Capítulo Vinte e Quatro

ESTOU DE VOLTA NO MEU MUNDO DE FAZ DE CONTA, de era-uma-vez, com minha melhor amiga ao meu lado. Não sei exatamente onde, mas estou deitada na grama, olhando para o céu estrelado. Ouço música. Acho que é Pat Benatar, relembrando-me que o amor é um campo de batalha. Não sei se é possível todo este ir e vir, mas a teologia nunca foi meu forte. Quase tudo o que sei sobre religião vem de Jesus Christ Superstar.

Minha dor se foi; a lembrança dela permanece, porém, como uma melodia distante, baixinha, mas lá, no fundo da mente.

— Katie, como pode estar chovendo?

Sinto gotas, delicadas como asas de borboleta contra meu rosto, e, sem uma razão que faça sentido, sinto-me triste. Este mundo ao meu redor — por mais estranho que seja — fez sentido antes. Agora algo está mudando e eu não gosto. Não me sinto mais segura. Algo de essencial e importante está errado.

Não está chovendo.

Sua voz tem um cuidado que não ouvi antes. Outra mudança.

É sua mãe. Ela está chorando. Olhe.

Com meus olhos fechados?

Abro-os lentamente. A escuridão desaparece irregularmente; as imagens se formam, sugando a luz. Grãos de escuridão se reúnem e compõem formas. A luz aparece repentinamente e vejo onde estou.

O quarto de hospital. Claro. Estou sempre aqui; os outros lugares é que são miragens. Isto é real. Posso ver meu corpo na cama; meu peito se eleva e se abaixa de acordo com a máquina que faz barulho a cada exalação. Um gráfico mostra a linha verde das batidas do meu coração. Para cima e para baixo, para cima e para baixo.

Minha mãe está ao lado da cama. Ela é menor do que me lembro, mais magra, e seus ombros são caídos como se ela tivesse passado a vida carregando um pesado fardo. Ela também está vestida para uma outra era — um tempo de Flower Power, maconha e Woodstock. Ela está usando meias brancas e sandálias Birkenstock. Mas nada disso importa.

Ela está chorando. Por mim.

Não sei como acreditar nela, mas não sei também como ignorar. Ela é minha mãe. No final das contas, todas as vezes que ela se apegou a mim e todas as vezes que me ignorou, ela ainda está entrelaçada a mim, uma parte do tecido da minha alma, e isso significa algo, que ela está aqui.

Sinto-me chegando perto, ouvindo a voz dela. Parece alta no silêncio deste ambiente. Posso ver que é o meio da noite. Para além das janelas, está escuro lá fora.

— Nunca vi você sofrendo — diz ela para o meu corpo. Sua voz é quase um sussurro. — Nunca vi você cair das escadas ou arranhar o joelho ou cair da bicicleta. — Lágrimas rolam de seus olhos.

— Vou lhe dizer tudo. Como me transformei na Cloud, como tentei ser boa para você, mas fracassei. Como sobrevivi a todos aqueles anos ruins. Vou lhe contar tudo o que você quiser saber, mas não posso fazer isso se você não acordar. — Ela se inclina na cama e olha para mim.

— Sinto tanto orgulho de você — minha mãe diz. — Nunca lhe disse isso, não é?

Ela limpa suas lágrimas. Elas caem no meu rosto. Aproximando-se, ela está quase perto o bastante para me dar um beijo no rosto. Uma coisa que nunca me lembro de ela ter feito.

— Amo você, Tully. — Ao dizer isso, sua voz falha. — Talvez você não se importe e talvez seja tarde demais, mas amo você.

Esperei minha vida toda para ouvir estas palavras da minha mãe.

Tul?

Viro-me para Kate, vejo seu rosto e seus belos olhos verdes. Neles, vejo toda a minha vida. Tudo o que fui e que jamais quis ser. Isto é o que sua melhor amiga é: um espelho.

Já é hora, diz ela, e eu finalmente entendo. Tenho navegado com Kate, descendo preguiçosamente o rio da minha vida com ela ao meu lado, mas há corredeiras à frente.

Tenho de fazer uma escolha, mas primeiro tenho de me lembrar. Sei instintivamente que vai doer.

— Fica comigo?

Para sempre, se puder.

Já é hora, finalmente, de encarar o porquê de o meu corpo estar aqui, arruinado e preso a máquinas neste quarto branquíssimo.

— Certo — digo, reunindo coragem. — Começa com Marah. Há quanto tempo ela veio me visitar? Uma semana? Dez dias? Não sei. É final de agosto de 2010, depois da chamada intervenção da minha mãe, e, honestamente, o tempo não é meu amigo. Tenho tentado...

... escrever minhas memórias, mas não está dando certo. Uma dor de cabeça parece ser minha companheira constante.

Quanto tempo faz desde que saí do meu apartamento? Tenho vergonha de admitir que não posso mais fazer isso. Não consigo abrir a porta. Não consigo nem mesmo tocar a maçaneta, o pânico se abate sobre mim e começo a tremer e hiperventilar. Odeio essa fraqueza minha, tenho vergonha, mas não consigo superá-la. Pela primeira vez na vida, não tenho força de vontade. Sem ela, não tenho nada.

A cada manhã, faço um voto a mim mesma: vou parar de tomar Xanax, deixar minha casa e me aventurar no mundo. Vou procurar Marah. Ou um trabalho. Ou uma vida. Imagino cenários diferentes nos quais vou para Bainbridge Island e imploro e recebo o perdão de Johnny.

Hoje não é diferente. Acordo tarde e percebo imediatamente que devo ter tomado comprimidos demais. Sinto-me horrível. Minha boca está grudenta e parece que esqueci de escovar os dentes na noite passada. Rolo na cama, vejo meu relógio de cabeceira. Aperto os lábios e esfrego os olhos, que parecem ásperos e injetados de sangue. Sem dúvida chorei no sono. E, mais uma vez, dormi o dia todo.

Levanto-me e tento me concentrar. No meu banheiro, encontro um monte de roupas no chão.

É. Ontem tentei sair. Acho que as roupas me impediram. Há maquiagem espalhada pela bancada.

Isto está realmente fugindo ao controle.

Hoje vou mudar minha vida.

Começo com um banho. A água quente cai sobre mim, mas, em vez de lavar minha letargia, ela de alguma forma a piora. No banho cheio de vapor, alivio coisas demais: a raiva de Johnny, a morte de Kate, a fuga de Marah.

Quando percebo, a água está fria. Fecho os olhos, perguntando-me o que aconteceu comigo. Congelando agora, tremendo, saio do chuveiro e me enxugo.

Comer.

Sim.

Isso ajudará.

Visto-me lentamente, com peças que encontro no chão do quarto. Estou trêmula e com dor de cabeça. Comer vai ajudar. E um Xanax.

Só um.

Ando pelo meu apartamento escuro, acendendo as luzes pelo caminho, ignorando a correspondência na mesinha de centro. Ao me servir de uma xícara de café, meu celular toca. Atendo rapidamente.

— Sim?

— Tully? É o George. Consegui um ingresso para uma exibição de Um Homem Misterioso, com o George Clooney. Vou lhe enviar os detalhes. É um evento de caridade num cinema no centro de Seattle. Os caras das emissoras de TV vão estar lá. É sua chance de impressioná-los. Dia 2 de setembro. Oito da noite. Não se atrase e esteja linda.

— Obrigada, George — digo, sorrindo pela primeira vez em dias.

Sinto esperança dentro de mim. Preciso tanto disso. Choro em seco. Não posso mais viver assim.

Então, percebo: tenho de sair do meu apartamento e ir a público. Começo a entrar em pânico, tentando me acalmar.

Não.

Consigo fazer isso. Consigo. Tomo outro Xanax (paro amanhã) e volto ao meu armário para escolher algumas roupas para o evento.

Vou precisar...

O quê? Por que estou de pé no meu armário?

Ah. Um corte de cabelo.

— Tully?

Estou imaginando a voz de Marah? Viro-me tão rapidamente que tropeço, batendo na porta do meu armário. Estou insegura ao andar pelo apartamento, rumo à voz que nem sequer sei se está mesmo lá.

Mas lá está ela, na minha sala de estar, diante da vidraça. Ela está usando preto, com o cabelo curto e espetado e rosa; tem enfeites prateados pendendo da sobrancelha. Ela parece perigosamente magra; as maçãs do rosto são como lâminas sobre suas bochechas fundas e pálidas.

Ela vai me dar outra chance.

— Marah — digo, amando-a tanto que dói. — Estou feliz por você ter voltado.

Nervosa, ela se apoia num pé e no outro. Marah parece não exatamente assustada, mas desconfortável.

Queria que minha cabeça estivesse mais clara, que esta maldita dor de cabeça amainasse. Sinto-me cansada e um pouco impaciente.

— Preciso... — começa ela.

Aproximo-me, um pouco desequilibrada. Tenho vergonha da minha instabilidade. Será que ela percebe?

— Do que você precisa, bebê? — Digo tudo isso ou apenas penso? Não queria ter tomado o segundo Xanax. Ela está fugindo de Paxton? — Você está bem?

— Estou bem. O Pax e eu precisamos de dinheiro.

Paro.

— Você veio em busca de dinheiro?

— É como você pode me ajudar.

Levo os dedos à têmpora, tentando conter a dor. Meu pequeno conto de fadas desaba ao meu redor. Ela não me quer, ela não está aqui por ajuda. Ela quer dinheiro e depois irá embora novamente. Dinheiro para Paxton, provavelmente. Ele a obrigou a fazer isso. Tenho certeza. E o que Johnny diria se descobrisse que lhe dei dinheiro e que a deixei fugir de novo?

Com o máximo de cuidado, pego-a pelo pulso e empurro sua manga para cima. Seu braço está branco e cheio de cicatrizes, algumas prateadas e antigas, outras novas e vermelhas.

Marah tira a mão.

Meu coração se parte. Posso ver que ela está magoada. É o que temos em comum nestes dias, mas hoje vamos nos reunir novamente, presentes uma para a outra. Nunca a decepcionarei novamente. Serei a madrinha que Kate queria que eu fosse. Não decepcionarei Kate e Johnny novamente.

— Se você está bem, por que está se cortando? — Tento perguntar com cuidado, mas estou tremendo. Sinto-me com dor de cabeça e nauseada. O sangue lateja em meus ouvidos. É como um ataque de pânico se aproximando, mas por quê? — Quero ajudar, você sabe que quero...

— Você vai me dar dinheiro ou não?

— Para quê?

— Não é da sua conta.

As palavras me machucam profundamente, como ela obviamente pretendia.

— Então você veio atrás de dinheiro. — Olho para esta menina que mal reconheço. — Olhe para mim — digo, querendo desesperadamente que ela entenda o perigo de suas escolhas. — Arruinei minha vida, Marah. Não tenho família, marido ou filhos. A única coisa que eu tinha, minha carreira, está perdida. Não acabe assim. Sozinha. Você tem uma família que a ama. Vá para casa. Johnny vai ajudar você.

— Tenho o Pax.

— Alguns homens são piores do que ficar sozinha, Marah.

— Como se você soubesse. Vai me ajudar ou não?

Mesmo no meu estado precário, sei que não posso fazer o que ela está pedindo. Quero, quero como o ar, mas não posso facilitar sua fuga de novo. Cometi muitos erros com esta menina ao longo dos anos, nenhum pior do que romantizar Paxton e esconder a relação deles de Johnny, mas aprendi minha lição.

— Vou lhe dar um lugar para viver e marcar consultas com a Dra. Bloom, mas não vou cometer o mesmo erro de novo. Não vou agir pelas costas do seu pai e lhe dar dinheiro para que você possa morar numa choupana qualquer com um esquisitão que não se importa com o fato de você se cortar.

Depois disso, dizemos coisas terríveis uma para a outra, coisas que queremos esquecer. Esta menina que amo tanto me dá um olhar capaz de quebrar madeira. Depois ela sai, batendo a porta atrás dela.

O dia da estreia do filme me escapa. Como, não sei. Só sei que, na tarde do dia 2 de setembro, movo-me perdidamente de sala a sala, fazendo nada, fingindo trabalhar nas minhas memórias, quando meu celular avisa do compromisso.

Olho para a tela. Filme. Oito horas. Chefões das emissoras. Depois olho a hora.

São 19h03.

Vou. Tenho que ir. É minha oportunidade. Não deixarei o medo, o pânico ou o desespero me impedirem. Vou me vestir, ficar bonita e reassumir meu lugar sob os holofotes. Afinal, aqui é a América, terra das segundas chances, especialmente para celebridades. Ah, talvez eu tenha de passar vergonha como Hugh Grant, pedir desculpa com um sorriso, falar da minha ansiedade e depressão, mas as pessoas compreenderão. Quem não tem ansiedade nesta época, nesta economia? Quem não perdeu o trabalho que ama?

Estou um pouco em pânico ao ir para o quarto, mas um Xanax ajudará, por isso tomo dois. Não posso me preocupar com um ataque de ansiedade esta noite. Tenho de ser perfeita. E posso ser. Não sou o tipo de mulher que se esconde sob as cobertas ou atrás de portas trancadas.

Vou ao meu armário, piso em roupas que não me lembro de ter comprado, muito menos de ter vestido, e fico diante das prateleiras. Estou muito acima do peso para estar na moda, por isso pego um vestido básico do cabide: um Valentino preto clássico com gola assimétrica e uma meia-calça também preta. O vestido ficava lindo em mim; agora, me faz parecer uma salsicha, mas é preto e é o melhor que posso fazer.

Minhas mãos tremem, não posso fazer muito com o cabelo além de amarrá-lo num rabo de cavalo. Brincos enormes de ouro e pérolas pretas tiram a atenção do meu rosto inchado (espero). Ponho muita maquiagem, mas ainda pareço cansada. Velha. Tentando não pensar nisso, calço sapatos caros cor-de-rosa e pego uma bolsa de noite.

Estou prestes a sair de casa quando o pânico ataca, mas ranjo os dentes e o enfrento. Abro a porta, saio para o corredor.

Ao chegar à recepção, estou hiperventilando, mas me recuso a voltar para a segurança do meu apartamento.

O porteiro chama o táxi e eu entro no banco de trás.

Vocêconseguevocêconseguevocêconsegue.

Fecho os olhos e sobrevivo a este pânico mais uma vez, mas, quando o carro para diante do cinema, sinto-me leve o suficiente.

— Vai sair, senhora?

Sim. Claro.

Saio. Parece que me arrasto pela lama ao me aproximar do tapete vermelho. A iluminação queima meus olhos, me deixa cega.

Está chovendo, noto. Quando começou?

Uma luz vermelha desce da marquise, refletindo nas poças da rua. Para além dos limites, uma multidão de fãs está esperando a chegada das celebridades.

Minhas mãos tremem; minha boca está tão seca que mal consigo engolir em seco. Levanto a cabeça e me obrigo a passar pelo tapete vermelho. Alguns flashes espocam — depois veem que sou eu e os fotógrafos somem.

Dentro do cinema, penso que sou a mulher mais velha ali. Preocupo-me com o calorão, ficando vermelha de repente e suando. Deveria procurar os executivos das emissoras de TV, mas não consigo. Em vez disso, entro no cinema e me sento num dos lugares de veludo.

A luz diminui, o filme começa. Ao meu redor as pessoas estão respirando, movendo-se silenciosamente, as poltronas rangendo.

Tento ficar calma e prestar atenção, mas não consigo. A ansiedade é um ser vivo dentro de mim. Preciso sair daqui, só por um segundo.

Encontro um cartaz que indica o banheiro e o sigo. O banheiro está tão iluminado que fere meus olhos. Ignorando o espelho, entro numa cabine e me sento, chutando a porta. Recosto-me, tentando me acalmar, e fecho meus olhos. Relaxe, Tully. Relaxe.

Quando dou por mim, estou acordando. Há quanto tempo fiquei aqui, desmaiada numa cabine de banheiro num cinema?

Saindo da cabine com tanta força que a porta bate na cabine seguinte, deparo-me com um grupo de mulheres. Elas olham para mim, boquiabertas. O filme deve ter acabado.

Lá embaixo, vejo como as pessoas me olham. Elas abrem caminho, como se estivesse com dinamite ou carregando uma doença contagiosa. Minha foto de prisão é o que elas veem quando olham para mim. E, de repente, percebo: não consigo fazer isso. Não posso me reunir com os chefões das emissoras de TV e implorar e conseguir meu emprego de volta. É tarde demais. Perdi minha chance. Esta ideia é uma areia movediça que me detém. Abro caminho por entre a multidão, pedindo desculpas falsas, até que consigo respirar novamente. Acabo numa ruela na chuva.

Pouco depois, um homem tenta me agarrar num bar. Quase permito. Vejo-o olhando para mim, sorrindo, dizendo algo que me faz ansiar — não por ele, claro, mas pela minha vida perdida, mas ele está ali e a vida se perdeu. Ouço-me implorar — implorar — para que ele me beije e chorar quando ele me beija porque é tão bom e no entanto não é o bastante.

Depois que o bar fecha, caminho para casa (ou pego um táxi ou uma carona — quem sabe? — pelo menos chego em casa). Meu apartamento está escuro quando chego lá. Nenhuma luz acesa. Acendo todas, apoiando-me nas paredes e mesas.

Sinto tanta vergonha que poderia chorar, mas qual o sentido? Jogo-me no sofá e fecho meus olhos.

Quando abro os olhos de novo, vejo a correspondência na mesinha de centro. Com os olhos turvos, encaro o que resta da minha ex-vida. Estou prestes a desviar o olhar quando uma imagem chama minha atenção. Minha imagem.

Aproximo-me e afasto as pilhas de envelopes e catálogos; lá, sob as contas e malas diretas, está uma revista Star com minha foto da prisão no canto superior esquerdo. Sob ela, uma única e terrível palavra. Viciada.

Pego a revista e a abro no artigo. Não é a reportagem de capa, somente uma notinha a mais.

As palavras se confundem diante de meus olhos, dançam e saltam, mas eu as leio uma a uma.

A HISTÓRIA REAL POR TRÁS DOS RUMORES

A idade não é fácil para nenhuma mulher pública, mas pode se provar especialmente difícil para Tully Hart, a ex-estrela do fenomenal talk show The Girlfriend Hour. A afilhada da Srta. Hart, Marah Ryan, fez contato exclusivo com a Star. A Srta. Ryan, 20, confirma que Hart, de 50 anos, tem lutado ultimamente com problemas que teve durante toda a vida. Recentemente, Hart “ganhou muito peso” e esteve abusando de drogas e álcool, de acordo com a Srta. Ryan...

Tully Hart já pareceu ter tudo, mas a apresentadora, que falava abertamente da infância difícil e que nunca se casou nem teve filhos, parece estar sofrendo sob a pressão de seus fracassos recentes.

A Dra. Lorri Mull, psiquiatra de Beverly Hills que não tratou a estrela, diz: “A Srta. Hart está exibindo o comportamento clássico de uma viciada. Ela está claramente fora de controle”.

A maioria dos viciados...

Deixo a revista cair no chão. A dor que estou controlando há meses, anos, vem à tona, sugando-me para o pior e mais solitário lugar onde jamais estive. Nunca vou ser capaz de me recuperar.

Ando pela sala de estar e deixo meu apartamento, pegando as chaves do carro. Não sei para onde estou indo. Só saindo. Para longe.

Não posso mais viver assim. Tentei seguir sozinha; Deus sabe como tentei. Mas o mundo é grande demais e eu me sinto incrivelmente pequena, não sou mais eu mesma. Sou como um desenho da mulher que fui, só um contorno preto com um espaço em branco, uma silhueta. Meu coração não suporta esta dor. Não posso... desviar o olhar. Agora que vejo o vazio ao meu redor, ao meu lado. Dentro de mim.

Um vento mais forte vai me soprar para longe, de tão fraca que estou, e está tudo bem. Não quero mais ser forte. Quero... ir embora.

No elevador, aperto o botão para descer. Ao ir até a garagem subterrânea, pego o Xanax da minha bolsa, engulo dois, enjoada com o gosto amargo.

Entro no carro, ligo o motor e dirijo. Viro na First Street sem olhar para a minha esquerda. As lágrimas e a chuva atrapalham minha visão, transformando a paisagem conhecida numa que nunca vi antes, um borrão de arranha-céus e luminárias de néon e postes criando formas impossíveis e aquosas. Meu desespero está transbordando, superando tudo o mais. Desvio à direita para não bater em alguma coisa — um pedestre, um ciclista, uma forma da minha imaginação — e lá está: a enorme armação de concreto que suporta o velho viaduto, aparecendo diante de mim.

Vejo o enorme poste preto e penso: acabe com isso.

Acabe com isso.

A simplicidade disso me tira o fôlego. O pensamento esteve sempre ali? Estou circundando-o na obscuridade do meu inconsciente, observando-o? Não sei. Só sei que ele está ali agora, tão sedutor quanto um beijo no escuro.

Não preciso mais sofrer. Só preciso virar o volante.