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APOCALIPSE

Karou sentiu a partida de Akiva como sempre sentia: com frio. O calor dele era como um presente que alguém dá para depois levar embora. Ela ficou lá, de costas para a janela, sentindo-se fria, destruída e abandonada. E irritada. Era uma raiva infantil: ao vê-lo, tivera vontade de socar seu peito e então desabar em cima dele e senti-lo abraçando-a.

Como se ele pudesse ser o porto seguro do qual ela estava sempre à procura sem nunca encontrar.

Respirou fundo. Achava que podia senti-lo se afastando, e a distância doía mais a cada bater de asas que imaginava. Inspirou várias vezes para se impedir de começar a soluçar. O braço de Issa estava em volta dela. Seja seu próprio porto seguro, disse a si mesma, empertigando-se. Nenhuma barra de madeira no mundo poderia protegê-la do que estava por vir, nem uma faquinha enfiada na bota — embora fosse continuar a carregá-la ali —, nem um homem, nem mesmo Akiva. Ela precisava ser a própria força, completa em si mesma.

Seja quem Brimstone acredita que você é, disse a si mesma, encorajando a força a surgir de repente de alguma profundeza desconhecida de si. Seja quem todas aquelas almas enterradas e todos os quimeras vivos precisam que você seja.

— Docinho, está tudo bem.

— Tudo bem?

Karou a encarou. Que parte estava bem? A ameaça de armas humanas em Eretz, ou a ameaça de serafins ali? Os anjos poderiam causar uma devastação imensa à sociedade humana só por existirem, que dirá solicitando armas para uma guerra além do conhecimento humano... O que ela tinha feito? Como podia ter deixado Razgut à solta em Eretz com aquela alma envenenada e o conhecimento letal que trazia consigo? Quantos mais erros desse tipo ela ainda poderia cometer, erros capazes de destruir mundos? Ela queria perguntar a Issa o que exatamente estava “bem”.

— Você amar Akiva. Não tem problema — disse Issa, e Karou sentiu um choque de surpresa percorrer seu corpo.

— Eu não... — tentou protestar, envergonhada, como de costume.

— Por favor, criança, você acha que eu não a conheço? Não vou dizer que existe um futuro fácil para vocês dois, ou mesmo qualquer futuro. Só não fique se punindo por isso. Você sempre sentiu a verdade no que ele é e diz, antes e agora. Seu coração não está enganado. Seu coração é a sua força. Você não precisa se envergonhar.

Karou olhou para ela, piscando para segurar as lágrimas. As palavras de Issa — sua permissão? — doeram mais do que ajudaram. Não havia como... E Issa com certeza sabia. Por que a torturava falando como se houvesse? Não havia. Não havia.

Karou procurou se conter. Seja aquele gato, pensou, lembrando-se de um desenho em seu caderno de desenho perdido. O gato que fica fora de alcance em um muro alto, sem precisar de ninguém. Nem mesmo de Akiva.

— Não importa — disse ela. — Ele foi embora, e precisamos ir também. Precisamos preparar todo mundo.

Ela olhou em volta. Dentes, ferramentas, turíbulos: teriam que levar tudo aquilo. Quando pensou na mesa, na cama e na porta, sentiu uma onda de tristeza. Por mais rústicos que fossem, eram muito mais do que ela tivera em sua jornada com os rebeldes antes de chegarem ali. Engoliu em seco, sentindo todo o horror de ser enxotada por uma porta em direção à escuridão.

— Issa — disse Karou, começando a tremer quando o medo daquele novo desafio tomou conta dela. — Para onde vamos?

* * *

Desenrolares possíveis, caminhos incompreensíveis de acasos e planos traçados. Mais tarde, Karou se perguntaria para onde eles teriam ido, e como tudo poderia ter sido imprevisivelmente diferente.

Se o Domínio já não tivesse chegado.

* * *

O grupo quimera estava reunido no pátio e pronto para voar quando ouviram um som à distância, um som tão trivial que parecia impossível de se ouvir ali, naquela desolação silenciosa. Era uma buzina. Uma buzina incessante e insistente, e o barulho dos pneus sobre pedras, com o descuido e a velocidade da urgência. Vários soldados saíram de formação, erguendo-se no ar para ver o que estava acontecendo além do muro. Karou foi a primeira.

Ficou sem ar, e seu coração disparou. Faróis na colina. Uma van. Alguém estava com o corpo para fora da janela de passageiro, balançando os braços, os gritos abafados pela buzina.

Esse alguém era Zuzana.

A van derrapou, guinou, parou. Zuzana saiu do carro, correndo em meio à poeira levantada, e Karou soube o que ela gritava antes mesmo de conseguir entender as palavras.

E soube que a responsabilidade pelo destino dos dois mundos estava de novo em seus ombros.

— Anjos! Anjos! Anjos!

Zuzana corria desesperadamente. Karou desceu, pegando a amiga pelos braços.

— Anjos — disse Zuzana, sem ar, com os olhos arregalados e o rosto pálido. — Minha Nossa, Karou. No céu. Centenas. Centenas. O mundo. Tá. Surtando.

Mik deu a volta depressa na van e veio para o lado de Zuzana, parando de repente. Karou ouviu um barulho na colina como um deslizamento de terra e sabia que os quimeras tinham se reunido atrás deles.

E então... ela sentiu calor. Zuzana, que olhava para além dela, perdeu o fôlego.

Calor.

Karou se virou, e ali estava Akiva. Por um longo instante, ele foi tudo o que ela viu. Até mesmo o Lobo era só um borrão branco, aproximando-se dela. Akiva voltara. Seu belo rosto estava tenso, sofrido.

— Tarde demais — disse ela suavemente, sabendo que aquele mundo que a abrigara, escondera, que lhe dera a arte e amigos e uma chance de uma vida normal, nunca mais seria o mesmo, independentemente do que acontecesse em seguida.

O grupo quimera, agitado com a presença do inimigo, observava Thiago, esperando pelo sinal que não veio. Os dois serafins estavam a menos que uma envergadura de asa de distância, e sua perfeição mítica e angelical era tudo o que as “feras” não eram. Karou os viu com seus olhos humanos, aquele exército que ela criara, mais monstruoso do que a natureza os fizera, e soube o que o mundo veria neles, caso voassem para combater o Domínio: demônios, pesadelos, o mal. A visão dos serafins seria anunciada como um milagre. Mas os quimeras?

O apocalipse.

— Não. Não é tarde demais — disse Akiva. — Isto é o começo.

Ele levou a mão ao coração. Só Karou podia saber o que ele queria dizer. E, ah... ela sabia — nós somos o começo —, então sentiu o calor se acender em seu próprio coração, como se tivesse sido ali que ele tocara.

— Venham conosco — continuou ele. Então se virou para Thiago, parado ao lado dela. Sua voz saiu arranhada, difícil, e seus olhos ardiam como fogo. Karou sabia o quanto era difícil para Akiva se dirigir ao Lobo, mas ele conseguiu: — Podemos combatê-los juntos. Eu também tenho um exército.