Capítulo 3

Queques de Baunilha North Star

QUEQUES

Ingredientes

1 chávena de manteiga sem sal, à temperatura ambiente

1 chávena e 1/2 de açúcar granulado

4 ovos grandes

1 colher de chá de extrato de baunilha puro

3 chávenas de farinha

3 colheres de chá de fermento em pó

1/2 colher de chá de sal

1/2 chávena de leite

Preparação

1.Pré-aqueça o forno a 180 °C. Forre vinte e quatro formas com forminhas de papel.

2.Numa tigela grande, misture a manteiga e o açúcar com uma batedeira elétrica. Bata a mistura até ficar homogénea e adicione gradualmente os ovos. Adicione o extrato de baunilha e mexa bem.

3.Peneire a farinha, o fermento em pó e o sal e adicione-os à mistura da manteiga, uma chávena de cada vez, alternadamente com o leite.

4.Encha as formas até meio. Leve-as ao forno durante 15 a 20 minutos ou até verificar que o interior do queque está suficientemente seco. Deixe arrefecer os queques durante 10 minutos e, em seguida, passe-os para uma grelha metálica para arrefecerem totalmente.

5.Aguarde que os queques estejam frios e cubra-os com glacé cor-de-rosa (ver receita abaixo).

GLACÉ COR-DE-ROSA

Ingredientes

1 chávena de manteiga sem sal (ligeiramente amolecida)

4 chávenas de açúcar em pó

1/2 colher de chá de extrato de baunilha

1 colher de chá de leite

1 a 3 gotas de corante alimentar vermelho

Preparação

1.Com uma batedeira elétrica, bata a manteiga numa tigela de tamanho médio até ficar leve e fofa.

2.Adicione gradualmente o açúcar e continue a bater até conseguir uma mistura homogénea.

3.Adicione a baunilha e o leite e continue a bater para manter a mistura homogénea.

4.Adicione uma gota de corante alimentar vermelho e continue a bater bem para a dissolver. Se preferir que o glacé tenha um cor-de-rosa mais intenso, adicione mais uma ou duas gotas, batendo sempre a mistura para dissolver cada uma delas. Coloque o glacé sobre os queques da receita anterior.

Rose

Rose olhava pacientemente pela janela procurando, como era seu hábito, a primeira estrela no horizonte. Sabia que ela ia aparecer, tão cintilante e radiosa como uma chama inextinguível, logo depois de o pôr do sol tingir o céu de fitas de fogo e luz. Na sua infância, chamavam a este crepúsculo l’heure bleue, a hora azul, a hora em que a Terra não está totalmente iluminada nem totalmente escura. Rose sempre se sentira reconfortada por este meio-termo.

A estrela da tarde, que surgia todas as noites durante aquele crepúsculo profundo e suave, fora sempre a sua preferida, apesar de não ser, em bom rigor, uma estrela; era o planeta Vénus, batizado com o nome da deusa do amor. Há muito que o sabia, mas isso nada alterava; aqui, na Terra, era difícil distinguir as estrelas dos outros corpos celestes. Durante anos, contara todas as estrelas que avistava no céu da noite. Procurava sempre uma em especial, mas ainda não a tinha encontrado. Sabia que ainda não o merecia e isso desgostava-a. Por esses dias, encontrava muitos motivos para estar triste. Contudo, em algumas ocasiões, esquecia-se rapidamente do que a levava a chorar.

Doença de Alzheimer. Ela sabia que a tinha. Ouvia os murmúrios nos corredores. No lar, os seus vizinhos iam chegando e partindo, cada vez mais desapossados de memórias. Ela sabia que lhe estava a acontecer o mesmo, e isso assustava-a por motivos que ninguém compreendia. Não se atrevia a falar sobre eles em voz alta. Era tarde de mais.

Rose sabia que a rapariga de cabelo castanho brilhante, traços familiares e olhos belos e tristes tinha acabado de lhe dizer quem era, mas já se esquecera. Sentiu-se invadida pelo pânico que tão bem conhecia. Desejava alcançar as memórias como se fossem boias de salvação e agarrá-las para não se afundar. Percebeu, porém, que as boias eram fugidias e impossíveis de segurar. Assim, aclarou a garganta, forçou um sorriso e resolveu arriscar.

– Josephine, querida, procura a estrela no horizonte – disse.

Apontou para o espaço vazio onde, como bem sabia, a estrela da tarde iria aparecer a qualquer momento. Esperava ter adivinhado o nome. Não via Josephine há muito tempo. Ou vira-a recentemente? Era impossível saber.

A rapariga dos olhos tristes pigarreou.

– Não, Mamie, sou a Hope – disse. – A Josephine não está aqui.

– Sim, claro, eu sei – apressou-se a dizer Rose. – Devo ter pronunciado mal o nome. – Nenhum dos estranhos podia perceber que ela estava a perder a memória. Era, afinal, uma situação embaraçosa. Quase como se ela não se desse ao trabalho de preservar as recordações. Isso incomodava-a porque nada podia estar mais longe da verdade. Talvez se ela fingisse um pouco mais, as nuvens desaparecessem e as suas memórias regressassem do sítio onde estavam escondidas.

– Não tem importância, Mamie – disse a rapariga, que parecia muito crescida para ser Hope, a sua única neta, que não tinha mais do que treze ou catorze anos. Contudo, Rose via as rugas de preocupação vincadas em redor dos olhos da rapariga, demasiadas rugas para uma menina daquela idade. Não percebia que peso a vergava. Talvez a mãe de Hope soubesse qual era o problema. Talvez depois de o saber, Rose fosse capaz de a ajudar. Queria ajudar Hope. Mas não sabia como.

– Onde está a tua mãe? – perguntou Rose a Hope educadamente. – Está a chegar, querida?

Rose tinha tanto para dizer a Josephine, tanto por que lhe pedir desculpa. E temia que o tempo se estivesse a esgotar. Por onde começaria? Pediria desculpa pelas suas muitas faltas? Pela sua frieza? Por lhe ter transmitido ensinamentos errados, ainda que sem intenção? Rose sabia que tivera muitas oportunidades para se penitenciar no passado, mas que as palavras tinham ficado sempre presas na garganta. Talvez fosse chegado o momento de se obrigar a dizê-las, para Josephine as ouvir enquanto é tempo.

– Mamie? – disse Hope timidamente.

Rose sorriu com ternura. Ela sabia que Hope iria crescer e transformar-se, um dia, numa pessoa forte e bondosa. Josephine também era assim, mas o seu carácter estava de tal forma escondido atrás de mecanismos de defesa, desencadeados pelos erros de Rose, que era difícil discerni-lo.

– Sim, querida? – perguntou Rose a Hope, que tinha parado de falar. Rose adivinhou exatamente o que Hope estava prestes a dizer. Desejou poder impedi-la antes de as palavras a ferirem. Mas era tarde de mais. Era sempre tarde de mais.

– A minha mãe, Josephine, morreu – disse Hope suavemente. – Há dois anos, Mamie. Não te lembras?

– A minha filha? – perguntou Rose, com a tristeza a atingi-la como uma onda que rebenta violentamente. – A minha Josephine? – A maré trouxera consigo a verdade e, por um momento, Rose não conseguiu respirar. Pensou na partida que a mente lhe pregava, arrastando as memórias infelizes, levando-as para o mar.

Porém, como Rose bem sabia, algumas memórias não podem ser apagadas, mesmo que passemos uma vida inteira procurando fingir que elas não existem.

– Lamento, Mamie – disse Hope. – Tinhas-te esquecido?

– Não, não – disse Rose de imediato. – É claro que não. Hope desviou o olhar e Rose fitou-a. Por um instante, a rapariga recordou-lhe algo, ou alguém, mas, antes que pudesse agarrar aquela memória, ela voou para longe, para fora do seu alcance, como uma borboleta. – Como poderia esquecer uma coisa dessas? – acrescentou delicadamente.

Permaneceram durante algum tempo sentadas, em silêncio, a olhar pela janela. A estrela da tarde já se via no céu e, em breve, Rose iria poder ver as estrelas da Ursa Maior, a que o seu pai chamara, certa vez, a «caçarola» de Deus. Como o pai lhe tinha ensinado, Rose seguia a linha que começa na estrela Merak e atravessa a estrela Dubhe até encontrar Polaris, a estrela Polar, que começava a abrir, só para ela, o seu olho sonolento na imensidão do céu. Sabia os nomes de muitas estrelas e, às que não conhecia, dava nomes de pessoas que há muito tinha perdido.

Ocorreu-lhe como era estranho não conseguir recordar os factos mais simples mas ter todos os nomes celestiais eternamente registados na memória. Tinha-os estudado em segredo durante muitos anos, na esperança de que um dia lhe indicassem o caminho para casa. Contudo, naquele momento, ainda estava na Terra. E as estrelas estavam tão distantes como sempre.

– Mamie? – chamou Hope ao fim de algum tempo, quebrando o silêncio.

Rose voltou-se para ela e sorriu ao pensar naquele diminutivo. Tinha boas recordações da sua mamie, uma mulher que sempre lhe parecera fascinante, uma mulher cujas imagens de marca eram o bâton vermelho, as maçãs do rosto salientes e os cabelos negros com uma elegante franja que deixara de se usar nos anos 20. Contudo, lembrou-se depois do que tinha acontecido à sua mamie, e o sorriso desapareceu.

– Sim, querida? – perguntou Rose.

– Quem é Leona?

Por um momento, as palavras cortaram a respiração de Rose, pois esse era um nome que não pronunciava havia quase setenta anos. E porque o haveria de fazer? Não acreditava que os fantasmas se pudessem ressuscitar.

– Ninguém – começou por dizer Rose. Mas mentia, é claro. Leona fora alguém. Todos eles foram alguém. Rose sabia que, ao negar novamente a sua existência, estava a emaranhar-se ainda um pouco mais na sua teia de falsidades. Ocorria-lhe que, um dia, essa teia poderia tornar-se suficientemente forte para a sufocar.

– Mas a Annie diz que tu lhe tens chamado Leona – insistiu Hope.

– Não, está enganada – disse Rose de imediato – Não conheço nenhuma Leona.

– Mas…

– Como está a Annie? – perguntou Rose, mudando de assunto. De Annie lembrava-se com toda a clareza. Ela representava a terceira geração de americanos na sua família. Primeiro Josephine. Depois Hope. E agora a mais pequena, Annie, que desponta precisamente quando Rose se eclipsa. Rose tinha orgulho em muito poucas coisas na sua vida. Mas tinha orgulho nas suas descendentes.

– Está ótima – respondeu Hope. Contudo, Rose notou que a boca de Hope assumiu uma forma pouco natural. – Ultimamente, tem passado muito tempo com o pai. Passam o verão inteiro a ver jogos da liga de Cape.

Rose procurou socorrer-se da memória.

– Que tipo de liga?

– Basebol. A liga de verão. Como os jogos a que o avô me levava quando eu era miúda.

– Ah, isso parece-me bem, querida – disse Rose. – Vais com eles?

– Não, Mamie – disse Hope em voz branda. – O pai da Annie e eu divorciámo-nos.

– Claro – murmurou Rose. Examinou o rosto de Hope quando a rapariga baixou os olhos e pareceu entrever nas feições dela a mesma tristeza que encontrava sempre que se via ao espelho. Porque estaria ela sempre triste? – Ainda o amas? – arriscou.

Hope ergueu bruscamente os olhos, e Rose arrependeu-se das suas palavras ao perceber que, muito provavelmente, tinha feito uma pergunta inconveniente. Esquecia-se, por vezes, das regras de cortesia.

– Não – acabou por murmurar. E, sem olhar para Rose, acrescentou: – Acho que nunca o amei. É terrível dizê-lo, não é? Devo ter algum problema.

Rose sentiu um nó na garganta. Concluía que aquele peso também tinha sido herdado por Hope. Agora já sabia. O seu coração fechado tivera consequências que ela nunca imaginara. Era responsável por tudo. Mas como podia dizer a Hope que o amor existia e era capaz de mudar tudo? Não podia. Em vez disso, pigarreou e tentou concentrar-se no presente.

– Não tens nenhum problema, querida – disse à sua neta.

Hope olhou de relance para a avó e afastou novamente o olhar.

– Mas e se tiver mesmo? – perguntou em voz baixa.

– Não te deves culpar – disse Rose. – Algumas coisas não estão destinadas a acontecer. – Parecia ocorrer-lhe, mais uma vez, alguma memória fugidia. Não se lembrava do nome do marido de Hope, mas sabia que nunca gostara muito dele. Teria sido indelicado com Hope? Ou seria apenas o facto de ele parecer sempre, de certa forma, demasiado frio, demasiado atinado? – Ele tem sido um bom pai para a Annie, não tem? – acrescentou, sentindo-se obrigada a fazer algum elogio.

– Claro – disse Hope em tom firme. – É um excelente pai. Compra-lhe tudo o que ela quer.

– Mas isso não é amor – contrapôs Rose timidamente. – São apenas objetos.

– Sim, é verdade – disse Hope. De repente, Hope parecia exausta. O cabelo tombou para a frente, tapando-lhe o rosto como uma cortina e obscurecendo a sua expressão. Naquele momento, Rose teve a certeza de que vira lágrimas nos olhos da neta mas, quando Hope voltou a olhar na sua direção, aqueles olhos dolorosamente familiares tinham o seu aspeto normal.

– E então, já saíste com outros homens? – perguntou Rose ao fim de algum tempo. – Depois do divórcio? – Pensou na sua própria situação e na forma como, por vezes, teve de prosseguir a sua vida mesmo depois de entregar o coração.

– É claro que não. – Hope baixou a cabeça para evitar o olhar surpreendido de Rose. – Não quero ser como a minha mãe – murmurou. – É a Annie que está em primeiro lugar, não uns tipos quaisquer.

E, nesse momento, Rose entendeu. Lembrou-se repentinamente de pequenas coisas da infância da sua neta. Lembrou-se de como Josephine procurara incessantemente o amor nos sítios errados, com os homens errados, quando o amor estivera sempre ali mesmo, nos olhos de Hope. Lembrou-se das inúmeras noites em que Josephine deixou a sua filha com Rose para poder sair. Hope, que era então apenas uma menina, adormecia a chorar enquanto Rose a apertava num abraço. Rose lembrou-se das manchas de lágrimas nas suas blusas e a forma como elas a faziam sentir sempre vazia e sozinha muito depois de Hope adormecer.

– Não és a tua mãe, querida – disse Rose suavemente. Doía-lhe o coração porque era responsável por isto. Por tudo isto. Quem poderia saber que as suas decisões teriam consequências em várias gerações?

Hope aclarou a garganta, afastou o olhar e mudou de assunto.

– Então tens a certeza de que não conheces nenhuma Leona? – perguntou.

Rose pestanejou algumas vezes, pois o nome parecia abrir mais uma chaga no seu coração. Talvez a mentira não fosse tão forte se ninguém a dissesse em voz alta.

– É curioso – murmurou Hope. – A Annie estava mesmo convencida de que a tinhas tratado por esse nome.

– Que estranho. – Rose gostaria de poder dar àquela jovem as respostas que ela procurava, mas não estava preparada para o fazer. Contar a verdade seria como abrir uma comporta. Quase sentia a água a investir sobre a barragem e sabia que, em breve, a corrente iria ultrapassá-la. Por agora, os rios, as marés, as águas das cheias ainda lhe pertenciam e ela navegava-as sozinha.

Por um momento, pareceu-lhe que Hope queria dizer algo mais, mas, em vez disso, ela levantou-se e deu um forte abraço a Rose, prometendo regressar em breve. Saiu sem olhar para trás. Rose viu-a partir e constatou que a noite ainda não caíra totalmente; Hope não tinha ficado sequer até ao final da heure bleue. Este facto entristeceu-a, embora não culpasse aquela jovem. Rose sabia que, neste caso, como em tantas outras coisas, a culpa era sua.

Algum tempo depois, com todas as estrelas já visíveis no céu, a enfermeira preferida de Rose, uma mulher cuja pele brilhava como o pain au chocolat que a própria Rose costumava levar para casa e oferecer ao seu irmão David e à sua irmã Danielle, muitos anos antes, veio verificar se ela tinha tomado os medicamentos da noite.

– Olá, Rose – disse, abrindo-lhe um sorriso enquanto deitava um pouco de água num copo e abria a caixa dos medicamentos. – Hoje teve uma visita?

Rose concentrou-se na pergunta e esforçou-se por se lembrar. Tinha uma vaga ideia da visita, como uma estrela ténue no fundo da sua memória, mas acabou por perdê-la. Estava convencida de que tinha visto o pôr do sol sozinha, como nas outras tardes.

– Não, querida – disse.

– Tem a certeza, Rose? – tentou a enfermeira. Entregou os comprimidos num pequeno copo de papel e viu Rose tomá-los com um pouco de água. – A Amy da receção disse que a sua neta esteve cá. A Hope.

Rose sorriu, pois adorava Hope, que devia ter agora treze ou catorze anos. Como o tempo voa, pensou. Vai crescer num instante.

– Não – assegurou à enfermeira. – Não esteve cá ninguém. Mas um dia tem de a conhecer. É uma menina muito simpática. Talvez me venha visitar com a mãe.

A enfermeira apertou delicadamente o braço de Rose e sorriu.

– Sim, Rose – disse. – Está bem.