65
Era uma escolha. Que, quando o fim chegou, se impôs a todo quimera em Loramendi. Bem, não aos soldados. Eles morreriam defendendo a cidade. E não às crianças. Os pais escolheram por elas, e os invasores serafins se lembrariam mais tarde de ver pouquíssimas crianças na cidade, quando o cerco finalmente invadiu as barras de ferro da Gaiola. Talvez nenhuma, na verdade. Tanta coisa já havia sido queimada e destruída; era difícil fazer um levantamento em meio a todos aqueles escombros.
De forma que os anjos nunca imaginaram o que havia enterrado sob seus pés.
Sigam para a catedral sob a cidade. Carreguem seus bebês e levem as crianças pela mão. Desçam até a escuridão abafada e nunca mais saiam de lá.
Ou fiquem na superfície e enfrentem os anjos.
Era uma escolha entre tipos diferentes de morte, e foi uma escolha fácil. A morte subterrânea seria mais suave. E talvez... quem sabe... menos permanente.
Brimstone não prometeu. Como poderia? Era apenas um sonho.
— De nós dois, você sempre foi o sonhador — disse-lhe o Comandante quando Brimstone propôs a ideia.
Eles eram dois velhos — “monstros velhos”, como o inimigo teria dito — que tinham se erguido da mais abjeta escravidão e destruído seus senhores, conseguindo, com muita luta, mil anos de liberdade para seu povo. Mil anos e nada mais. Estava tudo acabado, e os dois, muito cansados.
— Já tive sonhos melhores — disse Brimstone. — Que a catedral seria para bênçãos e casamentos, em vez de ressurreições. Nunca sonhei que seria uma tumba.
A catedral era a imensa caverna natural que ficava embaixo da cidade. Além dos espectros que acordavam em suas grandes mesas de pedra, poucos tinham visto as estalactites entalhadas em suas superfíciers internas. Por mais que tivesse sonhado com bênçãos e casamentos quando a encontrara e erguera acima uma cidade, a catedral só vira fumaça de espectro e hamsás, nada mais.
E agora isto.
— Tumba, não — disse o Comandante, tocando o ombro encurvado do amigo. — Não é justamente esta a questão? Não é uma tumba; é um turíbulo.
Os turíbulos, conquanto propriamente fechados, podiam preservar almas indefinidamente. E se a catedral em si fosse cerrada, os tubos de ventilação, fechados, e sua longa escada em espiral, destruída, Brimstone supunha que poderia servir como um gigantesco receptáculo para a preservação de milhares de almas.
— Talvez nunca passe de uma mera tumba — alertou ele.
— Mas de quem foi a ideia? — perguntou o Comandante. — Eu devo convencer você, que foi quem me sugeriu isso? Você poderia olhar pela janela hoje, ver chover fogo do céu e dizer que foi tudo em vão, tudo que já fizemos, porque perdemos. Mas vários foram os que nasceram e viveram e conheceram a amizade e a música nesta cidade, por mais feia que seja, e por toda esta terra pela qual batalhamos. Alguns envelheceram, outros tiveram menos sorte. Muitos tiveram filhos e os criaram, e tiveram o prazer de fazê-los, e proporcionamos isso a eles por todo o tempo que foi possível. Quem algum dia já fez mais do que isso, meu amigo?
— E agora é o fim do nosso tempo.
O Comandante abriu um sorriso pesaroso.
— Sim.
A tumba — o receptáculo — não seria o descanso deles, porque os anjos não deixariam pedra sobre pedra até encontrar o Comandante e o ressurreicionista. O imperador precisava de seu grande desfecho. Aquele podia ser o sonho de Brimstone, mas sua concretização dependeria de outra pessoa.
— Você acha que ela virá? — perguntou o Comandante.
Brimstone sentia o coração pesado. Não sabia se Karou algum dia encontraria o caminho de volta a Eretz; não a havia preparado para algo assim. Ele lhe dera uma vida humana e tentara acreditar que ela poderia escapar do destino de seu povo, da guerra sem fim, do mundo partido. E agora ia jogar tudo em cima dela? Pesadas, muito pesadas eram as chaves para um mundo destruído. O peso de todas aquelas almas seria como algemas para ela, mas Brimstone sabia que Karou não se esquivaria.
— Ela virá — disse ele. — Sei que virá.
— Bem, então vamos em frente. Você escolheu o nome apropriado para ela, seu velho tolo. Esperança, de fato.
Então eles deixaram que o povo escolhesse, e a escolha foi fácil. Todos sabiam o que estava por vir; suas vidas tinham se resumido a aglomeração e fome — e fogo, sempre fogo — enquanto esperavam pelo fim. Agora o fim estava próximo, e então... como um sonho, a esperança surgia: insinuando-se aos sussurros até suas casas escuras, suas ruínas e refúgios. Eles conheciam, todos eles, a desolação de acordar de sonhos cheios de esperança em meio à escuridão e ao cheiro fétido do cerco. A esperança era uma miragem; não era fácil confiar nela. Mas aquilo era real. Não era uma promessa, apenas uma esperança: de que eles poderiam viver novamente, de que suas almas e as almas de seus filhos poderiam esperar em paz, em estase, até o dia...
E essa era a outra esperança, mais pesada ainda, que Brimstone depositava nos ombros de Karou, e de longe a tarefa mais difícil: de que esse dia fosse chegar, com um mundo para o qual pudessem despertar. Brimstone e o Comandante nunca conseguiram alcançar isso com seus exércitos, mas Madrigal e o anjo que ela amara tiveram juntos um sonho lindo, e, embora esse sonho tivesse morrido no cadafalso, Brimstone sabia melhor do que ninguém que a morte nem sempre é o fim que parece ser.
Aos milhares, quimeras de todas as tribos desceram em fila pela longa escada em espiral, que seria destruída logo depois; não haveria como escapar dali. Contemplaram a glória da catedral. Agruparam-se, bem juntos, e cantaram um hino. Era possível que a catedral nunca passasse de uma tumba para todos ali, mas ainda assim aquela era a opção mais fácil.
A escolha mais difícil, o verdadeiro heroísmo, foi daqueles que decidiram ficar lá em cima, porque afinal nem todos podiam ir. Se todos os quimeras desaparecessem de Loramendi, os serafins imaginariam que tinham se escondido e começariam a procurar. Então alguns cidadãos — muitos — tiveram que ficar na superfície para dar essa alegria aos anjos. Tiveram que ser a alegria dos anjos, vencidos com dificuldade para alimentar as fogueiras com seus corpos. Os mais velhos ficaram, assim como a maioria dos que tinham perdido seus filhos, e muitos refugiados devastados, que já haviam suportado tanta coisa que não tinham mais nada a perder.
Eles se sacrificaram para que outros pudessem voltar a viver em tempos melhores.
Foi com esse conhecimento que Karou se armou naquela manhã, e com suas armas de verdade: saiu com as lâminas de lua crescente presas à cintura e a pequena faca enfiada na lateral da bota. Com Issa ao lado, seguiu para o pátio, onde o Lobo e seus soldados já estavam acordados e reunidos no ar puro e fresco da manhã, várias equipes armadas e prontas para voar. Uma delas era a de Amzallag; Karou sentiu seu coração apertar em solidariedade a ele. Gostaria de poder lhe contar as novidades em particular, e para alguns dos outros também, os que seriam mais fortemente afetados.
Amzallag tinha filhos. Ou melhor, tivera, antes da queda de Loramendi.
— Atacaremos ao norte da capital — dizia Thiago. — As cidades não são muito bem protegidas e estão mal vigiadas. Os anjos não enfrentam uma batalha ali há centenas de anos. Meu pai já não os atacava com a força necessária. Ele assumiu uma postura defensiva. Agora não temos mais nada a defender.
Era uma declaração ousada, e foi recebida com desconforto por alguns soldados. Quase como se ele acusasse o Comandante pela queda de seu povo.
— Temos, sim — interrompeu Karou, saindo de sob o mesmo arco debaixo do qual se escondera para ver Ziri e Ixander lutarem. Thiago virou para ela sua máscara benevolente: como estava frágil e pouco convincente. — Temos algo a defender, sim.
— Karou — disse ele.
O Lobo virou-se, à procura de Ten, a babá de traidora. Pela visão periférica, Karou viu a mulher-lobo se aproximar.
— Ainda há vidas a serem salvas — prosseguiu ela —, escolhas a serem feitas.
Eram palavras de Akiva, percebeu ela assim que as pronunciou. Ficou vermelha, mesmo que ninguém pudesse saber que ela estava citando o Ruína das Feras. Bem, ele tinha razão. Mais do que imaginava.
— Escolhas?
O olhar de Thiago era frio, indiferente. A mão de Ten se fechou em torno do braço de Karou.
— Lembre-se da escolha de que falamos ontem — disse a mulher-lobo, em um rosnado baixo.
— Que escolha, Ten? — perguntou Karou, bem alto. — Entre Zuzana e Mik? Qual dos dois você ia matar primeiro? Pois eu não escolho nenhum dos dois, e eles estão fora do seu alcance. Tire a mão de mim. — Ela puxou o braço e se virou para o grupo. Viu alguma confusão, olhares correndo dela para Thiago. — A escolha de que estou falando é proteger nossos inocentes dos serafins, em vez de massacrar os deles.
— Não existem serafins inocentes — disse o Lobo.
— É o que eles dizem quanto matam nossas crianças. — Não pôde evitar olhar na direção de Amzallag. — E há até quem acredite nisso. Mas nós sabemos que todas as crianças são inocentes. Todas as crianças são sagradas.
— Não as deles — insistiu Thiago, um rosnado baixo ameaçando se manifestar.
— E quanto a todo o povo dos dois lados que só está tentando viver? — Karou deu um passo na direção dele. E outro. Não sentia seus pés; talvez não estivesse nem andando, e sim flutuando. Em seu estado de ansiedade e coragem exageradas, Karou ouvia as batidas do coração reverberarem em seus ouvidos. Sua coragem era só aparente. Ela se perguntava se era sempre assim, ou se havia aqueles que realmente não sentiam medo. — Thiago, eu tenho tentado entender uma coisa, mas tinha medo de perguntar. — Então examinou o grupo com atenção. Todos aqueles rostos, aqueles olhos que ela mesma criara, todas aquelas almas que tocara, algumas bonitas, outras não. — Será que todo mundo aqui entende menos eu, ou será que algum de vocês perde o sono pensando nisso também? — Virou-se novamente para Thiago. — Qual é o seu objetivo?
— Meu objetivo? Karou, não é necessário que você entenda de estratégia.
Ela podia ver que ele ainda estava tentando entender que audácia a levara a questioná-lo, e como ele poderia reafirmar seu controle sem ameaçá-la abertamente.
— Não perguntei qual é a sua estratégia, só o seu objetivo. É uma pergunta simples. A resposta deveria ser simples. Pelo que estamos lutando? Pelo que estamos matando? O que você vê quando olha para o futuro?
Quanta severidade nos olhos frios dele, quanta imobilidade em seu rosto imóvel. Uma fúria gelada. Ele não tinha uma resposta. Não uma boa resposta, ao menos. Estamos lutando para matar, poderia ter dito. Estamos matando por vingança. Não há futuro. Karou sentiu a espera coletiva dos quimeras e se perguntou quantos deles estariam felizes com aquilo. Quantos tinham perdido a capacidade de esperar por mais, e quantos poderiam encontrar um pouco de esperança quando soubessem o que Brimstone fizera.
— O futuro — disse Thiago, após uma pausa longa demais. — Uma vez eu ouvi você planejando o futuro. Nos braços do seu amante anjo. Vocês falavam em me matar.
Ah, claro, pensou Karou. Foi uma evasiva esperta da parte dele. Para os soldados, aquela imagem — uma quimera enroscada em um serafim — era suficiente para eclipsar sua pergunta.
— Eu nunca concordei com isso — disse Karou, o que era verdade, mas ela sentia que a curiosidade que tinha acendido se esvanecia; iria perder o pequeno terreno que tinha conquistado. — Responda a minha pergunta. Aonde você está nos levando? O que vê no futuro? Nós vamos viver? Teremos terras? Teremos paz?
— Terras? Paz? Você deveria perguntar isso ao imperador serafim, Karou, não a mim.
— Qual, aquele que diz que as feras devem morrer? Sempre soubemos qual é o objetivo dele, mas o Comandante nunca o imitou como você está fazendo. Esses assassinatos terroristas só fazem despertar mais fúria contra o povo que vocês abandonaram. — Virou-se para os soldados. — Vocês estão ao menos tentando salvar os quimeras, ou agora se trata apenas de vingança? Matar o maior número possível de anjos antes de morrer? É tão simples assim?
Ela queria poder lhes contar o que a patrulha de Balieros fizera, o que aqueles poucos soldados haviam testemunhado nas Terras Distantes, mas não podia revelar esse segredo. O que Thiago faria se soubesse?
— Você acha que há outra maneira, Karou? — Ele balançou a cabeça. — O tratamento gentil deles levou você a acreditar que são amigáveis? Só há um jeito de salvar os quimeras, e é matando os anjos.
— Matando todos eles? — indagou ela.
— Sim, Karou, matando todos eles — respondeu Thiago, de forma mordaz. — Imagino que deve ser dificil para você ouvir isso, já que seu amante é um deles.
Ele voltaria a esse mesmo ponto toda hora, e era curioso: quanto mais vezes ele o mencionava, menos vergonha Karou sentia. O que ela fizera, na verdade, além de se apaixonar e sonhar com a paz? Brimstone já a perdoara. Até mais do que isso; acreditara no sonho dela. E agora... confiara a ela — não a Thiago, a ela — a missão de encontrar um caminho para que seu povo pudesse viver novamente.
E ela achara que a pilha de turíbulos que lhe esperava em seu quarto era um fardo? Ah, o que um pouco de perspectiva não era capaz de fazer. Mas a sensação que a preenchera ao saber sobre a catedral não foi a de estar presa, como sempre acontecia enquanto cumpria as ordens de Thiago. Não. Foi como se ela estivesse de joelhos e Brimstone pegasse sua mão e a ajudasse a ficar de pé. Foi redenção.
Ela olhou para Issa, que assentiu brevemente. Respirou fundo. Então disse aos rebeldes:
— A maioria de vocês ou talvez até todos vocês comemoraram minha execução. Talvez me culpem por tudo isso. Não espero que queiram me ouvir, mas espero que ouçam Brimstone.
Isso provocou uma agitação.
— Brimstone? — disseram alguns, céticos.
Então olharam para Issa, como era de se esperar.
Thiago também olhou para ela.
— O que é isso? — perguntou ele. — O fantasma de Brimstone fala através de você, Naja?
— Se preferir assim, Lobo — rebateu Issa. Então se dirigiu aos soldados: — Vocês todos me conhecem. Durante anos fui companheira de Brimstone, e agora sou sua mensageira. Ele me enviou de Loramendi em um turíbulo para servir a esse propósito. Isso significava que eu não poderia morrer ao seu lado, como eu gostaria. Então, ouçam bem, para fazer valer o sacrifício dele e o meu. É grotesco imaginar que mortes, mutilações e terror poderão nos levar a uma vida digna de ser vivida. Tudo isso só trará o que sempre trouxe: mais mortes, mais mutilações, mais terror. Se vocês acreditam que vingança é tudo que lhes resta, ouçam-me.
Como ela estava linda, erguida bem alto nos anéis de sua cauda de serpente, e poderosa, com seu capelo de cobra bem aberto, as escamas brilhando como um verniz à luz da aurora. Estava exultante, beatífica e radiante de emoção.
Ela continuou:
— Vocês têm mais motivos para viver do que imaginam.