Capítulo 23
Terça-feira, 8 de julho de 2014
6h54
– Me solta! – berrava Ford enquanto Wolf, Finlay e um segurança da embaixada tentavam arrastá-lo de volta para a sala. – Vocês estão me matando! Vocês estão me matando!
Apesar de flácido e amarelado, o irlandês revelara-se surpreendentemente forte, e os três homens precisaram suar a camisa para fazê-lo transpor a soleira da porta durante aquela crise de pânico que já durava três minutos. Ele ainda se agarrava às duas ombreiras, desferindo chutes para todo lado.
Na televisão, Andrea apresentava seu boletim com o Relógio da Morte no alto fazendo a contagem regressiva para a próxima morte anunciada. A certa altura ela passou a bola para um repórter de rua e Wolf ficou pasmo quando de repente viu a si mesmo na tela, ele e os outros dois tentando dominar o enfezado segurança. Quase soltou o homem quando virou na direção da janela para localizar quem os filmava de longe, um maluco que empunhava sua câmera enquanto se equilibrava muito precariamente numa das janelas do prédio vizinho. Por sorte o guarda da embaixada já havia solicitado reforços e naquele mesmo instante outros dois homens armados chegaram para socorrê-los.
– As cortinas! – gritou Wolf. – Fechem as cortinas!
Olhando rapidamente para a televisão, os dois recém-chegados compreenderam imediatamente a situação: um deles imobilizou as pernas de Ford e o outro correu sala adentro para fechar as cortinas. Vencido pelo excesso de contingente, Ford parou de se debater e começou a chorar ao mesmo tempo que repetia:
– Vocês estão me matando... Vocês estão me matando...
– Precisamos tirar esses repórteres do prédio aí do lado – disse Wolf a um dos guardas, que saiu na mesma hora para cumprir sua ordem.
– Vocês estão me matando...
– Cala essa boca, porra! – rosnou Wolf.
Ele precisava falar com Simmons. Não sabia exatamente quais seriam as consequências jurídicas por deter Ford contra a vontade dele, mas graças ao empenho de um operador de câmera equilibrista, era bem possível que eles acabassem sendo processados por abuso de poder. A questão deveria ser levada a Vanita, mas ele já podia prever que a decisão da comandante seria influenciada muito mais pelo medo da opinião pública e pela ânsia de proteger o próprio pescoço do que pelo bom senso. Simmons, por sua vez, sabia perfeitamente como funcionava o mundo real.
Dali a meia hora Wolf já havia discutido a situação com o ex-chefe, que por sorte chegara ao trabalho bem mais cedo que de costume. O consenso era o de que o segurança Ford, ao contrário do jornalista Jarred Garland, não estava “em pleno gozo das suas faculdades mentais” ao recusar a proteção da polícia. Portanto era do seu próprio interesse que o seu direito à liberdade fosse temporariamente suspenso.
Aquilo era, no mínimo, polêmico, mas àquela altura eles lançavam mão de qualquer artifício. Se fossem seguir o protocolo, teriam de chamar um médico devidamente qualificado para examinar Ford e produzir um laudo oficial; no entanto, após o episódio com Elizabeth Tate, não deixariam em hipótese alguma que alguém tivesse acesso a Ford.
O embaixador havia corrido para a embaixada depois de assistir aos telejornais. Wolf se sentia um tanto envergonhado pela insolência com que havia tratado o homem, um diplomata importante que não havia medido esforços para atendê-los. Acusara os funcionários dele de terem vendido informações para a imprensa e, mesmo sem ter autoridade para tanto, exigira que uma ampla investigação fosse conduzida para descobrir a identidade do mercenário. Mais tarde precisaria se desculpar.
Ele estava exausto e especialmente irritadiço após a noite difícil com Ford, por isso soltara os cachorros para cima da pessoa errada. Mais uma vez a “pessoa certa” era ninguém menos do que sua ex-mulher Andrea, que numa sede de audiência aparentemente insaciável colocara em risco a vida de outra pessoa. Dessa vez ele não deixaria barato: faria o que fosse preciso para responsabilizá-la caso algo acontecesse a Andrew Ford.
Simmons havia sugerido que eles levassem o irlandês para outro lugar, mas Wolf discordara. Dificilmente conseguiria deslocá-lo sem que alguém percebesse algo: tinha a impressão de que metade dos repórteres da cidade cercava o prédio, podia ouvir o burburinho da turba mesmo enquanto falava ao telefone. Não. A embaixada era um lugar seguro, melhor ficar por ali mesmo.
Voltando à sala, ele deparou com Finlay conversando de forma civilizada com um Ford resignado e surpreendentemente tranquilo diante do escândalo que havia feito meia hora antes.
– Você estava fazendo seu trabalho – dizia o primeiro. – Que motivo você poderia ter pra deixar que espancassem um homem que tinha acabado de ser declarado inocente?
– Você não está dizendo que eu fiz a coisa certa, está? – ironizou Ford.
– Estou dizendo que você fez a única coisa que poderia ter feito, só isso.
Wolf recuou devagar para não perturbar a curiosa conversa.
– Se você não tivesse agido e Khalid tivesse morrido, é bem provável que não descobrissem que ele era o Cremador e que o nosso Will aqui – Finlay apontou para Wolf, que esperava à porta da sala – estivesse mofando na cadeia com uma pena de trinta anos nas costas.
– Uma menina morreu – retrucou Ford, sem conseguir evitar que os olhos ficassem molhados.
– Eu sei, mas um homem honesto foi poupado – argumentou Finlay. – Não estou dizendo que acho bom o Khalid ter sobrevivido. Estou dizendo apenas que... coisas acontecem.
Ao dizer isso, Finlay tirou do bolso o baralho bem surrado que sempre levava consigo, misturou as cartas e distribuiu três mãos. Aparentemente conseguira acalmar o irascível segurança com sua conversa filosófica, mas também afetara Wolf, que até então via apenas o lado ruim daquele dia fatídico, nunca o lado bom.
Wolf se acomodou no sofá, pegou suas cartas e, vendo que elas não eram nada boas, encarou Finlay com desconfiança. Depois de anos de convivência, sabia que o companheiro não era nada confiável no baralho. Ford desandou a chorar após examinar suas próprias cartas, o que não era lá uma boa ideia se ele pretendia blefar.
– Excesso de curingas, é isso? – disse Finlay.
– Vá à merda.
Blake tinha uma bexiga frouxa e uma especial predileção pelo chá Earl Grey. Edmunds já havia percebido isso ao observar os hábitos dele ao longo do último dia. Assim que o viu sair mais uma vez para ir ao banheiro, aproveitou a oportunidade e correu para falar com Baxter no fundo do salão. Teria no máximo dois minutos.
– Edmunds! Que diabos você está fazendo? – perguntou ela ao vê-lo se agachar para não chamar atenção.
– Alguém contou pra imprensa, e pro assassino também, sobre a embaixada – sussurrou ele.
– Não tenho permissão pra falar do caso com você.
– Você é a única pessoa em quem eu confio.
Baxter amoleceu. Vinha sendo tratada feito uma leprosa desde o fiasco com Garland. Gostou de saber que pelo menos uma pessoa ali ainda dava algum valor à sua opinião.
– Pode confiar em todo mundo, Edmunds. Qualquer um pode ter dado com a língua nos dentes sobre a embaixada: o pessoal do Grupo de Proteção Diplomática, os funcionários da própria embaixada, qualquer pessoa dos prédios vizinhos. Você realmente precisa largar esse osso, cara. Agora vaza daqui, antes que me crie problemas.
Edmunds correu de volta para sua mesa. Segundos depois, avistou Blake voltando com mais uma caneca de chá na mão.
No início da tarde Simmons já havia eliminado 47 dos 88 nomes da sua lista. Edmunds, por sua vez, continuava procurando por vínculos entre as vítimas. Esgotadas as suas possibilidades, ele deixou de lado os escrúpulos e resolveu fazer bom uso da experiência que tinha no Departamento de Fraudes, tomando emprestada a senha de um amigo e acessando os arquivos exclusivos daquele banco de dados. Em quinze minutos encontrou uma pista e quase matou o chefe de susto quando saltou da cadeira e o puxou para a sala de reuniões para que eles pudessem conversar com a devida privacidade.
– Ashley Lochlan – disse ele, triunfante.
– A próxima vítima? – questionou Simmons. – O que tem ela?
– Em 2010 ela estava casada e circulando com o nome de Ashley Hudson.
– A gente já devia saber disso...
– E sabia, mas os computadores não estavam procurando por uma segunda conta bancária sob um nome diferente, uma conta que ficou aberta apenas por dez meses. No dia 5 de abril de 2010, ela depositou 2.500 libras em dinheiro vivo na conta que tinha com o sobrenome Hudson – disse Edmunds, passando a Simmons os dados que havia imprimido.
– Foi mais ou menos nessa época que teve início o julgamento do Khalid.
– Pois é. Ela trabalhava como garçonete num pub e ganhava salário mínimo. Quarenta e cinco dias depois ela depositou mais 2.500 pratas na mesma conta.
– Interessante.
– Interessante, não. Estranho. Então examinei a movimentação bancária das outras vítimas e achei dois saques no mesmo valor e nas mesmas datas na conta de Vijay Rana.
– Que motivo teria o irmão de Khalid pra dar tanto dinheiro a uma garçonete?
– É exatamente isso que pretendo perguntar a ela.
– Isso. Belo trabalho, Edmunds.
Às quatro da tarde Wolf ouviu a troca dos guardas do outro lado da porta. Após o incidente da manhã, eles haviam desligado a televisão, um gesto apenas simbólico, pois ainda se ouvia perfeitamente a barulhada que os curiosos, os repórteres e os carros da polícia faziam do lado de fora. A bagunça ainda estava longe de acabar.
Com a exceção de alguns arroubos passageiros, Ford vinha mantendo sua calma recém-encontrada, dando a Finlay e Wolf uma vaga ideia do homem que ele fora num passado nem tão remoto assim. Parecia enfrentar com firmeza e lucidez a sede de sangue daquelas pessoas que esperavam pela sua morte na rua.
– Já deixei um assassino arruinar minha vida. Não vou deixar que outro decida a minha morte.
– É assim que se fala – aplaudiu Finlay.
– Cedo ou tarde preciso retomar as rédeas da minha vida. Por que não hoje mesmo?
Como medida de precaução eles haviam fechado todas as janelas e cortinas. Apesar do ventilador que haviam pedido emprestado, o ambiente estava abafado, quente. Wolf subiu as mangas da camisa, deixando à mostra a queimadura do braço esquerdo.
– Isso aí, o que foi? – perguntou Ford, apontando para o curativo.
– Nada importante.
– Foi ferido quando o prefeito Turnble... – começou Finlay, calando-se de repente.
– Então é isso. Vocês dois estão correndo um risco enorme só por estarem ao meu lado, não estão? Nada impede que o sujeito dispare um míssil teleguiado pra explodir isto tudo aqui.
Essa hipótese ainda não havia ocorrido a Finlay. Ele olhou preocupado para Wolf, que deu de ombros, dizendo:
– Não tenho muito a perder. Meus dias estão contados.
Em seguida foi para a janela e espiou através de uma fresta na cortina.
– Não quero que ninguém se ferre por minha causa – disse Ford.
Wolf já estava havia uns cinco minutos à janela quando estranhou o comportamento de três pessoas na rua fechada. Elas estavam mais ou menos separadas dos outros curiosos e davam a impressão de que esperavam por algo. Tinham arrastado para o asfalto uma bolsa de lona razoavelmente grande. De um segundo a outro, cada uma vestiu uma máscara de animal e dali a pouco outras seis pessoas se juntaram a elas.
– Finlay! Será que você teria como ir falar com os policiais que estão lá embaixo?
– Claro, por quê?
– Encrenca à vista.
Duas das pessoas mascaradas, um macaco e uma águia, se agacharam e abriram a bolsa de lona. Pegaram o que precisavam, abriram caminho na multidão e passaram por baixo dos cordões de isolamento.
– Assassino de criancinhas! – gritou a primeira delas, um homem.
– Comparsa do Cremador! – berrou a segunda, uma mulher.
Os policiais agiram com rapidez e voltaram com os dois intrusos para o outro lado do cordão de isolamento, mas os outros sete que haviam ficado para trás agora protestavam ruidosamente diante dos repórteres, empunhando os cartazes e faixas que haviam retirado do saco. Uma mulher, protegida por uma máscara de tubarão, gritava seu discurso na boca de um megafone, aumentando ainda mais a barulheira à sua volta.
– Andrew Ford merece o seu destino! – dizia ela. – Se não tivesse salvado a vida do Cremador, Annabelle Adams ainda estaria entre nós!
Wolf virou-se para ver a reação de Ford, já esperando uma nova explosão. Mas Ford permanecia calado onde estava, apenas ouvindo as injúrias. Sem saber o que dizer, Finlay religou a televisão, sintonizou-a num programa infantil e aumentou o volume na tentativa de abafar a gritaria que vinha de fora. Wolf começava a achar que a sala da embaixada ficava cada vez mais parecida com o quarto e sala do irlandês em Peckham.
– Poupa o Diabo e despertarás a ira do Senhor! – repetiam os manifestantes.
Um deles falava animadamente com um repórter enquanto o líder sugeria que Ford estava mancomunado com Khalid desde o início.
– Isso já aconteceu antes? – perguntou Wolf a Ford, mas sem tirar os olhos da janela.
– Não assim – respondeu ele distraidamente. Em seguida, quase sussurrou: – Poupa o Diabo e despertarei a ira do Senhor...
Alguns dos policiais cercavam os manifestantes. Nada poderiam fazer enquanto o grupo continuasse apenas berrando palavras de ordem. Wolf sinalizou para que Finlay se juntasse a ele à janela.
– Acha que isso é obra dele? – perguntou o policial, lendo os pensamentos do colega.
– Sei lá. Mas isso não está me cheirando bem.
– Quer que eu desça pra fazer algumas perguntas?
– Não. Você lida melhor com ele. Desço eu.
Wolf deu uma última olhada nos mascarados e foi para a porta. Antes que ele saísse, Ford disse:
– Wolf! Retomar as rédeas!
Wolf não entendeu. Apenas sorriu, deu de ombros para Finlay e saiu. Já estava na recepção da embaixada quando recebeu uma ligação de Edmunds, informando-o sobre Ashley Lochlan.
– Ela falou que só conversa com você – disse o estagiário.
– Agora estou ocupado – retrucou Wolf.
Assim que pisou na rua foi identificado pelos repórteres, que avançaram feito um enxame. Começava a achar que deveria ter deixado Finlay descer. Ignorando a gritaria, passou por baixo do cordão de isolamento e foi abrindo caminho na multidão, seguindo na direção dos bordões dos manifestantes.
– É importante – insistiu Edmunds. – Talvez ela seja capaz de finalmente explicar qual é o vínculo entre todos vocês. A partir daí a gente vai ter uma chance real de descobrir quem é este psicopata.
– Tudo bem. Manda o número dela. Ligo assim que puder.
Um espaço grande havia se formado em torno dos sete baderneiros. De perto, as máscaras eram bem menos lúdicas e bem mais sinistras: vozes inflamadas berravam através dos focinhos imóveis, olhos furiosos brilhavam do outro lado dos buracos no plástico. O mais intimidante deles, tanto no tamanho quanto no comportamento, usava uma máscara de lobo com o maxilar inferior móvel. Erguia dois cartazes simultaneamente enquanto rosnava palavras de ordem. Wolf notou que ele mancava ligeiramente, certamente uma lembrança da última bala de borracha levada no traseiro.
Evitando passar pelo lobo mau, Wolf aproximou-se da mulher mascarada de tubarão que ainda empunhava seu megafone. Sem nenhum preâmbulo, roubou o aparelho das mãos dela e o arremessou contra a fachada do prédio, com força o bastante para quebrá-lo. As câmeras de televisão seguiam avidamente cada um dos seus passos.
– Ei, você não pode... Espera aí. Você não é aquele detetive? – perguntou a mulher, agora num tom bem mais feminino e bem mais classe média.
– O que vocês estão fazendo aqui? – disparou Wolf.
– Um protesto, ué – disse ela e Wolf quase pôde ver o sorrisinho irônico sob a máscara, irritando-se ainda mais. – Fica frio, detetive. Na verdade... Nem sei direito o que é tudo isso. Nenhum de nós sabe. Tem um site aí que recruta figurantes pra todo tipo de coisa: pra fazer um flash mob, por exemplo, ou pra tietar na porta do hotel em que uma banda está hospedada, só pra fazer barulho. Hoje contrataram a gente pra fazer esse protesto.
– Que site é esse?
Ela entregou um panfleto com os detalhes, depois disse:
– Estavam distribuindo no campus da faculdade.
– Vocês foram pagos pra estar aqui?
– Claro que sim. Que outro motivo poderia haver?
– Minutos atrás você me pareceu bem motivada.
– Porque sou uma ótima atriz. Estava lendo meu texto em um cartão.
Wolf sabia perfeitamente que estava sendo filmado e observado. Num mundo ideal, jamais seria obrigado a interrogar uma pessoa diante de uma câmera de televisão.
– Como foi que pagaram vocês?
– Em dinheiro vivo, dentro de uma bolsa. Cinquenta pratas pra cada um. – Ela agora parecia enfastiada com Wolf. – E, antes que você pergunte, a gente se encontrou num túmulo do cemitério de Brompton. A bolsa já estava lá com o dinheiro, esperando a gente.
– Um túmulo? Túmulo de quem?
– Annabelle Adams. A garota que está no texto que deram pra gente.
Wolf procurou disfarçar sua surpresa com a resposta.
– Esta bolsa e tudo que estava dentro dela serão apreendidos como prova material numa investigação de homicídio – disse ele, chutando a bolsa vazia diante do grupo.
Eles resmungaram, xingaram, mas obedeceram, jogando no chão os cartazes, as faixas e os cartões de texto.
– As máscaras também – indicou Wolf, impaciente.
Eles foram despindo as máscaras, cada um a seu tempo, alguns escondendo o rosto sob o capuz de um casaco, embora não tivessem feito nada de errado. O último deles, o grandalhão mascarado de lobo, ainda protestava aos berros, alheio às ordens recebidas, marchando de um lado para outro como se quisesse preservar o território conquistado na multidão.
Wolf se interpôs no caminho dele. O lobo desenhado na máscara parecia ser um sujeito relativamente legal, salivando e lambendo os beiços, mas o grandalhão que lhe dava vida era bem mais feroz e truculento: livrou-se de Wolf com um golpe de ombro violento e continuou protestando como se nada tivesse acontecido.
– Ei, preciso levar isso aí! – disse o detetive, apontando para os dois cartazes que o outro erguia, ambos com o bordão já repetido milhares de vezes.
Novamente se colocou na frente dele e se preparou para o pior. Na sua avaliação o tal lobo era exatamente o tipo de pessoa que se interessaria por aquele tipo de bico, pela oportunidade de se esconder atrás de uma máscara para cometer atos de vandalismo e violência – sobretudo numa situação como aquela em que o policiamento era insuficiente para o número de curiosos.
Wolf não hesitaria em levar o marrento preso, mas, pouco acostumado a medir forças com um civil na rua, recuou um passo quando ele parou a poucos centímetros de distância, os olhos azuis faiscando como os de um lobo real. Um cheiro medicinal, pútrido, emanava do plástico da máscara.
– Os cartazes, já – ordenou Wolf, num tom que teria assustado qualquer um que conhecesse seu polêmico passado.
Diante do olhar firme do seu oponente, o sujeito virou o rosto para o lado, também como um lobo de verdade, refletindo, calculando seus passos. Wolf podia muito bem adivinhar as câmeras que o filmavam por trás, a postos caso o impasse resvalasse para o confronto físico, audiência garantida para todo mundo. Mas o homem, contrariando todas as expectativas, subitamente jogou na calçada os dois cartazes que vinha segurando.
– A máscara também – pediu Wolf.
O lobo permaneceu imóvel.
– A máscara!
Dessa vez foi Wolf quem partiu para cima, por pouco não roçando o nariz na máscara do homem, ambos respirando o mesmo ar quente e fétido.
Ficaram assim por intermináveis dez segundos até que, para a surpresa de Wolf, o lobo ergueu os olhos para o alto do prédio da embaixada. As pessoas na rua, fazendo o mesmo que ele, começaram a gritar, assustadas com o que viam: Ford empoleirava-se no beiral da fachada enquanto Finlay o chamava de volta, debruçado numa das janelas. O susto foi ainda maior quando o irlandês escalou o telhado preto na direção de uma chaminé, movendo os braços feito um equilibrista, completamente fora do alcance de Finlay.
– Não, não, não! – berrou Wolf, empurrando o lobo mau para o lado e abrindo caminho através da multidão.
Seguranças da embaixada surgiram nas janelas do último andar.
– Não faça isso, Andrew! – gritou Finlay, que a essa altura já havia pulado para o beiral, agarrando-se ao telhado para não cair. Uma das telhas quebrou e despencou do alto para se espatifar, aparentemente uma eternidade depois, contra o para-brisa de um carro da polícia.
– Finlay, fique onde está! – berrou Wolf, emergindo da multidão. – Não saia daí!
– Wolf! – gritou Ford.
Wolf parou imediatamente e olhou para o homem. Nem sentia na rua o vento que lá no alto parecia lamber os tufos de cabelo dele. Mas ouvia perfeitamente a sirene uivante dos bombeiros que não tardariam a chegar.
– A gente precisa retomar as rédeas! – repetiu o irlandês e só então Wolf entendeu o que ele queria dizer com isso.
– Se você fizer isso... se você morrer, ele vence! – gritou Finlay, espichado contra o telhado, agarrando-se à moldura da janela e derrubando mais telhas para o asfalto.
– Não! Se eu fizer isso, eu venço!
Ford largou as mãos da chaminé e ergueu os braços para se equilibrar na cumeeira do telhado. Na rua, motoristas desciam dos seus respectivos carros para testemunhar em primeira mão aquilo que muito em breve viraria notícia no mundo inteiro. O silêncio seria total, não fossem os boletins que os repórteres sussurravam nos seus microfones. O caminhão dos bombeiros uivava em alguma rua vizinha. Arrastando-se como podia no telhado, Finlay estava a meio caminho da chaminé. Uma gritaria eclodiu quando Ford perdeu o equilíbrio e balançou os braços para não cair.
– Coisas acontecem... – falou ele, mas tão baixinho que apenas Finlay pôde ouvir. Só então deixou o corpo cair para a frente.
Não havia mais o que fazer. Finlay, Wolf e a multidão de curiosos acompanharam com os olhos enquanto o irlandês despencava do quarto andar para se esborrachar com um baque seco no fosso da escada de incêndio do subsolo.
Seguiram-se alguns segundos de silêncio.
Num impulso, Wolf correu para a escada de incêndio e saltou os últimos degraus para alcançar mais rapidamente o corpo estatelado. Não demorou para se dar conta de que estava pisando no sangue já empoçado em torno do crânio do homem.
Desimpedidos pelo policiamento insuficiente e furiosos como uma tropa de infantaria, os repórteres correram na esteira dele e invadiram o fosso para registrar as primeiras imagens da nova tragédia. Eram tantos que chegavam a bloquear todo o sol que vinha de cima.
Apenas para desencargo de consciência, Wolf tomou o pulso do segurança. Depois sentou-se no chão ao lado dele e assim ficou, recostado à fachada do prédio, ciente de que estava posando para mais uma fotografia icônica mas traumatizado demais para se importar.
Três minutos depois, policiais e paramédicos se acotovelavam no pouco espaço do fosso. Deixando para trás um rastro de pegadas de sangue, Wolf subiu de volta para a calçada e acompanhou o trabalho dos bombeiros enquanto eles socorriam Finlay, que ainda estava no telhado, agarrado feito um gato às bordas da chaminé. Enterrando as mãos nos bolsos, estranhou ao encontrar no interior de um deles um papel amassado. De início viu apenas as marcas deixadas na folha por um polegar ensanguentado, mas depois notou que havia algo escrito no verso: “Bem-vindo de volta.”
Ele sabia muito bem de quem era aquela letra. Por alguns segundos ficou se perguntando quanto tempo havia circulado com aquilo no bolso, imaginando como o psicopata conseguira... O lobo!
Empurrando quem havia pela frente e atropelando os repórteres que já começavam a guardar seu equipamento para ir embora, ele partiu em disparada na direção do local onde deixava os manifestantes, procurando freneticamente por eles. Não os encontrando junto da pilha de cartazes e faixas que havia confiscado, correu para o banco mais próximo e subiu nele para ter uma visão melhor da rua. Nenhum sinal do lobo, apenas a máscara que ele havia abandonado no asfalto, pisoteada pelos passantes.
Resignado, ele desceu do banco para recolhê-la. Sabia que o assassino ainda estaria por ali em algum lugar, observando-o de longe, rindo dele, orgulhoso do poder que havia exercido sobre o segurança Andrew Ford, do poder que ainda exercia sobre a mídia e, por mais que lhe custasse admitir, sobre o seu detetive predileto também.