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UM NÚMERO BEM MELHOR

Karou estava debruçada sobre um colar quando Ten parou à porta do quarto, mas na verdade seus pensamentos estavam longe dali, em Loramendi. Ela mal assimilara ainda o que Issa havia lhe contado. A mensagem era boa e ruim, realmente. Mas boa e ruim eram palavras para uma cartilha infantil, não chegavam nem perto de representar a magnitude da tragédia que aquilo significava, por um lado, e, por outro... a esperança.

Esperança capaz de clarear a mente, erguer a cabeça e mudar tudo. Ou pelo menos poderia mudar tudo.

Ou Thiago poderia esmagá-la e seguir com sua campanha de terror até não haver mais esperança para os quimeras. Cabia a Karou persuadi-los. Tranquilo, pensou ela, olhando para os dentes que segurava na mão e contendo uma gargalhada. Todos me amam por aqui. Acho que vou convocar uma reunião.

À porta, Ten limpou a garganta.

Karou olhou meio de lado para ela, com ar de enfado.

— O que você quer?

— Quanta hostilidade — disse Ten, entrando sem ser convidada. — Só vim trazer uma mensagem. — Ela falou de forma tão casual que Karou achou que fosse uma mensagem de Thiago. Mas devia ter imaginado que havia algo de errado, pelo tom de diversão na voz de Ten. — Ficou chateado por não poder vir se despedir de você pessoalmente.

— Se despedir? — Essa era boa. — Aonde ele está indo?

Thiago já não liderava missões havia muito tempo. Ele quase fazia parte da decoração da casbá, assim como Karou. Mais, até, porque teoricamente ela podia sair voando quando quisesse.

— Para o Tane — respondeu a mulher-lobo.

O Tane era um rio a leste de Azenov, a área que constituía o coração do império. Karou ergueu os olhos de repente, mas foi Issa quem perguntou, com um desprezo evidente.

— E de quem é essa mensagem, mulher-lobo?

— É do seu amigo — disse Ten, como se fosse uma palavra proibida, um comportamento indecente que só podia ser mencionado às escondidas. — Por quê? De quem você achou que eu estava falando?

Karou foi até a janela: lá estava ele no pátio com sua nova equipe. Com Razor. Eles levantaram voo diante dos seus olhos, bem naquele momento. Dessa vez, Ziri olhou para sua janela, e à distância Karou viu que o rosto dele estava tenso de raiva, e os olhos, enquanto erguia a mão em despedida, cheios de tristeza.

Seu coração batia acelerado. Aquilo estava acontecendo porque ele lhe ajudara no dia anterior, ou talvez em razão do ocorrido daquela manhã. Qualquer que fosse o motivo, ela não tinha tomado os cuidados devidos.

— Aonde Ziri está indo? — perguntou Zuzana, inclinando-se ao lado dela para ver a equipe partir.

— Em uma missão — Karou se ouviu dizer.

— Com Razor? — Zuzana deixou escapar um som abafado de repulsa, que, por ser cômico, era totalmente inadequado. Ela não fazia ideia. — O que tem naquele saco horrível dele, afinal?

Acho que Ziri vai descobrir, pensou Karou, o que a deixou enjoada. Ela era a culpada por Razor. Fora ela quem colocara aquela alma ardilosa, que tinha lhe passado uma sensação tão ruim, em um corpo forte e poderoso, e depois o acordara. E agora Ziri estava à mercê dele — isso sem falar dos serafins que tinham morrido e dos que ainda morreriam pelas mãos dele.

Ela ouvira falar... que ele os comia.

Não queria acreditar nisso, mas bastava ficar perto dele, na direção que o vento soprava, para sentir o odor de matadouro que vinha de sua boca — fiapos de carne podre entre seus dentes de navalha. E quanto ao saco coberto de manchas, ela não queria saber. Nunca. Só queria que aquilo terminasse, mas lá ia ele, instaurar o caos no Tane.

— Sete é demais para uma equipe, não é? — observou Ten. — Seis é um número bem melhor.

Um número bem melhor? Karou entendeu e se virou de frente para ela na mesma hora.

— O quê? Diga o que você está pensando. Apenas seis vão voltar?

— Tudo pode acontecer — replicou Ten, dando de ombros. — Sabemos disso quando entramos em uma batalha.

O peito de Karou subia e descia com sua respiração acelerada.

— Você sabe mesmo? — devolveu ela. — Quando foi a última vez que participou de uma batalha? Você ou seu senhor?

Karou estendeu a mão de repente e pegou uma faca da mesa. Era a pequena, pouco maior do que uma lixa de unha; ela a usava para centenas de coisas, como cortar incenso e soltar dentes de maxilares, ou furar as pontas dos dedos para provocar pequenas dores das quais às vezes precisava para terminar uma conjuração.

— Venha, Ten — disse ela, segurando firme a faca. — Que tal uma ressurreiçãozinha? Você não vai nem precisar caminhar até o fosso. Eu jogo seu corpo pela janela mesmo.

Ten riu. Da faca pequena, e dela. Parecia um latido.

— Sério, Karou? Então é assim que você quer brincar? — Estendeu uma das mãos em direção a Zuzana e Mik. — E qual deles morre primeiro? O Lobo provavelmente vai deixar você escolher.

— Bem, você já vai estar morta, então acho que vai perder.

Issa agarrou a mão de Karou e pegou a faca.

— Docinho, pare com isso!

Então Karou, tremendo de raiva, rosnou:

— Saia!

Ainda rindo, Ten foi embora.

Karou se virou para Mik e Zuzana, que estavam colados à parede, de mãos dadas, com expressões idênticas de O que houve? no rosto. Ela passou por eles, voltou à janela e olhou para o imenso céu vazio. Ziri já havia desaparecido, e, lá embaixo no pátio, facilmente identificável em meio aos soldados do pequeno mas sempre crescente exército, estava Thiago. Olhando para ela.

Karou fechou as venezianas com força.

— O que houve? — perguntou Zuzana, começando a dar pulinhos, agitada. — O quê o quê o quê?

Karou soltou o ar trêmula e demoradamente. Ziri não só era um soldado como era um Kirin, pensava para tentar se confortar. Ele sabia cuidar de si mesmo. Pelo menos era nisso que ela queria acreditar. Em seu íntimo, nas profundezas terríveis e assustadoras da impotência, ela sabia... sabia que provavelmente nunca o veria de novo.

— Vou tirar vocês daqui — disse Karou. — Esta noite.

Zuzana tentou argumentar.

Karou a interrompeu:

— Este não é um bom lugar para vocês — disse ela, em um sussurro áspero, da maneira mais enfática que pôde. — Vocês nunca se perguntaram como eu morri?

— Como você...? Hã, acho que em uma batalha?

— Errou. Eu me apaixonei por Akiva, e Thiago mandou me decapitar. — Simples e brutal. Zuzana perdeu o fôlego. — Então, agora que vocês sabem, vão me deixar tirá-los daqui?

— Mas e quanto a você?

— Eu preciso cuidar disso. Tem que ser eu. Zuze, por favor.

Com a voz mais fraca que Karou já a ouvira usar, Zuzana respondeu:

— Está bem.

— Hã... mas como? — perguntou Mik.

Essa era uma boa pergunta. Karou estava sendo vigiada, isso dava para perceber, e não apenas por Ten. Não podia mais contar com Ziri, e não podia se arriscar a ressuscitar a patrulha de Balieros — seria óbvio demais. Não sabia ao certo com quem mais poderia contar, mas tinha uma ideia que não envolvia nenhum outro quimera.

Ainda abalada, ela respirou fundo de novo e olhou para Zuzana e Mik, avaliando os dois. Eles não tinham o menor jeito de soldados, e não só por serem humanos, mas também por serem muito... Primeiro Mundo, desacostumados com qualquer tipo de adversidade. A caminhada até ali quase os matara, e Zuzana não estava exatamente brincando quando falava que perder o bolo no parque de diversões tinha sido o pior dia de sua vida. Será que aguentariam pagar o dízimo? Bom, teriam que aguentar.

— Vocês conseguiriam ir embora daqui a pé, se fosse necessário? À noite, quando não está tão quente?

Eles assentiram, os olhos arregalados.

Karou mordeu o lábio, preocupada.

— Vocês acham... — perguntou, hesitante, torcendo para que não fosse a pior ideia que já tivera na vida — que gostariam de aprender a... hã, ficar invisível?

Ela daria tudo naquele instante para ter uma câmera e poder guardar para sempre a expressão no rosto da melhor amiga.

A resposta, é óbvio, foi sim.

* * *

Passaram o dia todo concentrados nisso.

— É um pouco menos incrível do que poderia ser — foi o mais perto que Zuzana chegou de reclamar do dízimo, mas sua alegria, quando voltou a ficar visível depois de conseguir realizar o encanto pela primeira vez, era linda e radiante, e ela estava linda e radiante.

Karou não conseguiu evitar: agarrou-a em um abraço extremamente longo e muito apertado que só podia querer dizer: Amei conhecer você. Quando ela por fim se afastou, Zuzana estava com os olhos úmidos, a boca em uma careta irritada para evitar as lágrimas, e não disse uma palavra.

Karou ainda tinha que concluir algumas ressurreições para poder apresentar os soldados a Thiago, a fim de que ele pensasse que sua atenção estivera em outro lugar naquele dia. Conseguiu isso com a ajuda de Issa — três novos soldados — e sobreviveu ao jantar também, comendo mecanicamente. Agora, mais do que nunca, observava o grupo e pensava: quais deles teriam coragem de enfrentar o Lobo?

Deveria haver alguns dispostos a isso, disse a si mesma, considerando o motivo que agora estava pronta para explicar.

Zuzana e Mik não deixaram transparecer nada. Sentaram-se no chão com os soldados, como de costume, aprendendo palavras de uma língua mística que nunca mais teriam a oportunidade de falar. Amigo, voar, eu amo você. Virko achou essas últimas hilárias, mas Karou ficou emocionada. Mik tocou Mozart aquela noite, e Karou viu Bast se derramar em lágrimas. Bem mais tarde, em seu quarto, entregou tornos a seus amigos, prendeu um em si mesma e conduziu-os, invisíveis, pela noite do deserto. Só levaram o que cabia em seus bolsos — dinheiro, os telefones que não funcionavam, passaportes, a bússola — e cantis pendurados nos ombros. Todo o resto deixaram para trás.

Karou caminhou um pouco com eles, depois voou de volta para a casbá para vigiar e garantir que ninguém notasse a ausência dos dois.

E ninguém notou.

Em sua bandeja de dentes, ela encontrou um papel dobrado: um desenho de Zuzana e Mik, e escritas foneticamente as palavras quimeras para “eu amo você”. Karou então desabou, e Issa a abraçou, e ela abraçou Issa, e as duas choraram, mas, quando o sol nasceu e a casbá retornou à vida, já tinham se acalmado. Pálidas e vencidas. Prontas.

A hora tinha chegado.