Notas sobre o gênero Phyllomedusa Wagler*

A) Espécies pequenas sem dentes vomerianos e parótidas conspícuas do Rio de Janeiro.

O trabalho se divide numa parte geral e capítulos. O primeiro destes é dedicado às três espécies que perfazem a nossa fauna regional. São elas: Phyllomedusa rohdei, descrita por Mertens e, sob o nome de Bradymedusa moschata, por Miranda Ribeiro, tendo o trabalho de Mertens alguns dias de prioridade; Phyllomedusa guttata Lutz e Phyllomedusa appendiculata Lutz. A primeira é comum e vive tanto nas planícies como nas montanhas, ao passo que as outras duas se limitam às serras, onde as suas larvas têm os seus criadouros. Phyllomedusa rohdei pertence ao grupo de espécies com o primeiro artelho mais curto que o segundo; Phyllomedusa guttata e Phyllomedusa appendiculata o têm mais curto, distinguindo-se, uma da outra, pelos girinos e, no caso dos adultos, pela diferença de palmatura, forma do xifisterno, e outros detalhes estruturais.

Phyllomedusa guttat Lutz se distingue pelos girinos com perístoma bucal membranoso e pelos seguintes caracteres do adulto: Dedos inteiramente livres, últimos três artelhos com membrana basal apenas; gotas roxas sobre fundo laranja nos lados do corpo.

Phyllomedusa appendiculata Lutz se distingue pelos dedos palmados de quase 1j3; artelhos de 1j3 e apêndice calcâneo triangular muito desenvolvido.

Depois de discutida a posição sistemática das espécies, são aduzidas considerações sobre os caracteres diferenciais dos hilídeos com pupila vertical. A seguir, são apresentadas numerosas observações sobre as Phyllomedusa vivas, seus hábitos, fenômenos de mimetismo que apresentam etc.

Na parte especial é dada uma descrição detalhada das três espécies, das quais só a diagnose diferencial havia sido publicada, em Nota Prévia comunicada à Sociedade Brasileira de Biologia.

Tanto na introdução, como nos capítulos, é dedicada grande atenção às observações de natureza biológica, feitas não só no laboratório como no campo.

Os autores e seu auxiliar, Sr. Joaquim Venancio, encontraram as posturas de Phyllomedusa rohdei, Ph. guttata e Ph. appendiculata. É traçado minuciosamente o desenvolvimento da primeira, desde o nascimento das larvas, presenciado pelos autores e documentado fotograficamente, até a metamorfose; o das segundas é apresentado mais sucintamente, sendo descritos porém os embriões da última.

Em relação à Phyllomedusa guttata, é apontado pela primeira vez no Brasil um fenômeno de adaptação à vida em águas agitadas de montanha, até agora só conhecido em alguns girinos, principalmente das espécies asiáticas do gênero Megalophrys. Trata-se de um grande peristoma bucal que serve de flutuador, formando um disco na superfície das águas onde as larvas costumam estacionar e onde se alimentam, conforme demonstram experimentalmente os autores. Entre duas águas assume a forma de um funil. Serve também de órgão de fixação a superfícies sólidas ou de movimento sobre elas, protegendo, pois, as larvas contra os efeitos das correntes excessivamente velozes.

Do estudo comparativo dos girinos das três espécies surgem caracteres que ampliam os únicos dados até agora existentes, publicados há mais de trinta anos pelo naturalista britânico Budgett, sobre Ph. hypocondrialis, por ele observado no Paraguai.

Os conhecimentos aludidos permitem dar inicio à definição dos caracteres genéricos.

Entre estes se acham o espiráculo (abertura da câmara branquial) ventral e mediano, a atitude característica das larvas que flutuam imóveis, com a extremidade caudal, que é reduzida a flagelo, em vibração constante, atitude esta ligada à presença de órgãos hidrostáticos dorsais, com função semelhante à das bexigas natatórias de certos peixes.

B) Phyllomedusa bahiana Lutz

É apresentada a descrição de uma espécie, Phyllomedusa bahiana Lutz, cuja diagnose diferencial, apenas, foi publicada pelo seu autor (A. Lutz). Próxima de Ph. burmeisteri Boulenger, diferencia-se dela principalmente pela perna muito curta, alcançando apenas a axila com a articulação tíbio-tarsal, quando o membro posterior é levado à frente. Discos muito pequenos. Parótidas longas e grossas.

Explicação das Figuras

Prancha I

Fig. 1. Ph. guttata Lutz

Girino em metamorfose, mostrando vestígios do peristoma e das cristas caudais, a coloração vizinha da do adulto.

Fig. 2. Ph. guttata Lutz

Adulto, mostrando as gotas laterais e a separação nítida das superfícies visíveis das ocultas.

Fig. 3. Ph. guttata Lutz

Girino, a) com o perístoma, visto de cima enquanto flutua; b) em forma de funil, quando entre duas águas.

Fig. 4. Ph. appendiculata Lutz

Adulto.

Prancha II

Foto 1. Ph. guttata Lutz

Esqueleto com fontanela fronto-parietal larga, diapófise sacral típica e posição característica dos dedos e artelhos.

Foto 2. Ph. guttata Lutz

O tipo ♂ e co-tipo ♀ mostrando o tamanho relativo de um e outro.

Foto 3. Ph. rohdei Mertens

Esqueleto, mostrando a fontanela mais estreita, obtriangular, a diapófise sacral, fraturada neste exemplar, e a posição dos dedos e artelhos.

Foto 4. Ph. guttata Lutz

Série de co-tipos ? com variações não usuais.

Fotos: C. Freitas

Prancha III

Ph. appendiculata Lutz

Fig. 1

Parte de postura.

Fig. 2

Embrião mostrando guelras externas em formação, as cápsulas oculares e a cauda bem desenvolvidas.

Fig. 3

Embrião mais desenvolvido, retirado do ovo, mostrando o íris diferenciado, a cauda larga, envolvendo a gema, e guelras externas longas.

Fig. 4

Larva na ocasião da eclosão, com olhos laterais perfeitos e grandes, contorno bucal típico, depressão sub-oral, opérculo em formação, guelras externas reduzidas e cauda característica.

Fig. 5 & 6

Desenhos esquemáticos, mostrando girinos com pernas e espiráculo ventral, ânus destro, corpo oval e posições características da boca.

Fig. 7

Boca vista aberta sobre a superfície do corpo.

Boca, com os lábios dobrados em continuação do eixo longo do corpo.

Prancha IV

Ph. rohdei Mertens

Processo de eclosão

Foto 1

Posturas em folhas de laranja, cada uma dobrada longitudinalmente, com uma abertura superior e outra inferior, mas soldadas uma à outra. A superior cheia de ovos, a inferior vazia, com um girino visível na margem da folha.

Foto 2

As mesmas colocadas em funil e copo de vidro. Uma larva embaixo e duas na superfície.

Foto 3

Após a eclosão. As larvas são vistas na pose vertical característica, na superfície e abaixo dela. Fotos: J. Pinto

Prancha V

Ph. rohdei Mertens

Fig. 1

Embrião visto de baixo, com duas glândulas sub-orais e guelras externas.

Fig. 2-3

O mesmo visto lateral e dorsalmente.

Fig. 4

Larva na ocasião da eclosão, mostrando o olho grande, lateral, o contorno da boca, a depressão sub-oral, opérculo em formação, as guelras reduzidas, a inserção da crista caudal inferior no abdome e a pigmentação incipiente.

Fig. 5

Desenho esquemático mostrando o espiráculo ventral, ânus destro, posição da boca e dos olhos, estes na maior largura do corpo.

Fig. 6

Fase ulterior mostrando os dedos prestes a irromper, o ânus no centro e a crista caudal inferior interrompida.

Prancha VI

Ph. rohdei Mertens

Figs. 1a & b

Girinos pouco depois da eclosão, mostrando a mancha clara, olhos grandes, a distribuição do pigmento e a cauda característica.

Fig. 2

Girinos com pernas em formação, mostrando o contorno bucal, redistribuição de pigmento, forma do corpo, com maior largur nos olhos, órgãos hidrostáticos dorsais, forma da cauda e parte proximal hialina da crista interior. (b)

Fig. 3

Girino, pouco antes da metamorfose, mostrando coloração adulta incipiente; b) glândulas não visíveis em fases anteriores e início da acumulação característica de pigmento no meio da cauda, especialmente na crista inferior.

Prancha VII

Aparelho bucal de Phyllomedusas

Fig. 1. Ph. guttata Lutz

Membrana peristomal, mostrando as mandíbulas, V2 séries de dentes labiais e glândulas.

Fig. 2. Ph. guttata Lutz

A mesma com a boca fechada, a bilobação conseqüentemente acentuada.

Fig. 3. Ph. guttata Lutz

Mandíbula superior, trilobada, com dentição desigual. (obj. DD oc. 2).

Fig. 4. Ph. guttata Lutz

Mandíbula inferior. (obj. DD oc. 2).

Fig. 9. Ph. guttata Lutz

Dentes labiais. (obj. 1/12 oc 4).

Fig. 5. Ph. appendiculata Lutz

Aparelho bucal dobrado.

Fig. 6. Ph. appendiculata Lutz

Aparelho bucal aberto, mostrando a acumulação equatorial de glândulas. Os dentes reconstituídos na série externa superior pelo exame de vários indivíduos.

Fig. 7. Ph. rodhei Mertens

Aparelho bucal fechado.

Fig. 8. Ph. rodhei Mertens

Aparelho bucal aberto, mostrando a forma, distribuição das papilas, forma das mandíbulas e séries de dentes labiais.

Fig. 10. Ph. rodhei Mertens

Papilas. (obj. 1/12 oc 4).

Fig. 11. Ph. rodhei Mertens

Dentes labiais. (obj. 1/12 oc 4).

Prancha VIII

Detalhes de estrutura

Fig. 1. Ph. rohdei Mertens

Esterno.

Fig. 2. Ph. guttata Lutz

Esterno.

Fig. 3. Ph. appendiculata Lutz

Esterno.

Fig. 4. Ph. guttata

Órgãos hidrostáticos, removidos da cavidade abdominal, mostrando os espessamentos e a convergência anterior.

Fig. 5. Ph. guttata Lutz

Cavidade bucal, mostrando a língua piriforme e a ausência de vomerinos Cotipo n.9 (♀).

Fig. 6. Ph. rohdei Mertens

Abertura bucal na metamorfose, mostrando vestígios de papilas dos lados.

Fig. 7. Ph. guttata Lutz

Excrecência córnea no primeiro dedo do ♂.

Fig. 8. Ph. rohdei Mertens

Distribuição do pigmento na crista caudal inferior.

Fig. 9. Ph. guttata Lutz

A mesma.