top

13

– Bom dia, ah… eu ia dizer luz do sol, mas você está todo encharcado… então, bom dia, água da chuva! – disse Ganke quando Miles voltou ao quarto. Ganke estava sentado em sua cadeira, comendo cereal em uma tigela e assistindo à TV.

Miles não respondeu. Simplesmente sentou­-se na cama e apoiou o rosto com as mãos. Benji não merecia ter sido apanhado pela polícia. E, embora Miles não tivesse certeza de que aquilo fosse o que realmente havia acontecido com Benji, tinha a sensação, bem no fundo do estômago, que esse era o caso.

– Tudo bem com você? – perguntou Ganke, girando a cadeira para ficar de frente para Miles. O amigo continuava escondendo o rosto.

– Está, sim – disse ele, com a voz abafada pelas mãos. – Fui até a capela. – Miles ergueu o rosto.

– A capela do campus? – Ganke estava surpreso. – O que houve? Sua mãe apareceu nos seus sonhos e lhe disse para levar esse traseiro para a igreja?

Miles não riu.

– Não estava aberta. Ainda é cedo demais, eu acho. Mas ainda assim eu recebi uma mensagem.

Subitamente, Miles se levantou da cama, agachou­-se e enfiou a mão por baixo do estrado. Passou a mão algumas vezes, até finalmente encontrar seus lançadores de teia. Colocou­-os sobre a cama e em seguida voltou a revirar o armário, pegando o uniforme outra vez.

– E agora eu tenho que mandar uma mensagem.

– Miles, o que você está fazendo? – indagou Ganke.

Miles continuava a se vestir. Ganke colocou a tigela em cima da escrivaninha.

– Miles… ainda não são nem oito da manhã.

– Olhe, eu dormi e deixei para pensar naquela questão depois. Como você me disse para fazer. – Miles tirou as roupas molhadas, secou­-se com a toalha e depois estendeu o uniforme sobre o corpo como uma segunda pele. – E agora eu preciso ir. – Ele pegou a máscara e foi até o espelho.

Ganke se levantou.

Miles lentamente desenrolou a máscara por cima da testa, e depois por sobre os olhos. Como sempre, fechou­-os por uma fração de segundo, só até os orifícios se alinharem. Em seguida, abriu­-os novamente, e continuou puxando a máscara por sobre o nariz, boca e queixo. Olhou­-se no espelho mais uma vez. Homem­-Aranha.

– E eu acho que o que você disse ontem estava certo. Se matar a cabeça, os pés também morrem. Aquele velho é a cabeça. E eu tenho que detê­-lo. Ele está afetando pessoas demais. Pessoas que conhecemos. Pessoas que não conhecemos. Pessoas que ainda nem estão vivas, cara. Ele está machucando a minha família, gente no meu bairro, e até a mim. Eu só… eu não vou conseguir fazer nada até fazer isso. Qual é a vantagem de ser herói se eu não consigo nem salvar a mim mesmo?

– Tem certeza mesmo de que isso é a coisa certa a fazer? – perguntou Ganke. Ele olhou Miles sem qualquer indício em sua expressão de que estava fazendo uma piada. Somente Ganke, a pessoa mais próxima de um irmão que Miles tinha. Alguém que o amava.

– Tenho certeza – confirmou Miles. – Não estou achando. Eu sei que essas coisas estão acontecendo. E conhecimento é poder.

– E com grandes poderes…

– … vêm grandes responsabilidades – concluiu Miles, erguendo a mão para Ganke.

O amigo bateu com a mão espalmada na palma de Miles e segurou­-a com força – olhando­-o nos olhos –, antes que este se virasse para a janela para abri­-la com um movimento brusco, ativasse o modo de camuflagem para se mesclar com o vermelho dos tijolos e o azul do céu e saísse do quarto.

Miles rastejou pela parede do prédio antes de pular até o chão e correr pelo campus até chegar ao auditório. Ao voltar para a mesma porta por onde havia seguido o Sr. Chamberlain na noite anterior, ele curvou o aço apenas o bastante para deslizar para dentro. Miles saiu do modo de camuflagem e saltou dos degraus para o túnel, onde a luz era engolida pela escuridão da câmara e a água respingava nele. Disparou pelo túnel como um trem expresso. Seu cérebro trabalhava a toda velocidade, sem arrefecer – o sobrenome da família, a suspensão, seu tio, seu pai, seu bairro, Austin, todos que vieram antes dele, todos que viriam depois dele.

Todos que viriam depois dele.

Após alguns minutos correndo pelo túnel, Miles chegou ao alçapão no teto com a porta dupla. Aguçou os ouvidos. Conseguiu ouvir os grilos pulando pelo campo, um avião no céu que ainda estava a alguns quilômetros de passar por aquele ponto, mas não ouviu o som da grama se curvando, o que indicava que não havia pés por perto. Ele abriu o portão, saiu e olhou para trás. A cerca, mais alta do que a maioria dos prédios, bloqueava o acesso ao muro de pedra dos fundos da prisão.

Partiu em direção à casa e passou novamente pela janela por onde havia espiado na noite anterior. Agachou­-se como um soldado esperando a ordem para atacar. O Dirigente estava ali, vestindo calças e uma camisa social branca, sentado em uma poltrona gigantesca, bebendo algo em uma caneca. O sol brilhava pela janela, filtrado pelos enfeites de cristal no armário encostado na parede, criando um caleidoscópio de arco­-íris, o que seria uma imagem muito bonita sob outras circunstâncias. Uma imagem que deveria estar em uma galeria de arte ou um museu.

Um gato branco saiu de trás de um sofá, da cor da neve recém­-caída. Saltou sobre o sofá e se aconchegou sobre a perna do velho, que acariciou o seu pelo gentilmente. Miles ouviu o ronronar, um ruído sutil e satisfeito, conforme o gato lambia ao redor da própria boca, abrindo­-a em um bocejo emoldurado por presas. Novamente, Miles olhou para a cena, hipnotizado pela doçura que aparentava. Um homem rico aproveitando a manhã de domingo com seu gato de estimação. Miles sempre quis ter um bicho de estimação, mas não um gato. Preferia cachorros, porém seu pai sempre dizia que ter um cachorro era como ter outro filho, outra boca para alimentar. “E quem vai levá­-lo para passear? E se ele morder você, Miles?”, dizia o seu pai. E sempre que Miles tentava argumentar e dizer que ele não morderia, seu pai rebatia: “Se tiver dentes, ele vai morder”.

E aquele gato de aparência dócil tinha dentes. Assim como aquele homem aparentemente inofensivo, cujo corpo encarquilhado parecia feito de papel machê. Ele tinha dentes, também, os quais, aparentemente, haviam caído na caneca da qual ele bebia, porque enfiou o dedo no recipiente e puxou um dos dentes como se fosse uma lasca de gelo. Miles observou enquanto o Dirigente o posicionava de volta na cavidade de onde ele havia se soltado e o pressionava com o polegar no maxilar superior, aparentemente forçando aquele incisivo asqueroso de volta na gengiva.

Que nojo. Miles estremeceu. E, bem naquele momento, o Dirigente olhou para a janela. Miles ainda estava camuflado, mas sentiu a necessidade de se abaixar por trás do beiral da janela mesmo assim. Sentiu­-se tolo imediatamente e se levantou, sabendo que sua aparência era grama, céu, pedra e portão. O Dirigente colocou a caneca em uma mesinha lateral, levantou­-se, e o gato saltou do seu colo para o chão. Foi até a janela, ficou de frente para ela, observando o campo, encarando a prisão, o enorme bloco de cimento, o canteiro de obras da expansão ao lado. Olhou como se a prisão fosse um carro reluzente, uma criança da qual ele sentia orgulho; seu bebê. Miles estava bem diante dele, inalando a idade da pele do Dirigente pelo vidro. Cheirava a suor e solo. No entanto, Miles não estava preocupado; em vez disso, concentrou sua atenção no gato; sabia que o animal era capaz de vê­-lo. Calma, gatinho. Calma. O gato olhava para Miles, com a cauda se agitando de um lado para outro da mesma maneira que Miles vira alguns dias antes quando um gato similar, se não o mesmo gato, estava na escadaria da casa de Neek. De repente, o gato, que estava encarando Miles com um olhar agressivo, colocou­-se numa posição de ataque – o dorso arqueado, pelos eriçados, sibilando. Calma, gatinho, disse Miles para si mesmo, colocando um dedo diante da boca, num sinal que pedia silêncio. O Dirigente deu um passo para trás, atraindo os olhos de Miles para ele. Seu rosto se endureceu numa expressão mortífera.

Espere aí. É impossível… ele não pode…

Mas ele podia. De alguma maneira, ele também conseguia enxergar Miles.

O Dirigente saiu correndo e o gato saltou novamente para trás do sofá. Miles deu alguns passos para trás e, como um míssil humano, mergulhou pela janela. O vidro explodiu na sala, estilhaços pontiagudos por toda parte, conforme Miles deixava de ser um míssil humano e rolava para a frente, ficando de pé e assumindo uma postura de ataque. Ele alcançou o Dirigente antes que o homem alcançasse a chibata, o gato­-de­-nove­-caudas pendurado na parede. Miles o agarrou pelo ombro – um ombro que parecia ser uma maçaneta de porta por baixo do tecido –, girando o homem para ficar de frente para ele.

O Dirigente, em um acesso de pânico, desferiu um golpe desesperado, tentando acertar o rosto de Miles. O garoto se esquivou para trás, evitando o soco, mas o movimento ainda criou algum espaço entre eles. Em seguida, o Dirigente se equilibrou outra vez e ergueu as mãos, como um boxeador, girando os punhos de um lado para outro, quase como se estivesse tentando dançar uma salsa.

– Seu tolo. Achou que eu não podia ver você, não é? – disse ele, ainda com os punhos erguidos. – Mas, depois de viver por séculos, você adquire uma forma diferente de visão. Consegue ver todas as coisas que não parecem estar realmente diante dos seus olhos.

Os lábios do Dirigente se recurvaram em um rosnado, os dentes quebrados como lascas de madeira.

– Como a oportunidade – finalizou e partiu para cima de Miles, com os punhos voando muito mais rápido e com muito mais força do que o garoto esperava.

Esquerda, esquerda, agache­-se. Na sequência, o Dirigente surpreendeu Miles, acertando um gancho de direita em seu queixo. Ele mordeu a língua com força. Ouviu os dentes perfurando a carne. Sentiu a boca se encher de sangue, junto com uma dor lancinante. Antes que Miles pudesse se recuperar, o Dirigente desferiu outros dois socos, jabs firmes que acertaram seu nariz. As orelhas de Miles começaram a retinir e seus olhos lacrimejaram quando foi pego totalmente desprevenido pela velocidade e pela força do Dirigente. Esse cara não tinha centenas de anos de idade? Por que ele não está se despedaçando? No entanto, não havia tempo para pensar em nenhuma dessas coisas, porque o Dirigente ergueu a perna e plantou o pé no peito de Miles, projetando­-o contra a enorme porta de madeira. E o velho chegou a toda velocidade. Disparou uma saraivada de socos, combinações que a maioria dos boxeadores não seria capaz de usar. Miles se esforçou ao máximo para bloquear todos os que conseguia antes de finalmente, num estado de desespero, pegar um abajur na mesa lateral ao seu lado – a cúpula, feita com vidro colorido vermelho, verde e roxo – e a arrebentar na cabeça do Dirigente. O vidro se estilhaçou, e os cacos caíram como granulados coloridos em um sundae. Exatamente como no pesadelo de Miles.

Quase exatamente.

O Dirigente caiu no chão e Miles disparou alguns jatos de teia para prendê­-lo ali, mas seus lançadores cuspiram apenas alguns respingos do fluido. Oh, não. Não me diga que n… O Dirigente, novamente com um sorriso maldoso, rolou para trás e logo estava em pé novamente. O sangue lhe escorria pelo rosto envelhecido, mas não era vermelho. Era azul. E grosso. Escorria por sua camisa branca e pelo mosaico de azulejos do piso.

Miles tentou disparar sua teia novamente, mas… nada.

– Oh, que visão esplêndida – provocou o Dirigente, limpando o sangue do canto da boca com um dedo. – O que acontece com a aranha que perdeu sua teia? Ela ainda tem o direito de se chamar aranha?

Logo depois, antes que Miles pudesse atacar, o Dirigente estendeu os braços como se fossem asas e agarrou as extremidades da sala. Era como se tudo – a sala, o piso, os sofás, os quadros na parede, o sangue e o vidro, e até mesmo o próprio Miles – fosse somente uma espécie de projeção estranha sendo exibida em um gigantesco pedaço de tecido. Como se não fosse real. Como se pudesse ser agarrada, dobrada. E foi exatamente isso que o Dirigente fez. Agarrou as extremidades da sala, as costuras de todas as coisas que Miles conseguia ver, e as fechou, como se estivesse fechando cortinas, dobrando – e redobrando – a realidade. Ele fechou o mundo ao redor, cada vez mais, com uma força cada vez maior, até finalmente atingir Miles com a sala inteira. Tudo escureceu por uma fração de segundo; quando conseguiu voltar a enxergar, Miles não fazia a menor ideia de onde estava. Ou de quem era. Ele tateou o peito; as teias em seu uniforme não eram familiares. Miles não conseguia lembrar seu nome. Ou de onde era. Ou o que estava fazendo, vestindo um uniforme colante no meio de lugar nenhum. Era como se ele houvesse sido apagado. Como se não existissem Rio e Jefferson, Aaron e Ganke. Como se não existisse o Homem­-Aranha. Tabula rasa.

Enquanto Miles cambaleava pela sala, desorientado, o Dirigente aproveitou o momento e o atacou com tudo que tinha. Miles não conseguia vê­-lo, mas sentiu cada pancada. Nos rins e nas costelas, no esterno e no queixo. Miles estava sendo esmurrado, e agitava seus braços contra o nada, esforçando­-se ao máximo para tentar acertar seus punhos em algo que não estava fisicamente ali.

Felizmente o transe durou somente uns quinze segundos antes que Miles conseguisse voltar a si. Antes que o espaço branco que havia se tornado a sua realidade se desdobrasse, como um leque que exibe uma imagem bonita ao ser aberto, rico com cores e vida. Essa imagem, porém, não era tão bonita para Miles. Ele estava de volta ao lugar de onde nunca saíra – a casa do Dirigente, com a memória completa de quem era e o que estava fazendo ali. Foi como ele imaginou que houvesse acontecido com a câmera de segurança. Que haveria um salto no tempo, mas que ninguém perceberia. Exceto pelo fato de que, neste caso, foi ele que ficou preso no espaço vazio, e ele era o ninguém que perceberia.

O que ele percebeu foi o Dirigente, que havia acabado de pegar o gato­-de­-nove­-caudas da parede.

– A sua vida é um pesadelo! – gritou o Dirigente, empunhando o chicote com as tiras. – E não há nada que você possa fazer a respeito.

Em vez de tentar acertar Miles com uma chibatada, o Dirigente fez pontaria e atirou todo o aparato contra Miles. A coisa mais simples e mais óbvia que o garoto tinha a fazer era sair da frente. Uma esquiva simples. Antes que pudesse fazer isso, contudo, a empunhadura do gato­-de­-nove­-caudas se transformou no corpo de um gato de verdade, com nove caudas, em pleno ar. Não era como os gatos pequenos que Miles via por onde passava, ou como aquele que estava escondido em algum lugar atrás do sofá do Dirigente, mas um monstro enorme, com o dobro do tamanho de um urso, rangendo furiosamente os dentes para ele. A criatura arqueou as costas e seu pelo se eriçou em agulhões pontiagudos, tão longos que, se o teto não fosse tão alto na mansão do Dirigente, os pelos do gato o deixariam esburacado. Miles preparou­-se para combater o animal, movendo­-se lentamente enquanto o gato observava, esperando o momento de saltar e rasgá­-lo em frangalhos. Suas nove caudas serpenteavam pela sala; os pelos que as recobriam eram como navalhas, com as extremidades endurecidas e afiladas, pontiagudas. As caudas se erguiam por trás do dragão em forma de gato e se projetavam violentamente para a frente a cada poucos segundos.

– Aqui, gatinho – provocou Miles, esticando o pescoço para se certificar de que ainda conseguia enxergar o Dirigente.

Os olhos do garoto estavam no gato, naqueles dentes, naquelas caudas. Em seguida, estavam no Dirigente, que agora havia corrido até o outro lado da sala, indo até o retrato de Jefferson Davis. O gato sibilou, golpeou com uma pata, mas não foi um golpe forte. Em vez disso, foi algo mais parecido com um teste para sentir a presa. Miles reflexivamente transformou o corpo em borracha, curvando­-se para trás como se não tivesse ossos, e a garra apenas raspou em seu tronco, arrancando alguns pedaços do uniforme. Cuidado com o Dirigente, disse ele para si mesmo, andando de lado até o canto da sala. Tocou o local onde o traje havia sido rasgado. Sentiu sua carne, verificou se havia sangue. Somente um pouco. As garras mal chegaram a lhe romper a pele. Cuidado com o Dirigente. Miles, com um olho ainda no gato gigante, observou enquanto o Dirigente empurrava a enorme pintura para o lado, revelando uma alavanca escondida na parede. Ele a puxou para baixo com força, ativando um alarme sonoro. O alarme era o mesmo da prisão. Aquele com o som de alguém sendo eletrocutado. O alarme usado quando era preciso chamar os guardas. Miles engoliu em seco, sabendo que aquilo não podia ser um bom som ou um bom sinal, mas sabia também que, fosse qual fosse o propósito do alarme, isso não iria acabar com o problema que estava bem na sua frente.

– Aqui, gatinho, gatinho, aqui – Miles chamou o gato novamente.

O primeiro instinto de Miles foi ativar novamente a camuflagem, mas lembrou­-se de que aquilo não ia adiantar. O gato ainda seria capaz de vê­-lo. E, além disso, o Dirigente também seria. Miles percebeu que sua única esperança seria aproveitar as caudas.

Assim, Miles saltou sobre o gato, movendo­-se para fazer o animal o atacar. E assim aconteceu. O bicho deu uma patada forte, e Miles rapidamente se jogou contra a parede, evitando a investida do gato, que deixou rasgos enormes na cerâmica. Miles circulou cuidadosamente, saltando de um canto para outro, enquanto o gato golpeava o garoto como se ele fosse um brinquedo preso na ponta de um cordão, deixando marcas destruidoras nas paredes após cada ataque. Finalmente, já frustrado, o gato usou uma das caudas para golpear, mas Miles se esquivou dela também, e a cauda abriu um buraco na parede. As navalhas se prenderam na rocha e na cerâmica. O gato golpeou com outra cauda, errando mais uma vez. Outra cauda presa. E assim por diante. Miles disparava pela sala, chamando o gato, cujas caudas afiadas dançavam aqui e ali, enfiando­-se nas paredes e até mesmo no teto, prendendo­-se à argamassa. Momentos depois, o gato estava preso, com todas as nove caudas espalhadas pela sala, imobilizando o corpo do felino gigante no lugar onde estava. E exatamente daquela maneira. O animal monstruoso soltou um urro ensurdecedor e se transformou num simples chicote outra vez.

– Você não pode me derrotar! – anunciou Miles ao Dirigente, que corria para pegar o chicote.

Miles saltou contra a parede e tomou impulso, acertando os dois pés no peito do Dirigente – retribuindo o favor de antes – e fazendo­-o se estatelar contra o retrato de Davis, que se soltou da parede e despencou sobre seu oponente. A moldura lhe caiu sobre o pescoço e a pintura sobre o resto do corpo, a tela se estendendo e se encurvando sobre a cabeça do velho. Quando o Dirigente conseguiu se livrar do quadro, Miles já havia apanhado o chicote com as nove caudas.

– Você nem sabe o que fazer com isso. Não é algo que você conhece – rosnou o Dirigente, exibindo uma fresta entre os dentes. Ele colocou a língua pela fresta e cuspiu uma gosma azulada no chão. – Você não sabe nem mesmo quem é.

Miles começou a girar o chicote lentamente, tomando cuidado para não acertar a si mesmo por acidente. Ele se concentrou no Dirigente.

– Você não sabe nem mesmo quem eu sou!

E, como se fosse uma televisão na qual os canais iam sendo mudados, o rosto do Dirigente se transformou. Primeiro, o rosto do pai de Miles. Zap. O de Austin. Zap. O de Jefferson Davis. Zap. O do tio Aaron.

– Você é exatamente igual a mim!

Zap. Novamente o Dirigente.

– Um inseto! Para ser esmagado sob um polegar.

O Dirigente soltou uma gargalhada insana, e novamente estendeu os braços, agarrando a sala, arrancando­-a do mundo como se fosse um adesivo. Dessa vez, Miles se virou para uma das enormes janelas. Seu coração estava aos saltos, sua mente atabalhoada, tentando se convencer de que tudo isso era real. De que não era um sonho, um pesadelo em que você acorda e percebe que ainda está num pesadelo. Acorde. Não, você está acordado. Você está acordado. No campo, do lado de fora da casa, ele podia ver Chamberlains que chegavam correndo. Um exército, pronto para atacar. Miles ajustou os olhos, afastando a sua atenção da horda que vinha em sua direção, e concentrou­-se no próprio reflexo. Sabia que o Dirigente estava dobrando o mundo outra vez, e que o melhor a fazer, dessa vez, era se preparar para o golpe. Assim, ele olhou para a imagem desbotada de si mesmo no vidro, os raios do sol cortando a parte superior do reflexo da máscara preta e vermelha.

E então… PLAFT!

Escuridão. E, em seguida, brancura. Vazia. Era como se Miles houvesse sido sugado para um vácuo. Uma câmara de eco. Um zumbido na orelha do garoto, um som estrepitoso que ia ficando cada vez mais intenso, até que parou abruptamente.

Silêncio.

Consegue me ouvir? Olá? Você consegue me ouvir? Você consegue nos ouvir? Escute­-nos. Escute com atenção. Nossos nomes são Aaron, Austin, Benny, Neek, Cyrus, John, Carlo, Sherman. Benji. Nossos nomes são Rio, Frenchie, Winnie, Alicia. Nosso nome é Miles Morales. Temos dezesseis anos. Moramos no Brooklyn. Nós somos o Homem­-Aranha.

Escuridão.

Tudo isso está em nossas mentes.

Escuridão.

Tudo isso está na sua mente.

Tudo isso está na sua mente…

E, em seguida, luz. Durou apenas uma fração de segundo. Um piscar de olhos. E Miles ainda estava na casa. Continuava empunhando o gato­-de­-nove­-caudas. Ainda olhando para a janela, seu reflexo no vidro. Nada mudou.

– O quê? – O Dirigente cambaleou para trás, balançando a cabeça pela tentativa fracassada de fazer outra distorção mental.

Miles sorriu, mas seu sorriso se desfez ao ver os Chamberlains que cercavam a casa tentando entrar pela janela quebrada, subindo no alpendre, jogando­-se contra a porta como se fossem mortos­-vivos.

O garoto sabia que não seria capaz de vencer a todos; assim, virou­-se para o Dirigente e começou a avançar, segurando o gato­-de­-nove­-caudas firmemente ao lado do corpo, as tiras balançando frouxamente, farpadas.

– Não faça isso – disse o Guardião, com a mão erguida.

Miles continuou avançando, ainda balançando a arma.

– Você não sabe o que está fazendo, garoto. Você não sabe como controlar esse tipo de poder! – gritou o Dirigente enquanto Miles fazia o chicote circular, as caudas girando, girando como as pás de uma hélice.

Conforme cortavam o ar, o som foi ficando cada vez mais alto. Sem avançar mais, Miles simplesmente o largou. O movimento das tiras projetou o chicote através da sala, e, da mesma forma que ocorreu quando o Guardião o arremessou, em pleno ar, o chicote se transformou em um gato.

Bem naquele momento, a porta se abriu com um movimento brusco e os Chamberlains invadiram a casa como soldados que se infiltravam em uma base. Alguns até mesmo entraram pela janela estraçalhada. Miles se colocou numa postura de luta, pronto para atacar qualquer Chamberlain que viesse sobre ele.

– Ajudem­-me! – gritou o Dirigente para eles.

Antes que pudessem fazer qualquer movimento, o gato gigantesco perfurou o velho com uma das caudas.

Todos os Chamberlains ficaram paralisados. O gato atacou o Dirigente com outra cauda. E mais outra. Cauda após cauda se lançando contra o velho, perfurando seu corpo, pregando­-o contra a parede no mesmo lugar em que o seu amigo Jefferson Davis estava pendurado havia anos.

Não havia mais nenhum som. Nem do gato, nem dos Chamberlains, nem de Miles. Nem do velho carrilhão. Era como se o mundo houvesse emudecido. E então, ruidoso como uma lufada de vento, o Dirigente soltou seu último suspiro.

Os pelos do monstro de nove caudas varreram a sala como uma nevasca, não deixando nada além de um gato caseiro em seu lugar. Não havia mais nenhum chicote. Os Chamberlains acordaram do seu estupor e, num rápido momento de reflexos, Miles voltou a se camuflar. Todos se entreolharam, confusos, mas não disseram palavra alguma. Simplesmente saíram da casa e caminharam pelo campo, deixando Miles em pé sob o vão da porta acompanhando­-o com os olhos, a prisão ao longe e um gato branco – dois gatos brancos – esfregando­-se afetuosamente contra a sua perna.