Capítulo 13
Cheesecake de Limão com Uvas
Ingredientes
1 chávena e 1/2 de bolacha integral moída
1 chávena de açúcar granulado, em partes separadas
1 colher de chá de canela
6 colheres de sopa de manteiga sem sal (derretida)
2 x 8 onças (2 chávenas) de queijo-creme
1/4 de chávena de sumo de uva branca
Sumo e raspa de um limão
2 ovos
Preparação
1.Pré-aqueça o forno a 190 °C. Misture a bolacha moída com meia chávena de açúcar, canela e manteiga derretida até obter uma massa homogénea. Espalhe uniformemente numa forma para tartes com 20 cm de diâmetro.
2.Leve a massa ao forno durante seis minutos. Em seguida, retire-a do forno e deixe arrefecer.
3.Reduza a temperatura do forno para 150 °C.
4.Numa tigela de tamanho médio, bata o queijo-creme, utilizando uma batedeira elétrica, até ficar suave. Continue a bater introduzindo lentamente o açúcar restante. Adicione gradualmente o sumo de uva, o sumo de limão, a raspa de limão e os ovos e bata até a massa ficar bem homogénea.
5.Coloque a base de bolacha, depois de arrefecida, num tabuleiro. Verta a mistura do queijo-creme sobre a base.
6.Leve ao forno durante quarenta minutos, ou até o centro da base de bolacha estar bem cozinhada.
Rose
Annie visitara-a naquele mesmo dia; Rose tinha a certeza. Não conseguia, porém, entender o que ela lhe dissera.
– A mãe está em Paris agora mesmo – declarara Annie, com os seus olhos cinzentos brilhantes de entusiasmo. – Deixou-me uma mensagem! Disse que talvez tenha, tipo, descoberto alguma coisa!
– Que bom, querida – respondera Rose, mesmo não sabendo exatamente quem era a mãe de Annie. Seria sua familiar? Ou talvez uma das clientes da confeitaria? Não conseguiu, porém, comunicar àquela menina que não se lembrava da sua mãe. Preferiu perguntar: – E a tua mãe encontrou algum artigo bonito numa boutique? Um lenço ou, talvez, um par de sapatos? – Paris era, afinal, célebre pelas suas lojas.
Nesse momento, Annie rira-se, emitindo um som vibrante que fez lembrar a Rose os pássaros que, noutros tempos, cantavam habitualmente à sua janela na rue du Général Camou.
– Não, Mamie! – exclamara. – Ela foi visitar o Museu do Holocausto! Bem sabes que foi tentar descobrir o que aconteceu às pessoas de que nos falaste!
– Oh… – murmurara Rose, sentindo-se repentinamente asfixiada.
Annie partira pouco depois, e Rose ficara entregue aos seus pensamentos, que a afligiam cada vez mais. As palavras daquela menina haviam desencadeado um turbilhão de memórias que ameaçava arrebatá-la e levá-la para longe, para o passado, onde ultimamente se perdia cada vez mais. Na maior parte dos dias, as memórias surgiam abundantemente, sem aviso, mas neste dia, foram as referências a Paris e ao Holocausto, a Shoah, que a precipitaram numa viagem ao passado, àquele dia terrível de 1949 em que o seu querido Ted, de regresso a casa, confirmara os seus piores receios.
Amava o marido. E, precisamente porque o amava, falara-lhe de Jacob. Sabia que devia ser sincera com as pessoas que amava. E ela fora sincera, mas apenas até certo ponto. Dissera a Ted que havia amado muito um homem em Paris. Não era preciso dizê-lo; ela sabia tê-lo deixado já bem claro.
Contudo, quando ele lhe perguntara quem mais amava, ela desviara o olhar. E ele ficou a saber. Talvez soubesse desde sempre.
Ela preferiria que não fosse assim. Ted era um homem maravilhoso. Era um pai extraordinário para Josephine. Era honrado e leal. Proporcionava-lhe uma vida com que ela nunca sonhara em todos os anos passados na sua cidade natal.
Mas não era Jacob. E esse era o seu único defeito.
Nos primeiros anos após a guerra, preferira não saber o que acontecera. Pelo menos oficialmente. Depois do casamento com Ted, quando moravam em Nova Iorque, não muito distante da Estátua da Liberdade, tivera conhecimento de outros imigrantes que chegavam, meio perdidos, de França. Consideravam-se sobreviventes. Rose via-os, ao invés, como fantasmas, pessoas sem vida. Pálidas, exaustas, de olhos cavos, pairando pelo mundo como se não lhe pertencessem.
Conheci a sua mãe, diria um dos fantasmas. Vi-a morrer em Auschwitz.
Vi a doce menina Danielle em Drancy, diria outro. Não sei se chegou a ser deportada para um campo.
E, depois, a notícia que a destroçou, dada por um fantasma chamado Monsieur Pinusiewicz, que conhecera noutra vida. Era o proprietário do talho ao fundo da rua da confeitaria dos seus avós.
Aquele rapaz que a acompanhava para todo o lado? Jacob?
Rose olhou-o fixamente. Não queria que ele continuasse, pois via a verdade nos seus olhos. Ela não aguentaria a notícia. Emitiu um som abafado, o único que o desespero lhe permitiu, e ele interpretou-o como um sinal de curiosidade.
Esteve em Auschwitz. Vi-o lá. E vi-o no dia em que o levaram para a câmara de gás.
Nada mais disse. O fantasma de Monsieur Pinusiewicz partiu, tal como a última réstia de esperança que Rose alimentava de, de uma forma ou de outra, reencontrar o seu passado.
Quando abandonou Nova Iorque, sabia que todos tinham partido. Os fantasmas tinham-na informado. Um vira o seu pai adoecer durante o trabalho no crematório de Auschwitz. Outro confortara a sua mãe junto ao leito de morte. Outro ainda havia trabalhado com Hélène e, certo dia, ao regressar dos campos de trabalho, sabendo-a doente a ponto de não conseguir sair da cama, encontrou-a espancada até à morte pelos guardas, com os seus bonitos cabelos castanhos ensopados de sangue. O destino dos restantes familiares era menos claro, e Rose não fez perguntas. O que contava era que estavam todos mortos. Todos.
Deste modo, quando Ted lhe prometera uma vida distante destes fantasmas de olhar vazio, distante de Nova Iorque, num local mágico chamado Cape Cod, onde, segundo ele, as ondas banhavam praias de areia fina e os arandos cresciam em pauis, ela disse que sim. Porque o amava. E porque precisava de concluir a sua transfiguração. Precisava de se centrar em construir uma família, pois a sua desaparecera para sempre.
Contudo, em 1949, sete anos depois de deixar Paris, sentira que era necessário tirar todas as dúvidas. Sabia que não lhe era possível sepultar Rose Picard sem a certeza que apenas os registos formais lhe podiam proporcionar. E se um dos fantasmas estivesse equivocado? E se a pequena Danielle tivesse sobrevivido e residisse num orfanato qualquer, convencida de que ninguém no mundo a amava? E se Hélène não tivesse morrido naquele dia e, tendo conseguido fugir, estivesse à espera de Rose, interrogando-se sobre o seu paradeiro? E se o fantasma que afirmou ter confortado a mãe no seu leito de morte tivesse confundido a sua identidade?
Rose, porém, não podia ir. Tinha sido um verdadeiro milagre, de resto, entrar nos Estados Unidos com os documentos falsos. Sabia que, provavelmente, as autoridades responsáveis pela imigração a ignoravam apenas porque se tinha casado com Ted, um herói de guerra. Já fora bafejada pela fortuna; agora, tinha a sua vida num novo país e uma filha pequena que precisava dela. Não confiava em França. Não acreditava que pudesse sair novamente. E receava, em todo o caso, que o seu coração não suportasse o regresso.
Pediu, pois, a Ted que fosse em seu lugar. E ele, porque a amava, e porque era um homem bom, acedeu.
Partiu numa quente segunda-feira de verão. Ela esperou, sentindo que os segundos eram minutos e os minutos eram horas. O tempo arrastava-se como os caramelos que ela, Ted e a pequena Josephine haviam experimentado na viagem a Atlantic City no verão anterior.
Quando ele finalmente regressou, já noite cerrada, naquela sexta-feira, sentou-se com ela, sob o calor quieto e húmido da noite de Cape Cod, e contou-lhe tudo.
Estivera na sinagoga que Rose tinha frequentado na infância. Foi profundamente doloroso receber a notícia de que a sinagoga fora destruída durante a guerra mas depois reconstruída, ficando como nova. Só ela podia entender que a reconstrução não traz de volta o passado. Nunca é possível recuperar o que se desmoronou.
– Morreram todos, Rose – disse-lhe ele delicadamente, fitando-a e segurando com firmeza as mãos dela, receando porventura que ela partisse, flutuando, como um balão com hélio a caminho das nuvens. – A tua mãe, o teu pai, as tuas irmãs, os teus irmãos. Todos. Lamento muito.
– Não… – foi tudo o que ela conseguiu balbuciar.
– Conversei com o rabino local – contou Ted serenamente. – Ele explicou-me como encontrar os registos. Sinto muito.
Ela manteve-se em silêncio.
– Queres saber o que lhes aconteceu, Rose? – perguntou Ted.
– Não. – Abanou a cabeça, afastou o olhar. Não suportaria saber. Receava que o seu coração se partisse em mil pedaços. Pensava que, de coração dilacerado, talvez morresse ali mesmo, à frente do marido, com a filha no andar de cima. – A culpa é minha – sussurrou.
– Não, Rose! – exclamou Ted. – Não te podes sentir assim. Não tens culpa de nada disto. – Ele abraçou-a, mas sentiu-lhe o corpo rígido, fechado.
Ela inclinou lentamente a cabeça contra o peito de Ted.
– Eu sabia – sussurrou. – Eu sabia que nos viriam prender. E não me esforcei o suficiente para salvar a minha família.
Percebia que era inevitável viver para sempre com aquele peso. Mas não o conseguia tolerar. Por isso havia encontrado refúgio em Rose Durand e, mais tarde, em Rose McKenna. Era impossível ser Rose Picard. Rose Picard morrera na Europa, muito tempo antes, com a sua família.
– A culpa não é tua – repetiu Ted. – Não podes continuar a censurar-te.
Ela anuiu, sabendo ser esse o comportamento que se lhe exigia. Afastou-se dele.
– E o Jacob Levy? – perguntou com uma voz neutra, olhando finalmente para Ted.
Desta vez, foi ele que afastou o olhar.
– Querida Rose – disse. – O teu amigo Jacob morreu em Auschwitz. Pouco tempo antes da libertação do campo.
Rose pestanejou algumas vezes. Sentiu-se como se alguém lhe submergisse violentamente a cabeça. De repente, deixou de ver, de respirar. Sentiu-se asfixiada.
– Tens a certeza? – perguntou, após um longo momento, recuperando o fôlego.
– Lamento – disse Ted.
E a conversa terminara. Nesse dia, o mundo tornou-se um lugar muito mais frio para Rose. Ela anuiu e afastou o olhar do marido. Não viria a chorar. Não o conseguiria fazer. Tinha já morrido interiormente, e chorar seria um sinal de vida. Como era possível viver sem Jacob?
Jacob sempre lhe dissera que o amor os salvaria. E ela acreditara. Não era, contudo, verdade. Ela fora salva, mas para que serviria existir sem ele? Que significado teria a sua vida?
Foi nesse momento que surgiu, pela porta entreaberta, Josephine, vestida com a camisa de noite cor-de-rosa, de algodão, que Rose lhe costurara, e agarrada à sua boneca Cynthia.
– O que se passa, Maman? – perguntou Josephine, à entrada do quarto, pestanejando com ar sonolento para os pais.
– Nada, querida – disse Rose, levantando-se e dirigindo-se rapidamente para a porta, onde se ajoelhou junto da filha. Fitou aquela menina e pensou que agora aquela era a sua família, que o passado ficava para trás, que esta vida a obrigava a reagir.
Mas concluiu-o racionalmente, sem emoção.
Depois de voltar a deitar Josephine, embalando-a com uma canção que a própria mãe lhe havia dedicado muitos anos antes, deitara-se ao lado de Ted, às escuras, até sentir o seu peito subir e descer serenamente e a sua mente entrar no domínio dos sonhos.
Rose levantou-se vagarosamente, em silêncio, e encaminhou-se para o corredor. Subiu a escada estreita para o pequeno miradouro gradeado construído no telhado da casa e deixou-se envolver pela tranquilidade da noite.
A lua cheia elevava-se sobre a baía de Cape Cod, e Rose conseguia ver o horizonte para além dos telhados das casas. A luz ténue da lua refletia-se na água e, se olhasse para baixo, Rose quase poderia acreditar que o mar tinha luz própria. Sucede, porém, que o que o mundo lá em baixo exibia não lhe interessava. Esta noite, procurava no firmamento as estrelas que tinha batizado. Maman. Papa. Hélène. Claude. Alain. David. Danielle.
– Lamento – sussurrou ao céu. – Lamento muito.
Não obteve resposta. Conseguia ouvir, a pouca distância, as ondas beijarem levemente a costa. O céu estava silencioso.
Percorria as estrelas com o olhar, murmurando pedidos de desculpa, até começar a despontar o dia no horizonte, a leste. Ainda assim, não o conseguia encontrar. Seria este o destino a que estava condenada? Perdê-lo para sempre?
– Jacob, onde estás? – gritou, em vão, ao céu.
Mas não obteve resposta.