Capítulo 7
Sábado, 28 de junho de 2014
17h58
Wolf estava sozinho na sala de Simmons. Sentira-se um tanto invasivo ao entrar ali e deparar com os vestígios da raiva do chefe: o metal amassado do armário de arquivo que ele havia chutado, as migalhas de gesso da parede que ele tinha esmurrado. Constrangido, ele agora remexia distraidamente na bandagem úmida que cobria seu braço esquerdo, esperando o que pudesse acontecer em seguida.
Após arrastar Simmons para fora, Emily Baxter voltara à Sala de Interrogatórios para buscar Wolf, encontrando-o murcho ao lado do corpo inerte do prefeito, derrotado pelo temporal dos aspersores, encarando o vazio, alheio à sua chegada. Até então nunca o tinha visto daquele jeito, tão perdido e vulnerável. Carinhosamente o ajudou a se levantar e saiu com ele para o corredor sob o olhar curioso e estupefato dos demais.
– Ah, pelo amor de Deus... – bufou ela para os mais indiscretos.
Sustentando boa parte do peso dele, arrastou-o como pôde até o banheiro feminino e, à custa de muito esforço, acomodou-o sobre a bancada, no espaço entre as duas pias. Em seguida desabotoou-lhe a camisa encharcada, despiu-a até onde foi possível e, com muita calma e cuidado, foi puxando os fiapos de tecido que haviam colado à queimadura do antebraço. O banheiro agora recendia a suor, desodorante barato e pele queimada. De repente, levada por um impulso totalmente irracional, receou que alguém entrasse ali e a encontrasse na companhia de um homem. Fazendo exatamente o quê? Nada de errado.
– Aguenta aí – disse ela, pensando que já havia tirado o que era possível. Deixou-o sozinho e voltou dali a pouco com um kit de primeiros socorros e uma toalha, que usou para enrolar seus cabelos molhados. Sem muita segurança do que estava fazendo, aplicou o emplastro sobre a queimadura e enrolou o antebraço com uma quantidade de gaze suficiente para mumificar um corpo inteiro.
Minutos depois alguém bateu à porta. Edmunds entrou e, sem grande entusiasmo, admitindo timidamente que vestia uma camiseta por baixo, tirou a camisa para que sua supervisora a vestisse em Wolf. Embora alto, tinha o corpo magrelo de um estudante, e a camisa mal abotoou no corpo adulto do outro. Melhor do que nada, pensou Emily. Terminado o trabalho, ela se empoleirou na bancada e permaneceu ali, muda ao lado dele, disposta a esperar o tempo que fosse até que ele se recuperasse.
Wolf passou o resto da tarde num canto mais tranquilo, redigindo um detalhado relatório sobre o que havia acontecido no interior da saleta trancada. Não deu ouvidos a nenhum dos milhares de palpites não solicitados, sugerindo que ele pleiteasse uma licença médica e fosse descansar em casa. Faltava pouco para as seis quando enfim foi convocado à sala do chefe, que sumira de vista desde a explosão de violência horas antes.
Enquanto esperava, deu-se conta de que fora ajudado pela sargento Baxter num banheiro qualquer, a cabeça ainda um tanto confusa. Mas não o suficiente para evitar a vergonha de ter negligenciado os exercícios abdominais daquela manhã – e dos últimos quatro anos. Chegou a sentir um frio na espinha ao se imaginar com a pança exposta diante da colega.
Dali a pouco Simmons entrou na sala, fechou a porta e foi sentar na sua cadeira do outro lado da mesa, de frente para Wolf. Trazia duas sacolas de supermercado, das quais tirou uma garrafa de uísque irlandês Jameson, um pequeno saco de gelo e uma embalagem de copos descartáveis com estampa dos Transformers. Ainda estava com os olhos inchados depois de ter dado a notícia para a mulher do prefeito, antes de falar com a imprensa. Preparou duas doses generosas do uísque e, calado, empurrou uma delas na direção de Wolf. Deu seu primeiro gole e disse:
– Se não me falha a memória, esta é a sua marca favorita.
– Sua memória não falhou – disse Wolf, bebendo também.
– E a cabeça, como está? – perguntou Simmons, como se não houvesse tido participação na leve concussão do detetive.
– Melhor que o braço – respondeu Wolf, um pouco mais animado, mas sem saber ao certo o que os médicos conseguiriam salvar das suas carnes caso os curativos de Emily fossem tão bons quanto o tratamento que ela dera à sua pele.
– Posso ser franco? – Simmons não esperou pela resposta. – Nós dois sabemos que você estaria sentado aqui nesta cadeira se não tivesse feito a merda que fez. Sempre foi um policial melhor do que eu.
Wolf foi cortês o bastante para permanecer impassível.
– Talvez você tivesse tomado decisões mais acertadas que as minhas – prosseguiu Simmons. – Talvez Ray ainda estivesse vivo se... – Ele deu um gole no uísque.
– A gente não tinha como saber.
– Que a bombinha estava adulterada com uma substância incendiária? Que esses buquês que estão aqui há dias estavam todos infestados de ambrosia?
– Infestados de...? – perguntou Wolf, que a caminho da sala já havia notado a pilha de sacos plásticos com o material colhido pela perícia.
– Ao que parece o pólen dessa flor chamada ambrosia tem o efeito de uma criptonita para os asmáticos. E fui eu quem mandou trazer o homem para cá. – Esquecendo que era apenas um copo de plástico que tinha nas mãos, Simmons arremessou-o contra a parede, furioso consigo mesmo. Viu o copo ricochetear para a mesa e, resignado com o fracasso do seu gesto, pegou-o de volta e o encheu com mais uísque, dizendo: – Então... vamos acabar logo com isso, antes que a comandante volte. O que é que vamos fazer com você?
– Comigo?
– Bem, esta é aquela reunião em que eu digo que você está envolvido demais no caso, sugiro que é do interesse de todo mundo que você seja afastado, aí você...
Wolf abriu a boca para dizer algo, mas Simmons não deixou.
– Aí você me manda à merda, e eu relembro o que aconteceu com Khalid, depois você me manda à merda de novo, e só então eu acabo cedendo, deixando que você continue no caso, mas advertindo que, ao primeiro sinal de preocupação por parte dos seus colegas de equipe, da sua psiquiatra ou da minha própria parte, você será realmente afastado, sem direito a choro. É isso. Foi muito bom conversar com você.
Wolf assentiu com a cabeça. Tinha plena consciência de que o chefe estava comprando uma briga em seu nome.
– Sete mortos... e até agora as únicas armas identificadas foram flores, uma bombinha e um peixe. – Simmons balançou a cabeça numa atitude pessimista. – Lembra-se dos velhos tempos quando as pessoas tinham a decência de simplesmente sacar um revólver e atirar nas outras?
– Dias melhores virão – disse Wolf, propondo um brinde com seu copinho de Optimus Prime, líder dos Autobots.
– Dias melhores virão – ecoou Simmons, erguendo o seu também.
Wolf sentiu o celular vibrar no bolso da calça. Sacou-o e encontrou uma pequena mensagem de Andrea:
Wolf ficou subitamente preocupado. Sabia que Andrea não estava se desculpando apenas pelo pênis que havia desenhado no lugar do pretendido coração. Já ia mandar uma mensagem de volta quando Emily Baxter irrompeu na sala e ligou a televisão à parede. Simmons estava exaurido demais para dizer qualquer coisa.
– A cadela da sua ex-mulher está apresentando o jornal – informou ela.
Andrea surgiu na tela no meio de uma frase. Estava linda. Vendo-a assim, mais objetivamente, Wolf percebeu que não dera o devido valor à beleza dela. Os olhos eram quase surreais de tão verdes. Os cabelos ruivos e cacheados estavam presos no alto, o penteado que ela costumava reservar para festas e casamentos.
E o motivo para o pedido de desculpas logo ficaria claro. Andrea não estava transmitindo da rua nem fazendo uma distorcida locução sobre uma foto qualquer, mas apresentando o telejornal do estúdio, o grande sonho da sua vida.
– ... que a morte do prefeito Raymond Turnble hoje pela manhã foi, na realidade, um homicídio premeditado e vinculado aos seis corpos encontrados nesta madrugada em Kentish Town – dizia ela, em nenhum momento deixando transparecer o nervosismo imaginado por Wolf. – As imagens que mostraremos a seguir talvez não sejam apropriadas para...
– Liga pra sua mulher, Fawkes. Agora! – berrou Simmons.
– Ex-mulher – corrigiu Emily.
E os três começaram a digitar freneticamente nos seus respectivos aparelhos de telefone.
– Sim, preciso do número da redação do...
– Duas unidades para estrada Bishopsgate, número 110...
– Caralho, ninguém atende...
Ao fundo, Andrea continuava com sua reportagem:
– ... confirmaram que a cabeça pertence a Naguib Khalid, também conhecido como Cremador. Até o momento não se sabe como Khalid, que vinha cumprindo pena no...
– Vou tentar a segurança do prédio – disse Wolf, depois de deixar um recado curto e grosso na caixa postal da ex-mulher: “Me liga agora!”
– ... aparentemente desmembrados antes de serem costurados de volta para formar um corpo completo – relatava Andrea enquanto as fotografias tenebrosas iam sendo mostradas uma a uma –, ao qual a polícia vem se referindo como “Boneco de Pano”.
– De onde foi que ela tirou isso? – rugiu Simmons.
Os três interromperam o que vinham fazendo para ouvir a reportagem:
– ... com outros cinco nomes e a data exata da morte de cada um. Tudo isso será revelado daqui a pouco. Sou Andrea Hall. Voltamos depois de um breve intervalo.
– Ela não está falando sério, está? – Simmons perguntou a Wolf, perplexo.
Wolf não respondeu. E numa fração de segundo todos voltaram ao furor dos telefonemas.
Cinco minutos depois, terminados os comerciais, a imagem de Andrea voltou à tela sob luzes que foram se acendendo gradativamente no estúdio, dando a impressão de que ela ficara esperando no escuro durante todo esse tempo. Os detetives Wolf, Simmons e Baxter aguçaram os ouvidos. No salão, muitos já se agrupavam diante do aparelho de TV que alguém havia tirado da sala de reuniões.
Não havia mais o que fazer senão esperar.
Andrea, como era de imaginar, não havia retornado a ligação de Wolf. Os seguranças do prédio da emissora não conseguiram entrar no recinto e os policiais despachados por Simmons nem haviam chegado. Mas Simmons conversara com o editor-chefe, que ele conhecia muito bem. Dissera ao americano insuportável que ele estava sabotando uma investigação policial e correndo o risco de ser indiciado judicialmente. Como não conseguira intimidá-lo, apelara para a humanidade do homem, dizendo que ainda não tinha informado as pessoas da lista sobre a espada pendurada acima da cabeça delas.
– Então vamos poupá-lo desse trabalho – rebatera Elijah. – Depois não vá dizer que somos imprestáveis, hein?
Recusara-se a chamar Andrea e com isso encerrara a ligação.
Agora só lhes restava uma coisa a fazer: continuar assistindo ao noticiário junto com o resto do mundo. Simmons serviu mais três doses de uísque e ofereceu uma a Emily, que farejou a bebida com desconfiança antes de entornar um bom gole garganta abaixo. Ela já ia pedindo para ver a tal lista, que de qualquer forma se tornaria pública em instantes, quando o telejornal retornou.
Andrea perdeu sua primeira deixa e Wolf logo viu que ela estava nervosa, hesitante, repensando o que estava prestes a fazer. Sabia que debaixo daquela bancada minimalista os joelhos da ex-mulher saltitavam como sempre acontecia nos momentos de aflição. Ela olhava para a frente, para os milhões de olhos que a viam do outro lado da câmera, e Wolf ficou com a impressão de que ela procurava por ele no meio da multidão, por uma maneira de sair daquele buraco que ela própria havia cavado. Alguém deve ter soprado algo no ponto eletrônico que ela levava ao ouvido, pois foi com um pequeno susto que ela disse:
– Boa noite. Sou Andrea Hall. Bem-vindos ao...
Em consideração aos telespectadores tardios, por uns cinco minutos ela recapitulou o que havia sido informado até então e mostrou as fotos horrendas uma segunda vez. Começou a tropeçar nas palavras ao informar que uma lista escrita à mão havia sido anexada às fotos, e estava visivelmente trêmula quando anunciou os seis nomes da lista:
– Prefeito Raymond Edgar Turnble, dia 28 de junho; Vijay Rana, dia 2 de julho; Jarred Garland, dia 5 de julho; Andrew Arthur Ford, dia 9 de julho; Ashley Danielle Lochlan, dia 12 de julho...
Ela fez uma pausa, não em busca de um efeito dramático – lera os nomes anteriores de um jeito amador, como se estivesse com pressa, querendo terminar logo com aquilo –, mas para secar a lágrima borrada de rímel que acabara de escorrer de um dos olhos. Depois reorganizou os papéis à sua frente, dando a entender, sem sucesso, que a interrupção decorria de alguma desorganização. De repente deixou a cabeça cair sobre os braços cruzados e estremeceu como se sentisse nos ombros o peso do que havia feito.
– Andrea? Andrea? – sussurrou alguém atrás da câmera.
Ela reergueu a cabeça naquele que era o seu grande momento profissional, a maior audiência de toda a sua vida. Agora não era apenas o rosto que estava borrado de rímel, mas as mangas da blusa também. Andrea limpou a garganta e disse:
– Desculpem, estou bem. – Pausa. – E no dia 14 de julho, o detetive da Polícia Metropolitana, principal responsável pela investigação dos crimes do Boneco de Pano... o sargento-detetive William Oliver Layton-Fawkes.