Capítulo 14

Quarta-feira, 2 de julho de 2014

11h35

Emily Baxter tomou o metrô até a estação Tower Hill, saiu à rua e, sem nenhum entusiasmo, foi seguindo obedientemente as instruções que havia recebido de Jarred Garland: contornou a centenária Torre de Londres pela esquerda, depois continuou caminhando pela movimentada rua Tower.

Ainda não conseguia entender por que diabos o sujeito não havia marcado aquele encontro em casa – onde deveria estar, escoltado pela polícia – ou, ao menos, na redação do jornal. Não. Entre todos os lugares possíveis o jornalista imoral, incendiário e oportunista havia pedido que ela o encontrasse justamente numa igreja. Talvez tivesse recorrido à religião nos seus momentos finais de vida, como tantos faziam. Se acreditasse em alguma coisa, ela veria nessas conversões de última hora um insulto.

As nuvens negras começavam a se dissipar, permitindo que o sol aquecesse a cidade por intervalos de alguns minutos. Lá pelas tantas, localizando a torre alta que procurava, Emily dobrou à esquerda na esquina seguinte e ficou boquiaberta com o que viu. St. Dunstan-in-the-East não era exatamente uma igreja, mas uma grande ruína. A torre branca suplantava uma carcaça aberta de paredes e janelas altas quase inteiramente engolida pelas trepadeiras e árvores nascidas com o tempo. O lugar como um todo parecia ter saído diretamente das páginas de um livro infantil, uma igreja escondida no interior de um bosque secreto bem no meio da grande metrópole, invisível para quem a procurasse do alto dos edifícios comerciais que a cercavam.

A detetive Baxter atravessou o portão de ferro, entrou na carcaça e foi seguindo na direção da água que ouviu farfalhando por perto. Do outro lado de um arco enorme ficava um pátio de paralelepípedos com uma pequena fonte no centro, onde um casal posava para uma selfie, uma senhora obesa dava comida aos pombos e um homem sentava-se sozinho num dos bancos. Aproximando-se deste último, Emily disse:

– Jarred Garland?

O homem ergueu o rosto, surpreso. Devia ter mais ou menos a sua idade, vestia uma camisa justa com as mangas dobradas e era relativamente bonito com seu rosto limpo e seus cabelos cuidadosamente penteados. Olhou-a de cima a baixo e, com um sorriso arrogante, falou:

– Bem, meu dia não poderia ter começado de forma melhor. – Tinha o forte sotaque da zona leste londrina. – Por favor, sente-se aqui – continuou ele, batendo a mão no espaço à sua direita. Riu insolentemente quando ela sentou-se à esquerda.

– Em vez de ficar aí, rindo que nem uma hiena, você bem que podia me explicar uma coisa – esbravejou a detetive. – Por que não quis me encontrar no jornal?

– Porque jornais não gostam nem um pouco de detetives curiosas bisbilhotando as suas dependências. Mas e você, por que não quis me receber na delegacia?

– Porque a polícia não gosta de ver jornalistas inescrupulosos bisbilhotando as suas dependências – retrucou ela. Depois farejou o ar à sua volta e disse: – Especialmente os que usam esses perfumes que embrulham o estômago da gente.

– Quer dizer então que você leu minha última coluna...

– Não tive escolha.

– Fico muito lisonjeado.

– Não fique.

– Mas e aí, o que foi que achou?

– Como é mesmo aquele ditado? A gente não deve morder...

– A mão que nos alimenta? – completou Garland.

– Não, não é esse. Ah, sim: a gente não deve morder a mão da única instituição capaz de nos proteger do facínora ao mesmo tempo doentio e genial que está tentando matar a gente. – Agora foi ela quem riu.

– Sabe, já estou escrevendo minha próxima coluna. Começo agradecendo a Polícia Metropolitana por mais uma execução.

Emily calculou rapidamente o preço que teria de pagar se plantasse um murro no rosto do cidadão cuja proteção estava sob sua responsabilidade.

– Mas dessa vez vocês se superaram, não é? – prosseguiu Garland. – O detetive Fawkes entregou dois presuntos pelo preço de um.

Ela não disse nada, apenas correu os olhos à sua volta. Não porque havia sido nocauteada pelo jornalista, mas porque precisava saber se teria testemunhas caso viesse a perder a cabeça. Uma nuvem escura agora cobria o sol e a sombra dava às ruínas um aspecto bem mais sinistro. De repente lhe pareceu indigesta a imagem de uma casa de Deus sendo eviscerada daquela forma pelo mato, as paredes fortes ruindo sob o abraço fatal daquelas serpentes que se diziam trepadeiras, prova irrefutável de que naquela cidade essencialmente pagã não sobrava nenhuma alma generosa o bastante para querer salvá-la. Caído o véu das ilusões, Emily Baxter virou-se novamente para Garland e só então notou o minigravador que ele trazia no bolso da camisa, do qual se via apenas uma extremidade.

– Filho da puta... – disse ela e num piscar de olhos roubou o aparelho para arremessá-lo no chão. Não satisfeita, pisoteou-o com o salto do ­sapato.

– Ei, você não pode... É, acho que fiz por merecer – admitiu Garland, com inesperado espírito esportivo.

– Olha, o negócio é o seguinte: você tem dois policiais plantados na porta da sua casa. Faça bom proveito deles. Amanhã o Wolf vai entrar em contato com...

– Não quero saber do Wolf. Quero você.

– Não vai rolar.

– Olha, detetive, o negócio é o seguinte: não sou prisioneiro de ninguém. A Polícia Metropolitana não manda na minha vida e eu não sou obrigado a aceitar a ajuda de ninguém. Aliás, sem querer ofender, a ajuda de vocês não tem adiantado muito até agora. Até estou disposto a cooperar, mas... tem de ser do meu jeito. Primeiro: quero você.

Emily se levantou. Não estava com a menor paciência para negociar.

– Segundo: quero forjar minha própria morte – prosseguiu ele.

Ela crispou o rosto numa careta, massageando as têmporas como se a estupidez do jornalista provocasse dores físicas.

– Pensa bem. Se eu já estiver morto, o assassino não vai poder me matar. Mas teríamos de fazer a coisa de um jeito realista, tipo... na frente de uma plateia.

– Olha, a ideia até que não é má...

Garland ficou radiante quando ela voltou a sentar do seu lado.

– A gente pode trocar seu rosto pelo do John Travolta... Espera aí, isso já foi feito num filme. Que tal se a gente... teletransportar você. Não. Já sei! A gente aluga um caça da Força Aérea, acho até que o Wolf tem um brevê. Depois a gente explode um helicóptero e...

Rá, rá, rá, estou morrendo de rir – disse Garland, meio constrangido. – Parece que você não está me levando a sério.

– Por que será?

– É a minha vida que está em jogo.

Pela primeira vez ela notou na voz dele uma pontada de medo e autocomiseração.

– Então volta pra casa – retrucou Baxter, levantando-se de novo. E dessa vez foi embora.

– Muito, muito obrigado – disse Edmunds ao telefone. – Pra senhora também. Tchau. – Desligou e, vendo que a detetive Baxter chegava do seu encontro com o jornalista, beliscou o próprio braço só para garantir que não estivesse sorrindo quando ela o visse. Sabia que ela odiava vê-lo sorrir.

Ela sentou-se ao computador, bufou com impaciência e começou a varrer com a mão as migalhas que encontrou no teclado.

– Porra, foi você que comeu isto aqui? – rosnou.

Edmunds achou por bem não dizer que nem sequer havia tido tempo para almoçar e que as tais migalhas eram da barra de granola que ela mesma tinha comido mais cedo. Simplesmente ficou olhando para Baxter, mas com uma visível expressão de contentamento, como se estivesse prestes a explodir de tanta alegria.

A detetive Baxter não era cega.

– Vai, desembucha.

– Collins & Hunter. É um escritório de advocacia sediado em Surrey, com várias filiais especializadas e sociedades espalhadas por todo o país. Eles têm uma tradição antiga de presentear os funcionários com um anel a cada cinco anos de casa. – Edmunds ergueu a embalagem pericial com o pesado anel de platina. – Um anel exatamente como este.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Nesse caso... a lista dos anelados não deve ser muito grande.

– De vinte a trinta no máximo, segundo informou a mulher com quem eu falei. Ela ficou de mandar a lista completa ainda hoje, inclusive com os contatos de cada um.

– Ufa. A gente bem que estava merecendo esse respiro – disse ela, ­sorrindo.

Edmunds ficou surpreso ao constatar como Baxter parecia outra pessoa quando estava feliz.

– E a conversa com Garland, como foi? – ele quis saber.

– O cara quer que a gente o mate. E aí, vai um chazinho?

Por um segundo Edmunds não soube o que responder. Difícil dizer o que era mais inusitado: a resposta da chefe ou a oferta dela para lhe trazer um chá. Ele odiava chá, mas, atrapalhado com a situação, acabou falando:

– Ok... obrigado.

Dali a cinco minutos ela voltou à mesa que eles dividiam e deixou diante dele uma xícara de chá com leite, naturalmente tendo esquecido – ou ouvido ao ser inicialmente informada – que seu aprendiz de feiticeiro era intolerante à lactose. Edmunds fingiu dar um primeiro gole, exagerando no prazer que demonstrou.

– A que horas o Simmons vai voltar? – perguntou ela. – Preciso falar com ele sobre essa situação com o Garland.

– Às três, eu acho.

– E a Georgina Tate? Revelou alguma coisa de útil?

– Não muito. – Edmunds abriu seu caderno de anotações. – Falou que o agressor era um homem branco, o que a gente já sabia. E que tinha um monte de cicatrizes no braço direito. Ah, outra coisa: uma tal de... – Ele precisou de um segundo para decifrar o próprio garrancho. – Uma tal de Eve Chambers ligou quando você estava fora. Não quis deixar o número, falou que você já tinha.

– A Eve ligou? – disse ela, surpresa que a mulher de Chambers tivesse retornado seu recado.

– Parecia nervosa.

Ela imediatamente sacou seu celular. Em busca da privacidade que não tinha na mesa compartilhada, foi fazer sua ligação na mesa do ausente Chambers. Eve atendeu logo na segunda chamada.

– Emily! – disse ela aliviada.

– Eve? Algum problema por aí?

– Não, não. Tenho certeza de que está tudo bem, meu amor. Uma ­preocupaçãozinha à toa, só isso. É que... bem, ouvi o recado que você deixou ontem na minha secretária e...

– Pois é, desculpa. Eu não queria assustar você.

– Bobagem, não precisa se desculpar. Achei mesmo que fosse alguma confusão da sua parte. Mas como o Ben não voltou pra casa ontem à noite...

– Não voltou de onde, Eve? – perguntou Emily, confusa.

– Do trabalho, ora.

Baxter se empertigou na cadeira, subitamente preocupada. Precisava refletir antes de dizer qualquer coisa: não queria assustar ainda mais a pobre mulher, sempre tão gentil.

– Mas e as férias, como foram afinal? – perguntou ela, apenas para ganhar tempo.

– Foram ótimas. Voltei ontem, mas Ben já tinha saído pra trabalhar quando cheguei em casa. Não deixou nenhum bilhetinho de boas-vindas, nenhuma comida na geladeira, nada. Esse Ben... Vou te falar uma coisa, viu? – disse Eve, e deu um risinho nervoso.

A sargento Baxter coçou a cabeça, cada vez mais confusa. Estava a um passo de perder a paciência com a mulher.

– Sei, mas... por que você voltou mais tarde que o Chamb... que o Ben?

– Desculpa, coração. Não entendi.

– Quando foi que o Ben chegou de viagem? – perguntou Emily, quase gritando.

Seguiu-se uma longa pausa até que Eve, quase chorando, respondeu:

– Ele não chegou a viajar.

Mais silêncio. Emily tentou concatenar as ideias, mas não conseguiu. O coração retumbava no peito, a garganta estava seca. Fazia duas semanas que Chambers havia sumido sem que ninguém desse pela falta dele. Eve enfim deu vazão ao choro.

– Você acha que alguma coisa ruim aconteceu com ele? – perguntou.

– Não, não. Tenho certeza de que está tudo bem – disse a detetive, pouco convincente. Do outro lado da linha, apenas soluços. – Eve, preciso saber por que o Ben não foi com você nessa viagem de férias. Eve...? Está me ouvindo? – Percebendo que a conversa começava a desandar, ela disse o mais naturalmente possível: – É que... ele não falava de outra coisa que não fosse essa viagem. Volta e meia mostrava uma foto da casa de praia da sua irmã, dos restaurantes com palafita... Estava louco pra sair de férias, não estava?

– Estava, sim, meu amor. Mas na manhã da viagem ele deu uma passada no hospital pra pegar os remédios com o Dr. Sami e acabou sendo internado pra ficar “em observação”. A gente já estava com as malas prontinhas pra viajar. Ele insistiu pra que eu fosse sozinha, falando que isso era melhor do que perder o dinheiro que a gente já tinha gastado. Tive uma briga feia com ele, mas acabei indo. – Eve novamente desandou a chorar. – No dia seguinte ele me mandou uma mensagem pelo telefone, dizendo que estava bem, que eu não precisava me preocupar.

– Mas o que ele teve afinal?

– Falou que andava tendo uns probleminhas aí com a perna, nada de muito grave.

– Com a perna? – perguntou Emily. Lembrava-se de já ter visto o colega mancando algumas vezes, mas nada que o impedisse de trabalhar. Nunca ouvira nenhuma reclamação por parte dele.

– Sim, meu anjo, a perna que ele machucou naquele acidente antigo. Quase teve de amputar, coitado. A perna dele é cheia de placas de titânio, de parafusos, essas coisas. Faz anos que chega em casa sentindo dores. Mas não gosta de tocar no assunto. Alô...? Alô...?

A essa altura Emily já havia deixado o telefone de lado para vasculhar freneticamente as gavetas da mesa de Chambers. Tremia da cabeça aos pés e começava a hiperventilar quando arrancou a gaveta superior e despejou todo o conteúdo sobre a mesa, as pessoas observando de longe, assustadas. Despejou a gaveta seguinte sobre o chão: papéis e mais papéis, caixas de analgésico, restos de comida.

Edmunds correu para ajudá-la.

– O que estamos procurando? – ele foi logo perguntando, ajoelhando-se ao lado dela.

– DNA – balbuciou Emily, mal conseguindo respirar. Secou os olhos molhados, depois abriu a última gaveta para revirá-la também.

Edmunds foi mais rápido: antes que a gaveta saísse dos trilhos, ele avistou dentro dela um pente de plástico barato, e o pescou para fora.

– Isto aqui serve?

Emily pegou o pente. Sem se conter, desabou sobre o peito do estagiá­rio e irrompeu num choro violento. Edmunds hesitou um segundo antes de abraçá-la, depois gesticulou energicamente para que os curiosos se ­afastassem.

– O que aconteceu? – perguntou ele baixinho.

Ela ainda demorou um tempo para se recompor. Mesmo assim, atrapalhada com a respiração entrecortada, quase não conseguiu dizer:

– O Boneco de Pano... A perna... É o Chambers!