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Serviços heroicos prestados ao reino.
Akiva estava sendo convocado a se apresentar em Astrae pelos “serviços heroicos prestados ao reino”. Se isso tivesse acontecido meses antes, logo após a destruição de Loramendi, talvez fizesse algum sentido. Mas já fazia tempo que as medalhas tinham sido distribuídas, e os despojos, divididos. Akiva tinha sido esquecido, como todos os outros Ilegítimos, então por que aquela convocação?
Liraz estava apreensiva.
— E se Joram souber de alguma coisa?
Estavam voando, e tudo o que se via era o mar da Serenidade, em todas as direções. Ela gostava de sobrevoar o mar: a imensidão, o ar limpo e sem cinzas, o silêncio. Mas não gostava de para onde estava indo.
— O que ele poderia saber? — retrucou Akiva. — E, mesmo que saiba, talvez nunca mais tenhamos outra chance como esta.
Talvez nunca mais tivessem outra chance de ficarem cara a cara com o pai e de dar um fim à brutal vida que ele levava. Liraz nunca nem tinha visto Joram de perto. Mas o dia havia chegado, e seu sangue seria derramado.
— Eu sei — disse ela, e não insistiu mais na ideia. Qualquer protesto que fizesse poderia parecer medo. Medo de Joram. Do fracasso.
Liraz estava com medo. Era um medo pungente, como voar para dentro de uma tempestade de areia; isso a envergonhava, e ela nunca o admitiria. A destemida Liraz. Ah, se eles soubessem... Ela queria dizer: É perigoso demais. Queria convencer os irmãos de que em Astrae — na não menos sagrada Torre da Conquista — haveria muitos fatores além do controle deles. Melhor sumirmos agora, pensou ela, e derrubarmos Joram de fora do império do que voarmos em direção à armadilha. À teia dele.
Embora ela não externasse seus medos e, claro, não demonstrasse o que sentia, Hazael se aproximou dela e disse:
— Joram provavelmente só quer usar nosso ilustre irmão para atingir seus objetivos. Combater os rebeldes? Quem melhor que o Ruína das Feras? Ainda mais quando todo o foco está nessa guerra louca contra os Stelian.
— Ou talvez tenha a ver com essa guerra louca contra os Stelian. Bem ou mal, Akiva é o único elo entre Joram e as Ilhas Longínquas.
Akiva voava um pouco afastado, perdido em pensamentos, mas mesmo assim ouviu o que diziam.
— Não sou elo nenhum. Sei tanto sobre os Stelian como qualquer outro.
— Mas você tem os olhos deles — disse ela. — Isso pode ajudar você a conseguir pelo menos abrir o diálogo.
Akiva parecia enojado.
— Será que ele acha que eu bancaria o emissário? Ele acredita mesmo que sou um seguidor dele?
— Vamos torcer para que sim — disse Liraz, com voz firme. — Porque, se não for isso, então é porque ele desconfia de você.
Akiva ficou em silêncio por um bom tempo, até finalmente dizer:
— Vocês não precisam tomar parte nisso...
— Mas que droga, Akiva — disparou ela. — Eu faço parte disso.
— Eu também.
— Não quero colocá-los em perigo — continuou Akiva. — Posso matá-lo sozinho. Mesmo que ele suspeite de alguma coisa, não deve ter ideia do que sou capaz. Se eu conseguir chegar até ele, posso matá-lo.
— Você pode até matá-lo. Mas talvez não consiga sair — concluiu Liraz por ele, e o silêncio de Akiva confirmou o que ele pensava. — Então você morre, e pronto? Isso seria muito fácil para você, não é?
Liraz manifestava a maioria de suas emoções fortes na forma de raiva, mas naquele caso a emoção era raiva mesmo. Com aquilo que eles tinham começado, ela não teria nem mesmo um regimento para o qual voltar e a ilusão de uma vida. Seria uma proscrita, traidora do império, e sabia que não tinha como liderar um movimento. Akiva podia fazer isso; ele era o Ruína das Feras. E Hazael. Todo mundo gostava de Hazael. Mas quem era ela? Ninguém nem gostava dela a não ser aqueles dois, e às vezes ela pensava que era só por hábito.
— Eu não quero morrer, Lir — disse Akiva, com suavidade.
Ela não soube dizer se ele falava sério.
— Que bom — disse ela. — Porque você não vai morrer. Nós vamos com você. Qualquer morte que aconteça será na outra ponta de nossas espadas.
Hazael a apoiou, e, no rosto de Akiva, a gratidão rivalizava com o vazio que Liraz acreditava ser o olhar de quem busca a morte. Ela se lembrava de uma época em que Akiva gargalhava e sorria, quando, apesar da violência de suas vidas, ele era uma pessoa completa, com uma gama completa de emoções. Ele nunca tivera o comportamento esfuziante de Hazael — mas quem tinha? —, mas parecia vivo. Isso agora era passado.
A fúria fervia dentro de Liraz contra a garota que fizera isso com seu lindo e imponente irmão. Quantas vezes ele tinha saído para encontrar aquela... criatura... e voltado destruído? Muitas e muitas vezes. Criatura. Era feio chamá-la assim, mas Liraz não sabia como pensar nela: Madrigal, Karou, quimera, humana e, agora, ressurreicionista. O que ela era? Não era repulsa o que sentia por Karou, não mais; era indignação. Incredulidade. Um homem como Akiva atravessa mundos para encontrá-la, infiltra-se na capital inimiga só para dançar com ela, move céus e terras para vingar sua morte, salva seus companheiros e irmãos da morte e da tortura, para ela mandá-lo embora arrasado, humilhado, vazio por dentro?
Ela não sabia exatamente o que a garota dissera a Akiva da última vez, mas tinha certeza de que não havia sido nada muito agradável. Enquanto os três voavam em silêncio, Liraz se pegou pensando no que ela diria a Karou no improvável caso de um dia se virem cara a cara de novo. Era um passatempo surpreendentemente gratificante.
— Lá.
Akiva viu primeiro, e apontou. A Espada.
Em sua era de ouro, Astrae fora conhecida como a Cidade das Cem Torres. As torres, uma para cada um dos deuses da luz, eram finas e incrivelmente altas, como caules de flores crescendo em direção aos céus. Eram de cristal, às vezes refletindo as nuvens de chuva da costa esmeralda, outras irradiando prismas de luzes dançantes nos telhados abaixo.
A cidade fora destruída no levante do Comandante, fazia mil anos. Aquela era a nova Astrae, construída por Joram sobre as ruínas da antiga, mas, embora ele tivesse tentado restaurar a cidade morta de seus ancestrais, a anterior fora erguida pelas artes perdidas dos magos, e esta, por escravos. As torres não tinham nem a metade da altura de suas predecessoras, e, em vez de pináculos fluidos de cristal, eram feitas de vidro, coladas e pregadas, unidas por ferro e aço. De todas elas, a Torre da Conquista era a mais alta. Tinha a forma de uma espada — a Espada —, um símbolo perfeito para o império, ainda mais ao pôr do sol, quando sua ponta refletia o fogo do céu. Como acontecia agora.
Sangue e finitude, pensou Liraz ao ver aquela imensa lâmina erguendo-se rubra nos penhascos distantes. Impossível um símbolo mais perfeito.
Ela não gostava de Astrae; nunca tinha gostado. Havia uma atmosfera de tensão e medo difusos, uma cultura de sussurros e espiões. Como Melliel tinha razão em chamar a cidade de “teia de mentiras” — inclusive em face dos mortos pendurados à vista de quem quer que chegasse ali.
O cadafalso do Setor Oeste foi a primeira coisa que eles viram quando alcançaram a cidade. Além dos catorze guardas, havia outro corpo lá, mais antigo, que ela calculou que fosse a desafortunada sentinela de Thisalene, e ainda dois outros que tinham sido pendurados pelos tornozelos, as asas abertas pegando cada brisa que passava e fazendo-os girar em círculos como bonecos quebrados. Liraz não podia nem imaginar qual teria sido o crime — ou azar — deles. Teve o impulso de deixar uma marca negra na madeira do suporte para fazer o cadafalso queimar até o fim. A noite caía; o fogo azul lamberia o céu escuro, cheio de sonhos e visões. Ainda não, disse a si mesma.
Em breve.
Os três desceram ao Setor Oeste e se apresentaram para obter permissão de entrada da cidade. Liraz se pegou trincando os dentes, já esperando a recepção que os Espadas de Prata reservavam aos Ilegítimos: era, na melhor das hipóteses, ver quanto tempo conseguiam fazê-los esperar, e, na pior, provocá-los abertamente. Na opinião dos Lâminas Partidas, os soldados não tinham nenhuma serventia: enclausurados como ficavam na calma perfumada da cidade, só sabiam se perguntar por que os outros tinham demorado tanto para vencer a guerra. Quanto aos bastardos, especificamente, eram inferiores e não mereciam nenhuma atenção.
No caso de Liraz, literalmente inferior. Ela batia na altura da armadura peitoral deles, e os guardas se divertiam em fingir que não a viam. Como todos os Lâminas Partidas, aqueles dois tinham mais de dois metros de altura, sem contar seus elmos emplumados. Talvez alguns centímetros se devessem ao salto das botas, mas mesmo descalços seriam gigantes. Gigantes que, Liraz sabia, ela era capaz de derrubar com um só golpe, o que tornava ainda mais enlouquecedor ter que aturar aquele desrespeito.
— Escravos entram pelo Setor Leste — disse o da esquerda, entediado, sem nem olhar para eles.
Escravos.
A armadura deles deixava claro que eram Ilegítimos. Usavam um colete de cota de malha cinza-escuro sobre uma túnica preta grossa com protetores de ombro e calça de couro preto reforçada com placas de metal. O couro estava gasto; a cota de malha, sem brilho; e havia mossas e remendos nas placas. Em razão da audiência com o imperador, eles usavam também capas curtas, em melhor estado que o restante do uniforme por raramente serem usadas. Capas eram uma péssima ideia — serviam apenas para o inimigo ter por onde agarrá-los.
Bem, para isso e para exibir o emblema dos Ilegítimos: um brasão oval contendo elos de uma corrente. Corrente. Supostamente significava força pela solidariedade, mas todo mundo sabia que na verdade representava escravidão. Ao pensar nos rebeldes quimeras que fizeram os traficantes de escravos comerem suas correntes, Liraz entendeu o impulso. Ela podia se imaginar rasgando a própria capa e enfiando-a na garganta daquele Lâmina Partida ali, mas foi só uma fantasia. Não fez nada, não disse nada.
Hazael, no entanto, riu. Ele era a única pessoa que Liraz conhecia cuja risada falsa parecia real — e irresistível. O Lâmina Partida olhou para ele, franzindo a testa. Bruto e idiota, não sabia dizer se estavam debochando dele. Melhor sempre acreditar que sim, ela quis aconselhar. Hazael a cutucou com o cotovelo.
— Ele estava falando do emblema — disse, como se ela não tivesse entendido a piada.
Liraz não riu; não conseguia nem se imaginar capaz de rir como seu irmão — o som que rolava fácil, a naturalidade dos músculos soltos. Quando ela ria, o som era cáustico e áspero até para os próprios ouvidos, uma risada dura e rígida se comparada ao calor e à entrega de Hazael. Se eu fosse um pão, pensou ela, seria um daqueles amanhecidos, uma ração de soldado já meio estragada, que só serve quando é preciso sobreviver a qualquer custo.
Akiva também não riu. Desprovido de antagonismo ou mesmo qualquer reação, enfiou a convocação imperial na cara do Lâmina e esperou que ele lesse. Contrariado, o sujeito lhes deu passagem.
Meus irmãos, pensou Liraz, adentrando Astrae entre os dois. Como eram diferentes um do outro: Hazael com seu cabelo claro e sua risada, e Akiva, melancólico e calado. Sol e sombra. E o que eu sou? Ela não sabia. Pedra? Aço? Mãos negras e músculos tensos demais para rir?
Eu sou um elo em uma corrente, pensou ela. O emblema deles estava certo — não com relação à escravidão, mas à força. Ela caminhava entre os irmãos, os três lado a lado seguindo pelo meio da ampla avenida da cidade. Esta é minha corrente. A armadura deles não brilhava à luz da lua, à luz dos lampiões, à luz do fogo de suas asas, e o povo recuava quando eles passavam, com olhares de cautela. Ah, Astrae, pensou ela, nós a mantivemos segura demais se é a nós que você teme. Eles não eram nem amados, nem respeitados pelas pessoas, Liraz sabia, e em breve seriam execrados e proscritos, mas ela não ligava. Desde que tivesse seus irmãos.