Capítulo 5
Sábado, 28 de junho de 2014
12h10
O ambiente no sétimo andar ficava cada vez mais tenso à medida que as horas iam passando, mais lentas do que nunca naquela espécie de prisão. As pessoas já estavam irritadas e entre elas o tema mais recorrente era a injustiça do tratamento preferencial dado ao notável oficial, bem diferente daquele outro oferecido aos cidadãos comuns em circunstâncias semelhantes. Na opinião de Emily Baxter, aquele súbito furor pela igualdade, sobretudo entre alguns dos homens mais conservadores e obtusos que ela conhecia, decorria muito mais do amor-próprio exacerbado de cada um que de um desejo real por um mundo melhor. Muito embora, isso ela tinha de admitir, eles estivessem cobertos de razão.
Volta e meia alguém olhava sem convicção para a Sala de Interrogatórios, quase torcendo para que algo realmente acontecesse, apenas para justificar todo aquele transtorno. A única coisa que lhes restava era trabalhar na papelada burocrática dos seus casos individuais, o que, aliás, consumia 90 por cento do tempo de um detetive de polícia. Mas paciência tinha limites: não era humanamente possível ir além de certo ponto de uma vez só. Os treze mais exaustos, que já haviam completado 13 horas de turno, haviam transformado a sala de reuniões numa espécie de dormitório, escondendo as colagens medonhas de Wolf com um quadro branco e apagando as luzes na esperança de cochilar um pouco antes de começarem o turno seguinte.
Simmons esbravejou quando, pela sétima vez, alguém pediu permissão para deixar em caráter excepcional o andar blindado. Depois disso ninguém ousou procurá-lo para pedir o que quer que fosse. Todos possuíam um motivo mais do que compreensível, e ele tinha plena consciência de que suas medidas drásticas teriam um impacto negativo, talvez irremediável, sobre outros casos tão importantes quanto aquele, mas... fazer o quê? Seria bem melhor que ele não fosse amigo pessoal de Turnble, detalhe que seguramente se voltaria contra ele mais tarde, por mais que soubesse que agiria exatamente da mesma forma se o prefeito fosse outro. O mundo inteiro voltava seus olhos para a Polícia Metropolitana de Londres. Se eles se mostrassem fracos, vulneráveis, incapazes de evitar uma morte anunciada, as repercussões seriam desastrosas.
Como se isso não bastasse, a comandante Vanita havia se apoderado da sala dele, obrigando-o a se instalar temporariamente na mesa de Chambers, que se encontrava em férias pelo Caribe. Simmons imaginou se a notícia dos assassinatos já havia chegado aos ouvidos do experiente detetive, bem como se ele, caso estivesse presente, seria capaz de jogar alguma luz sobre a bizarra investigação que agora tinham em mãos.
A detetive Baxter passara boa parte da manhã tentando localizar o proprietário do apartamento em que o monstrengo fora encontrado. Segundo o homem, os locatários eram dois jovens recém-casados com seu filho recém-nascido. Era bem provável que o casal tivesse contribuído com partes do seu corpo para a construção do cadáver híbrido e ela nem quis imaginar qual teria sido o destino do indefeso bebê. No entanto, avançando na investigação, aliviou-se ao constatar que na sua base de dados não havia nenhum registro do casamento dos tais jovens: tudo indicava que eles haviam fornecido dados falsos ao ingênuo locador.
Ao ligar de volta uma hora depois para interpelar o locatário, espremeu-o até descobrir o que de fato acontecera: ele havia recebido uma proposta diretamente por carta, oferecendo pagamento em dinheiro vivo, e os aluguéis vinham sendo deixados na caixa de correio do seu próprio apartamento. Ele jamais encontrara seu inquilino pessoalmente e tinha jogado no lixo todos os envelopes. Apavorado, pediu que não o denunciasse pelos impostos sonegados, e ela aquiesceu, sabendo que cedo ou tarde o fisco acabaria abocanhando o sujeito. Além disso, não queria mais trabalho para si, já havia perdido tempo demais naquele barco furado.
Edmunds, por sua vez, era a animação em pessoa. Em parte por causa da sua localização: debruçado num canto da mesa de Emily, tinha sobre a cabeça uma saída de ar refrigerado que soprava diretamente nele. Para completar, tinha feito um considerável progresso na tarefa razoavelmente simples que recebera da chefe: descobrir quem fornecia as refeições para o presídio de Belmarsh.
Ao que parecia, a comida era em grande parte preparada na cozinha local, mas, após uma greve em 2006, uma empresa chamada Complete Foods havia sido contratada para atender às demandas especiais dos detentos muçulmanos. Bastara um simples telefonema para a prisão para descobrir que Khalid era o único que vinha recebendo a versão sem glúten das refeições. E ao saber que a empresa vinha investigando problemas na sua cozinha após a intoxicação alimentar e subsequente hospitalização de duas pessoas que tinham consumido refeições semelhantes, ele precisou conter o próprio entusiasmo, mal vendo a hora de mostrar seus avanços para a chefe, que aparentemente andava em círculos.
Segundo informara um gerente da fornecedora de alimentos, a comida era preparada durante a noite e despachada nas primeiras horas da manhã para presídios, hospitais e escolas. Edmunds pedira a ele que levantasse o nome de todos os funcionários que haviam trabalhado na cozinha na noite anterior à intoxicação de Khalid e que tivesse em mãos as imagens das câmeras de segurança para a visita que eles fariam à empresa no dia seguinte. Estava prestes a ligar para os dois clientes que também haviam sofrido casos de intoxicação, antevendo as histórias tristes que ouviria, quando alguém o cutucou no ombro.
– Desculpa aí, companheiro, mas o chefe pediu para você render o Hodge lá na porta da Sala de Interrogatórios. Preciso dele para um negócio aí – disse o homem, empapado de suor, saboreando cada segundo passado sob o jato de ar refrigerado.
Diante de explicação tão lacônica, Edmunds logo desconfiou que o sujeito não estava fazendo mais do que resgatar um amigo da tarefa excruciante de ficar de braços cruzados diante de uma porta durante horas. Olhou para Emily em busca de ajuda, mas nada pôde fazer quando ela sinalizou para que ele obedecesse. Então voltou com o telefone para o gancho e, muito a contragosto, foi para a saleta.
Edmunds passou o peso do corpo de uma perna para outra, depois recostou-se pacientemente na porta que já vinha guardando fazia cinquenta minutos. Agora que não tinha nada com que distrair a cabeça, estava começando a sentir nas pálpebras o preço da noite passada em claro, exausto, deixando-se embalar pelo burburinho das conversas, pelo batucar dos teclados, pelo zumbido da copiadora. Não queria qualquer outra coisa que não fosse fechar os olhos naquele momento. Só conseguia pensar nisso. Deixou a cabeça bater contra a porta e ia cochilando quando ouviu alguém dizer algo no interior da saleta.
– É um jogo engraçado, a política.
Wolf se assustou com o comentário súbito mas obviamente calculado do prefeito. Estava ali havia cinco horas, durante as quais não tinha trocado uma única palavra com o detetive. Largou sobre a mesa o relatório que vinha lendo, esperando que ele continuasse. Mas, vendo que Turnble seguia fitando os próprios sapatos sem nada dizer, imaginou que talvez ele sequer tivesse percebido que pensara em voz alta. Já ia pegando o relatório de novo quando enfim ouviu:
– Você quer melhorar as coisas pra população em geral, mas só pode fazer algo se estiver no poder. Acontece que ninguém permanece no poder sem votos e, para obter os votos necessários, você precisa fazer concessões à vontade pública. Mas aí, ao fazer essas concessões, muitas vezes você é obrigado a abrir mão justamente daquelas melhorias que queria fazer desde o início. É um jogo engraçado, a política.
Wolf não tinha a menor ideia do que dizer diante daquela pérola de sabedoria, então, meio constrangido, ficou esperando que o prefeito dissesse mais alguma coisa ou voltasse ao silêncio de antes.
– Você não precisa fingir que gosta de mim, Fawkes.
– Ok – retrucou Wolf, rápido demais.
– Por isso fico duplamente agradecido pelo que você está fazendo por mim.
– Estou fazendo o meu trabalho, só isso.
– Assim como eu estava. Queria que você soubesse disso. Naquela época a opinião pública não estava a seu favor. Portanto, eu também não poderia estar.
Wolf ficou achando que “não estava a seu favor” era muito pouco diante do inferno ao qual ele fora submetido: a crueldade da difamação pública, a rapidez com que o haviam transformado num símbolo de imoralidade, a desfaçatez com que o usaram como bode expiatório para apaziguar os ânimos de um eleitorado cada vez mais hostil à corrupção. De um segundo a outro ele havia se tornado um saco de pancadas contra o qual os virtuosos podiam descarregar todas as suas revoltas e frustrações.
Levado pela manifestação contra a podridão da polícia civil, ele, na qualidade de prefeito, viera a público para divulgar suas novas e revolucionárias diretrizes: A polícia e as políticas de segurança pública. Volta e meia subia em algum palanque para exigir que Wolf fosse punido com todos os rigores da lei, dizendo que era preciso “policiar a polícia”.
Wolf chegava a rir mentalmente sempre que relembrava a guinada que a segunda prisão de Naguib Khalid havia provocado naquele enredo tão mal costurado: sem trocar de roupa, ainda mencionando o nome dele a torto e a direito, o prefeito cara de pau agora não falava de outra coisa que não fosse a sua Estratégia de combate às iniquidades da saúde pública, criticando duramente a má qualidade dos serviços oferecidos aos “guerreiros da polícia civil” e à cidade de Londres como um todo.
Insuflados por um político particularmente carismático e popular, os sectários do prefeito aplaudiam com prontidão e entusiasmo todas as suas manobras eleitoreiras. Eles, que também clamaram pelo sangue de Wolf, agora faziam campanha pela sua reintegração na polícia. Um deles, mais afoito que a média, chegara ao ponto de defender ambas as coisas em entrevistas na televisão.
Não havia dúvida de que, sem o apoio do prefeito e sua ruidosa cruzada no sentido de reerguer um dos heróis mais injustiçados da cidade, Wolf ainda estaria atrás das grades. No entanto, ambos sabiam que William Oliver Layton-Fawkes não devia nada a ninguém.
Wolf achou por bem permanecer calado, receando arrepender-se mais tarde caso abrisse a boca para dizer o que lhe passara pela cabeça.
– Aliás, você fez a coisa certa – prosseguiu Turnble com a mesma empáfia de antes, alheio às nuvens negras que haviam brotado no semblante do seu interlocutor. – Há uma grande diferença entre brutalidade e desespero. Hoje consigo entender. Para falar a verdade, acho até que você devia ter matado o filho da puta naquele tribunal. A última menina na qual ele ateou fogo tinha a mesma idade da minha filha. – Sua asma dera uma boa trégua durante o prolongado silêncio, mas os chiados não demoraram a ressurgir com o súbito falatório. Ele pegou novamente sua bombinha, mas, ao sacudi-la no ar, percebeu que o tubo azul estava quase vazio. Não era para menos: desde que pisara naquela saleta, inalara em algumas horas o equivalente a uma semana inteira de salbutamol. Despreocupado, deu uma última sugada e prendeu a respiração quanto pôde. Em seguida disse: – Fazia tempo que eu queria lhe dizer isto. Não era nada pessoal. Eu estava apenas fazendo o meu...
– O seu trabalho, eu sei – interrompeu Wolf, amargo. – Todo mundo estava fazendo o seu trabalho: a imprensa, os advogados, o herói que triturou meu pulso antes que eu pudesse acabar com o Khalid... Pois é, eu entendo.
Turnble meneou a cabeça. Sua intenção não havia sido exasperar o detetive, mas agora ele se sentia bem mais leve, tendo tirado aquilo do peito depois de tanto tempo. Abriu a maleta, pegou seu maço de cigarros.
– Posso?
– Está brincando... – disse Wolf, mal acreditando no que estava vendo.
– Todos temos os nossos vícios – retrucou Turnble, impositivo. Até ali sua empáfia vinha sendo mais ou menos contrabalançada pela modéstia do pedido de desculpas, mas agora que eles estavam quites não havia mais motivo para deferências. – Se você quiser que eu fique trancafiado nesta sala por mais onze horas, não vai poder reclamar. Mas não se preocupe. É só um agora e outro depois do jantar.
Antes que Wolf pudesse abrir a boca, o prefeito apertou o cigarro entre os lábios, acendeu o isqueiro, protegeu a chama contra o jato do ar-condicionado, deu o primeiro trago e...
Por um átimo os dois homens ficaram olhando um para o outro sem entender o que estava acontecendo: o fogo havia descido feito um rastilho para o filtro do cigarro, inicialmente queimando a boca do prefeito para depois se alastrar por toda a parte inferior do rosto. Turnble ainda tentou encher os pulmões para gritar algo, mas inalou o fogo do rosto, que foi queimando suas carnes por dentro.
– Socorro! – berrou Wolf, adiantando-se para o homem em chamas, sem saber ao certo o que fazer com ele. – Alguém me ajuda aqui!
Edmunds irrompeu imediatamente na saleta, em choque ao ver Turnble cuspir um jato incandescente sobre o braço de Wolf, ateando fogo na camisa do detetive. Assustado, Wolf soltou o prefeito e foi acidentalmente atingido na face pelo braço desgovernado que vinha tentando imobilizar. Ocorreu-lhe então que bastaria obstruir o nariz e a boca do homem, caso fosse possível aproximar-se dele, para que o fogo se apagasse por conta própria na ausência do oxigênio.
Sob o escândalo do alarme de incêndio e o olhar apavorado dos curiosos, Edmunds saiu rapidamente ao corredor, tirou a manta corta-fogo do escaninho de emergência e voltou com ela para a saleta, seguido de Simmons. Os aspersores de teto pareciam atrapalhar mais do que ajudar: cada vez que Turnble cuspia a água que chovia do alto, labaredas saíam junto, espalhando fogo para todo lado. Era como se fosse um dragão. Wolf ainda tentava derrubar o homem para o chão quando Edmunds, com a manta já aberta, arremeteu contra ambos e desabou junto com eles.
Simmons mal acreditou nos próprios olhos quando o rapaz ergueu a manta e ele pôde ver o rosto desfigurado, antes bonito, do seu amigo prefeito. Dando-se conta de que o cheiro forte à sua volta era de carne humana queimada, começou a ter ânsias vômito e saiu da sala ao mesmo tempo que vinham entrando dois policiais, um deles com outra manta para cobrir o braço ainda em chamas de Wolf. Edmunds apalpou o pescoço de Turnble à procura de pulso na carótida, depois aproximou o ouvido do que havia sobrado da boca arruinada, em busca de algum sinal de respiração.
– Nada! – berrou ele, sem saber direito para quem.
Ato contínuo, rasgou a camisa de alfaiataria do prefeito, que se desintegrou nas suas mãos, e começou a fazer compressões no peito dele. Imediatamente percebeu que a cada golpe no esterno a garganta do homem ia se obstruindo ainda mais com o sangue e os restos de tecido calcinado, e uma das coisas que ele havia aprendido logo no início do seu curso de primeiros socorros no ambiente de trabalho era exatamente isto: na ausência de uma via respiratória, não havia compressão que pudesse salvar a vida de alguém. Resignado, jogou-se no chão encharcado pela água dos aspersores e, vendo que Simmons espiava do outro lado da porta, disse:
– Sinto muito, senhor.
Por um instante Edmunds fechou os olhos e tentou encontrar algum sentido nos acontecimentos surreais daqueles últimos dois minutos e meio. De repente ouviu sirenes se aproximando.
Com uma expressão difícil de interpretar, Simmons entrou novamente na sala e correu os olhos pelo corpo incinerado do amigo, ciente de que aquela imagem o assombraria pelo resto da vida. Depois voltou-se para Wolf, que, ajoelhado no chão, sofrendo com as dores, examinava as queimaduras do próprio braço. Içando-o pelo pano da camisa, obrigou-o a se levantar e o empurrou contra a parede, para grande espanto dos demais.
– Sua obrigação era protegê-lo! – gritou com os olhos marejados, sacudindo Wolf com violência. – Era para isso que você estava aqui!
Edmunds levantou-se rapidamente e tentou imobilizar o chefe sem sucesso. Os dois policiais se adiantaram para ajudá-lo e, junto com a detetive Baxter, que acabara de surgir na sala, arrastaram-no para o corredor e fecharam a porta às suas costas com o intuito de preservar a cena do crime.
Abandonado na companhia do grotesco cadáver, Wolf deixou-se escorregar para o chão e ficou ali, encolhido no seu canto. Correu a mão pela nuca e viu que os dedos saíram sujos de sangue. À sua volta, dezenas de labaredas minúsculas e oleosas ainda ardiam sobre o chão molhado feito lanternas japonesas guiando espíritos perdidos para o mundo dos mortos. Atordoado, ele inclinou a cabeça para trás e abriu as mãos para que a chuva fria dos aspersores lavasse seu sangue.