15
Ela devia ter percebido naquela noite, muito tempo antes, em outra vida e em outro corpo, que estava sendo seguida, mas a alegria havia vencido a cautela.
Ela era Madrigal dos Kirin. Estava apaixonada. Vivia um sonho grandioso e ousado. Durante um mês de noites secretas, ela cruzara a escuridão até o templo de Ellai, onde Akiva a esperava, inquieto com aquele amor recente e ardendo de ansiedade, assim como ela, para recriarem seu mundo. Ela sempre saboreava o momento da chegada — a primeira visão do rosto de Akiva olhando para cima enquanto ela passava pelas copas das árvores de réquiem, como ele se iluminava ao vê-la, com uma alegria igual à dela. Era a imagem que guardaria consigo nos dias que se seguiram — seu rosto erguido, tão perfeito e luminoso, cheio de encanto e prazer. Ele estendeu a mão para puxá-la para baixo. Acariciou de leve suas pernas enquanto ela descia, segurou-a pela cintura e a pegou ainda no ar, de forma que seus lábios se encontraram antes mesmo de os cascos dela tocarem o chão.
Ela riu com os lábios na boca de Akiva, as asas ainda abertas como grandes leques escuros, e ele deitou, reclinando-se ali mesmo no musgo, as pernas dela apertadas em volta do corpo dele. Zonzos e ávidos, fizeram amor no meio do bosque, sob os olhares brilhantes das evangelinas, cuja sinfonia noturna era a música deles.
Sob os olhares daqueles que a tinham seguido desde a cidade.
Mais tarde, pensar que eles tinham assistido a tudo a enojava. Tinham esperado e observado, sem se contentar com a traição de meros beijos, querendo testemunhar crimes ainda mais ultrajantes — ver tudo, e ouvir sobre o que conversariam depois.
E com que tinham sido recompensados?
Os amantes entraram languidamente no pequeno templo, onde beberam da fonte sagrada e comeram os pães e frutas que Madrigal levara. Praticaram magia. Akiva lhe ensinava seu encanto de invisibilidade. Ela até conseguiu por um instante, mas a magia exigia um dízimo de dor maior do que o que Madrigal tinha para oferecer em troca da continuidade do efeito. No templo, ela aparecia e desaparecia: em um instante estava ali; no outro, não mais.
— O que devo fazer para sentir dor? — indagou ela.
— Nada. Nada de dor para você. Só prazer.
Ele roçou o nariz no dela. Madrigal o empurrou, sorrindo.
— Prazer não vai me ajudar a ficar invisível por mais tempo.
Eles não podiam continuar a se esconder para sempre, precisavam ir e vir das terras dos dois, entre quimeras e serafins, invisíveis quando necessário. Estavam pensando em quem recrutar para sua causa; prontos para começar. Seria um momento crítico, revelar seu segredo para os primeiros colegas escolhidos, e conversavam sobre cada um deles.
Também falavam sobre quem matar.
— O Lobo — disse Akiva. — Enquanto ele estiver vivo, não haverá esperança para a paz.
Madrigal ficou em silêncio. Thiago, morto? Ela sabia que Akiva tinha razão. Thiago nunca aceitaria menos do que a aniquilação de seus inimigos, e sem dúvida ela não nutria nenhum tipo de amor por ele, mas matá-lo? Ela brincou com o osso da sorte pendurado no cordão em seu pescoço, em conflito. Ele era a alma do exército e o herói que unia seu povo. Os quimeras o seguiriam para qualquer lugar.
— Isso é um problema — falou para Akiva.
— Você sabe que isso é necessário tanto quanto eu. Joram também.
O imperador era ainda mais sanguinário que Thiago, se é que isso era possível. E também era pai de Akiva.
— Você... Você acha que seria capaz de fazer isso? — perguntou Madrigal.
— Matá-lo? Para o que mais fui criado além de matar? — Seu tom era amargo. — Eu sou o monstro que ele criou.
— Você não é um monstro.
Ela o puxou para si. Acariciou sua testa, que estava sempre quente como fogo, e beijou as marcas de tinta nos nós dos dedos dele como se pudesse perdoá-lo pelas mortes que representavam. Então deixaram de falar sobre morte, desejando em silêncio que pudessem ter o mundo que queriam sem precisar matar.
Ou, como acabaria acontecendo, sem precisar morrer.
Do lado de fora, Thiago chegou à conclusão de que já ouvira o suficiente e ateou fogo ao templo.
Mesmo antes de sentirem cheiro de fumaça ou verem o fogo, Madrigal e Akiva foram aturdidos pelos gritos das evangelinas. Eles nem mesmo sabiam que as criaturas podiam gritar. Afastaram-se de um pulo, procurando instintivamente por armas que não estavam lá. Tinham sido deixadas no musgo lá fora, junto com as roupas largadas.
— Tão descuidados — disse Thiago assim que eles saíram às pressas, quando fugiram do templo em chamas e deram de cara com uma companhia de soldados a sua espera.
O Lobo Branco, à frente dos outros, tinha, uma em cada mão, as facas de lua crescente de Madrigal. Balançava-as para a frente e para trás, enganchadas na pontas dos dedos. Atrás dele, um dos integrantes de seu séquito segurava as espadas de Akiva; ele bateu as lâminas em um gesto de provocação.
Um segundo se seguiu ao som do retinir, um único segundo de silêncio, e então irrompeu o caos.
Akiva ergueu os braços, evocando magia. O que ele pretendia fazer, Madrigal nunca chegou a saber, porque Thiago já se adiantara, e quatro soldados-espectros tinham levantado as mãos, apontando os hamsás para o anjo. Uma náusea violenta o atingiu. Akiva cambaleou, caiu de joelhos, e nisso partiram para cima dele com as espadas, os punhos cobertos por luvas grossas e as botas pesadas, além de um rabo reptiliano envolto em correntes que o açoitou.
Madrigal tentou correr até ele, mas foi detida por Thiago, com um soco na barriga tão forte que a arrancou do chão. Por um instante, sem fôlego e sem peso, ela perdeu todo senso de direção, e então atingiu o chão. Seu corpo inteiro estremeceu. Ela sentiu o sangue subindo pela garganta, invadindo o nariz e a boca.
Engasgada, ofegante, enjoada. Dor. Dor e sangue. Ela tossiu em busca de ar. Nua, dobrou-se de dor. No alto: fumaça, árvores pegando fogo e então Thiago. Ele a fuzilava com o olhar, sua boca deformada em um rosnado.
— Criatura imunda — rugiu ele, em um tom de profunda repulsa. — Traidora. — E por fim, a mais cruel de todas: — Amante de anjo.
Ela viu assassinato em seu olhar, e achou que fosse morrer bem ali, no musgo. Lá no fundo, Thiago estava ferido. Às vezes o chamavam de Selvagem, por suas matanças violentas em batalhas; sua marca registrada era dilacerar gargantas com os dentes. Era muito perigoso deixá-lo com raiva. Madrigal se encolheu, esperando por um golpe que não veio.
Thiago deu as costas.
Talvez ele quisesse que ela assistisse. E talvez fosse apenas instinto — um ímpeto de macho alfa, de destruir seu rival. De destruir Akiva.
Havia tanto sangue.
A lembrança era sombria, carregada de fumaça sufocante e dos gritos dos pássaros-serpentes queimando vivos, e, embora não fosse uma lembrança própria de Karou, mas sim de Madrigal, ainda assim era dela, surgindo de seu eu mais profundo. Era totalmente ela, e Karou se lembrava de tudo: Akiva no chão, seu sangue escorrendo até a fonte sagrada, e Thiago, de olhos arregalados mas assustadoramente contido e em completo silêncio, golpeando o anjo vezes sem fim, os respingos de sangue fazendo brilhar o rosto e o cabelo branco.
Ele teria matado Akiva naquela noite mesmo, mas um de seus seguidores mais sensatos interveio e o levou dali, adiando o fim. Por dias e dias Madrigal ouviu os terríveis gritos de seu amado ecoando pela prisão de Loramendi, onde ele era torturado e ela aguardava a execução.
Foi esse o Thiago que Karou viu — assassino, torturador, selvagem — quando ele apareceu diante dela uma vida inteira depois, nas ruínas de Loramendi.
Mas... tudo parecia diferente, não? Afinal, como, considerando tudo o que tinha acontecido, ela podia condenar o que ele fizera?
Akiva deveria ter morrido aquele dia, assim como ela. Eles tinham, sim, cometido traição; o amor dos dois, os planos que nutriam e, o pior de tudo, a tola compaixão dela, ao salvar a vida do anjo não só uma mas duas vezes, para que ele pudesse viver e se tornar o que se tornara. O Príncipe dos Bastardos, como o chamavam, entre outros nomes. Thiago fizera questão de que ela soubesse de todos — Senhor dos Ilegítimos, Ruína das Feras, Anjo da Aniquilação. Por trás de cada nome, a acusação velada: Culpa sua, culpa sua.
Se não fosse por ela, os quimeras ainda estariam vivos. Loramendi ainda existiria. Brimstone continuaria a criar cordões de dentes, e Issa, a doce Issa, continuaria preocupada com a saúde dele e enroscando serpentes nos pescoços dos humanos que entravam no vestíbulo da loja. As crianças da cidade ainda correriam livremente pela Serpentina em todas as suas variadas formas, e cresceriam para ser soldados, como ela, e passariam de corpo para corpo enquanto a guerra seguiria em frente. Sem fim.
Para sempre.
Quando parava para pensar, Karou mal podia acreditar na própria ingenuidade, mal podia acreditar que havia acreditado que o mundo poderia ser diferente, e que ela poderia fazer isso.