46
Alguns meses tinham se passado desde que Karou experimentara contar a verdade a Zuzana pela primeira vez, lá em Praga. Tinha sido tão estranho falar sobre sua vida secreta que ela não soubera como começar. Simplesmente despejara a história toda, anjos e quimeras e tudo mais, e, se Kishmish não tivesse aparecido naquele exato momento — em chamas —, ela provavelmente teria perdido a amiga para sempre.
Bem, as coisas que tinha para contar agora faziam aquela primeira rodada de confissões parecer brincadeira de criança, mas Mik e Zuzana estavam preparados agora, prontos para acreditar. Afinal, tinham acabado de entrar em uma casbá cheia de monstros. Ainda assim, podia levar algum tempo até se acostumarem à ideia da ressurreição.
— AhmeuDeusporquetemummonstromortonochãodoseuquarto? — foi a esbaforida pergunta de Zuzana quando ela viu o novo corpo de Bast esparramado ali diante de si.
— Bem, ela não está exatamente morta — disse Karou, de forma evasiva.
Zuzana estendeu um tênis cheio de areia e cutucou o corpo inerte com o pé.
— Viva ela não está.
— Verdade. Hum. Vamos dizer que ela está... não viva.
E assim Zuzana e Mik aprenderam que não vivo podia significar morto — e geralmente é o caso —, mas também podia significar novo.
— Eu fiz esse corpo mais cedo — contou-lhes Karou, como se falasse que tinha tricotado um chapéu ou assado um bolo.
Zuzana estava calma; com um pouco de esforço, mas estava. Empoleirou-se na beirada da cama e cruzou as mãos no colo.
— Você fez esse corpo — disse ela.
— Sim.
— Explique, por favor.
E Karou explicou, o mais sucintamente possível, apontando para as bandejas de dentes e omitindo o detalhe do dízimo da dor. Colocou água em uma bacia para que eles pudessem lavar o rosto e os pés — nessa ordem, especificou ela, com uma seriedade fingida —, fez chá de hortelã e ofereceu-lhes tâmaras e amêndoas. Quando eles terminaram de se lavar, ela esvaziou a bacia pela janela sem nem olhar lá para baixo, torcendo para que Thiago ou Ten estivessem passando ali embaixo. Mas nenhum grito ou rosnado veio em resposta ao barulho da água caindo, e ela fechou as persianas para proteger o quarto do calor.
Então concluiu logo a ressurreição, em parte porque era mais fácil mostrar o que fazia do que contar, mas também para tirar aquele corpo dali e permitir que seus amigos relaxassem.
O despertar era a parte fácil. A magia já estava feita, então não era necessário pagar nenhum dízimo ou arregaçar as mangas, expondo os braços cheios de feios hematomas. Karou sentia muita vergonha das marcas, e não queria que Zuzana as visse, mas não seria preciso naquele estágio do processo. Bastava apenas levantar o turíbulo que Thiago lhe trouxera, acender um incenso e colocá-lo na testa do corpo. Zuzana e Mik assistiram a todo o procedimento sem nem piscar, embora na verdade não houvesse nada para se ver. O cheiro de enxofre, o ranger da corrente, esses eram os únicos sinais. Só Karou podia sentir a alma que emergia do receptáculo, hesitando por apenas um instante antes de convergir para seu novo corpo.
Antes, Bast se parecia com uma deusa egípcia felina: forma humana esguia, seios altos, cabeça felina com orelhas grandes. Karou mantivera o aspecto felino o máximo possível, mas tinha sacrificado muito da parte humana, a pedido de Thiago. Aquele novo corpo era todo músculos definidos, embora não tão grande quanto alguns, pois fora feito visando à agilidade. Os braços e o torso superior permaneceram humanos para permitir a versatilidade no uso das armas — Bast era uma boa arqueira —, mas as ancas eram de leopardo, para que ela pudesse dar grandes saltos. E, é claro, aquele corpo também tinha as indispensáveis asas, que, abertas, ocupavam a maior parte do chão. Karou estava feliz por aquela não ser uma de suas criações mais monstruosas, tanto pelo bem de Zuzana e Mik quanto, por incrível que pareça, por Bast.
A alma de Bast, descobrira, tinha uma beleza delicada, inadequada para uma guerra. Karou se perguntou brevemente que vida ela poderia ter tido em um mundo diferente. Bem, pensou enquanto Bast abria os olhos, eles nunca saberiam.
Zuzana deixou escapar uma breve exclamação de susto. Mik apenas olhava fixamente.
Bast ergueu a cabeça, arregalando os olhos ao ver novos humanos, mas não disse nada. Concentrou-se em seu novo eu, testando os membros com pequenos gestos antes de se levantar sem firmeza, encontrando patas onde antes havia mãos e pés.
— Tudo bem? — perguntou Karou.
Bast assentiu e esticou toda a sua flexível coluna, em um gesto inequivocamente felino. Parecia um gato andando pelo peitoril de uma janela.
— Foi bem-feito — disse ela, sua voz soando como um ronronar em sua nova garganta. — Obrigada.
Karou sentiu um aperto no peito. Nenhum dos soldados nunca tinha lhe agradecido antes.
— De nada — respondeu. — Precisa de ajuda para descer as escadas?
Bast balançou a cabeça em negativa.
— Acho que não. — Esticou-se de novo. — Como eu disse, foi bem-feito.
Karou sentiu outra vez o aperto no peito. Um elogio. Era meio ridícula a enorme gratidão que sentia por aquelas poucas palavras. Bast saiu. Quando a porta se fechou, Karou se virou para os amigos.
— Bem — disse Mik, deitando-se apoiado em um cotovelo, assumindo um falso ar de indiferença. — Isso não foi nada estranho.
— Não? — Karou desabou na cadeira e esfregou o rosto. — Meu medidor de estranheza deve estar com problema. Imaginei que fosse pelo menos um pouco estranho.
— De novo — disse Zuzana.
— O quê?
Karou abaixou as mãos e olhou para a amiga. O rosto de Zuzana estava vívido de espanto.
— De novo, de novo. — Ela deu pulinhos na beirada da cama, como uma criança, batendo palmas e pedindo: — Quando eu vou poder fazer isso? Você vai me ensinar, não vai? É claro que vai. Foi por isso que me trouxe até aqui.
— Ensinar você? Eu não trouxe você aqui...
Mas Zuzana não ouvia.
— Isso é tão mais legal que teatro de fantoches. Caramba, Karou. Você está fazendo criaturas vivas. Você é uma Frankenstein, cara!
Karou riu e balançou a cabeça.
— Não sou, não. — Ela tivera bastante tempo para pensar a respeito e descartar a comparação. — A questão central na história de Frankenstein é de onde vem a alma.
Se um humano criasse “vida”, não haveria alma, apenas um pobre monstro incivilizado sem lugar no mundo — ou mesmo no céu ou no inferno, caso houvesse essa preocupação, o que não era o caso de Karou.
— Eu já tenho as almas. — Ela apontou para a pilha de turíbulos. — Só estou fazendo os corpos.
— Ah, só? — disse Mik, com a voz arrastada. — Agora sim.
Mas Zuzana estava hipnotizada pelas dezenas e dezenas e mais dezenas de turíbulos. Arregalou os olhos, boquiaberta.
— Tudo isso? — Ela atravessou o quarto em um segundo e puxou um dos turíbulos do meio da pilha, provocando um pequeno desmoronamento. — Vamos fazer um? Por favor! Quero ver como você faz o corpo. — Ela ainda pulava; Karou temia que a amiga fosse parar no teto. — Serei seu Igor. Por favor, por favor, por favor? Veja. — Ela fingiu ser corcunda e saiu arrastando uma perna. — O que deseja, Herr Doktor? — E em um estalar de dedos estava de volta ao normal. — Por favor... De quem é essa alma? Como você sabe de quem é? Quer dizer, você sabe?
Zuzana tinha mais um milhão de perguntas, mas não esperava a resposta de nenhuma. Karou olhou para Mik em busca de ajuda, mas ele apenas se reclinou e deu de ombros, como se dissesse, Isso é com você.
— Ah, meu Deus. — E uma ideia fez Zuzana ficar imóvel. — Uma exposição de arte. Já imaginou? — Ela descreveu a cena com mãos de uma modelo anunciando um produto. — Galeria Balthus, meia dúzia de corpos quimeras em sarcófagos ornamentais, e na abertura da exposição todo mundo falando oh, ah, que material você usa, eles parecem tão reais, e nós apenas sorrimos com ar de Mona Lisa e giramos o vinho em nossas taças, hã? Isso seria a melhor coisa de todos os tempos. Mas não! Melhor. Nós os trazemos à vida! A fumaça, o cheiro, esse negócios aí que parecem lampiões, e então as esculturas levantam a cabeça e ficam de pé. Todo mundo vai pensar que são marionetes ou algo assim, afinal o que mais poderia ser, e vão ficar tentando descobrir como fizemos aquilo, e todos vão posar para fotos com monstros sem nem saber.
Ela não parava, e Karou riu descontroladamente e tentou fazê-la parar.
— Isso nunca vai acontecer. Você entende isso, não é? Nunca.
Zuzana revirou os olhos.
— Eu sei, sua desmancha-prazeres, mas não seria incrível?
— Seria o máximo — Karou se permitiu dizer.
Ela nunca pensara em seu trabalho como arte, o que agora lhe parecia tolo, ainda mais depois do elogio de Bast. Lembrou-se então de algo de sua vida como Madrigal, de como gostava de ter ideias para novos quimeras quando, ainda criança, começara a trabalhar com Brimstone, até fazia desenhos para mostrar a ele o que tinha em mente. Então se perguntou se tinha sido isso o que fizera Issa incentivá-la — como Karou — a começar a desenhar. Doce Issa, que saudade.
— Mas você vai me deixar ajudar, não vai? — Zuzana estava séria. Ela entregou a Karou o turíbulo que pegara da pilha. — Vamos começar por este. Quem é?
Karou pegou o turíbulo, ficou segurando-o sem dizer nada. Não queria contar que era Thiago quem decidia quem seria ressuscitado e quando.
— Zuze — disse ela —, você não pode.
— Não posso o quê?
— Você não pode me ajudar. Não pode ficar aqui.
— O quê? Por quê?
Zuzana começava a sair do transe de frenética alegria.
— Você não quer ficar aqui, pode acreditar. Vou levá-los de volta assim que tiverem se recuperado o suficiente. Tenho uma caminhonete...
— Mas acabamos de chegar.
Sua expressão era de quem se sentia traída.
— Eu sei. — Karou suspirou. — E é muito bom ver vocês. Só quero que fiquem seguros.
— E você? Você está segura?
— Sim, eu estou — respondeu ela, lembrando-se, ao dizer isso, de quão insegura se sentia a maior parte do tempo. — De mim eles precisam.
— Aham. — Zuzana olhou para ela com ar infeliz. — E por que você, aliás? Por que está aqui, com eles? Por que é você quem está fazendo isso?
Isso já era outra questão, e Karou relutava em falar sobre sua verdadeira natureza assim como em mostrar os hematomas. Por que toda aquela vergonha? Ela respirou fundo.
— Porque... eu sou um deles.
— De que tipo?
Aquilo a surpreendeu. Foi Mik quem perguntou, e soou tão casual que ela pensou não ter ouvido direito.
— O quê?
— Que tipo de quimera você era? Você foi ressuscitada, certo? Tem as tatuagens de olhos.
E apontou para as palmas das mãos dela. Karou virou-se para Zuzana e a encontrou tão pouco surpresa quanto Mik.
— É isso? — disse ela. — Eu conto a vocês que não sou humana, e vocês ficam aí, na maior tranquilidade?
— Sinto muito — disse Mik. — Acho que você neutralizou nossa capacidade de nos surpreender. Devia ter começado com isso e só depois dizer que ressuscitava os mortos.
— Bem, era meio óbvio — comentou Zuzana.
— Como assim óbvio? — perguntou Karou.
Ela acreditara a vida inteira que era humana; e eles não iriam persuadi-la a pensar que, por algum motivo, não tinha sido convincente o bastante.
— É essa sua aura de estranheza, só isso. — Zuzana deu de ombros. — Sei lá.
— Aura de estranheza — repetiu Karou, sem emoção na voz.
— É uma estranheza boa — esclareceu Mik.
— E então, de que tipo você era? — perguntou Zuzana.
A pergunta era tão leve, tão espontânea. Karou sentiu as palmas das mãos úmidas e frias. Afinal, era de sua tribo que estavam perguntando, da família que lhe tinha sido arrancada tanto tempo antes. Flashes daquele dia invadiram sua memória, as longas marcas de sangue no chão, dos corpos que tinham sido arrastados até a entrada da caverna. Ela respirou fundo. Eles não entendiam. É claro que não. No mundo deles não era necessário se preocupar se alguém tinha ficado órfão por causa de traficantes de escravos antes de perguntar sobre sua família.
Houvera uma época em que ela tinha pais, um lar, família. Houvera um tempo em que ela pertencera a algum lugar, perfeitamente e sem necessidade de esforço.
— Eu era Kirin — respondeu Karou suavemente. Eu sou Kirin, pensou, embora tudo o mais que era Kirin lhe tivesse sido tirado: sua tribo e seu lar, por anjos; seu verdadeiro corpo, pelo Lobo Branco; e agora, talvez... Ziri. — Vou mostrar a vocês — ela se ouviu dizendo.
Pegou seu caderno de desenhos e um lápis e os segurou por um instante, tensa, perguntando-se se conseguiria fazer aquilo. Já tentara desenhar Madrigal antes, mas acabava se concentrando em outra coisa. Tinha medo — de desenhar errado, de desenhar direito, do que sentiria ao ver sua antiga eu. Sentiria como se aquela fosse sua verdadeira forma, e ansiaria por ela? Ou acharia estranho, como se nunca tivesse sido aquela garota de tanto tempo antes? De um jeito ou de outro, ela só podia imaginar que aquilo não seria muito agradável.
Ainda assim, achou que já era hora, e começou a desenhar. Uma linha curva. Outra. Seus chifres tomaram forma. Zuzana e Mik observavam. Karou quase sentia como se também estivesse observando, e não criando a imagem, e ficou um pouco surpresa com o que surgiu na página. Com quem surgiu.
— Hum, você era um cara? — perguntou Zuzana.
Karou enfim soltou a respiração em uma risada.
— Não, me desculpe. Esse não sou eu; é Ziri. Ele é... — Parecia brutal demais dizer que ele era o último membro vivo de sua tribo, então falou apenas: — Ele é um Kirin também.
— Ah, ufa. Não sei por que seria mais esquisito se antes você fosse um cara não humano e não uma garota não humana, mas seria.
— Cadê ele? — perguntou Mik. — Ele está aqui?
— A equipe dele já devia ter voltado de uma missão em Eretz.
Zuzana deve ter percebido a ansiedade na voz dela.
— O que quer dizer com já devia ter voltado? Eles estão bem?
— Talvez. Espero que sim. Devem estar atrasados, só isso.
Ou talvez estivessem mortos.