Capítulo 27

O Jacob recusa passar pelo seu apartamento para fazer a mala; insiste em que cheguemos a Cape Cod o quanto antes, sem desperdiçar um minuto que seja.

– Preciso de a ver – diz, olhando alternadamente, com ar angustiado, para o Gavin e para mim. – Preciso de a ver o mais depressa possível.

Espero ao lado dele a chegada do Gavin, que se apressou a ir buscar o jipe; devido a uma prótese na anca, o Jacob não está apto para grandes correrias. Enquanto aguardamos, na parte norte do Battery Park, junto à estrada, ele fita-me como se tivesse visto um fantasma. Tenho muitas perguntas para lhe fazer, mas quero que o Gavin esteja presente para as ouvir.

– És minha neta – diz o Jacob delicadamente enquanto aguardamos. – Não és?

Aceno lentamente com a cabeça.

– Penso que sim. – Tudo isto me provoca uma sensação estranha; é-me impossível não pensar no homem que toda a vida tratei por avô. Tudo isto é muito injusto para com ele. Concluo, porém, que ele sempre soube o que sucedera; tivera de fazer a escolha consciente de perfilhar a minha mãe como se fossem do mesmo sangue, sabendo que o não eram.

– É muito parecido com a minha filha – reconheço.

– Tens uma filha?

– Sim – confirmo. – Chama-se Annie. Tem doze anos.

O Jacob segura a minha mão e olha-me nos olhos.

– E o teu pai ou a tua mãe? O filho que a Rose teve? Era um rapaz ou uma menina?

Ocorre-me pela primeira vez como é trágico o facto de a minha mãe ter morrido antes de conhecer o Jacob, provavelmente sem saber sequer que ele existia. É desolador perceber que o Jacob, por sua vez, nunca verá a filha que salvou à custa de tudo quanto possuía.

– Uma menina – digo serenamente. – Josephine.

José, o filho de Jacob, teve de ser salvo para preservar o legado. Recordo-me do cartaz que vimos na igreja, junto à I-95, e estremeço. A verdade esteve sempre por perto.

– Josephine – repete o Jacob lentamente.

– Morreu há dois anos – acrescento ao fim de alguns segundos. – De cancro da mama. Sinto muito.

O Jacob emite o som de um animal ferido e arqueia ligeiramente o corpo, como se algo invisível lhe tivesse aplicado um soco no estômago.

– Santo Deus – murmura instantes depois, endireitando-se novamente. – Lamento muito a tua perda.

– E eu a sua – digo, com lágrimas nos olhos. – Não consigo dizer-lhe quanto. – Os setenta anos perdidos. O facto de ele nunca ter conhecido a sua filha. A circunstância de, até este momento, ele ignorar que a Rose tinha sobrevivido.

Surge então o Gavin, que encosta junto ao passeio e sai para vir ter connosco. Entreolhamo-nos enquanto ajudamos o Jacob a sentar-se no banco de trás. Sento-me depois ao lado do Gavin que, depois de verificar os retrovisores, arranca apressadamente.

– Tentaremos que o senhor chegue a Cape o mais depressa possível – diz o Gavin, olhando pelo espelho para o Jacob, que ergue os olhos para o observar.

– Obrigado, jovem – diz o Jacob. – Posso perguntar-lhe quem é ao certo?

Rio-me, libertando a tensão, quando me apercebo de que não lhe apresentei o Gavin. Faço-o rapidamente, explicando ter sido ele a iniciar toda esta investigação, além de me ter ajudado hoje na minha procura.

– Obrigado por tudo, Gavin – diz o Jacob após o meu esclarecimento. – É marido da Hope, então?

O Gavin e eu olhamo-nos, constrangidos, e eu sinto-me corar.

– Bom… Não, senhor – respondo. – É apenas um bom amigo. – Volto-me novamente para o Gavin, mas ele limita-se a olhar em frente, concentrado na estrada.

Mantemo-nos em silêncio enquanto percorremos a West Side Highway, cruzamos a zona norte do Harlem pela I-95 e atravessamos a ponte para sair de Manhattan.

– Posso fazer-lhe uma pergunta, Mr. Levy? – pergunto, voltando-me para trás.

– Chama-me Jacob, por favor – diz. – É claro que também me podes chamar avô, mas provavelmente ainda é muito cedo para ti.

Engulo em seco. Compadeço-me do homem que sempre tratei por avô. Gostaria de ter sabido a verdade quando ele era vivo. Gostaria de lhe ter agradecido tudo o que terá feito para salvar a minha avó e a minha mãe. Gostaria de ter percebido mais cedo tudo o que ele deve ter perdido nesse caminho.

– Jacob – digo, após uma pausa. – O que aconteceu em França? Durante a guerra? A minha avó nunca nos falou sobre esse período; aliás, só há algumas semanas ficamos a saber que ela era judia.

O Jacob parece aturdido.

– Como foi isso possível? Qual era a história em que acreditavam?

– Quando veio de França – explico-lhe – o seu nome oficial era Rose Durand. Desde que me lembro que ela segue a igreja católica.

Mon Dieu – murmura o Jacob.

– Eu nunca soube o que lhe aconteceu durante o Holocausto – continuo. – Nunca nos falou sobre a família. Sobre si. Manteve tudo em segredo até há algumas semanas, quando me entregou uma lista de nomes e me pediu que fosse a Paris. – Descrevo-lhe sucintamente a minha visita a Paris, a descoberta do Alain, a viagem dele comigo para os Estados Unidos. Os seus olhos iluminam-se.

– O Alain está aqui? – inquire. – Nos Estados Unidos?

– Sim – confirmo. – É provável que esteja com a minha avó neste preciso momento. – Ocorre-me que tenho de telefonar ao Alain e à Annie, que tenho de lhes contar que encontrámos o Jacob. Contudo, por agora, quero desesperadamente ouvir esta história.

– Importa-se de nos contar o que aconteceu? Há muitas coisas que desconheço.

O Jacob assente mas, em vez de falar, olha pela janela. Mantém-se em silêncio durante bastante tempo, mas eu continuo voltada para trás, fitando-o. O Gavin observa-me.

– Sentes-te bem? – pergunta ele em voz baixa.

Aceno que sim e sorrio, concentrando-me novamente no banco de trás.

– Jacob? – digo serenamente.

Ele parece sair do seu transe.

– Sim, peço desculpa. Estou apenas atónito. – Aclara a garganta. – O que pretendes saber, querida Hope?

A forma como ele me fita é tão afetuosa que me enche, em simultâneo, de melancolia e felicidade.

– Tudo – murmuro.

E assim o Jacob começa a contar a sua história. Explica-nos como conheceu a minha avó e o Alain no Jardin du Luxembourg, na véspera de Natal de 1940, e declara-nos que, quando a viu pela primeira vez, soube que ela era o amor da sua vida. Diz-nos que, por essa altura, já colaborava com a Resistência, pois o seu pai também estava envolvido e ele acreditava que cabia aos judeus salvarem-se a si mesmos. Conta-nos ainda que ele e a minha avó idealizavam frequentemente um futuro juntos na América, onde poderiam viver em segurança e liberdade, onde as pessoas não eram perseguidas devido à sua religião.

– Parecia-nos um lugar mágico – diz, olhando pela janela. – Sei que, no mundo de hoje, os jovens tomam a liberdade como garantida. Tudo o que têm ao vosso dispor, todas as liberdades de que desfrutam, nascem convosco. No entanto, durante a Segunda Guerra Mundial, não tínhamos direitos. Durante a Ocupação alemã, nós, judeus, éramos considerados inferiores, vermes, pelos alemães e também por alguns franceses. Rose e eu sonhávamos com um lugar onde isso nunca aconteceria e, nos nossos planos, a América era o sítio ideal. Era a materialização do sonho. Planeávamos vir juntos, constituir família.

»Mas depois fomos atingidos por aquela noite terrível. A família de Rose não acreditava no que dizíamos, não acreditava que uma prisão em massa dos judeus se iria concretizar. Insisti em que ela viesse comigo, para proteger o nosso filho. Estava grávida de dois meses e meio. O médico confirmara-o. Ela sabia, tão bem como eu, que o mais importante era salvar o nosso filho, o nosso futuro. Assim, Rose fez a escolha mais difícil mas, na verdade, inevitável. Procurou refúgio.

Sinto-me começar a tremer. As palavras do Jacob, com a sua melodiosa pronúncia francesa, e a emoção da história permitem-me acompanhar os acontecimentos quase como se assistisse a um filme.

– Na Grande Mesquita de Paris?

O Jacob parece surpreendido.

– Estás mesmo bem informada – diz, fazendo depois uma pausa. – A ideia foi do meu amigo Jean Michel, que lutava comigo na Resistência. Ele já tinha ajudado várias crianças órfãs a fugir através da mesquita depois de os seus pais serem deportados. Sabia que os muçulmanos salvavam judeus, embora acolhessem sobretudo crianças. No entanto, Rose estava grávida e era, ela própria, muito jovem. Assim, quando Jean Michel contactou os líderes da mesquita e pediu ajuda, eles aceitaram ajudar-nos.

»A ideia era deixá-la na mesquita, onde eles a fariam passar por muçulmana durante algum tempo, talvez algumas semanas, eventualmente um mês, até ser seguro retirá-la de Paris. Em seguida, viajaria clandestinamente, com dinheiro que entreguei ao Jean Michel, para Lyon, onde a Amitié Chrétienne, a Irmandade Cristã, lhe daria documentos falsos e a enviaria mais para sul, possivelmente para um grupo chamado Œuvre de Secours aux Enfants, ou Organização de Assistência a Crianças. Ajudavam sobretudo crianças judias a chegar a países neutros, mas nós sabíamos que, muito provavelmente, aceitariam e apoiariam Rose, pois ela tinha apenas dezassete anos e estava grávida. Contudo, a partir daí, não sei ao certo o que aconteceu nem como conseguiu escapar. Sabes alguma coisa a esse respeito?

– Não – digo-lhe. – Mas acredito que ela tenha conhecido o meu avô quando ele combateu na Europa. Imagino que ele a tenha trazido para os Estados Unidos.

O Jacob parece sentir um golpe.

– Casou-se com outra pessoa – diz lentamente. Em seguida, aclara a garganta. – Pensando bem, ela acreditava certamente que eu tinha morrido. Eu pedi-lhe que fizesse tudo o que fosse preciso para sobreviver e para proteger o bebé. – Faz uma pausa e pergunta: – É um homem bom? O homem com quem ela casou?

– Era um homem muito bom – digo suavemente. – Morreu há muito tempo.

O Jacob assente e baixa os olhos.

– Sinto muito.

– E o que lhe aconteceu a si? – pergunto após uma longa pausa.

O Jacob olha demoradamente pela janela.

– Fui buscar a família da Rose. Ela tinha-mo pedido mas, na verdade, eu iria de qualquer maneira. Sonhava com um dia em que todos pudéssemos estar juntos, sem a sombra dos nazis. Acreditava que os podia salvar, Hope. Era jovem e ingénuo.

»Cheguei a meio da noite. Todas as crianças dormiam. Bati discretamente à porta, e foi o pai da Rose que a abriu. Mal me olhou, percebeu o que se passava. “Ela já partiu, não é verdade?”, perguntou-me. Eu disse que sim, que a tinha levado para um lugar seguro. Ele fitou-me com um ar de profunda desilusão. Ainda me recordo do seu rosto quando disse, “Jacob, és um irresponsável. Se tiveres provocado a sua morte, nunca te perdoarei.”

»Tentei convencê-lo, em vão, durante uma hora. Expliquei-lhe que a rusga teria início algumas horas depois. Disse-lhe que, segundo o jornal Université Libre, havia registos de aproximadamente trinta mil judeus, residentes em Paris, entregues aos alemães algumas semanas antes. Informei-o dos avisos emitidos pelos comunistas judeus, que falavam em extermínio, e assegurei-lhe que tínhamos de evitar, a todo o custo, ser presos.

»Ele abanou a cabeça e voltou a chamar-me irresponsável. Ainda que os rumores fossem verdadeiros, dizia ele, apenas seriam levados os homens. E certamente apenas os imigrantes. Por conseguinte, acreditava que a sua família não estava efetivamente em perigo. Assegurei-lhe que desta vez, segundo as informações de que eu dispunha, não seriam apenas os homens nem apenas os imigrantes. Além disso, visto que a mãe de Rose nascera na Polónia, algumas autoridades considerariam os seus filhos estrangeiros. Não podíamos correr esse risco. Mas ele não quis saber.

O Jacob suspira e interrompe a sua história. Olho para o Gavin e, quando ele se volta para mim, revela um rosto pálido e triste. Vejo lágrimas também nos seus olhos. Instintivamente, estendo a mão e coloco-a sobre a sua mão direita, que descansa sobre a perna. Por momentos, parece surpreendido, mas depois sorri, entrelaça os seus dedos nos meus e aperta-os suavemente. Pestanejo algumas vezes e viro-me para o banco de trás, para o Jacob.

– Não podia ter feito mais nada – digo-lhe. – Tenho a certeza de que a minha avó sabia que tinha tentado. E tentou.

– Sim – concorda o Jacob. – Mas não fiz o suficiente. Eu estava convencido de que a prisão em massa ia mesmo acontecer, mas não transmiti confiança suficiente para persuadir o pai da Rose. Tinha apenas dezoito anos, sabes? Era um rapaz. E, naquele tempo, um rapaz não conseguia impor as suas ideias a um homem mais velho. Penso muitas vezes que, se me tivesse esforçado um pouco mais, os poderia ter salvado a todos. Mas a verdade é que eu sabia que os rumores podiam ser falsos, pelo que não falei com a convicção necessária. Nunca me perdoarei por não ter sido mais insistente.

– A culpa não é sua – murmuro.

O Jacob abana a cabeça e baixa os olhos.

– É, querida Hope. Eu prometi à Rose que os manteria a salvo. E não o fiz. – Articula um som abafado e volta novamente a olhar pela janela. – Os tempos eram outros – continua o Jacob após uma longa pausa. – Mas era minha responsabilidade fazer algo mais. – Solta um suspiro longo e pesado e prossegue a sua história. – Depois de sair da casa da Rose, fui até minha casa. Estavam lá os meus pais, bem como a minha irmã mais nova, de apenas doze anos. O meu pai sabia, tão bem como eu, o que se avizinhava, e estava preparado. Fomos até ao restaurante de um amigo, no Quartier Latin, que aceitara esconder-nos na cave. Eu podia também ter levado a Rose, mas os riscos eram enormes; em breve, começar-se-ia a notar a gravidez, e eu sabia que, se ela fosse presa, a matariam muito rapidamente. Por esse motivo, tive de a retirar de França, colocá-la em algum lugar onde os alemães nunca a pudessem encontrar.

»Entretanto, o meu pai e eu concluímos que a solução mais segura para a nossa família consistia em esperarmos pacientemente a rusga, num esconderijo, e depois retomarmos a nossa vida, prestando sempre atenção a tudo o que ouvíamos para sabermos quando viriam os alemães. Naquela noite, em quase todo o dia seguinte e ainda num terceiro dia, estivemos escondidos numa divisão minúscula da cave do restaurante, receando sermos descobertos. No final do terceiro dia, saímos, famintos e exaustos, convencidos de que o pior já tinha passado.

»Eu queria muito visitar a Grande Mesquita de Paris, para onde sabia que a Rose tinha sido levada. Mas o meu pai não mo permitiu. Recordou-me que, se o fizesse, colocaria em risco a Rose e todas as outras pessoas que lá estavam. Consegui apenas saber, através do meu amigo Jean Michel, que ela ainda estava em segurança. Pedi-lhe que lhe dissesse que eu estava bem, que iria ter com ela em breve, mas não sei se ela chegou a receber esta mensagem. Passados apenas dois dias, a polícia francesa apareceu-nos à porta para nos deter, a mim e ao meu pai. Sabiam que eramos membros da Resistência, e era assim que nos puniam.

»Também levaram a minha irmã e a minha mãe, e, em Drancy, o campo de trânsito situado nos arredores de Paris, separaram-nos, colocando-nos em dormitórios diferentes. Nunca mais as vi, embora viesse a saber mais tarde que haviam sido deportadas para Auschwitz, tal como o meu pai e eu.

Por momentos, ficamos todos em silêncio, e eu noto que, lá fora, o sol parcialmente encoberto cria extensas sombras sobre os campos de cultivo em ambos os lados da interestadual. Dá-me a volta ao estômago pensar no Jacob arrastado para um campo de morte. Engulo em seco.

– O que aconteceu à sua família? – pergunta o Gavin em voz baixa. O Gavin aperta a minha mão e olha-me com preocupação. O Jacob respira fundo.

– A minha mãe e a minha irmã não sobreviveram à seleção inicial em Auschwitz. A minha mãe era frágil, franzina e doente, e a minha irmã era pequena para os seus doze anos, tendo sido considerada, provavelmente, inapta para o trabalho. Foram levadas diretamente para a câmara de gás. Quero acreditar que não perceberam o que lhes estava a acontecer. Mas receio que pelo menos a minha mãe soubesse o suficiente para compreender o que se passava. Imagino que tenha ficado aterrorizada.

Ele faz uma pausa para se recompor. Incapaz de dizer uma palavra, limito-me a esperar que continue.

– O meu pai e eu fomos enviados para os dormitórios – prossegue. – No início, tentámos encorajar-nos o mais possível. Mas, pouco depois, ele ficou muito doente. Surgira uma epidemia em Auschwitz. De tifo. O meu pai começou por ter calafrios durante a noite, ficando muito frágil e a tossir muito. Os guardas obrigavam-nos a sair para trabalhar e, apesar de eu e os outros prisioneiros tentarmos facilitar-lhe as tarefas, a doença foi uma sentença de morte. Sentei-me ao seu lado na última noite, enquanto a febre o consumia. Morreu num dia de outono de 1942. Era já impossível sabermos em que dia, semana ou mês estávamos, pois, em Auschwitz, o tempo deixou de existir em todos os sentidos que normalmente lhe atribuímos. Sei apenas que morreu antes do aparecimento da neve.

– Sinto muito – consigo, por fim, dizer. Sinto que as minhas palavras são dolorosamente insuficientes.

O Jacob acena lentamente com a cabeça e olha pela janela por momentos antes de se voltar de novo na nossa direção.

– No final, ele estava em paz. Nos campos, quando as pessoas morriam, tinham uma expressão de crianças adormecidas, inocentes, finalmente imperturbáveis. Aconteceu o mesmo com o meu pai. Fiquei feliz por ver o seu rosto assim, pois sabia que ele estava enfim livre. No judaísmo, a ideia que temos do céu é mais indefinida do que no cristianismo. Mas eu acreditava e acredito que, de alguma forma, o meu pai reencontrou a minha mãe e a minha irmã. E isso conforta-me até hoje. A ideia de eles se terem reunido, de estarem juntos outra vez. – Ele esboça um sorriso amargo, triste. – Havia uma inscrição em Auschwitz onde se lia «O trabalho liberta». No entanto, a verdade é que só a morte nos libertava. E a minha família estava finalmente livre.

– Como conseguiu sobreviver? – pergunta o Gavin. – Deve ter estado em Auschwitz… mais de dois anos?

O Jacob confirma.

– Quase dois anos e meio. Mas a verdade é que não tinha alternativa. Prometera à Rose ir buscá-la. E não podia, não iria, quebrar essa promessa. Após a libertação, fui procurá-la. Tinha a certeza de que estaria novamente com ela, de que nos reencontraríamos, de que poderíamos educar o nosso filho juntos, de que seria possível termos mais filhos e, de uma maneira ou de outra, fugir das sombras da guerra.

Profundamente comovidos, ouvimos o Jacob contar que regressou a Paris e procurou desesperadamente Rose, acreditando do fundo do coração que ela sobrevivera. Ele fala-nos do desespero que sentiu por não a ter encontrado, das conversas que teve com o Alain, que, sozinho e à deriva, depois de perder toda a sua família, recebia apoio de uma organização internacional para sobreviventes do Holocausto.

– Vim finalmente para a América – diz –, porque foi aqui que a Rose e eu prometemos reencontrar-nos. Eu estava a tentar cumprir a minha parte da promessa, como imaginam. E assim, todos os dias, nos últimos cinquenta e nove anos, esperei naquela extremidade do Battery Park. Foi ali que combinámos encontrar-nos. Sempre acreditei que ela viria.

– Foi lá todos os dias? – pergunto.

– Quase – sorri o Jacob. – Eu tinha um emprego, naturalmente, mas ia até ao parque antes e depois do trabalho. Só não esperei no parque quando fraturei a anca e tive de repousar algum tempo, bem como nos dias que se seguiram ao 11 de Setembro, em que era impossível entrar na zona. Aliás, eu estava no parque, quando o primeiro avião atingiu o World Trade Center. – Após alguns momentos de silêncio, acrescenta: – Foi a segunda vez na minha vida que vi o mundo desabar diante dos meus olhos.

Reflito algum tempo sobre esta frase.

– Como tinha tanta certeza de que a minha avó viria ter consigo? Não começou a duvidar de que ela estivesse viva?

– Não – diz, depois de meditar alguns instantes. – Eu tê-lo-ia sentido. Eu saberia.

– Como? – pergunto em voz branda. Não quero ser indelicada; apenas não consigo imaginar tal persistência durante setenta anos com base num pressentimento. O Jacob olha por momentos pela janela e, em seguida, fita-me com um sorriso contido e triste.

– Eu tê-lo-ia sentido na alma, Hope – diz. – Entendes? Não é algo que aconteça com frequência, mas quando duas pessoas possuem uma ligação deste tipo, uma ligação como a que a tua avó e eu temos, estão unidas para sempre. Eu sentiria a minha alma incompleta se ela desaparecesse. Quando Deus nos juntou, transformou-nos num só.

O Gavin aperta subitamente a minha mão e fita-me boquiaberto.

– O que foi? – pergunto-lhe.

Em vez de me responder, ele olha pelo retrovisor.

– Jacob? – diz. – O que quer isso dizer? Disse que Deus vos juntou?

E nesse momento, antes do Jacob responder, compreendo onde o Gavin quer chegar e adivinho o que o Jacob está prestes a revelar.

– No dia em que a Rose e eu nos casámos – afirma o Jacob. – Passámos a ser um só aos olhos de Deus.

Engulo em seco.

– O Jacob e a minha avó casaram-se? – insisto.

– Claro – diz, aparentemente surpreendido. – Fizemo-lo em segredo, como imaginas. A família dela não soube, a minha também não. Todos acreditavam que éramos demasiado jovens. Ansiávamos pelo dia em que pudéssemos realizar uma cerimónia com eles, festejar com as pessoas que mais amávamos. Mas nunca tivemos a possibilidade de o fazer.

Ainda um pouco desconcertada, compreendo de repente o que tudo isto significa; se a minha avó se casou com o Jacob, o seu casamento com o meu avô nunca foi real. Sinto novamente uma tristeza profunda pelo meu avô, por tudo o que perdeu sem se dar conta. Pergunto-me, todavia, se terá sido mesmo assim. Poderia o meu avô ter percebido, em 1949, quando visitou Paris, que o Jacob Levy sobrevivera, que a mera existência do Jacob anulava a sua união com a minha avó? Teria ele, por esse motivo, dito à minha avó que o Jacob morrera? Estas perguntas causam-me um profundo desconforto, mais ainda porque poderei nunca vir a saber as respostas.

– Casou-se com a minha avó por ela estar grávida? – arrisco.

– Não. – O Jacob abana veementemente a cabeça. – Casámo-nos porque nos amávamos. Porque temíamos que a guerra nos destroçasse. Porque sabíamos que estávamos destinados um ao outro. Creio que o bebé foi concebido na nossa noite de núpcias, na primeira vez que estivemos juntos enquanto marido e mulher.

Fecho os olhos e assimilo tudo isto. A minha mãe não nascera de um romance de adolescentes; fora concebida dentro do casamento. Tinha sido o resultado da consumação do amor entre a Mamie e o Jacob. Ela e eu – além da Annie – éramos tudo o que restava da união desafortunada entre duas almas gémeas.

– Compreendes agora? – pergunta o Jacob após um longo silêncio. – Eu tinha razão desde o início. A Rose estava viva. Eu sabia-o, no meu coração. E agora vou finalmente revê-la.

O Jacob adormece pouco depois de atravessarmos Providence e, com a luz do dia a perder intensidade, o Gavin e eu mantemo-nos em silêncio, cada um perdido no seu mundo.

Não sei em que está ele a pensar, mas o seu rosto denuncia tristeza. É isso que sinto também. Sem saber exatamente porquê, a poucas horas de um reencontro que tardou quase setenta anos, sinto-me vazia e não exultante. Talvez porque o saldo se afigura extremamente negativo. Sim, a Mamie teve uma vida de liberdade e segurança. Sim, teve uma filha e uma neta que deram continuidade à família que ela prometera ao Jacob proteger. E é verdade que o Jacob sobreviveu muitos anos num país distante do seu. Contudo, ambos arrastaram o seu fardo sozinhos quando não tinham de o fazer. Devido a mal-entendidos, talvez mesmo mentiras, os dois tinham perdido um tipo de amor em que eu nunca acreditara.

Mas agora acredito. E isso aterroriza-me, pois sei que nunca o tive. Nem por sombras.

O Gavin para numa bomba de gasolina imediatamente a seguir a Fall River e, enquanto o Jacob continua a descansar no banco de trás, eu afasto-me do carro para telefonar à Annie. Digo-lhe que encontrámos o Jacob e que o levamos connosco. Sorrio quando ela dá um gritinho de alegria e partilha a notícia com o Alain. Consigo também ouvi-lo soltar uma exclamação de entusiasmo. Asseguro à Annie que não demoraremos mais do que duas horas e que, quando chegarmos, Jacob lhe contará tudo.

– Mãe, não acredito que conseguiste – diz ela.

– Não o fiz sozinha – respondo. – Contei contigo, querida. E com o Gavin. – Olho para ele enquanto abastece o carro, de costas voltadas para mim. Ele coça distraidamente a cabeça, o que me faz sorrir. – Com o Gavin – repito.

– Obrigada, mãe – diz, ainda assim, a Annie. Deteto na sua voz um afeto que há muito não sentia e sinto-me grata por isso. – E afinal como é que ele é?

Explico-lhe que encontrámos o Jacob no Battery Park e que ele é amável e educado. Conto-lhe ainda que ele nunca deixou de amar a Mamie durante todos estes anos.

– Eu sabia – diz ela em voz baixa. – Eu sabia que ele continuava a amá-la.

– Tinhas razão – admito. – Vemo-nos daqui a umas horas, querida.

Depois de desligar o telefone, enquanto regresso lentamente ao carro, observo o céu, onde as primeiras estrelas do crepúsculo começam a pontilhar o céu. Penso em todas as noites em que vi a Mamie sentada à janela, aguardando estas mesmas estrelas, e pergunto-me se, nesses momentos, procurava o Jacob, o grande amor da sua vida, que, afinal, estivera sempre tão perto.

Quando me aproximo do Gavin, ele baixa os olhos e sorri docemente.

– Estás bem? – pergunta.

– Sim – respondo. Lanço um olhar ao banco de trás, onde o Jacob dorme profundamente. De repente, sinto-me dominada pelas emoções e começam a rolar lágrimas pelo meu rosto. – Isto é real – digo. – Tudo isto. – Não espero que ele me compreenda mas, de alguma forma, é isso que acontece.

– Eu sei – murmura ele. Envolve-me num abraço e, quando descanso a minha cabeça sobre o seu peito e o cinjo com os meus braços, sinto que me estou a entregar. Choro enquanto ele me abraça, sem saber ao certo se o faço pelo Jacob e pela Mamie ou por mim.

Permanecemos ali durante bastante tempo, sem nos sentirmos forçados a dizer seja o que for. Sei agora que o príncipe existe, que as pessoas que nos amam nos podem salvar e que o destino nos pode reservar surpresas que ultrapassam a nossa compreensão. Sei agora que, afinal, os contos de fadas se podem tornar realidade. Basta que tenhamos a coragem de manter a esperança.