A CHAVE MESTRA

JAMES ROLLINS

Ela acordou com uma faca na garganta.

Ou pelo menos foi o que pensou.

Seichan estava plenamente alerta, mas mantinha os olhos fechados, fingindo estar a dormir e sentindo algo afiado morder-lhe o pescoço. Soube instintivamente que não se devia mexer. Não ainda. Desconfiada, recorreu aos seus sentidos, mas não ouviu qualquer sugestão de movimento, não sentiu qualquer agitação de ar sobre a sua pele nua, não detetou qualquer odor corporal ou respiração para além dos seus. O único cheiro que sentiu era um vestígio de rosas e desinfetante.

Estarei sozinha?

Com a forte pressão ainda no pescoço, entreabriu um olho e, numa fração de segundo, assimilou o ambiente à sua volta. Sobre a cama, as cobertas eram de um brocado com uma fina textura; sobre a cabeceira, um antigo tapete de tapeçaria; no lintel da lareira, uma jarra de cristal com rosas acabadas de colher repousava ao lado de um relógio de ouro do século XVIII com uma volumosa base de mármore. O mostrador indicava que passavam poucos minutos das dez, algo confirmado pelo moderno despertador pousado sobre a mesa de cabeceira de nogueira. Pelo tom quente da luz que entrava pelas cortinas translúcidas, presumiu que era de manhã.

Captou o som de vozes abafadas de passagem no corredor fora do quarto, que falavam francês, o que combinava com a decoração e o mobiliário.

Quarto de hotel, calculou.

Luxuoso, elegante, nada que ela pudesse pagar.

Esperou mais alguns segundos, assegurando-se de que estava sozinha.

Quando era mais nova, passara alguns anos a correr pelos bairros de lata de Banguecoque e pelas vielas de Phnom Penh, meio selvagem, uma criatura da rua. Nessa altura, tinha aprendido as competências rudimentares daquela que seria a sua futura profissão. A sobrevivência nas ruas exigia vigilância, astúcia e brutalidade. Quando os antigos empregadores a encontraram e a recrutaram nessas mesmas ruas, a transição para assassino revelou-se fácil.

Doze anos depois, tinha outro rosto, uma evolução que parte de si ainda repudiava, deixando-a meio formada, à espera de que o suave barro endurecesse na sua nova forma. Mas no que se tornaria? Traíra os seus antigos empregadores, uma organização criminosa internacional chamada Guilda, e mesmo esse nome não era real, apenas um pseudónimo útil. A verdadeira identidade e propósito da organização permaneciam vagos, até mesmo para os seus operacionais.

Depois da sua traição, não tinha casa, nem país, nada a não ser uma ténue aliança com uma agência secreta americana conhecida como Sigma. Tinha sido recrutada para descobrir quem, de facto, puxava os cordelinhos na Guilda. Não que tivesse grande escolha. Tinha de destruir os seus antigos senhores antes que estes a destruíssem a ela.

Fora por isso que viajara para Paris atrás de uma pista.

Sentou-se lentamente e captou o seu reflexo num espelho do roupeiro. O cabelo preto estava despenteado pela almofada, o esmeralda dos seus olhos estava baço, sensível à luz fraca do sol matinal.

Drogada.

Alguém a despira até ficar apenas de cuecas e soutien, provavelmente em busca de armas e escutas, ou talvez apenas para a intimidar. A roupa — calças de ganga pretas, t-shirt cinzenta e casaco de cabedal tipo motard — fora dobrada e arrumada sobre uma cadeira antiga, estilo Luís XV, não muito distante. Numa mesa de cabeceira do período imperial, as suas armas tinham sido dispostas numa fila cuidada, como se troçassem da sua letalidade. A pistola SIG Sauer continuava no respetivo coldre de ombro, ao passo que os punhais e as facas tinham sido desembainhados, brilhando mordazmente.

Tão brilhantes como a nova joia que lhe adornava o pescoço.

A faixa de aço inoxidável tinha sido aplicada com força num ponto baixo do pescoço. Uma minúscula luz LED brilhava na cova da garganta, onde dentes afiados se enterravam profundamente na pele macia.

Então foi isto que me acordou.

Levou a mão à coleira eletrónica e deslizou cuidadosamente a ponta do dedo pela sua superfície em busca do mecanismo que a prendia. Por baixo da orelha direita, descobriu uma abertura minúscula do tamanho de um alfinete.

Um buraco de fechadura.

Mas quem terá a chave?

O coração batia-lhe na garganta, pressionando os dentes afiados a cada batimento. A raiva corou-lhe a pele, deixando atrás de si um frio temor na base da coluna. Enterrou um dedo por baixo da faixa apertada, estrangulando-se, enterrando ainda mais os espinhos de aço, até…

… a agonia trespassar o seu corpo, incendiando-lhe os ossos.

Deixou-se cair na cama, contorcendo-se de dores, de costas arqueadas, o peito demasiado apertado para gritar. Depois a escuridão… o nada

O alívio inundou-a depois de ter caído para trás, mas a sensação foi de curta duração.

Seichan voltou a acordar, provando o sabor do sangue por ter mordido a língua. Um olhar lacrimejante lançado na direção do relógio por cima da lareira revelou que decorrera apenas um momento.

Pôs-se de pé, ainda a tremer em consequência da quase eletrocussão, e pôs as pernas fora da cama. Manteve as mãos bem longe do pescoço e avançou para a janela, precisando de se orientar. Mantendo-se ligeiramente de lado, para não lançar qualquer sombra, fitou, em baixo, a praça, em cujo centro se erguia uma gigantesca coluna de bronze sobre a qual se encontrava uma estátua de Napoleão. Uma galeria de edifícios elegantes e idênticos rodeava a praça, com arcadas no piso térreo e janelas altas no primeiro andar, separadas por colunas e pilastras.

Continuo em Paris…

Recuou. De facto, sabia exatamente onde estava, tendo atravessado aquela mesma praça ao raiar da madrugada, quando a cidade começava a acordar. A praça em baixo era a Place Vendôme, conhecida pelos seus joalheiros elegantes e casas de moda. A alta Colonne de Vendôme, que se erguia no centro, era um marco parisiense, criado a partir do bronze derretido de mil e duzentos canhões russos e austríacos reunidos por Napoleão para celebrar uma qualquer batalha. Pela sua superfície subia uma faixa contínua de baixos-relevos que representavam cenas de diversas guerras napoleónicas.

Seichan virou-se e estudou o quarto opulento, com cortinados de seda e decorado a folha de ouro.

Ainda devo estar no Ritz.

Tinha ido para o hotel — o Ritz Paris — para uma reunião ao início da manhã com um historiador que tinha ligações à Guilda. Passava-se algo de importante dentro da organização, o que provocara grande agitação entre todos os seus contactos. Sabia que esses momentos de sublevação, quando as portas trancadas eram momentaneamente deixadas abertas e as medidas de proteção relaxavam, constituíam o momento perfeito para recolher o que pudesse. Por isso, procurara bem fundo, insistira e arriscara expor-se talvez um bocadinho demais.

Tocou suavemente com uma mão na coleira, depois baixou-a.

Sem dúvida, demais.

Um dos seus contactos de confiança tinha marcado aquele encontro. Mas, aparentemente, a confiança que o dinheiro podia pagar era limitada. Tinha-se encontrado com o historiador no Hemingway Bar, no piso térreo, uma homenagem ao escritor americano, com painéis de madeira e mobiliário forrado a pele. O historiador estava sentado numa mesa lateral segurando um Bloody Mary, uma bebida que tivera a sua origem naquele mesmo estabelecimento. Ao lado da cadeira, repousava uma pasta de cabedal preto que encerrava em si a promessa de segredos ainda por revelar.

Bebeu qualquer coisa.

Apenas água.

Ainda assim, um erro.

Mesmo agora, a boca sabia-lhe a papéis de música, a cabeça parecia cheia de algodão.

Enquanto regressava ao interior do quarto, um gemido baixo atraiu a sua atenção para a porta da casa de banho. Praguejou contra si mesma, censurando-se por não ter revistado o resto do quarto ao acordar, atribuindo a culpa ao estado de entorpecimento dos seus pensamentos.

Tamanha falta de vigilância terminava ali.

Avançou com passos silenciosos e rápidos através da sala, retirando a pistola ainda no coldre de cima da mesa de cabeceira. Sacudiu a pistola, para a libertar, quando alcançou a porta, deixando o coldre cair silenciosamente no tapete.

Escutou à porta. Quando um segundo gemido — agora mais sofrido — irrompeu, ela entrou repentinamente na casa de banho de pistola em riste. Varreu com o olhar a pequena divisão de mármore, não encontrando ninguém junto ao lavatório ou ao toucador.

Depois um braço magro coberto de tatuagens ergueu-se da banheira, acenando fracamente como um banhista que se estivesse a afogar. Uma mão descobriu a torneira de ouro com a forma de um cisne e agarrou-a, apertando-a com força.

Enquanto Seichan se aproximava mais, avançando de lado, um rapaz magro, de cabelo castanho-avermelhado — que provavelmente não tinha mais de dezoito anos — usou a torneira para se içar, ficando visível. Todo ele era costelas, cotovelos e joelhos, mas ela não ia correr riscos, pelo que apontou a pistola ao seu peito nu. Atordoado, o rapaz pareceu vê-la por fim, abrindo muito os olhos perante a seminudez dela e a ameaça óbvia da arma. Voltou atabalhoadamente para a banheira vazia, de mãos levantadas, parecendo prestes a trepar pela parede de mármore atrás de si.

Não tinha vestido mais do que um par de boxers… e uma coleira de aço inoxidável.

Igual à dela.

Talvez sentindo a mesma forte pressão no pescoço que Seichan sentira ao acordar, o rapaz levou as mãos à garganta.

— Não faças isso — avisou ela em francês.

Em pânico, o rapaz puxou. A luz verde da coleira passou para vermelha. Todo o seu corpo foi agitado pela descarga que o lançou trinta centímetros no ar. Voltou a cair dentro da banheira. Seichan mergulhou e impediu que a sua cabeça batesse no mármore duro, sentindo a corrente elétrica morder-lhe a palma da mão.

O seu gesto não fora motivado pelo altruísmo. Claramente, o miúdo partilhava a mesma situação difícil em que ela se encontrava. Talvez soubesse mais sobre o que quer que se estivesse a passar do que ela. O corpo do rapaz agitou-se em convulsões durante mais alguns segundos, depois ficou inerte. Seichan esperou que os seus olhos se voltassem a abrir; nessa altura levantou-se e recuou. Baixou a arma, sentindo que o rapaz não representava qualquer ameaça.

Cautelosamente, o rapaz sentou-se. Seichan estudou-o, enquanto ele respirava pesadamente, recuperando-se lentamente do choque. Era mais alto do que ela pensara inicialmente. Talvez com perto de um metro e oitenta, mas muitíssimo magro, não tanto descarnado quanto seco. O cabelo era comprido, até aos ombros, de corte irregular com a descontraída casualidade da juventude. As tatuagens cobriam-lhe os braços, subindo até aos ombros e abrindo-se em duas asas negras de intrincados desenhos ao longo das costas. O peito estava limpo, permanecendo ainda uma tela vazia.

Comment t’appelles-tu? — perguntou Seichan, sentando-se numa cadeira.

Ele respirava pesadamente.

Je m’appelle Renny… Renny MacLeod.

Embora tivesse respondido em francês, o sotaque era claramente escocês.

— Falas inglês? — perguntou ela.

Ele acenou com a cabeça, o alívio visível no relaxar da sua postura.

Aye. O que se passa? Onde estou?

— Estás em apuros.

Ele parecia baralhado, assustado.

— Qual é a última coisa de que te lembras? — perguntou ela.

A voz dele continuava titubeante.

— Estava num pub. Em Montparnasse. Alguém me pagou uma cerveja. Só uma. Não estava com os copos nem nada, mas essa é a última coisa de que me lembro. Até ter acordado aqui.

Portanto, ele também fora drogado. Tinham-no levado até ali e posto a coleira, tal como a ela. Mas porquê? Que jogo se estaria a desenrolar?

O telefone tocou, ecoando no quarto.

Seichan virou-se, desconfiando que a resposta estava prestes a ser dada. Levantou-se e saiu da casa de banho. O som dos pés descalços no chão de mármore disse-lhe que Renny a seguia. Pegou no telefone na mesinha de cabeceira.

— Estão os dois acordados — disse a voz do outro lado da linha, falando em inglês. — Ótimo. O tempo já começa a escassear.

Seichan reconheceu a voz. Era o doutor Claude Beaupré, o historiador da Universidade Panthéon-Sorbonne, em Paris. Imaginou o elegante francês de cabelo grisalho sentado no Hemingway Bar. Envergara um casaco de tweed coçado, mas a verdadeira medida do homem não estava no corte da sua roupa, mas na capa altiva do seu ar e dos seus modos aristocráticos. Calculou que algures, no passado, a sua família tivera títulos nobres apensos aos nomes: baron, marquis, vicomte. Mas já não tinha. Talvez fosse por isso que se tornara historiador, numa tentativa para se agarrar a esse passado outrora ilustre.

Quando se encontrara com ele naquela manhã, esperara comprar documentos pertencentes aos verdadeiros líderes da Guilda, mas as circunstâncias tinham-se alterado claramente.

Terá o homem percebido quem sou? Se assim for, por que razão ainda estou viva?

— Preciso das suas aptidões únicas — explicou o historiador, como se lesse os seus pensamentos. — Despendi grandes esforços para a atrair a Paris, para a aliciar com a promessa de respostas. Quase chegava tarde demais.

— Então tudo não passou de um logro.

Non. De todo, mademoiselle. Tenho os documentos que procura. Como a senhora, aproveitei plenamente o tumulto entre os nossos empregadores (o seu passado, o meu atual) para libertar os papéis que procura. Tem a minha palavra de honra. Veio comprá-los. Eu estou apenas a negociar o preço.

— E que preço é esse?

— Quero que encontre o meu filho, que o liberte antes que seja morto.

Seichan esforçou-se por acompanhar aquelas negociações.

— O seu filho?

— Gabriel Beaupré. Caiu sob o feitiço de um outro compatriota da sua organização, um que considero muito desagradável. O homem é o líder de um culto apocalíptico, l’Ordre du Temple Solaire.

— A Ordem do Templo Solar — traduziu ela em voz alta.

O rosto de Renny MacLeod endureceu ao ouvir o nome.

Oui — disse Claude ao telefone. — Há uma década, o culto esteve por trás de uma série de suicídios em massa em duas aldeias na Suíça e uma no Quebeque. Os seus membros foram encontrados envenenados pela sua própria mão ou drogados para se submeterem. Um dos locais foi arrasado por bombas incendiárias num derradeiro ato de purificação. Muitos acreditavam que a OTS tinha sido dissolvida depois disso, mas na verdade limitaram-se a esconder-se, passando a servir um novo mestre.

A Guilda.

Os seus antigos empregadores aproveitavam frequentemente aquele tipo de loucura e usavam a sua violência para servir os próprios fins.

— Contudo o novo líder da OTS, Luc Vennard, tem ambições maiores. Como nós, planeia usar a folga momentânea nas rédeas da Guilda para obter a sua própria independência, mergulhando no caos a minha bela cidade. Só por isso, já o desejava matar, mas agora atraiu o meu filho com mitos sobre a existência dos Cavaleiros Templários e o dever sagrado do culto de proclamar o reinado de um novo rei-deus (provavelmente, o próprio Vennard) com uma transformação sangrenta que exigiria fogo e sacrifício. Sacrifício humano, para ser mais específico. Para usar as palavras do meu filho antes de desaparecer, uma grande purga poderia prenunciar o nascimento do novo rei-sol.

— Quando é que tudo isso deverá acontecer? — perguntou Seichan.

— Ao meio-dia de hoje, quando o sol está mais forte.

Seichan olhou de relance para o relógio por cima da lareira. Faltavam menos de duas horas.

— Foi por isso que tomei estas medidas extremas. Para garantir a sua colaboração. As coleiras não se limitam a castigar, também podem matar. Se deixar os limites da cidade de Paris, terá um fim francamente agonizante. Se não conseguir libertar o meu filho, encontrará igual destino.

— E se concordar… se for bem-sucedida…

— Será libertada. Tem o meu juramento. E quanto ao pagamento pelos serviços prestados, os documentos que possuo também serão seus.

Seichan considerou as suas opções. Não demorou muito. Só tinha uma.

Cooperar.

Também compreendia o porquê de Claude Beaupré lhe ter posto a coleira e a ter transformado no seu cão de caça. Não se atreveria a transmitir à Guilda o que soubera através do filho. A organização limitar-se-ia a permitir que Vennard levasse a cabo o seu ato violento e usá-lo-ia em proveito próprio. O caos representava frequentemente uma oportunidade para os seus antigos mestres. Ou erradicariam Vennard e o seu culto pelo atrevimento e tentativa de amotinação. Independentemente do cenário, o mais provável era que Gabriel Beaupré acabasse morto.

Por isso, Claude procurara ajuda fora dos canais regulares.

— Então e o rapaz? — perguntou Seichan, fitando Renny MacLeod, incapaz de encaixar aquela peça no puzzle.

— Ele será o seu mapa e o seu guia.

— O que significa isso?

Renny apercebeu-se, decerto, da atenção súbita e empalideceu visivelmente.

— Veja as costas dele — ordenou Claude. — Pergunte-lhe sobre Jolienne.

— Quem é Jolienne?

Desta vez o rapaz estremeceu, como se lhe tivessem dado um soco no estômago. Mas em vez de ficar ainda mais pálido, o seu rosto corou. Saltou para a frente, tentando agarrar o telefone.

— O que sabe esse sacana sobre a minha Jolie? — gritou Renny.

Seichan esquivou-se facilmente ao ataque, mantendo o telefone encostado ao ouvido e fazendo o rapaz girar com a outra mão. Lançou-o de frente para a cama e manteve-o preso com um joelho no fundo das costas.

O rapaz debateu-se, praguejando furiosamente.

— Fica quieto — disse ela, pressionando com o joelho. — Quem é Jolie?

Ele virou a cabeça para a fitar apenas com um olho.

— A minha namorada. Desapareceu há dois dias. Em busca de um grupo chamado Solar Temple. Eu estava no pub a noite passada, a tentar reunir um grupo de busca entre os outros cataphiles.

Seichan não conhecia o significado daquela palavra. Mas, antes de fazer quaisquer perguntas, a sua atenção voltou-se para as costas nuas do rapaz e a extensão da sua tatuagem. Era a primeira vez que tinha a oportunidade de olhar para ela.

Com tintas preta, amarela e carmesim, tinha sido gravado indelevelmente na sua pele um estranho mapa — mas não era um gráfico de ruas e avenidas. Num pormenor meticuloso, o desenho artístico apresentava uma rede intricada de túneis que se cruzavam, câmaras que alargavam e piscinas repletas de água. Parecia o mapa de um qualquer sistema de cavernas perdido. Era também, claramente, uma obra inacabada: algumas passagens esbatiam-se na obscuridade ou terminavam abruptamente nos limites da tatuagem.

— O que é isto? — perguntou ela.

Renny sabia o que lhe chamara a atenção.

— Foi onde a Jolie desapareceu.

Claude, que continuava do outro lado da linha, respondeu de forma mais direta.

— É um mapa das catacumbas de Paris, a nossa cidade dos mortos.

Quinze minutos mais tarde, Seichan forçava o motor da sua motorizada e acelerava sobre os doze arcos de pedra da Pont Neuf, a ponte medieval que se estendia sobre o rio Sena. Serpenteou por entre o trânsito mais lento, atravessando para a Rive Gauche de Paris e apontado para o Quartier Latin.

Sentado atrás dela, Renny agarrava-se com os dois braços. Apertou ainda com mais força quando ela saiu da ponte e fez uma curva apertada, penetrando no labirinto de ruas do lado oposto. Não abrandou. Estavam a ficar rapidamente sem tempo.

— Vira na próxima à direita! — gritou-lhe Renny ao ouvido. — Segue quatro quarteirões. Depois teremos de continuar a pé.

Seichan obedeceu. Não tinha outro guia.

Instantes depois, estavam ambos a correr pela rua Mouffetard, uma antiga via pedestre que cortava um caminho estreito e serpenteante através do Quartier Latin. Os edifícios de ambos os lados remontavam há séculos. Os pisos térreos tinham sido convertidos em cafés, padarias, queijarias, crêperies e um mercado de frescos que se estendia para a rua. Por todo o lado, comerciantes negociavam os seus produtos, enquanto os clientes regateavam ruidosamente.

Seichan ia abrindo caminho por entre o bulício, reparando nas ementas de lousa que estavam a ser preenchidas, os pães enormes que iam sendo empilhados nas montras. Sem fôlego, com dificuldade em respirar, apercebeu-se do odor almiscarado que se erguia de uma minúscula fromagerie e das fragrantes exposições de uma florista a céu aberto.

Ainda assim, permaneceu demasiado consciente do que estava por baixo daquele animado tumulto: uma necrópole deteriorada onde estavam guardados os ossos de seis milhões de parisienses, três vezes a população que se encontrava em cima.

Renny ia abrindo caminho com as suas pernas compridas. A sua forma esguia deslizava por entre a multidão com facilidade. O rapaz olhava constantemente para trás, para se assegurar de que não a tinha perdido.

Ainda no hotel, tinha encontrado a sua roupa no guarda-fatos: calças de ganga rasgadas, botas da tropa e uma t-shirt vermelha com a figura do rebelde Che Guevara. Além disso, tinham posto lenços em volta do pescoço para esconder as coleiras de aço. Enquanto se vestiam, Seichan explicara a situação em que se encontravam, como as suas vidas dependiam de mergulharem nas catacumbas e encontrarem o filho perdido do historiador. Renny escutara, fazendo poucas perguntas. Nos seus olhos, apercebeu-se da centelha de esperança por trás do vidrado do terror. Desconfiava que o passo determinado que tinha assumido pouco tinha que ver com o salvar da sua própria vida e mais com a possibilidade de encontrar o seu amor perdido, Jolie.

Antes de vestir a t-shirt, apontou desajeitadamente para a área inferior da omoplata direita. Esse canto do mapa tatuado era recente, a pele ainda vermelha e inflamada. «Foi isto que a Jolie descobriu, era para lá que ia quando desapareceu.»

E era para onde seguiam agora, perseguindo a sua única pista, preparando-se para seguir os passos da namorada de Renny.

Claude Beaupré também acreditava na importância do paradeiro de Jolienne. O seu desaparecimento coincidira com o último dia em que vira o filho. Antes de desaparecer, Gabriel tinha dado ao pai uma pista sobre o local onde Vennard e os restantes membros do culto se deveriam reunir para a purga. Era naquele mesmo bairro. Por isso, quando Claude soube da busca de Renny pela namorada desaparecida naquela área, começou a mover as peças do seu jogo de xadrez: o guia humilde e a caçadora mortífera.

Os dois estavam agora inextricavelmente juntos, avançando para a entrada secreta das catacumbas. Renny tinha partilhado tudo o que sabia sobre a rede subterrânea de criptas e túneis. Como os mundos escuros sob a luminosa Cidade das Luzes haviam sido, outrora, pedreiras antigas, chamadas les carrières de Paris. A antiga escavação descia dez pisos no subsolo, abrindo câmara gigantescas e estendendo-se por trezentos e vinte quilómetros de túneis entrecruzados. Outrora, as pedreiras estavam situadas nos arredores da cidade, mas com o tempo Paris cresceu e estendeu-se sobre o velho labirinto, até metade da metrópole ficar situada sobre as minas.

Depois, no século XVIII, as autoridades ordenaram que os cemitérios sobrelotados de Paris fossem escavados. Milhões de esqueletos — alguns com mil anos — foram lançados sem cerimónia para os túneis da pedreira, onde foram desmontados e empilhados como lenha. De acordo com Renny, era provável que ali estivessem enterradas algumas das figuras históricas mais famosas de França: de reis merovíngios a personalidades da Revolução Francesa, de Clovis a Robespierre e Maria Antonieta.

A busca de Seichan, contudo, não era pelos mortos.

Por fim, Renny abandonou a rua principal e enfiou-se pela viela estreita entre um café e uma pastelaria.

— Por aqui. A entrada de que falei fica mais à frente. Os meus amigos (também eles cataphiles) devem ter-nos deixado algum equipamento. Ajudamo-nos sempre uns aos outros.

A viela era tão apertada que tinham de avançar em fila indiana. Terminava num pequeno pátio, rodeado por edifícios com centenas de anos. Algumas das janelas tinham sido entaipadas; outras mostravam alguns sinais de vida: um cão pequeno que choramingava um lamento, algumas cordas com roupa a secar, um rosto infantil que os espreitava por entre os cortinados.

Renny conduziu-a a uma tampa de esgoto escondida num canto mergulhado nas sombras do pátio. Retirou um pé-de-cabra de trás de um caixote do lixo, juntamente com dois capacetes de mineiro com lanternas na parte da frente.

Apontou para o caixote do lixo.

— Também nos deixaram umas lanternas.

— Os teus cataphiles?

— Sim. Companheiros exploradores do submundo de Paris — disse ele, deixando brilhar um sorriso orgulhoso, o sotaque adensando-se. — Vimos de todos os cantos do mundo, de todos os sectores da sociedade. Alguns percorrem os velhos túneis ou linhas de esgoto; outros chapinham e mergulham nos fossos repletos de água que se abrem para salas inundadas bem abaixo. Mas a maioria, tal como eu e a Jolie, somos atraídos pelos cantos por mapear das catacumbas.

Renny calou-se, com a preocupação a abater-se pesadamente sobre os seus ombros, claramente receoso quanto ao destino da namorada.

— Vamos abrir isto — disse Seichan, precisando de o manter em movimento.

Ajudou-o a erguer a tampa do esgoto e a desviá-la. Uma escada metálica, aparafusada à parede do poço, descia para a escuridão. Renny colocou e prendeu o capacete. Seichan optou pela lanterna.

Lançou o feixe luminoso para as profundezas.

— Este poço conduz a uma secção há muito abandonada do sistema de esgotos que remonta a meados do século dezanove — disse Renny, agarrando-se à escada.

— Um esgoto? Pensei que íamos para as catacumbas.

— Sim, vamos. Com frequência, esgotos, caves e poços antigos têm entradas secretas para as antigas catacumbas. Vem, eu mostro-te.

Renny desceu e ela seguiu-o. Estava à espera de que o túnel cheirasse mal, carregado com os dejetos da cidade por cima. Mas achou-o apenas húmido e bafiento. Desceram pelo menos dois andares, até finalmente ela poder pisar solo firme. Moveu a luz de um lado para o outro. Blocos ligados com argamassa cobriam as velhas paredes e o teto baixo do esgoto. As botas chapinhavam no fundo de um pequeníssimo riacho de água.

— Por aqui. — Renny conduziu-a ao longo do esgoto, com a certeza de uma ratazana bem-ensinada. Ao fim de cerca de trinta metros, viram um portão de grades que se abria para a direita. Ele atravessou até ele e abriu-o, empurrando. As dobradiças rangeram. — Agora por aqui.

Degraus grosseiros conduziam para a escuridão ainda mais profunda, descendo até uma sala que fez Seichan arquejar. As paredes tinham sido pintadas com um jardim caótico de flores e árvores por entre canais gotejantes e piscinas de um azul resplandecente. Era como entrar num quadro de Monet.

— Bem-vinda à verdadeira entrada das catacumbas — disse Renny.

— Quem fez tudo isto? — perguntou ela, fazendo deslizar a luz e apercebendo-se de algumas secções desfiguradas por graffiti.

Renny encolheu os ombros.

— Descem até aqui pessoas bastante diferentes. Artistas, foliões, cultivadores de cogumelos. Há alguns anos, os cataflics (é o nome que damos aos agentes da polícia que patrulham cá em baixo) descobriram uma grande câmara preparada como uma sala de cinema, com um grande ecrã, uma máquina de pipocas e bancos esculpidos. Quando os investigadores da polícia regressaram, no dia seguinte, descobriram que nada restava. Tudo o que tinham deixado fora um bilhete, no meio do chão, com um aviso: «Não tentem encontrar-nos.» Esse é o submundo de Paris. Grandes secções continuam por explorar, isoladas por desabamentos ou simplesmente perdidas no tempo. Os cataphiles, como eu e os meus amigos, fazem os possíveis por preencher esses vazios nos velhos mapas, assinalando as nossas descobertas, registando cada pormenor.

— Como fizeste com a tatuagem.

— Foi ideia da Jolie — disse com um sorriso triste. — Ela é tatuadora. E muito boa. Queria imortalizar a nossa viagem juntos pelo submundo.

Calou-se de novo, mas apenas por um momento.

— Conheci-a cá em baixo, não muito longe daqui, estávamos os dois todos enlameados. Trocámos números de telefone à luz da lanterna.

— Fala-me do dia em que ela desapareceu.

— Eu tinha aulas. Ela tinha a tarde de folga e saiu com uma rapariga da Alemanha, a Liesl. Não sei o apelido dela. Vieram até aqui depois de terem ouvido rumores sobre um grupo secreto que teria passado pela zona.

— A Ordem do Templo Solar.

— Sim. — Ele ergueu a parte de trás da t-shirt. — Na base do pescoço, verás uma sala marcada com uma pequena flor.

Seichan espreitou mais de perto para a tatuagem, apontando a lanterna. Descobriu uma rosa celta minúscula e tocou-lhe com um dedo.

Renny estremeceu.

— É onde estamos agora. Vamos seguir o mapa da Jolie até à parte mais recente da minha tatuagem; era para aí que se dirigia. Ela descobriu uma entrada para uma secção esquecida do labirinto, mas, mal tinha começado a explorá-la, quando ouviu o rumor sobre o Templo Solar. — Ele baixou a t-shirt e apontou para um túnel que partia da sala. — Conheço a maior parte do caminho de cor, mas vou precisar de ajuda quando estivermos mais perto.

Pôs-se a caminho através do escuro labirinto, serpenteando ao longo dos túneis e atravessando salas pequenas e poços inundados. As paredes eram de calcário bruto, húmidas e a pingar água. Fósseis pontuavam as superfícies, alguns deles polidos por cataphiles anteriores para os realçar, como se o passado pré-histórico estivesse a tentar emergir da rocha.

O caminho foi-se tornando rapidamente mais fresco. Em breve Seichan conseguia ver a sua respiração. Os ecos dos seus passos transmitiam a sensação constante de estarem a ser seguidos. Ela parava frequentemente, olhando para trás, desconfiada.

Apercebeu-se de que Renny começava a ficar impaciente.

— É pouco provável que encontremos aqui alguém. Mesmo os cataflics raramente vêm a esta secção remota. Além disso foi reportada uma fuga de gás perto da área turística das catacumbas. Está fechada há três dias.

Ela acenou com a cabeça e voltou a olhar para a tatuagem dele. Não estavam muito longe da secção acabada de pintar do mapa.

— Se estou a ler isto bem, a nova descoberta da tua namorada fica para lá daquela passagem. — Seichan apontou para um túnel estreito e olhou para o relógio de pulso.

Restam setenta e dois minutos.

Ansiosa, Seichan seguiu à frente. Avançava rapidamente, procurando a passagem lateral ramificada marcada na tatuagem.

— Para! — gritou Renny atrás dela.

Seichan virou-se e viu-o agachado junto a um monte de pedras caídas. Tinha passado por aquela pilha sem pensar nela duas vezes.

Renny apontou a luz do capacete para uma seta cor-de-rosa desenhada com giz por cima da pilha de pedras.

— A entrada é aqui. A Jolie usa sempre giz cor-de-rosa.

Seichan juntou-se a ele e localizou um túnel baixo escondido pela sombra das pedras.

Renny enfiou-se de gatas através da abertura. Seichan seguiu-o. Passados alguns metros e duas curtas descidas, a passagem abria-se para outro túnel.

Quando Seichan se levantou, viu mais poços e passagens laterais mais pequenas que seguiam em todas as direções.

Renny tocou com a palma da mão na humidade que ressumava da parede de calcário.

— Esta é certamente uma secção muito antiga das catacumbas. E, ao que parece, parte daqui um labirinto abafado. — Contorceu-se e esforçou-se por erguer a t-shirt. — Vê o mapa.

Ela assim fez, mas a tatuagem terminava precisamente no local onde se encontravam. Um primeiro exame dos túneis não revelou quaisquer outras pistas desenhadas a giz que indicassem o caminho que Jolie poderia ter seguido.

Ao que tudo indicava, a partir dali estavam por sua conta.

— O que fazemos? — perguntou Renny, com o medo pelo que poderia ter acontecido à namorada a gelar as suas palavras. — Por onde vamos?

Seichan escolheu um túnel e avançou.

— Porque vamos por aqui? — perguntou ele, apressando-se atrás dela.

— Porque não?

Na verdade, havia um motivo por trás da sua decisão. Seichan tinha escolhido aquela passagem porque era a única que descia. Por aquela altura, já se tinha tornado claro que aqueles rastejadores de túneis eram atraídos para as regiões mais profundas do mundo, impelidos pela curiosidade pelo que haveria mais abaixo. Tais buscas obrigavam-nos sempre a descer mais fundo. Só depois de alcançarem o fundo, começavam a explorar para os lados.

Esperava que isso também se aplicasse a Jolienne.

Alguns passos depois, contudo, Seichan começou a lamentar a sua escolha. De ambos os lados, nichos profundos tinham sido completamente cheios de antigos ossos humanos, escurecidos e amarelecidos como um velho pergaminho. Os esqueletos tinham sido desarticulados e separados nos seus componentes, como se tivessem sido inventariados por um contabilista macabro. Um nicho só tinha braços, delicadamente empilhados uns sobre os outros; outro estava repleto de costelas. Foram os dois últimos nichos — um de cada lado da passagem — que mais a perturbaram. Duas paredes de crânios fitavam o túnel, parecendo desafiá-los a passar pelo seu olhar vazio.

Seichan avançou rapidamente com um arrepio de pavor.

O túnel terminava numa câmara cavernosa. Ainda que o teto não fosse mais alto do que a passagem, estendia-se para fora, para uma grande sala do comprimento de um campo de futebol. Filas e filas de pilares sustentavam o teto, como um pomar de pedra. Cada um deles era composto por blocos de pedra, uns em cima dos outros. Vários pareciam tortos e prestes a cair.

— Este é o trabalho ancestral de Charles Guillaumot — disse Renny, falando num tom nervoso e sussurrado. — Em 1774, uma grande secção das catacumbas colapsou, engolindo várias ruas e matando imensas pessoas. Depois disso, o rei Luís contratou um arquiteto, Guillaumot, para escorar as catacumbas. Este tornou-se o primeiro verdadeiro cataphile. Mapeou e explorou grande parte dos túneis e mandou colocar estes grandes pilares. Não que tenham deixado de ocorrer desmoronamentos. Em 1961, o solo abriu-se e engoliu todo um bairro parisiense, matando uma data de pessoas. Ainda hoje ocorrem desabamentos todos os anos. É um grande perigo aqui em baixo.

Seichan só ouvira metade da história de Renny. Um brilho num dos pilares chamara a sua atenção. O seu reflexo era demasiado brilhante para aquele local húmido e sombrio. Aproximou-se do pilar e descobriu um anel de fios a envolver o centro das pedras empilhadas, ligando transmissores e detonadores a blocos de barro cinzento-amarelado.

Explosivos C-4.

Aquele não era o trabalho de um arquiteto francês do século XVIII.

Examinou a bomba, tendo o cuidado de não lhe tocar. Uma pequena luz LED vermelha brilhava no transmissor aguardando um sinal. Tapou com a mão a luz da lanterna e fez sinal a Renny que fizesse o mesmo com a lanterna do capacete.

A sala mergulhou na escuridão. Enquanto os seus olhos se ajustavam à escuridão, reconheceu as luzes reveladoras que brilhavam por toda a sala, centenas delas, projetadas dos pilares por toda a parede. A sala tinha sido integralmente armadilhada para explodir.

— O que é tudo isto? — sussurrou Renny ao lado dela.

— A purga de Vennard — resumiu Seichan, imaginando a movimentada cidade por cima deles.

Perguntou-se quantas câmaras ao longo daquela necrópole estariam igualmente armadilhadas com explosivos. Lembrou-se de Renny ter referido uma suposta fuga de gás. Um tal ardil teria sido uma boa maneira de evacuar as catacumbas, deixando o culto livre para colocar as cargas de explosivos ao longo daquele mundo subterrâneo.

Renny devia ter temido o mesmo. A sua voz tornou-se mais sombria com a implicação.

— Podem provocar o desmoronamento de metade da cidade de Paris.

Claude Beaupré dissera que Vennard queria um sacrifício humano, a fim de anunciar o nascimento de um novo rei-sol com fogo e sangue. Ali estava o plano prestes a ser posto em prática.

Enquanto Seichan mantinha a mão sobre a lanterna, os seus olhos habituaram-se o suficiente para se aperceberem de um ténue brilho do outro lado da sala, assinalando a entrada para um túnel do lado oposto.

Continuou através da câmara, dirigindo-se para essa luz. Empunhou a pistola e apontou-a para a frente, mantendo a lanterna na outra mão, permitindo apenas luz suficiente para evitar obstáculos. Renny continuava atrás dela com a luz do capacete apagada.

O túnel do lado oposto era um espelho do primeiro. Os ossos enchiam os nichos; os esqueletos, uma vez mais, tinham sido desmembrados e separados por partes. Só que estes ossos eram brancos. Não havia qualquer pátina da idade. Com horror crescente, apercebeu-se de que não estavam a olhar para cadáveres antigos — aqueles eram os restos mortais de vítimas recentes.

Um nicho, com um metro de profundidade, estava meio repleto de crânios.

Um trabalho em curso.

Pelo seu tamanho diminuto, apercebeu-se de que alguns daqueles crânios tinham pertencido a crianças, algumas de colo.

Antes de ter terminado as suas instruções pelo telefone, Claude falara de um ato hediondo cometido pelo antigo cabecilha da Ordre du Temple Solaire no Quebeque. O homem tinha sacrificado o próprio filho, apunhalando-o com estacas de madeira, por acreditar que a criança era o Anticristo. Ao que parece, o gosto da ordem pelo infanticídio não se limitara a esse caso isolado.

O túnel terminava depois de mais uma curva. A partir dali ecoavam vozes como se proviessem de um outro espaço cavernoso. Seichan fez sinal a Renny para se manter atrás. Avançou cautelosamente, colada à parede, e espreitou na esquina.

Mais uma sala — mais pequena, mas igualmente pontuada por colunas — abria-se à sua frente. Só que os pilares desta sala eram colunas de calcário naturais, deixadas para trás à medida que os mineiros iam escavando a câmara, dando ao espaço um ar mais antigo. Mas, como os outros, aqueles pilares tinham sido igualmente decorados com cargas explosivas.

No centro da sala, Seichan conseguia distinguir vinte pessoas num círculo, todas de joelhos — mas não estavam vestidas com trajes cerimoniais. Envergavam roupa de todos os dias. Um casal, de braço dado, envergara roupa mais formal para a ocasião. Alguns pareciam drogados, oscilando lentamente no local onde estavam ajoelhados ou com as testas encostadas ao chão. Três corpos jaziam caídos mais perto do túnel onde Seichan se escondida: de barriga para baixo, em poças de sangue escuro como petróleo contra a rocha. Pareciam ter sido atingidos a tiro pelas costas, ao tentarem fugir à destruição que se aproximava, tendo-se provavelmente arrependido da ideia de abdicarem das suas vidas numa orgia suicida.

Um par de guardas, de espingardas de assalto e envergando coletes Kevlar, colocara-se um de cada lado do grupo reunido, à sombra dos pilares, observando o grupo, prontos para desencorajar quaisquer outros desertores.

Seichan ignorou-os de momento e concentrou-se nas duas figuras que se erguiam no centro do círculo. Uma, de cabelo grisalho e feições gaélicas, envergava uma túnica branca com capuz, resplandecente sob a luz projetada por um candeeiro de sódio próximo. Seichan conseguia ouvir o som suave do gerador que alimentava a sala. O homem, de braços erguidos, sorriu beatificamente ao seu rebanho.

Aquele deve ser Luc Vennard.

— Chegou a hora — entoou em francês. — Quando o sol atingir o seu zénite, a destruição aqui forjada começará. Os gritos dos moribundos, as almas dos mortos em ascensão, irão elevar-vos a todos até à próxima fase exultante da existência. Tornar-se-ão os meus anjos negros, enquanto reclamo o meu trono solar. Garanto-vos: este não será o fim, mas apenas o início para todos nós. Agora tenho de vos deixar, mas o meu braço direito espiritual irá tomar o meu lugar e guiar-vos para fora da escuridão e para o dealbar de uma nova era.

O homem afastou-se, claramente planeando abandonar o rebanho. Pela maneira como Vennard lançou um olhar na direção dos dois homens armados, parecia que não ia ficar para as festividades e que tinha arranjado quem o guiasse até ao exterior das catacumbas — não fosse dar-se o caso de o rebanho se opor à sua partida. Seichan desconfiava que as contas bancárias dos que ali se reuniam tinham sido esvaziadas para os cofres de Vennard, prontas para financiar a próxima aventura, para espalhar ainda mais a influência da Ordem do Templo Solar — ou talvez para comprar o novo iate que tinha debaixo de olho.

Seria ele um fanático, um burlão ou simplesmente um assassino em série da pior espécie?

Tendo em conta as órbitas vazias dos mortos que a fitavam do nicho próximo, desconfiava que a resposta seria todas as anteriores.

Vennard acenou ao segundo homem para que avançasse. Já na casa dos trinta, envergava roupa comum, o seu rosto brilhava de suor, os olhos estavam vidrados pelo que parecia uma mistura de drogas e adoração. Mesmo sem a fotografia que Claude tinha deixado no quarto de hotel, Seichan teria reconhecido o filho do historiador, tanto pelas feições patrícias como pelo ar aristocrático que partilhava com o pai. Seichan imaginou Claude a encher o filho com histórias de títulos nobiliárquicos passados e heranças perdidas, instilando no rapaz a mesma sensação de prerrogativa amarga que o motivava. Mas enquanto o pai procurara consolo no abraço da história, parecia que o filho olhara para o futuro em busca do seu próprio caminho para essa antiga glória.

E encontrara-o ali.

— Gabriel, como o anjo de igual nome, serás transformado pelo sangue e pelo sacrifício no meu anjo guerreiro, o mais exultante da minha nova legião celestial. E a tua arma será uma espada de fogo. — Vennard afastou o manto para revelar uma espada curta, de aço. Parecia uma antiguidade, uma peça de museu. — Como tu, este aço arderá em breve com as energias da fornalha do sol. Mas primeiro essa arma terá de ser forjada, preparada para a sua transformação. Deverá ser coberta de sangue, como todos vocês. Esta última morte pela tua mão, este sacrifício único, irá anunciar os que estão por vir. Esta honra te concedo, meu anjo guerreiro, meu Gabriel.

Vennard ergueu a espada e ofereceu-a ao jovem.

Gabriel pegou nela e ergueu-a bem alto, depois os dois homens afastaram-se, revelando um altar baixo atrás deles. Tinha o seu próprio holofote.

Uma mulher de cabelo preto estava acorrentada à pedra, nua, as pernas abertas, os braços esticados. Um segundo sacrifício — de cabelo louro e pálido — estava de joelhos, não muito longe, estremecendo num fino vestido branco.

No altar, a cabeça da mulher oscilava num torpor drogado. Mas devia ter sentido o que estava para vir e lutou contra as correntes quando Gabriel se virou para ela com a espada. Desviou-se o suficiente para o lado para revelar o rosto da mulher — mas as tatuagens no corpo tinham sido suficientes para a identificar.

Pelo menos para um deles.

— Jolienne!

O grito de Renny atravessou o túnel como um tiro de besta.

Todos os olhos se viraram na sua direção.

Antes de Seichan se conseguir mover, uma figura corpulenta avançou para a abertura do túnel — um terceiro guarda. Tinha-se mantido oculto num dos lados, garantindo que ninguém saía. Seichan amaldiçoou silenciosamente Renny. Sem tempo para conceber uma estratégia, tinha de improvisar.

Quando o guarda ergueu a espingarda, Seichan deu-lhe um tiro no joelho. O estalido da pistola foi explosivo no espaço confinado. A tão curta distância, a bala de calibre .357 fez explodir a rótula do homem numa névoa de sangue e osso.

Seichan saltou quando o guarda gritou e se inclinou para a frente. Agarrou-o, envolvendo-o com um braço como um amante há muito perdido, e usou o impulso para o levar para o interior da câmara. Apontou a SIG Sauer para lá do seu corpo, na direção do guarda da direita, quando este se afastou do pilar. Atingiu-o no rosto.

Gritos irromperam por toda a sala. O rebanho correu para todos os lados, como um bando de codornizes assustadas. O guarda que restava disparou na sua direção, metralhando loucamente, mas Seichan usou o seu novo «amante» como escudo, avançando sem parar. As balas cravaram-se na armadura de Kevlar do homem, mas uma delas atingiu-o na parte de trás da cabeça. O seu corpo, que até aí se debatia, ficou subitamente mole.

Seichan carregou o peso morto mais dois passos, o suficiente para conseguir um bom ângulo a coberto do pilar. Disparou na direção do homem exposto, apertando o gatilho duas vezes. Acertou na orelha do homem, lançando a sua cabeça para trás. O segundo tiro acertou-lhe na garganta exposta, cortando-lhe a coluna. Ele desabou no chão.

Seichan largou o guarda que tinha nos braços e assumiu uma postura de atirador, apontando na direção do altar. Vennard tinha-se refugiado atrás dele. Gabriel, ainda atordoado e lento a reagir devido às drogas que ingerira, parecia confuso. Continuava a empunhar a espada junto à garganta da mulher. Um fio de sangue corria do ponto onde a lâmina afiada já cortara a pele macia.

O outro sacrifício, agora livre, ergueu-se de um salto e fugiu. Seichan acenou à mulher loura para que se dirigisse à saída, quando esta correu na sua direção… só demasiado tarde Seichan se apercebeu do punhal apertado na mão da mulher.

Com um grito de raiva, a jovem mergulhou na direção de Seichan.

Incapaz de se afastar a tempo, Seichan virou-se de lado, pronta para receber o golpe no ombro em vez de num ponto mais vital.

Revelou-se desnecessário.

Antes de o punhal a atingir, algo voou sobre o ombro de Seichan e acertou no rosto da mulher. Um crânio humano, branco, ressaltou no chão de pedra e rolou para longe. Pelo canto do olho, viu Renny correr na sua direção, apertando nas mãos outro crânio. Claramente retirara de um dos nichos as armas que tinha à mão.

O seu ataque fez a mulher tropeçar, o suficiente para Seichan virar a pistola e disparar à queima-roupa contra o seu peito. O impacto derrubou a atacante. Esta deslizou pelo chão, com uma flor de sangue a iluminar a parte da frente do seu vestido branco.

Renny correu para ela. Atirou o crânio para o lado e apanhou do chão uma das espingardas de assalto dos guardas, mas, pela forma desajeitada como lhe pegava, parecia que se sairia melhor com o crânio. Renny fitou a mulher morta, o seu rosto uma máscara de confusão. O motivo para aquela confusão tornou-se claro um segundo depois.

Do altar, Gabriel gritou, a dor trespassando o seu torpor drogado.

Liesl!

Seichan reconheceu o nome. Era a rapariga alemã que Renny tinha mencionado durante o relato do desaparecimento de Jolienne. As duas tinham ido até ali, explorando juntas, quando Jolienne desaparecera. Parecia agora que as circunstâncias que rodeavam o seu desaparecimento não eram tanto uma questão acidental quanto supusera inicialmente. A namorada de Renny não tinha tropeçado por acaso com o local do culto, tinha sido atraída para ali por Liesl, como uma vaca para o matadouro, a fim de ser o derradeiro sacrifício.

Non! — uivava Gabriel de coração partido. Com os olhos fixos no corpo, caiu de joelhos, a espada tilintando contra o altar.

Outros elementos do rebanho começaram a correr pelo túnel, abandonando o seu líder. Mas Vennard não ia desistir assim tão facilmente.

De um bolso da túnica, retirou o que parecia ser um transmissor. Uma luz verde brilhava no topo. Com um dedo carregava num botão.

— Se eu largar o botão, morremos todos — disse calmamente, a sua voz ressoando com uma qualidade hipnótica que facilmente teria convencido os mais crédulos. Contornou o altar. — Deixem-me ir. Até podem seguir-me para o exterior, se quiserem. E podemos sobreviver todos.

Seichan recuou e fez sinal a Renny para que se afastasse. Apesar da visão grandiosa de Vennard, este não era suicida. Seichan acreditou no que lhe dizia. Não faria explodir as catacumbas, pelo menos até estar a salvo.

Vennard estudou-a, tentando lê-la. Um bom líder de culto precisava de um olho arguto para avaliar as pessoas, para prever as suas ações. Avançou lentamente, passo a passo, em direção à saída, empurrando Seichan à sua frente.

— Tu queres viver tanto quanto qualquer um de nós, Seichan. Sim, demorei um pouco, mas reconheci-te. Pelo que li, sempre foste razoável. Nenhum de nós tem de morrer…

Uma espada irrompeu no meio do seu peito, impelida com força por trás.

Todos temos de morrer! — gritou Gabriel, enquanto Vennard caía de joelhos. — Liesl não pode ascender sem o sacrifício adequado. Sangue e fogo. Foste tu quem o disse. Para nos tornarmos os anjos que prometeste!

Gabriel empurrou ainda mais profundamente a espada, com a loucura, o sofrimento e a exaltação a brilharem no seu rosto. O sangue jorrou da boca de Vennard.

Seichan largou a pistola e mergulhou para a frente, agarrando o transmissor com as duas mãos. Conseguiu colocar o dedo sobre o gatilho antes que Vennard o pudesse largar. Cara a cara, ele fitava-a, os olhos brilhantes de incredulidade e choque — mas também com compreensão.

No final, tinha colhido o que semeara.

Gabriel puxou o punho da espada para trás e pontapeou o corpo de Vennard para libertar a lâmina. Seichan caiu de costas, ficando presa quando o líder do culto caiu em cima dela. Gabriel ergueu a espada bem alto com as duas mãos, pronto a mergulhá-la em Seichan.

Mas Renny aproximou-se dele por trás e bateu-lhe na nuca com a coronha da espingarda. Os olhos de Gabriel reviraram-se e o seu corpo caiu no chão.

— Que maluquinho — disse Renny.

Avançou para ajudar Seichan a erguer-se, mas esta acenou na direção do altar.

— Vai libertar a Jolienne.

Ele fitou o transmissor que Seichan apertava nas mãos.

— Já acabou?

Seichan viu o brilho do aço por cima do lenço dele.

— Ainda não.

Com o sol do meio-dia a erguer-se bem alto sobre a sua cabeça, Seichan esperou ao lado de um Peugeot 508 sedan em frente ao Ritz Paris. O carro de aluguer tinha sido contratado pelo doutor Claude Beaupré para os transportar do Quartier Latin até ao ponto de encontro no hotel.

Como precaução, Seichan mantivera o veículo entre ela e as portas do hotel. Além disso, dissera a Renny que ficasse no centro da Place Vendôme. Jolienne estava em segurança num hospital local, para lhe tratarem o corte no pescoço. Renny quisera ficar com ela, mas Seichan ainda precisava dele.

As portas do Ritz Paris abriram-se finalmente e deixaram sair um trio de figuras. No centro avançava Claude, de novo vestido de tweed, mas usava um chapéu num ângulo inclinado que lhe mergulhava as feições nas sombras, claramente tão cauteloso quanto Seichan em relação àquele encontro público. Não seria bom para ele ser associado a um assassino da Guilda transformado em traidor. Estava acompanhado por dois homens corpulentos, um de cada lado, com fatos pretos e sobretudos compridos, que escondiam, claramente, um arsenal de armas nas suas pregas.

Claude dirigiu-lhe um ligeiro aceno de cumprimento.

Seichan contornou a traseira do sedan para o cumprimentar. Manteve as mãos visíveis, não representando qualquer ameaça. Claude fez sinal aos dois homens para que ficassem no passeio enquanto se juntava a ela na parte de trás do carro. Levava consigo uma pasta de cabedal preto Louis Vuitton.

O historiador ergueu os olhos semicerrados para o céu luminoso, protegendo os olhos com a mão livre.

— É meio-dia e Paris ainda está de pé. Presumo que isso signifique que o plano de Vennard falhou, a sua grande purga foi esmagada.

Seichan encolheu os ombros. Por aquela altura, os cataflics de Renny, a polícia de elite daquele mundo subterrâneo, estavam muito provavelmente a percorrer as catacumbas, acompanhados pelos démineurs da cidade, a brigada de minas e armadilhas.

— Então e o senhor Vennard? — perguntou Claude.

— Morto.

Um breve sorriso de satisfação aflorou o seu belo rosto. Olhou de relance para os vidros escuros do sedan.

— E, de acordo com o seu breve telefonema, resgatou o meu filho.

Seichan avançou para a traseira do Peugeot sedan e carregou no zero do emblema prateado do 508 junto à luz traseira. O botão escondido fez abrir o porta-bagagens. No seu interior espaçoso estava Gabriel Beaupré, os membros presos com fita adesiva e uma mordaça de bola segura com o lenço de caxemira de Seichan. Gabriel estremeceu perante a luminosidade súbita, depois debateu-se quando viu o pai.

Interrompendo a reunião de família, Seichan fechou o porta-bagagens. Não queria que ninguém que por ali passasse se apercebesse do que estava a acontecer. Nem Claude, que não levantou qualquer objeção ao gesto abrupto. Não se atreveria a tentar libertar o filho preso no porta-bagagens num local tão público.

— Como pode ver, Gabriel está bem — disse ela, e ergueu o comando eletrónico do sedan. — E aqui está a chave para a sua liberdade.

Claude levou a mão ao comando, mas ela afastou-o.

Mais devagar.

Seichan baixou a gola do casaco e expôs o aço por baixo.

— Então e isto? — Também acenou para Renny, que ainda tinha o lenço no lugar. — Uma troca de chaves. A liberdade do seu filho pela nossa.

Oui. Foi esse o acordo. Sou um homem de palavra. — Levou a mão ao bolso e retirou um keycard de hotel. Pousou-o sobre o porta-bagagens. — No interior do quarto irá encontrar aquilo de que precisam para se libertarem.

Claude deve ter lido a desconfiança no rosto dela e sorriu tristemente.

— Não tema. As vossas mortes não me serviriam de nada. De facto, planeio lançar a culpa pela perda de Vennard sobre os seus ombros traiçoeiros. Com a Guilda atrás de si, nenhuma suspeita recairá sobre mim. E quanto mais depressa correr, ma chére amie, melhor para todos nós. Mas, num sinal adicional de boa-fé, eis a prometida recompensa.

Atirou a pasta para cima do porta-bagagens e passou a mão pela luxuosa superfície de pele.

— O melhor da Vuitton. A pasta Président Classeur. Pode ficar com ela. —Sorriu-lhe com uma expressão de diversão e orgulho francês. — Mas desconfio que o que está no seu interior é o verdadeiro preço pela liberdade do meu filho. Uma pista quanto aos líderes sombrios da Guilda.

Abriu a pasta, revelando uma pilha de ficheiros no seu interior. Na pasta de cima, impressa na capa, estava a imagem de uma águia de asas abertas, segurando entre as garras de uma das patas um ramo de oliveira e entre as da outra um feixe de flechas. Era o Grande Selo dos Estados Unidos.

Mas o que teria aquilo a ver com a Guilda?

Ele fechou a pasta e empurrou-a na sua direção.

— O que fizer com esta informação, para onde ela a conduzirá, será um território muito perigoso — avisou. — Talvez fizesse melhor em virar-lhe simplesmente as costas.

Nem pensar.

Seichan pegou na pasta e no keycard do hotel. Com os prémios na mão, deixou o comando do sedan em cima do porta-bagagens e recuou para o passeio, ficando fora do alcance dos guardas de Claude.

O historiador não fez qualquer movimento para agarrar na chave do sedan. Em vez disso, pousou ternamente a palma da mão no porta-bagagens. Fechou os olhos de alívio à medida que a tensão saía dos seus ombros. Já não era um associado da Guilda, apenas um pai aliviado com o regresso em segurança do filho pródigo. Claude inspirou longamente, depois fez sinal a um dos seus homens para que pegasse na chave e ocupasse o lugar do condutor. Os guardas sentaram-se nos lugares da frente, Claude enfiou-se na parte de trás, talvez para ficar mais perto do filho.

Seichan esperou que o sedan arrancasse e avançasse rua abaixo.

Quando o carro desapareceu, Renny atravessou a rua para se juntar a ela.

— Conseguiste o que querias?

Seichan acenou com a cabeça, imaginando o alívio que Claude devia estar a sentir. Para segurança do filho, o historiador não podia correr o risco de Seichan querer analisar os papéis antes dele. Tinham de ser autênticos.

— Achas que podemos confiar nele? — perguntou Renny, tocando no lenço.

— Isso é o que vamos ver.

Enquanto ambos olhavam para o outro lado da praça, Renny tirou o lenço de caxemira e revelou um segredo bem guardado, um segredo que Seichan tinha guardado de Claude.

O pescoço de Renny estava nu.

Esfregou a marca vermelha do choque que recebera há algumas horas.

— Foi bom tirar esta porcaria.

Seichan concordou. Levou a mão ao pescoço e retirou a sua própria coleira. Baixou os olhos para a luz LED verde. Depois da morte de Vennard, tinha-se descoberto com uma hora extra antes do prazo do meio-dia. Aproveitando o tempo adicional nas catacumbas, Seichan tinha apelado à rede de recursos de Renny. Este gabara-se de que os seus parceiros cataphiles vinham de todo o mundo e de todos os sectores da sociedade.

Seguindo as suas instruções, Renny fizera soar o pedido de ajuda. Um dos seus irmãos cataphile respondeu, um especialista em engenharia eletrotécnica e microdesign. Conseguiu retirar-lhes as coleiras e remover da de Seichan o mecanismo responsável pela descarga elétrica. Tudo isso foi realizado no subsolo, onde era pouco provável que Claude conseguisse receber quaisquer avisos emitidos pelas coleiras.

Uma vez livre, Seichan arriscou uma tentativa de deitar as mãos à pasta.

Enquanto fitava a coleira, a pergunta inicial de Renny bailava-lhe na mente: Seria possível confiar em Claude?

A resposta surgiu um instante depois.

A luz verde da sua coleira passou para vermelha ao receber o sinal transmitido, porém, com o mecanismo de choque neutralizado, não havia perigo.

Pelo menos para ela.

Ao longe, uma explosão tremenda ecoou pela cidade. Olhou na direção seguida pelo sedan e viu uma coluna de fumo oleoso subir na direção do céu azul-vivo.

Afinal, parecia que não se podia confiar em Claude. Aparentemente, apesar dos seus argumentos em contrário, era demasiado perigoso deixá-la viver, e ele tinha transmitido a ordem fatal para as coleiras.

Uma má jogada.

Ela dera a Claude a oportunidade para fazer a coisa certa.

Ele não a aceitara.

Imaginou o lenço que segurava a mordaça de Gabriel. Escondida por baixo da caxemira e cuidadosamente apertada em redor da boca e da cabeça do jovem estava a coleira eletrónica que fora de Renny. A mordaça em si era uma bola formada com C-4 moldado, retirado de uma das cargas de explosivos das catacumbas. A coleira tinha sido ligada ao detonador. Se e quando a coleira eletrónica fosse acionada, despoletaria a explosão do C-4. Tinha calculado a quantidade e a forma do explosivo de tal modo que levasse consigo o sedan e os seus ocupantes com poucos danos colaterais.

Seichan suspirou, sentindo uma pontada de arrependimento.

Era um bom carro.

Renny fitou boquiaberto o sinal de fumo nos céus, em choque, com uma mão a apertar a garganta. Por fim, desviou os olhos e fitou-a.

— Então e agora?

Ela lançou a coleira para uma papeleira próxima e tomou o peso à pasta. Lembrou-se das últimas palavras que Claude Beaupré lhe dirigira. O que fizer com esta informação, para onde ela a conduzirá, será um território muito perigoso.

Enquanto lhe virava costas, Seichan respondeu à pergunta de Renny.

Então e agora?

— Agora vem a parte difícil.