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FRICÇÃO DE SORTE

— Eles não existem, não é mesmo?

Ziri corou. Não tinha ouvido Karou chegar ao seu lado, e ela o pegara vendo seus amigos se beijarem. Será que ele os estava encarando com fascínio demais? O que ela vira em seu rosto? Ele tentou disfarçar o interesse.

— Acho que metade do ar que eles respiram vem da boca um do outro — continuou ela.

Parecia mesmo, mas Ziri não queria deixar transparecer que havia notado isso. Ele nunca conhecera ninguém que agia como Zuzana e Mik. O casal estava no galinheiro agora; difícil imaginar lugar menos propício ao romance, mas eles não pareciam se importar. Dava para ver os dois pela porta aberta, banhados de branco pela luz do sol. Zuzana se equilibrava no cercado dos animais, mais alta que Mik e inclinada na direção dele. As mãos abertas envolviam a cabeça dele, os dedos enroscados em seu cabelo. Já as mãos dele... As mãos dele envolviam a curva das pernas claras dela, correndo suavemente por trás dos joelhos, subindo pelas coxas e descendo de novo. Tinha sido isso, mais do que o beijo em si, o que fizera Ziri se distrair e ficar olhando os dois. A impressionante intimidade do toque.

Ele já vira gestos de afeição entre quimeras, e também paixão, mas os primeiros em geral se reservavam a mães e filhos, e a outra, a encontros em cantos escuros durante a folia ébria dos bailes do Comandante. Tinha vivido a vida inteira em uma cidade em guerra, passado a maior parte do tempo com soldados, e não conhecera seus pais; nunca vira afeição e paixão tão harmoniosamente unidas, e... doía, por algum motivo. Ali, ao observá-los, sentia uma dor oprimindo seu peito. Mal podia imaginar ter alguém que fosse dele, para tocá-la assim.

— Deve ter algo a ver com os humanos — disse ele, tentando soar indiferente.

— Não. — A voz de Karou soou melancólica. — Tem mais a ver com sorte. — Ele pensou ter visto um vislumbre de dor no rosto dela também, mas Karou sorriu, e, fosse o que fosse, desapareceu. — É engraçado pensar que há apenas alguns meses ela tinha medo até de falar com ele.

Neek-neek, com medo? Não acredito.

A ferocidade da pequena Zuzana fizera Virko começar a chamá-la de neek-neek, uma espécie agressiva de escorpião-musaranho conhecido por enfrentar predadores dez vezes maiores que ele.

— Eu sei — disse Karou. — Ela não é exatamente tímida.

Estavam no salão de refeições; o café da manhã já tinha terminado. Ziri havia acabado de deixar o posto de sentinela e agora pegava sobras do café para ele: ovos frios, cuscuz frio, damascos. Será que Karou já tinha comido? Ela envolveu a cintura com os braços.

— Foi a única vez que a vi daquele jeito — continuou Karou, sorrindo com aquela suavidade típica das boas lembranças. Ela estava muito mais feliz desde que os amigos haviam chegado. — Zuzana passou um tempão sem nem saber o nome dele. Chamávamos o coitado de “garoto do violino”. Ela morria de nervosismo cada vez que achava que iria vê-lo.

Ziri tentou, sem sucesso — e não pela primeira vez —, imaginar a vida humana de Karou, mas não tinha como: nunca tinha visto nada do mundo humano além da casbá, do deserto e das montanhas que a circundavam.

— E o que aconteceu? — perguntou ele, colocando o prato na mesa.

O salão estava vazio; Thiago convocara uma reunião no pátio, portanto Ziri tinha pretendido comer rápido e ir logo para lá. Mas acabou ficando mais tempo quando se viu sozinho com Karou. Primeiro, porque não queria engolir correndo a comida na frente dela, e segundo, porque queria continuar ali, aproveitando sua companhia.

— E como eles... finalmente?

Ziri queria dizer “se apaixonaram”, mas ficava muito constrangido em falar de amor, ainda mais agora que ela sabia o que sentira por ela quando era garoto. Devia ter visto isso em seu rosto, no seu rubor, quando ele lhe contara que a tinha espiado no baile do Comandante, anos antes. Ziri se arrependia de lhe ter confessado aquilo. Não queria que ela o visse como o garoto que a seguia para todos os lados. Queria que o visse como ele era agora: um homem.

Mas Karou entendeu o que Ziri queria dizer, mesmo ele não tendo dito com todas as palavras.

— Bem, como Zuzana tinha muito medo de falar com ele, desenhou um mapa do tesouro. E o escondeu no estojo do violino dele quando Mik estava tocando. Eles trabalhavam no mesmo teatro, mas nunca tinham se falado. E ela foi embora mais cedo naquela noite para não ver quando ele encontrasse o mapa. Vai que ele ficava todo aflito ou coisa assim, sabe? Ela não iria aguentar. Zuzana já havia decidido que, se ele não seguisse o mapa do tesouro, ela nunca mais iria ao trabalho e aquilo seria o fim de tudo.

— E qual era o tesouro?

— Era ela. — Karou riu. — Essa é a Zuze tímida. Ela não queria falar com ele, mas sabia se fazer o objeto de uma caça ao tesouro. Bem no meio do mapa havia um desenho do rosto dela.

Ziri também riu.

— Obviamente ele decidiu ir atrás dela. Seguiu o mapa.

— Aham. Ele foi até o lugar e não a encontrou lá, mas havia outro mapa, que levava até outro, e finalmente até ela. E eles se apaixonaram e estão assim desde então.

Quando disse “assim”, ela apontou para a porta aberta, por onde dava para ver Zuzana agora cuidadosamente caminhando ao longo da cerca, segurando a mão de Mik.

Ziri nunca tinha ouvido falar de nada parecido com aquela história da trilha de mapas do tesouro. Exceto talvez pela história do anjo que entrara disfarçado na cidade do inimigo para dançar com sua amada.

Gostava mais da história de Zuzana.

— Tem a ver com sorte — repetiu ele.

— É. — Karou olhou para ele, depois desviou o olhar de novo. — Acho que os dois precisam ter sorte. É como uma fricção de sorte. Um é a rocha, e o outro, o aço, fazendo atrito juntos para criar fogo. — Ela apertou ainda mais os braços em volta do corpo. — A história é melhor quando eles mesmos contam. Não sou tão engraçada quanto esses dois.

— Vou pedir que eles me contem, então — disse Ziri. Ele sabia que a reunião convocada por Thiago devia estar começando, que precisava ir. — Do jeito como estão aprendendo a falar quimera, não vai demorar para que eles consigam.

Ela não disse nada. A ternura das boas lembranças se fora. Ela olhou furtivamente por sobre o ombro, depois para ele, um olhar incisivo.

— Ziri — disse baixinho —, preciso tirá-los daqui.

— O quê? Por quê?

— Thiago ameaçou os dois. Enquanto eles estiverem aqui, preciso fazer exatamente o que ele quiser. E quero muito parar de fazer justamente isso: o que ele quer.

Ela disse a última parte de maneira intensa, e Ziri teve a impressão de que alguma coisa mudava dentro dela, como se estivesse se preparando para alguma coisa, respirando fundo e reunindo forças.

— Zuzana e Mik sabem disso?

— Não, e eles não vão querer ir embora. Gostam daqui. Gostam de fazer parte de algo mágico.

Ziri também gostava. Adorava aquelas horas passadas no quarto de Karou com ela, Issa, Mik e Zuzana, mesmo que pagando o dízimo. Eram momentos cheios de vida, calor e risadas, dedicados a ressurreições em vez de mortes.

— Vou ajudar você. Vamos levá-los a um lugar seguro.

— Obrigada. — Karou tocou a mão dele e disse mais uma vez: — Obrigada.

Então Zuzana gritou alguma coisa para ela na língua humana que eles falavam e surgiu depressa à porta.

— Você vem? — perguntou Ziri a Karou. — A reunião já deve ter começado.

— Não fui convidada — disse ela. — Não é para eu me preocupar com essas questões. Você vai me contar depois? Vai me falar o que ele está planejando?

— Vou — prometeu Ziri.

— Eu também tenho uma coisa para lhe contar.

De novo aquela sensação de que ela estava se preparando e reunindo forças, com uma intensa determinação. A garota trêmula que Thiago encontrara nas ruínas já não existia mais.

— O que é? — perguntou Ziri, mas o pequeno furacão humano tinha chegado até eles.

— Mais tarde — disse Karou quando Zuzana a pegou pela mão e a arrastou para longe, cumprimentando Ziri com um distraído olá por cima do ombro.

Ele deixou o café da manhã intocado e saiu. O que será que ela queria lhe contar? Ainda podia sentir o toque dela em sua mão.

Uma vez, quando ele era garoto, e ela, Madrigal, ela o beijara. Pegara o rosto dele com as mãos e dera um beijo de leve em sua testa, e era ridículo quantas vezes ele pensara nisso desde então. Mas seus momentos de felicidade infelizmente eram poucos, e o beijo não tivera muitos concorrentes a melhores momentos, portanto ganhara fácil a competição. Agora tinha.

Agora ele tinha a lembrança da calidez do ombro de Karou junto ao seu quando dormiram lado a lado, e a lembrança de acordar ao lado dela. Como seria acordar ao lado dela todas as manhãs? Deitar-se com ela todas as noites? E... preencher com ela as horas entre esses dois momentos. Todas as horas da noite.

— Tem a ver com sorte — dissera ela.

Diziam que ele tinha sorte. Ziri Sortudo. Por ainda ter seu corpo original? Era algo que nenhum dos outros tinha, então ele não argumentava se queriam chamá-lo de sortudo, mas nunca se sentira um cara de sorte, crescendo sem seu povo, sem vida senão a guerra, e sentia-se até menos sortudo agora que a guerra tinha acabado — o que quer que isso significasse, uma vez que a matança continuava.

Então ele pensou nos gritos daqueles à beira da morte, na fumaça dos corpos, e ficou envergonhado por questionar a própria sorte. Ele estava vivo; não podia achar que aquilo não era nada, e ele não ficaria vivo para sempre.

Todos já estavam no pátio quando ele chegou lá — exceto Ten, que entrou às escondidas um instante depois de Ziri e aproximou-se em silêncio do Lobo para sussurrar algo em seu ouvido. Thiago parou para ouvi-la, e então seus olhos buscaram tranquilamente os de Ziri, que sentiu um arrepio.

— Como todos sabem, perdemos uma equipe em nossos ataques há pouco tempo. Foram nossas primeiras baixas, mas o responsável por colher as almas do grupo fez seu trabalho e voltou com todas elas. Ziri.

Thiago assentiu para ele ao terminar de falar. Os soldados reunidos comemoraram e deram gritos de alegria, e alguém deu um empurrão de brincadeira no ombro de Ziri. Mas Ziri em nenhum momento acreditou que aquele discurso levaria a qualquer coisa boa. Ele se preparou para as más notícias, então não se surpreendeu com o que veio a seguir.

— Mas você precisa de uma nova equipe agora. Será que Razor poderia aceitá-lo em seu grupo?

Thiago se virou para Razor. Não, pensou Ziri, trincando o maxilar. Todos menos ele.

— Como quiser, meu general — sibilou Razor. — Mas não posso prometer que ele vai brincar de “esconde-esconde” na minha equipe, ou conservar essa pelezinha bonita que tem.

“Esconde-esconde” era uma forma de difamar os soldados que ficavam em segurança para colher as almas, usada em bravatas estúpidas por quem não conseguia enxergar o valor de se preservar aquelas vidas. Ziri ficou tenso com a insinuação de que ele alguma vez escolheria se esconder, mas então pensou no que estariam fazendo de qualquer maneira, e perdeu a convicção na indignação que sentia. Ele realmente ia preferir se esconder. Melhor ainda, preferiria evitar que o massacre acontecesse.

Mas é claro que essa não seria uma opção. Ziri já tinha muitos anos como soldado. Nunca gostara muito daquela vida, mas era bom, e nunca, pelo menos não enquanto o Comandante era vivo, a abominara. No entanto, esse era o caso agora.

— Há uma série de cidades às margens do rio Tane, a leste de Balezir — prosseguiu Thiago. Ele sorriu com a exaltação doentia que Ziri sabia ser o prenúncio de estragos terríveis, e completou: — Quero que os anjos acordem em Balezir amanhã se perguntando por que o Tane está correndo vermelho.