27
Por volta do meio-dia, o garoto Dashnag, Rath, ainda carregando Sarazal, descia um despenhadeiro escarpado e coberto de árvores em direção a uma ravina, seguido por Sveva. Era tão estreito que as copas das árvores pareciam contínuas, e Sveva pensou, ao olhar para o alto, que os galhos pálidos das árvores donzela que se arqueavam, encontrando-se no meio, pareciam os braços dados de moças dançando. A luz do sol conseguia ultrapassá-los, às vezes como lanças brilhantes, outras como uma renda matizada em inconstantes tons de verde e dourado. Criaturinhas aladas voavam e zuniam naquela pequena ravina que era o mundo inteiro deles, e lá de baixo vinha o ruído de um córrego, suave e ligeiro como uma música.
Tudo vai queimar, pensou ela, desviando de vinhas e descendo atrás de Rath.
O fogo ainda ardia atrás deles. Como o vento que vinha do sul carregava a fumaça para longe, eles não sentiam o cheiro, mas tinham subido pequenas elevações no terreno várias vezes e visto que o céu continuava escuro.
Como os anjos podiam fazer aquilo? Prender ou matar alguns quimeras era tão importante assim a ponto de destruir a terra inteira? Não dava nem para entender por que eles a queriam, se só pretendiam destruí-la.
Por que não nos deixam em paz?, ela quis gritar, mas ficou quieta. Sabia que era um pensamento infantil, que as guerras e ódios do mundo eram grandes demais para entender, e que ela não era mais importante no esquema das coisas do que as mariposas e libélulas ali voando nos raios de luz.
Mas eu sou importante, insistia para si mesma. Assim como Sarazal, e as mariposas e libélulas, e os furtivos skotes, e as flores tão pequenas e perfeitas, e até mesmo os minúsculos skinwights mordedores, que afinal só estavam tentando sobreviver.
E Rath também era importante, mesmo com aquele seu hálito de quem se alimentou a vida inteira de carne e sangue e ossos.
O garoto as estava ajudando. No momento em que Rath pegara Sarazal para carregá-la, Sveva não chegara a pensar a sério que ele a levaria para longe e faria dela sua refeição, mas era difícil não sentir medo quando seu coração disparava só de vê-lo. Os Dashnag comiam carne. Essa era a natureza deles, da mesma forma que os skinwights eram skinwights, mas isso não queria dizer que tinha que gostar deles. Ou dele.
— Não comemos os Dama — dissera ele, sem olhar para Sveva, depois que ela o alcançara, o que aliás tinha sido fácil, afinal ela era bem mais rápida, ainda mais com ele carregando o peso de Sarazal. — Nem nenhuma das outras feras superiores. Como tenho certeza de que você sabe.
Sveva sabia que supostamente era verdade, mas era difícil não ficar desconfiada.
— Nem mesmo se estiverem com muita fome? — perguntara ela, cética e, por alguma estranha razão, querendo pensar o pior dele.
— Eu estou com muita fome, e vocês continuam vivas.
E foi só. Ele então seguiu em frente, e Sveva não teve como continuar com medo, porque Sarazal dormia com a cabeça no ombro dele, e Rath permanecia ereto, segurando-a, quando teria sido mais fácil deixá-la para trás e descer muito mais rápido com o galope veloz que os Dashnag usavam para caçar suas presas. Mas ele não fez isso.
Rath as trouxera até ali, e depois de descerem um bom pedaço da ravina, Sveva ouvia o que ele tinha ouvido e sentia o cheiro do que ele já tinha notado vários quilômetros antes com seus apurados sentidos de predador: os Caprina.
Os Caprina? Teria sido por isso que ele havia seguido na direção leste? Para achar a trilha daqueles lentos criadores de gado — que, a julgar pelo cheiro, tinham mantido todos os seus animais?
Rath parou na base do despenhadeiro e, quando Sveva chegou ao seu lado, disse:
— Acho que são da aldeia perto do aqueduto. Você deve lembrar.
Como se ela pudesse esquecer o lugar onde os soldados serafins tinham sido pendurados com seus sorrisos vermelhos do Comandante. Ela jamais se esqueceria daquilo enquanto vivesse, o horror misturado à esperança de salvação. Como não tinham visto ninguém na aldeia, ela concluíra que seus habitantes estivessem mortos. Ficou feliz, então, ao saber que não, mas não entendia por que Rath os seguia.
— Os Caprina são lentos — disse ela.
— Então vão precisar de ajuda — replicou Rath.
Sveva sentiu o rosto corar de vergonha. Ela só vinha pensando na própria fuga.
— Sem contar que talvez tenham um curandeiro — acrescentou Rath, olhando para Sarazal.
Ela repousava no peito dele, de olhos ainda fechados, a perna ferida aninhada com cuidado na dobra do braço de Rath. Era uma visão tão incongruente, o predador aninhando a presa, que Sveva só conseguiu ficar olhando e sentir que tinha atingido o fundo do pedregoso poço da própria superficialidade.
Será que ela sabia alguma coisa dessa vida?
* * *
O lugar era imenso. Akiva tinha a impressão de que poderia subir cada vez mais alto no ar e mesmo assim continuaria vendo a terra se estender em todas as direções, infinita e verde, para todo o sempre. Mas sabia que não era bem assim. A leste, o terreno se elevava e formava extensas colinas, baixas e rochosas, para então se transformar em um planalto desértico que se podia percorrer por dias ou até semanas, uma terra vermelha com plantas espinhentas onde besouros venenosos grandes como escudos escavavam esconderijos e passavam meses ou anos enterrados, até uma presa passar a seu alcance. Havia rumores de que alguns nômades viviam perto daquelas ilhas do céu — como os Sab, com suas cabeça de chacal —, mas as patrulhas serafins ou nunca haviam encontrado nenhum sinal de vida ali, ou simplesmente desapareceram na região, nunca retornando para relatar nada.
A oeste ficava a Serra do Mar, e, mais além, a Costa Secreta, onde havia várias aldeias litorâneas, e lar de povos que podiam viver tanto dentro quanto fora d’água, e que sumiam, rápidos como peixes, assim que percebiam a presença do inimigo, retirando-se para seus refúgios profundos e escondidos até o perigo passar.
E, ao sul, ficavam as fabulosas Terras Distantes, as montanhas mais altas de Eretz e também as mais amplas, cobrindo cerca do triplo da área de qualquer outra cadeia de montanhas no mundo. Formavam um incrível muro cinzento de baluartes e ameias naturais, desfiladeiros crivados de rios que perfuravam o coração da rocha e surgiam de novo, e encostas cujas milhares de cachoeiras as faziam cintilar. Dizia-se que havia passagens — muitas ravinas e túneis labirínticos — que levavam a terras verdejantes do outro lado, impossíveis de serem atravessadas sem ter como guia alguém das tribos nativas, criaturas com pele de rã que viviam quase o tempo todo na escuridão. Nos pontos mais altos, formações de gelo a distância pareciam cidades de cristal, mas de perto via-se que eram desolados labirintos ventosos, que apenas os caça-tempestades que lá faziam seus ninhos conseguiam atravessar, colocando seus imensos ovos e enfrentando ventanias que lançariam qualquer outra criatura para a morte em um piscar de olhos.
Essas eram as fronteiras naturais da região sul que os serafins tinham, muito tempo antes, tentado conquistar, e a terra verdejante que Akiva via agora lá embaixo era seu grande e selvagem coração, impossível de se dominar de tão gigantesca, nem mesmo com todos os soldados dos exércitos do império. Eles podiam, e iriam, incendiar aldeias e campos, mas ali havia mais quimeras nômades — rápidos e elusivos — do que fazendeiros, e os serafins não podiam queimar tudo, mesmo que quisessem, o que, apesar do que parecesse, com aquelas nuvens de fumaça escura, não era sua intenção.
O fogo era apenas para encurralar os fugitivos nas direções sul e leste, onde o arvoredo era mais esparso e os riachos desembocavam no grande rio Kir. Talvez ali eles pudessem fazê-los sair. E se conseguissem?
Akiva preferia que isso não acontecesse. Na verdade, fez mais do que só querer: usou todas as habilidades de rastreador para levar o grupo na direção errada. Quando achava que os quimeras podiam estar em um lugar — onde um espaço entre as copas das árvores indicava que poderia haver um riacho, por exemplo —, ele procurava levar o grupo para o outro lado, e, como ele era o Ruína das Feras, ninguém o questionava. Exceto talvez Hazael, e mesmo assim só com o olhar.
Liraz não estava com eles; tinha sido designada para outra equipe. Akiva não pôde deixar de se perguntar, ao longo do dia, com que fervor sua irmã cumpria as ordens.
— Então, o que acha? — perguntou Hazael de repente.
Já estava anoitecendo, e eles não tinham descoberto nenhum escravo liberto ou aldeão.
— Sobre o quê?
— Sobre quem está por trás desses ataques.
O que ele achava? Não sabia. Durante o dia todo Akiva travara uma guerra com a esperança — tentava não se permitir ter esperança, em parte porque era tão errado sentir isso baseado em um massacre, e em parte por simples medo de que fosse em vão. Haveria outro ressurreicionista? Ou não?
— Bem, não foram fantasmas, com certeza — disse, optando pela resposta mais segura.
— Não, provavelmente não — concordou Hazael. — Mas é curioso. Nenhum sangue nas lâminas dos nossos soldados, nenhuma pista que nos leve àqueles que escaparam, e cinco ataques em uma única noite: então quantos eram no total? Eles devem ser fortes, para terem conseguido fazer o que fizeram, e provavelmente têm asas, pois só assim poderiam ir e vir sem deixar rastro, e acho também que têm hamsás, ou nossos soldados teriam conseguido acertar nem que fossem alguns golpes. Isso foi só um show de abertura. — Era uma análise estudada; Akiva já pensara tudo aquilo. Hazael olhou para ele demoradamente. — Com o que estamos lidando, Akiva?
Por fim, ele teve que dizer:
— Espectros. Só pode ser.
— Outro ressurreicionista?
Akiva hesitou.
— Talvez.
Será que Hazael sabia o que significava para o irmão se de fato houvesse outro ressurreicionista? Seria ele capaz de pressentir sua esperança de que Karou pudesse reviver? E o que pensaria dessa sua esperança? Será que o perdão de Hazael dependia de Karou estar morta, como se a loucura de Akiva pudesse ter ficado no passado, algo a ser superado para que pudessem seguir em frente e fazer tudo voltar a ser como era antes?
Mas isso não era mais possível para Akiva. O que era possível para ele, afinal?
— Ali! — disse a líder da patrulha, despertando-o de seus pensamentos.
Kala era uma tenente da Segunda Legião, de longe a maior das forças do império, às vezes chamada de exército geral. Ela apontava para uma ravina com árvores não muito densas, onde, como Akiva observou, um pequeno movimento gerou outro, e outro, e então ele viu vários animais correndo. Uma movimentação de rebanho. Os Caprina. Ficou tenso, e seu primeiro impulso foi de raiva: Que idiotice, em meio a essa vasta terra selvagem, eles se deixarem ser vistos.
Era tarde demais para desviar a atenção dos soldados; não havia nada que ele pudesse fazer a não ser seguir Kala, que liderava a equipe terreno abaixo em direção às árvores. Ela estava alerta para uma possível emboscada, e fez sinal para que Akiva e Hazael fossem para o lado oposto da ravina. Os dois seguiram para lá, sem tirar os olhos do espaço aberto entre as copas das árvores, esperando ter uma boa visão. Não conseguiram — somente vislumbres de lã e de um caminhar lento.
Akiva segurava suas espadas contrariado. Ele fora treinado de forma bastante clara. Levante uma arma e você se torna um instrumento, com um propósito tão claro quanto o da própria arma: encontrar artérias e cortá-las, encontrar membros e decepá-los; tomar o que está vivo e entregá-lo à morte. Não havia outra razão para se empunhar uma arma, nenhuma outra razão para ser uma.
Ele não queria mais ser uma arma. Ah, ele podia desertar, podia desaparecer naquele instante mesmo. Não precisava fazer parte daquilo. Mas não era suficiente que ele deixasse de matar quimeras. Um dia ousara sonhar com muito mais do que isso.
Ele e Hazael desceram junto com os outros, as árvores passando sob eles como um sussurro verdejante. O que soava em sua mente era uma voz que ele ouvira uma única vez: É a vida a única capaz de crescer e preencher mundos. Ou temos a vida como mestre, ou a morte. Quando Brimstone dissera essas palavras, não significaram nada para Akiva. Agora ele entendia. Mas como pode um soldado mudar de mestre?
Como alguém que empunhava duas espadas podia ter esperanças de evitar que sangue fosse derramado?