Capítulo 15

Quarta-feira, 2 de julho de 2014

19h05

Wolf aceitara de bom grado a carona de Finlay, mas, cansado demais para falar, despediu-se dele com um simples tapinha no ombro ao ser deixado em casa enquanto o resto da cidade saía para trabalhar. Ambos haviam passado a noite nas cenas dos dois crimes, menos de 500 metros uma da outra, interrogando testemunhas, colhendo depoimentos, refreando repórteres, preservando a integridade das pistas.

Sentado no chão duro da sala, roendo uma torrada, ele ligou a televisão para ver o noticiário de Andrea, mas desligou assim que viu a fotografia em que ele aparecia ajoelhado ao lado do corpo de Elizabeth. Arrastou-se para o quarto e nem chegou a tirar os sapatos quando finalmente se jogou no seu inóspito colchão pouco antes das nove da manhã, apagando logo depois de fechar os olhos. Tinha planejado procurar um médico de verdade para examinar a queimadura no braço, mas acabou dormindo até as seis da tarde, quando foi despertado por uma ligação de Simmons.

Após um breve relato sobre a cerimônia fúnebre do prefeito, Simmons colocou-o a par dos últimos acontecimentos, bem como da repercussão deles na imprensa. Hesitou um instante, depois contou sobre a descoberta da detetive Baxter, dizendo que os peritos já haviam confirmado a paridade genética entre o fio de cabelo encontrado no pente de Chambers e a perna direita do Boneco de Pano. Por fim, lembrou a Wolf que ele ainda podia abandonar a investigação quando quisesse.

Wolf descongelou no micro-ondas uma bandeja de macarrão com almôndegas, mas não conseguiu comer, assombrado que estava pela imagem do assassino e seu avental sujo de sangue. Ao ver a gravação granulada das câmeras de segurança, perguntara-se de quem poderia ser aquele sangue seco, quem o facínora já teria matado antes de obter seu glorioso troféu com a cabeça de Naguib Khalid. Agora tudo fazia sentido. O filho da puta fora obrigado a matar Chambers antes da viagem dele para fora do país.

Voltando para a televisão, constatou que a maldita fotografia havia sido adquirida por todas as emissoras e que todos os noticiários enchiam linguiça cogitando se Wolf tinha condições psicológicas para ocupar um lugar tão importante naquela investigação.

Com o estômago embrulhado, fez uma segunda tentativa com o macarrão, mas deixou-o de lado após duas garfadas, vencido pelo aspecto visceral das almôndegas. Já ia se levantando para jogá-lo no lixo quando o interfone tocou. Infelizmente ele ainda não tinha a chave da janela, caso contrário poderia livrar-se de dois coelhos com uma cajadada só ao jogar seu prato de macarrão na cabeça do repórter sem noção que estava lá embaixo, tocando a porra do interfone. Resignado, ele atendeu:

– William Fawkes: bode expiatório da imprensa e modelo fotográfico jurado de morte.

– Emily Baxter: detetive em frangalhos e um tanto embriagada. Posso subir?

Wolf riu, abriu a porta da rua e rapidamente transferiu para o quarto boa parte da bagunça da sala. Emily surgiu logo em seguida, trazendo uma garrafa de vinho tinto. Vestia calças jeans justas, uma blusa rendada e ankle boots, o perfume floral inundando o apartamento. Ele ainda se espantava ao vê-la assim, à paisana, embora a conhecesse havia anos. Achava-a mais jovem, mais delicada, mais frágil, uma mulher muito mais talhada para a companhia de amigos em jantarezinhos íntimos do que para a de cadáveres em necrotérios ou a de psicopatas assassinos.

– Você não tem uma cadeira aí? – disse ela, correndo os olhos à sua volta.

– Eu não, e você? – brincou Wolf, e arrastou sua caixa de calças e camisas para que ela sentasse. Encontrou as taças de vinho na caixa em que ele próprio já ia sentando, depois serviu doses modestas para ambos.

– Puxa, isto aqui está uma... – ela começou a dizer, mas não terminou. Nem precisava, pois o olhar de nojo era eloquente o bastante. E foi com esse mesmo olhar que ela notou a camisa amassada que ele vestia, os cabelos desgrenhados.

– Acabei de levantar – mentiu ele. – Estou fedendo, preciso tomar um banho.

Os dois beberam do vinho.

– Você já sabe? – perguntou Emily.

– Já.

– Sei que você não era lá muito fã do cara, mas... ele era muito importante pra mim.

Wolf assentiu, os olhos grudados no chão. Eles nunca tinham esse tipo de conversa.

– Cheguei ao ponto de chorar nos braços do novato – prosseguiu ela. – Um vexame total.

– Simmons contou que foi você que descobriu...

– Meu estagiário, pode? Se fosse você, menos mal. – Seguiu-se um silêncio pesado, ambos se imaginando nos braços um do outro. – Teria sido ótimo se você estivesse lá naquela hora – arriscou ela, sublinhando a imagem imprópria, erguendo olhos enormes e esfumados para avaliar a reação de Wolf. Colocou mais vinho nas duas taças, depois tomou a mão dele e disse: – Você não pode morrer. Eu não quero que você morra.

Notando que ela começava a engrolar, Wolf cogitou quanto ela já havia bebido antes de chegar ali. Meio sem jeito, reacomodou-se na caixa em que estava sentado, quebrando algo dentro dela.

– Ela pensa que rolou alguma coisa entre nós, dá pra acreditar numa coisa dessas?

A ficha de Wolf demorou alguns segundos para cair.

– Ela quem? Andrea?

– Pois é. Não é uma maluquice? Se você pensar bem, a gente sofreu todos os aspectos negativos de quem teve um affair, mas não tirou proveito nenhum dos... positivos.

Emily fitou-o novamente com os olhos grandes, e ele, constrangido, recolheu a mão que ela ainda segurava.

– Que tal a gente dar uma volta por aí e comer alguma coisa? – sugeriu ele com entusiasmo, levantando-se.

Ela deu um gole no vinho, depois disse:

– Não estou com muita...

– Claro que está! Tem um italiano ótimo aqui na rua mesmo. Vou só tomar uma ducha rápida e a gente sai. Cinco minutinhos.

Wolf praticamente correu para o banheiro. Espremeu uma toalha na fresta da porta que não parava fechada, despiu-se o mais rápido que pôde.

Emily sentiu a cabeça rodar quando ficou de pé e foi para a cozinha. Bebeu o que ainda havia de vinho na taça, depois a encheu com água da torneira e esvaziou-a na boca em goles rápidos. Bebeu outras três enquanto olhava para o apartamento vazio do outro lado da rua, onde o autor de todo aquele pesadelo havia orgulhosamente exibido seu monstro costurado. Lembrou-se então de Chambers e ficou pensando naquele último telefonema que ele havia feito para tranquilizar a mulher, certamente com uma arma apontada para a cabeça. Depois pensou em Elizabeth Tate estatelada no asfalto, na foto em que Wolf segurava a mão dela sob a chuva.

Wolf cantarolava desafinadamente sob o chuveiro, talvez esquecendo que aquelas paredes de gesso eram o mesmo que nada. Baxter sentiu um aperto na garganta ao se dar conta de que dificilmente conseguiria salvar a vida dele. Largando a taça na bancada da pia, encarou-se no micro-ondas como se ali estivesse um espelho e caminhou até a porta do banheiro, que aparentemente não estava trancada. Imaginou se Wolf tinha feito aquilo de caso pensado e, pela segunda vez no dia, sentiu o coração disparar dentro do peito. Então respirou fundo, pousou a mão sobre a maçaneta enferrujada e...

Alguém tocou a campainha.

Emily ficou lívida, tamanho foi o susto que levou. Wolf não devia ter ouvido nada, pois seguiu cantando no banho. A campainha tocou uma segunda vez, agora com mais urgência.

– Merda – disse ela entre dentes e foi atender. – Andrea!

– Emily!

As duas mulheres ficaram olhando uma para a outra sem saber o que dizer. Wolf emergiu do banheiro com uma toalha amarrada à cintura e estava a meio caminho do quarto quando se viu perfurado pelo olhar acusatório de ambas. Parou onde estava, balançou a cabeça, depois se fechou no quarto.

– Estou interrompendo alguma coisa? – perguntou Andrea, indignada mas ao mesmo tempo contente por ver que estava certa desde o início.

– Acho melhor você entrar – disse Emily, abrindo caminho e cruzando os braços à sua frente numa postura defensiva. – Caixa?

– Estou bem de pé.

Emily ficou observando a ex-mulher de Wolf enquanto ela passeava os olhos pelo minúsculo apartamento, entediante de tão perfeita nas suas roupas de grife, irritante no barulho que fazia com os saltos muito altos.

– Isto aqui é uma... – começou Andrea.

– Não é? – interrompeu Emily, deixando bem claro para a ricaça que seu apartamento de classe média era bem diferente daquela espelunca.

– Por que será que ele veio morar aqui?

– Bem, talvez porque tenha sido enrabado feito um idiota no divórcio – disparou a detetive.

– Não que isso seja da sua conta – retrucou Andrea, serena –, mas vamos dividir a casa meio a meio. E, pra sua informação, Geoffrey e eu ajudamos o Wolf financeiramente quando ele saiu do hospital.

As duas se calaram de repente, igualmente constrangidas com a situação. Num rompante, Emily buscou a garrafa semivazia de vinho e, fazendo o possível para ser simpática, ofereceu:

– Quer?

– Depende. Que tipo de vinho é?

– Tinto.

– Isso eu posso ver. O que eu perguntei foi... de onde ele é?

– Do supermercado, ora.

– Não, não é isso... Deixa pra lá.

Emily deu de ombros e voltou para sua caixa.

Fazia mais de cinco minutos que Wolf já estava vestido, mas ele ainda permanecia no quarto, esperando o bate-boca acabar. Emily havia acusado a jornalista de explorar a desgraça alheia, e Andrea se ofendera, embora não houvesse dúvida de que era isso mesmo que ela fazia da vida. Andrea então acusara a detetive de estar bêbada, e Emily se ofendera, embora não houvesse dúvida de que ela realmente havia bebido além da conta. Wolf saiu do seu esconderijo apenas quando o assunto mudou para um possível relacionamento dele com a sargento-detetive.

– Então, desde quando está rolando essa pouca-vergonha? – disparou Andrea, dirigindo-se aos dois.

– Eu e a detetive Baxter? – perguntou Wolf ingenuamente. – Isso é ridículo.

– Ridículo por quê? – berrou Emily, ofendida, jogando lenha na fogueira. – O que há de tão ridículo assim em ter um relacionamento comigo?

Wolf mordeu a própria língua, percebendo a mancada que acabara de dar. Nada do que dissesse em seguida poderia salvá-lo.

– Não foi isso que eu quis dizer – arriscou ele. – Você é uma mulher linda, inteligente, maravilhosa...

Emily lançou um sorrisinho de vitória na direção de Andrea.

Maravilhosa? – explodiu Andrea. – E você ainda tem a cara de pau de negar que teve uma história com esta aí? – Para Emily: – Você está morando aqui agora, é?

– Eu não moraria numa pocilga dessas nem que a minha vida dependesse disso.

– Opa! – gritou Wolf. – Pocilga já é demais. Basta uma mãozinha de tinta pra que isto aqui fique...

– Melhor começar do zero e fazer outro – disse Andrea, que acabara de pisar em algo pegajoso. – Só quero saber a verdade, Will. Que diferença faz agora? – Ela se aproximou para ficar cara a cara com ele. – Will...

– Andie...

– Vocês estavam tendo um caso? – perguntou ela calmamente.

– Não! – respondeu ele angustiado. – Você acabou com o nosso casamento por causa de algo que nunca existiu!

– Vocês não saíam do lado um do outro naqueles dois meses. Difícil acreditar que não estavam se pegando também.

– Ninguém estava pegando ninguém! – berrou ele a poucos centímetros do rosto dela. Depois pegou seu casaco e saiu, batendo a porta do apartamento, deixando as duas mulheres sozinhas na sala.

Por um bom tempo elas permaneceram caladas. Até que Emily, falando baixo, disse:

– Andrea, você sabe que nada me daria mais prazer do que ter uma má notícia pra lhe dar, mas... nunca houve nada entre a gente.

Fim de jogo. Anos de desconfiança e acusações sepultados com a pá de cal de alguns segundos de franqueza. Andrea sentou-se numa das caixas, chocada ao constatar que por tanto tempo havia acreditado numa simples fantasia.

– Wolf e eu somos amigos, só isso – disse Emily, talvez mais para si mesma do que para a outra. Fizera um papelão com Wolf, confundindo as coisas. A relação entre eles era realmente complexa, mas naquele dia ela estava especialmente fragilizada com a morte de Chambers, com a perspectiva de perder seu melhor amigo. Mas a culpa maior, claro, era do vinho.

– Quem era aquela mulher na foto com o Will? – perguntou Andrea.

Emily revirou os olhos, mal acreditando no que acabara de ouvir.

– Não quero saber o nome dela – defendeu-se Andrea. – Apenas... Eles eram muito próximos?

– Próximos o bastante. Ela não merecia... – Emily parou um segundo para buscar as palavras, temendo deixar escapar algum detalhe sobre a morte de Vijay Rana. – Ela não merecia o destino que teve.

– E ele? Como está reagindo a tudo isso?

– Você quer mesmo saber? Mais ou menos do mesmo jeito de antes.

Andrea apenas assentiu. Entendia perfeitamente. Ainda tinha fresca na memória a tormenta que havia sido a reta final do seu casamento com Wolf.

– É muita pressão em cima dele – prosseguiu Emily, sem saber direito como explicar aquela mudança que somente ela havia notado. – É tudo muito pessoal. Não há sangue-frio que aguente.

– Pois é – disse Andrea. – Fico me perguntando se não é isso mesmo que o assassino quer: provocar o Will. Deixar o Will obcecado com a vontade de pegá-lo, o bastante pra descuidar da sua própria defesa.

– Mas não é a mesma coisa? Pegar o assassino e se defender?

– Não necessariamente. Ele poderia fugir pra... Bobagem. Ele não vai fugir pra lugar algum.

– Não, não vai – retrucou Emily com um sorriso triste.

– Sabe... Eu e ele já tivemos uma conversa quase idêntica a esta – disse Andrea.

A detetive Baxter ergueu o rosto, preocupada.

– Fique tranquila. Não falei nada com ninguém. Jamais falaria. O que estou querendo dizer é que... bem, já decidimos o que fazer.

– Basta uma palavrinha com Simmons pra que ele seja afastado do caso – disse Emily. – Mas prefiro mil vezes vê-lo por aí na rua, mesmo numa onda autodestrutiva, do que em casa, esperando a morte de braços ­cruzados.

– Então é isso. Não diga nada a Simmons. Mas ajude ele quanto ­puder.

– Se pelo menos a gente conseguisse salvar um deles, provar que o assassino não é infalível... já seria uma luz no fim do túnel.

– O que eu posso fazer pra ajudar? – perguntou Andrea, sincera.

Uma ideia ocorreu a Emily. Seria um risco enorme discutir algo tão importante com uma jornalista que já havia sido presa por espalhar informações críticas na mídia internacional. Ela não tinha a menor intenção de levar a cabo a sugestão ridícula de Garland no sentido de forjar a própria morte, mas, se pelo menos uma vez na vida pudesse ter a imprensa como sua aliada, e não como a habitual adversária, talvez encontrasse outra maneira de reverter as probabilidades a seu favor. Andrea parecia genuinamente preocupada com Wolf e disposta a ajudar. Talvez fosse o melhor instrumento para o sucesso do plano que ela agora tinha em mente.

– Preciso que você me ajude a salvar Jarred Garland.

– Você quer que eu me envolva?

– Você e o seu cinegrafista.

– Sei...

Andrea logo percebeu o que estava nas entrelinhas daquele pedido absurdo. Chegou a enxergar o rosto de Elijah à sua frente, exultante com a oportunidade de denunciar o ponto lamentável a que havia chegado o desespero da Polícia Metropolitana. Ele certamente sugeriria que ela transigisse num primeiro momento e deixasse para divulgar a história na véspera do crime. Para uma jornalista seria uma espécie de suicídio profissional repassar deliberadamente ao público uma informação errada, por melhores que fossem as suas intenções. Quem haveria de confiar nela depois disso?

Ela ainda tinha na cabeça os rostos sorridentes dos seus colegas de trabalho na última reunião de pauta, felizes que Elizabeth Tate tivesse morrido daquele jeito tão violento, como se a pobre coitada tivesse pulado na frente do ônibus apenas para benefício deles. Sentiu o estômago embrulhar quando imaginou aquelas mesmas pessoas festejando a morte de Wolf, esperando que ela acrescentasse uma “pitada de drama” àquele que, sem a ajuda de ninguém, já seria de longe o pior dia da sua vida. Não poderia permitir que isso acontecesse. Aquela gente era repugnante.

– Pode contar comigo.