Batráquios picados por mosquitos e fragmose em batráquios *

Há alguns anos encontrou um dos autores (A. Lutz) microfilarias no sangue de exemplares de Bufo marinus L. colhidos em certa localidade do estado do Rio. Fazendo pousar neles mosquitos hematófagos, estes picaram-nos e, em seguida, foram encontradas microfilarias no corpo dos mosquitos. Não foi possível criá-las, e as experiências foram abandonadas naquela ocasião por falta de batráquios infectados.

Este ano foi feita uma série de observações em Corythomantis adspersa Lutz (?= brunoi Miranda Ribeiro) e Trachycephalus nigromaculatus Tschudi, ambos batráquios com carapaça craniana, encontrados durante o dia em bromélias no litoral dos arredores do Rio de Janeiro.

Inicialmente, foi observado, no mês de março, por um dos autores (B. Lutz) que ao retirar um Corythomantis por ela encontrado de uma bromélia, levantou-se uma pequena nuvem de mosquitos. Na excursão seguinte, o Sr. Joaquim Venancio, nosso auxiliar, verificou que numa bromélia, cuja parte superior continha certo número de mosquitos, se achava um Corythomantis.

Procurando-se outras bromelias com mosquitos, foram encontradas, contendo cada uma um Corythomantis. Foram feitas mais nove excursões por B. Lutz e Joaquim Venancio, verificando-se em todas elas que a presença de certos mosquitos em bromelias denotava a presença de um desses batráquios. Uma só vez foi encontrado um Corythomantis sem os mosquitos, e, por outro lado, um dos batráquios não era um Corythomantis, mas sim um Trachycephalus nigromaculatus Tschudi, espécie muito vizinha.

A partir da segunda excursão foram apanhados sempre os mosquitos, antes de ser colhido o batráquio, e trazida também a água das bromélias com as larvas e ninfas nela contidas, pertencentes a estas e outras espécies, criando-se assim os machos.

Verificou-se que muitas vezes os mosquitos tinham o abdome róseo, cheio de sangue.

Os batráquios, com exceção do primeiro Corythomantis, se achavam sempre no funil central das bromélias, ocupando-o inteiramente. Corythomantis às vezes com a cabeça algo visível, sempre ligeiramente inclinada, de modo a vedar o lume da bromélia, como um opérculo. O eminente entomòlogo americano, professor Wheeler, introduziu há alguns anos o termo phragmosis para designar o fechamento de uma abertura por uma parte do corpo dos insetos. O professor Barbour, herpetologista de renome, tornou o conceito extensivo aos batráquios, ao verificar que Bufo empusus, o “sapo concha” de Cuba, costuma permanecer em cavidades bem acabadas no solo, vedando o seu lume com a cabeça. Sugere a possibilidade de que nossos batráquios com carapaça craniana tenham o mesmo hábito. É o que se verifica agora em relação ao Corythomantis, que segundo nossa observação se defende sempre recuando, procurando pôr o corpo ao abrigo e apresentar a cabeça, e que, como Bufo empusus, parece maior do que a cavidade, depois de ser retirado dela.

Os mosquitos foram gentilmente examinados pelo professor Dr. A. Costa Lima, a quem agradecemos, confirmando a nossa suposição de tratar-se predominantemente de Culex (Microculex) imitator Theo., assim como de alguns indivíduos, muito menos numerosos, de Culex (Microculex) pleuristriatus Theo., espécies de bromélias, colhidas por A. Lutz há quase quarenta anos e descritas por Theobald, a quem os enviara então para esse fim. Havia raros exemplares de uma espécie de Wyeomyia (Dendromyia) vizinha de quasilongirostris Theo.

Conseguiu-se repetidamente que os Culex aqui nomeados pousassem nos batráquios, principalmente no Corythomantis, que não possui uma secreção visguenta, abundante como a do Trachycephalus nigromaculatus. A maioria das picadas se deu na cabeça, que em geral é a única parte do batráquio acessível ao mosquito, picando alguns nas costas quando estas se achavam descobertas.

Muitas vezes os mosquitos procuram a pálpebra superior, ou a face interna das narinas, únicos pontos da cabeça onde a pele não é aderente ao crânio. Os batráquios parecem suportar bastante bem essas picadas. As picadas são muito demoradas, podendo durar uma, duas ou mais horas. Os mosquitos parecem encontrar bastante dificuldade em obter quantidades de sangue comparáveis com aquelas obtidas em poucos minutos, por mosquitos hematófagos, em pele humana. Um batráquio foi colocado em bromélia na restinga, para ver se atraía os mosquitos, vindo nele pousar dois C. (M.) imitator.

Foram feitas numerosas lâminas. Uma delas, de Culex (Microculex) pleuristriatus Theob., que sugara bem na pálpebra, mostrou hemácias nucleadas típicas, examinadas também pelo Dr. Carlos Magarinos Torres, do Instituto Oswaldo Cruz. Outras lâminas de C. (Microculex) imitator Theo., que sugara algum tempo e tinha o tubo digestivo parcialmente cheio, mostraram as mesmas hemácias. Não são numerosas, havendo porém grande número de núcleos livres.

A carapaça parece constituir boa defesa, e o primeiro sangue sugado deve ir sendo alterado pelos sucos digestivos do mosquito enquanto a sucção lenta continua.

É provável que os mosquitos repousem nas folhas da bromélia depois de sugar. Como as espécies citadas não costumam atacar as pessoas, é possível que sejam adaptadas aos batráquios bromelícolas, como elas.

Aos colegas do Instituto Oswaldo Cruz, já citados, os nossos agradecimentos pelas verificações.

(Bibliografia: ver versão em inglês)

Observações sobre batráquios brasileiros/Observations on Brazilian Batrachians, plate 30 (see p.229, 231).

Observações sobre batráquios brasileiros/Observations on Brazilian Batrachians, plate 31 (see p.229, 232).

Observações sobre batráquios brasileiros/Observations on Brazilian Batrachians, plate 32 (see p.229, 233).

Taxonomia e biologia do gênero Cyclorhamphus/Taxonomy and Biology of the genus Cyclorhamphus, plate I (see p.273).

Segunda memória sobre espécies brasileiras do gênero Leptodactylus, incluindo outras aliadas/Second paper on Brazilian species of the genus Leptodactylus and some allied forms, plate I (see p. 314, 316).

Segunda memória sobre espécies brasileiras do gênero Leptodactylus, incluindo outras aliadas/Second paper on Brazilian species of the genus Leptodactylus and some allied forms, plate II (see p.314, 317).

Hyla imitatrix Miranda Ribeiro, 1926. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Leptodactylus rhodomystax Boulenger, 1884. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Hyla albolineata Lutz & Lutz, 1939. Teresópolis. Raymundo Honorio del. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Bufo sp. Raymundo Honorio del. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Hyla albosignata Lutz & Lutz, 1938. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Ceratophrys appendiculata Günther, 1873. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Leptodactylus vastus Lutz, 1930 – Independencia, Paraíba. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Leptodactylus flavopictus Lutz, 1926. Paul Sandig del. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Crossodactylus dispar Lutz, 1925 – Bonito, Serra da Bocaina. Acervo Laboratório de Herpetologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.