as fotografias 22-24 por J. Pinto.
Apêndice
Cópias de descrições originais (Sent by Mrs. Helen T. Gage)
1. Original descripton of E. nasus.
Abstracted from Lichtenstein, Verzeichniss der Doubletten des Zoologischen Museums, Berlin, 1823, p.106.
Hyla toto corpore praeter femorum partem internam glabro, supra fusco nigro-maculato, maxilla superiore nasi forma prominente, digitis omnibus liberis. 3”.
2. Tschudi, Classification der Batrachier, 1838, p.36.
Elosia Tsch. Dieses Genus scheint unter den Hylen ganz die Frösche zu vertreten, zu welchen es sehr bedeutende Verwandtschaft hat. Ich kenne nur die Species, die von Lichteinstein in dem Doubl-Verzeich. Als Hyla nasulus aufgeführt ist. Die Zehen der Hinterfüsse haben seitliche Hautanhänge, der der äussersten Zehe erstreckt sich längs des hintern Randes der Fusswurzel; die Zunge ist eiformig, dick, fast ganz angewachsen. Gaumenzähne sind auf jeder Seite nur drei. – Spix Rana pygmaea, p. 30, T. VI. F. 2. Ist identisch mit Hyla nasulus Lichtensts: Wagler stell sie sehr unrichting zu Rana sibilatrix Wied. S. A., p. 203.
108 H. nasus. N.
Fitzinger: Die Ausbeute der österreichschen Naturforscher na Säugethieren und Reptilien während der Weltumsegelung Sr. Majestät Fregatte Novara. Sitz. Ber K. Akad. Der Wiss. Mathem. naturw. Classe, XLII, 1860: 414.
Landfrösche oder Kröten. Chersobatae
"Kletter-Kröten. Phyllobatae.
Crossodactylus gaudichaudii Dum. Bibr ........................ Brasilien.
Phyllobates fuscigula Fitz .................................... Brasilien."
3. U.S. Explor. Exped, v. XX. Herpetology, by Charles Girard. 1858, p.65-71.
Elosia nasuta
Spec. Char. – Eyes large and prominent. Tympanum small. Legs slender and elongated. Skin above, smooth, with small pustules. Reddish-brown, maculated above; sides dotted.
Syn. – Hyla nasus, Licht. Verzeichn. Doubl. Zool. Mus. Berl. 1923, p.106 – Fitz. N. Classif. Rept. 1826, p.63.
Elosia nasuta, Tsch. Men. Soc. Sci. Nat. Neuuch. II, 1838, 36 & 37. – Dum & Bibr. Erp. Gen. VIII, 1841, 632.
Descr. – The head is a little longer than broad, and forms about the third of the lengyh, the legs excepted. It is flattened above, and slightly declivous upon the snout, the terminal angle of wich, whens en from above, is that of na obtuse triangle. The nostrils are subelliptical, and situated midway between the anterior rim of the orbit and the extremity of the snout, thougt on a profile view of the snout are somewhat concave along the line of the canthus rostralis. The eyes are large, subcircular, and prominent; their horizontal diameter being twice the distance between them and the nostrils. The upper lid is smooth; its outer margin is horny, and continued over the canthus rostralis. The tympanum is subcircular; its diameter being scarcely half that of the eye, that is to say, comprised twice along the distance between the eyes and nostrils. The mouth is proportionally large, and the tongue thickish, depressed, and subelliptical in its outline, a litle narrower anteriorly, entire posteriorly, adhering by almost its whole under surface; the very margin alone, laterally and posteriorly, seeming free. The vomerine teeth constitute two elongated and oblique groups, placed between the inner nostrils. The latter are subcircular and moderate in size. The openings of the Eustachian tubes are very conspicuous and nearly as large as the inner nostrils.
The limbs are long and slender. In stretching the anterior ones alongside the body, some of the fingers will extend beyond the posterior extremity of the body, wile the posterior ones are longer than the body and head, by the entire foot. There is a large, flattened, metacarpal disk, and na elongated tubercle at the base of the inner finger. The tubercles under the the articulations are found; one to the first and second toes, two to the the third, always the longest of all. The toes are provided laterally with a membranous fold, and webbed at their base. Their articulations are provided beneath with small tubercles; one to the first and second toes, two to the third and fifth, and three to the fourth. The metatarsal tubercles are very small, and not always readily distinguihable, especially the outermost. The one situated at the base of the inner toe is more conspicuous, and has the shape of an elongated ridge rather than of a conical tubercle. A conspicuous, cutaneous fold exists along tbe inner side of the tarsus. The skin is perfectly smooth all over the head, body and limbs, though the upper regions exhibit small pustules, especially the back. A membranous ridge may be seen over the upper margin of the tympanum.
The ground color above, is reddish-brown; the body and head, macuted with small spots and dots of a deeper brown extending all over the head, snout and jaws. These spots are much larger on he legs, assuming upon the hind ones the shape of transverse bands. The sides of the abdomen are dotted with white and these white dots extend somewhat posteriorly over the thighs. The inferior surface of the head and chest is whistish; the limbs, beneath, being reddish.
A small individual exhibits much larger, not confluent, spots on the back.
Elosia bufonium
Car. Spec. – Oculis magnis et eminentibus. Tympano modico. Cute laevi, sine pustulis. Supra fuscata, maculata; infra vermiculata vel unicolor.
Spec. Char. – Eyes large and prominent. Tympanum moderat. Legs small.
Skin smmth, without pustules. Dusky-brown, dotted; beneath, vermiculated or unicolor.
Syn. – Elosia bufonium, Grd in Pro. Acad. Nat. Philad., VI, 1853, p.423.
Observ. – The physiognomy of this species is widely different from that of Elosia nasuta, thugh both species are closely allied by their structure. The first trait which strikes most in their differentiation consists in the shortness of its legs, wich are, nevertheless, slender. Next it will be observed that the body is shorter, when compared to the head. The head itself is more bulky and its upper surface more inclined on the snout. The latter is more obtuse, more eleveted, more inwardly truncated.
Descr. – The head, somewhat broader than long, forms more than the third of the lenght, the limbs excluded. The occipital region is convex and the distance from the eyes to the snout very much inclined forwards. The terminal line of the snout, seen from above, is that na obtuse triangle, stil more open than in E. nasuta; the line of the canthus rostralis is also less concave. The nostrils, subcircular or subelliptical, are less prominent, though situated midway between the anterior margin of the eye and the extremity of the snout. The eyes, themselves, are large, subelliptical, their horizontal diameter is twice the distance belween them and the nostrils. The upper lid is smoth, but its horny margin does not extend along the canthus rostralis. The tympanum is of medium size, and its diameter greater than the radius of the eye, as is the case in the preceding species. The mouth is broad and large; the tongue suborbicular, rather thin, especially upon its margin. The vomerine teeth contitute two small and oblong groups situated between the inner nostrils, and somewhat larger than in E. nasuta. The openings of the Eusachian tubes are smaller than the inner nostrils, though larger than in E. nasuta.
The legs are slender, but shorter than in E. nasuta, and the dilatations of the fingers and toes less developed. The forelegs, when stretched alonside the body, scarcely reach its posterior extremity with the tip of the longest finger; the hind ones, from their insertion to the base of the metatarsus, equal the body and head in lenght. The fourth outer finger is the shortest; the firts is a little shorter than the second, and swollen upon its base. There is a subcircular and flatlened metacarpal disk, and small tubercles may also be seen under the digital articulations; the palm is smooth. The tarsus is provided with a cutaneous ridge along its inner margin.The toes are slightly webbed at their base, and provided laterally with a very diminutive membrane; the third is longer than the fifth. The sole of the feet is smooth; there are two metartasal tubercles, the innermost minute and cinical, the other situated at the base of the first toe, is longer and elongated. The articulations of the toes exhibit a small tubercle beneath.
The skin is perfectly smooth thoughout, without the slightest trace of pustules or asperities. The body, head and snout are dusky-brown, with dots of deeper brown and of white, irregularly spread all over, the white dots forming na indistinct series on each side of the abdomen. On the posterior portion of the back the white, spots have a black dot in their center. Na elongated, quadrangular spot of deep-brown on the middle of the upper jaw, obliquely situated under the anterior half of the orbit. A deep brown vitta on the canthus rostralis. A patch of the same color on the tympanum, extending backwards, tapering towards the shoulder. The inferior surface of the head and belly are yellowish white, vermiculated with chestnut-brown. Legs and feet are reddish-brown, unicolor beneath, maculeted above with deep-brown patches, largest upon the thinghs.
We consider as the male of this species a smaller individual, uniformly dusky-brown above, indistinctly maculated upon the thighs. The inferior surface of the head and belly is uniform yellowish-white, and the legs beneath light reddish-brown. The tympanum being also proportionally larger. The first finger is provided above with a double series of very small, conical, and horny, black tubercles, the inner series composed of three, the outer series of but two or one only.
Elosia vomerina
Car. Spec. – Oculis tympanoque modicis. Cruribus longis et tenuibus. Cute laevi sine pustulis. Supra fuscata, postice maculata. A latere linea fusca.
Spec. Char. – Eyes and tympanum moderate. Legs long and slender. Skin smooth without pustules. Dusky-brown above, posteriorly maculated. A lateral, deep-brown band.
Syn. – Elosia vomerina. Grd. in Proc. Acad. Nat. Sci. Philad., VI, 1853, p.423.
Obs. – It is not without hesitation that we have placed this species in the genus Elosia, on account of the peculiar disposition of the vomerine teeth. Considering, however, the shape of the head, the structure of the feet and toes, we have preferred to associate it with the species described above (E. bufonium) until further investigations shall have been made into the Herpetology of South America.
Descr. – The head, a little broader than long, forms about the third of the legs excluded. It is subconcave, or flattened upon its upper surface, its terminal outline forming a very open triangle. The nostrils small and subcircular, placed a little nearer the tip of the snout than the anterior rim of the orbit. The eyes are large and subelliptical; their longitudinal diameter being equal to the rostral distance in advance of their anterior rim. The upper lid is smooth, and its margin not prolonged over the canthus rostralis. The tympanum is proportionally larger than in the preceding two species, and its diameter is equal to the distance between the eye and the nostril. The tongue is subcircular, discoid, broadly emarginated posteriorly, where it is free for one-fourty of its length; its edges are free also. The vomerine teeth, situated between the inner nostrils, are disposed, upon a transverse and rectilinear series, immediately in advance of the anterior margin of the latter openings, and widely interrupted in the middle. The inner nostrils, themselves, are subcircular, proportionally smaller than in the preceding species. The openings of the Eustachian tubes are smaller than the latter, but quite distinct.
The body is raniform, elongated, broader than deep, narrowest posterioly, and continuous anterioly with the head.
The limbs are slender, intermediate in length between those of E. nasuta and E. bufonium. The dilatations of the toes and fingers are proportionally small, and in that respect more like E. bufonium, although the shape of the body be so widely different. The anterior legs, when stretched alongside the body, reach the posterior extremity of the trunk with the tip of the fingers. The posterior ones, when brought forward in a similar manner, extend beyond the snout, of the whole length of the foot and half the metatarsus. The first finger is shorter than the second, both of which are provided with a subarticulary tubercle, whilst there are two of them to the third and fourth.. The palm of the hand is inconspicuously tuberculous; a rather large, subspherical or subconical tubercle may be seen upon its base. The base of the first finger is provided with a more elongated and smaller tubercle. Toes are slightly webbed at their base, and bordered with a membraneous fold. The first toe, the shortest, has but one tubercle beneath; the others have each two. The sole of the foot is perfectly smooth; as to the metartasal tubercles, the outermost is small and subconical, whilst the other is elongated, slightly raised, and resembles a rudimentary finger.
The skin is perfectly smooth throughout.
The ground color above, is fuliginous or yellowish brown; the head and back provided with very obsolete spots, appearing almost unicolor, except on the posterior third of the body, where small blackish-brown spots are distinctly observed. Along the upper margin of the snout and over the rostral distance to the eye, there is a deep chestnut-brown or, mayhap, black vitta, wich crosses the eye, passes above the tympanum, and extends along the back, to disappear entirely amidst the spots on the posterior third of the body. The tympanum itself is surrounded, and possibly covered, by a deep-brown spot. A whitish narrow band extends from beneath the eye to the shoulder, in passing under the tympanum where the band interrupted, leaving na oblong or a circular white spot on the shoulder. From beneath the angle of the mouth, a brownish streak extends to the arm. The sides of he abdomen are greyish-brown, vermiculated with whitish. The inferior surface of the head and belly is dull yellowish-white, inconspicuously clouded; the legs beneath are uniform reddish-brown. This species was collected, about Rio de Janeiro, Brasil.