Capítulo 24

Quarta-feira, 9 de julho de 2014

2h59

O relógio de Edmunds bipou às três da madrugada. Um holofote zumbia muito acima dele, no teto alto do subsolo. Aquela era sua quarta visita ao Depósito Central, e ele começava a apreciar a quietude do lugar. Gostava da penumbra e sobretudo da temperatura controlada, quente o bastante para fazê-lo tirar o paletó, fria o bastante para mantê-lo acordado. Sempre que olhava à sua volta ficava abismado, não só com a poeira acumulada no ar, mas com a quantidade de histórias enterradas ali.

Aquilo era como um jogo sem fim possível. Dentro de cada uma daquelas milhares de caixas de papelão havia um enigma a ser revisitado ou, em alguns casos, solucionado. Era mais fácil focar no desafio que elas representavam para os investigadores em geral do que na triste constatação de que estavam associadas a uma vida perdida ou arruinada, enfileiradas nas suas respectivas prateleiras feito as urnas de uma ­catacumba.

Os acontecimentos do dia haviam confirmado suas suspeitas, não restando qualquer dúvida. Mais uma vez o assassino soubera onde encontrar seu alvo supostamente escondido.

Emily Baxter estava sendo ingênua.

Realmente era possível que alguém na embaixada tivesse vazado a informação de que Andrew Ford estava acampado por lá. No entanto, aquilo não havia sido um caso isolado. Era a quarta vez que eles eram ludibriados e, pior ainda, ninguém além de Edmunds enxergava isso.

Novamente ele havia mentido para Tia, dizendo que perdera no palitinho e fora escalado para uma operação de vigilância madrugada afora, ganhando assim mais uma preciosa noite para revirar os baús do passado. Podia jurar que havia rastros do psicopata em algum lugar daquele depósito enorme, as primeiras pegadas daquele monstro que agora avançava a pleno vapor na direção deles.

Na noite de segunda ele havia tropeçado num caso não resolvido de 2008 no qual um fundamentalista islâmico, nascido e criado na Inglaterra, havia morrido dentro de uma solitária. Segundo os registros de protocolo, ninguém havia entrado ou saído daquela ala do presídio no horário estimado para o crime, fato corroborado pelas câmeras de segurança. O corpo do rapaz de 23 anos exibia sinais de sufocamento, mas fora isso não havia nada que configurasse ou comprovasse um crime e, no fim das contas, a morte dele fora atribuída a causas naturais.

Nas pesquisas pela internet ele havia encontrado a morte suspeita de um fuzileiro numa base militar. Tendo em mente o coturno identificado por Joe, havia feito uma solicitação formal à Polícia Militar, pedindo que eles enviassem toda a documentação do caso, mas ainda não recebera nenhuma resposta.

Ele tinha passado a última hora examinando as provas de um homicídio ocorrido em 2009. O herdeiro de uma multinacional do setor de eletrônicos havia desaparecido misteriosamente de uma suíte de hotel embora dois guarda-costas estivessem a menos de 10 metros de distância, num quarto adjacente. Uma quantidade suficiente de sangue fora encontrada no local para dar o rapaz por morto, mas o corpo jamais havia sido encontrado. Nenhuma impressão digital, nenhuma amostra de DNA, nenhuma imagem gravada, nada fora encontrado para dar pelo menos uma primeira pista à polícia, o que significava que também não havia nada que pudesse ser associado ao caso Boneco de Pano. Edmunds anotou a data do crime e guardou a papelada de volta na caixa.

O ar refrigerado recarregava suas energias. Ele não estava nem um pouco cansado, mas prometera a si mesmo que retornaria para casa por volta das três de modo que pudesse tirar pelo menos um rápido cochilo antes de ir para o trabalho. Tinha planejado pesquisar outros cinco casos diferentes, mas... paciência. Então se levantou, devolveu a caixa para a prateleira e foi caminhando na direção da saída. Já estava próximo ao fim do corredor quando percebeu que as caixas na prateleira a seu lado haviam alcançado o mês de dezembro de 2009, o mês do crime seguinte na sua lista de casos. Ele conferiu as horas no relógio: 3h07.

– Só mais uma – prometeu a si mesmo. Localizou a caixa que queria e foi com ela para o chão.

Às 8h27, Wolf chegou a um inóspito prédio de apartamentos numa das travessas da Plumstead High Street, na zona sudeste de Londres. Já nem tentava mais dormir, sobretudo agora que tinha a máscara de lobo para acrescentar à sua longa lista de motivos para não pregar os olhos tão cedo. A ousadia do assassino o deixara bastante abalado. Havia sido um risco enorme que o sujeito tivesse ido até a embaixada, que tivesse participado pessoalmente da manifestação que ele mesmo organizara, que tivesse confrontado seu adversário tão de perto, um impulso essencialmente narcisista e autodestrutivo. Edmunds os havia alertado: o assassino não resistiria à tentação de chegar cada vez mais perto, movido pelo desejo inconsciente de ser pego. Talvez o incidente na embaixada tivesse sido um pedido de socorro por parte dele. Talvez ele houvesse agido, não por arrogância, mas por desespero.

Wolf estranhou a lama nos degraus da escada, não lembrava direito se voltara a chover após a tempestade da semana anterior. No terceiro andar ele abriu o que sobrava de uma porta corta-fogo, passou ao corredor encardido e não viu sinal algum dos dois policiais que deveriam estar plantados à porta de Ashley Lochlan – aliás, a única porta que parecia ter recebido uma demão de tinta nos últimos anos, a do apartamento 16.

Ele já ia tocando a campainha quando os dois policiais, um homem e uma mulher, surgiram subitamente no corredor com um sanduíche e um copo de café nas mãos. Ambos se assustaram quando viram a imponente figura do detetive.

– Bom dia – disse a mulher, mastigando uma bocada do seu sanduíche. Ofereceu a Wolf a outra metade quando ouviu o estômago dele roncar, mas o investigador agradeceu educadamente.

– Vocês já sabem quando vão tirá-la daqui? – perguntou o homem, quase um rapaz.

– Ainda não – disse Wolf com alguma rispidez.

– Não, não! Não foi isso que eu quis dizer – ele se corrigiu. – Pelo contrário, Ashley Lochlan é uma ótima pessoa. Vamos sentir a falta dela.

– Vamos mesmo – repetiu a mulher.

Wolf ficou surpreso. Escravo dos estereótipos que tanto o haviam ajudado no passado, ele vinha se preparando para encontrar do outro lado da porta uma maluca de olhos vidrados e pijama, cercada de gatos recolhidos da rua. Mas pelo visto a dupla de policiais não estava com nenhuma pressa de ir embora.

– Ela acabou de ir tomar banho, mas o senhor pode entrar – disse a mulher, destrancando a porta.

O apartamento, limpíssimo, cheirava a café recém-passado e bacon. Uma brisa morna balançava as cortinas de renda, vergando ligeiramente as flores da mesinha de centro da sala. Além de arejado, o lugar era decorado com bom gosto: paredes e móveis em tons claros, piso e bancadas de madeira legítima. Fotografias cobriam uma das paredes quase por inteiro. Na cozinha, vasilhas e assadeiras secavam ao lado da pia. Da sala se ouvia o chuveiro aberto no banheiro.

– Ashley! – chamou a policial. – O sargento-detetive Fawkes veio falar com você.

Torneiras foram fechadas.

– E aí? Ele é tão gato em pessoa quanto na televisão? – perguntou Ashley, com um discreto sotaque escocês.

A policial ficou desconcertada, sem saber o que dizer e corou ainda mais quando Ashley acrescentou:

– Tudo bem, a gente precisa dar um bom banho no cara antes de levá-lo pra qualquer lugar, mas ainda assim...

– Na verdade ele parece que está precisando de uma boa xícara de café.

– Então manda entrar e leva pra cozinha. Tem café novo na garrafa.

– Bem, é que...

– O quê?

– Ele já entrou.

Jura? E ouviu o que eu falei?

– Ouviu.

– Merda...

Aflita, a policial chispou de volta para o corredor e retomou sua sentinela.

Wolf timidamente farejou as próprias axilas assim que viu que estava sozinho. Depois, enquanto esperava Ashley se vestir, foi para o mural da parede e deixou os olhos passearem pelas fotos, que eram singelas e espontâneas, sempre com a mesma mulher bonita no centro, ora na praia com amigos, ora num parque com um senhor mais idoso, ora na Legoland com o que parecia ser seu filho. Nessa última ele ficou comovido ao ver a felicidade estampada no rosto de ambos naquele que deveria ter sido um dia perfeito.

– Esse aí é o Jordan. Está com 6 anos – disse Ashley às suas costas.

Lembrou-se de que Finlay também é escocês, mas nem de longe tinha o charme daquele sotaque. Virando o rosto, ele deparou com a mesma mulher bonita das fotos secando os cabelos com uma toalha à porta do banheiro. Vestia um shortinho jeans, curtíssimo, e uma camiseta de malha cinza. Wolf não pôde deixar de notar as curvas das pernas antes de voltar sua atenção para as fotos.

– Comporte-se, homem – resmungou ele baixinho.

– Hein?

– Seu filho Jordan... cadê ele?

– Não foi isso que você disse, foi?

– Foi, foi – confirmou Wolf, sacudindo a cabeça feito um cordeirinho.

Ashley fitou-o de um modo engraçado.

– Mandei-o pra casa da mamãe depois que... bem, depois que esse maluco ameaçou matar todo mundo – respondeu ela enfim. Depois se apresentou: – Ashley.

Wolf se adiantou para cumprimentá-la, por pouco não triturando a mão dela com a força bruta da sua. Precisou se controlar para não encarar as pernas da moça, mas não pôde deixar de notar o castanho vivo dos olhos, as manchas escuras que os cabelos molhados tinham deixado na camiseta, o odor cítrico que eles exalavam.

– Fawkes – disse, recuando logo em seguida.

– Não posso chamá-lo de William?

– Não, não pode.

– Então você vai ter de me chamar de Lochlan – devolveu ela com um sorriso, depois olhou-o de cima a baixo.

– Que foi?

– Nada. É que... pessoalmente você é muito diferente.

– Bem, a imprensa só me fotografa quando estou ao lado de um cadáver, então... estou sempre com a cara triste.

– Mas você não vai dizer que esta é a sua cara alegre, vai? – ela riu.

– Esta aqui? Não. Esta é a cara de um herói mal compreendido que não dorme há uma semana e talvez seja a única pessoa tão inteligente quanto o assassino em série que ele está tentando pegar.

– Ah, é? – disse Ashley, rindo de novo.

Wolf simplesmente encolheu os ombros enquanto ela o encarava, aparentemente intrigada com o que via à sua frente.

– Quer comer alguma coisa? – sugeriu ela.

– Tipo o quê?

– O melhor café da cidade fica logo ali na esquina.

– Primeiro: o melhor café da cidade fica na minha rua e se chama Sid’s. Segundo: você está em regime de proteção domiciliar, não pode sair.

– Bobagem, você me protege na rua também – disse ela, fechando a janela da sala. – Vou só calçar um sapato e já volto.

Wolf ficou dividido. Sabia que não deveria ceder, mas estava gostando da conversa, não queria fazer nada para azedá-la.

– Que tal vestir uma calça também? – sugeriu.

Ashley parou à porta do quarto e fabricou uma cara de ofendida. Vendo que ele admirava suas pernas outra vez, disse:

– Por quê? Estou deixando você nervoso?

– Nem um pouco – disse Wolf com desdém. – Você está horrível. Bléééh! Não posso sair com alguém assim do meu lado.

Ashley adorou o falso insulto. Entrando no quarto, tirou a camiseta de dentro do shortinho, deixou que ela caísse para as coxas, depois substituiu o shortinho por um par de jeans rasgados nos joelhos, rebolando violentamente para entrar neles. Wolf estava de tal modo perplexo que nem se deu ao trabalho de virar o rosto.

– Melhor assim? – perguntou ela, prendendo os cabelos num rabo de cavalo desleixado que a tornava ainda mais bonita.

– Não – respondeu ele com sinceridade. – Antes estava bem melhor.

Ashley riu novamente. Não tinha o hábito de se comportar assim, mas com apenas três dias de vida pela frente, estava achando divertido flertar com um homem que por coincidência também estava com os dias contados. Calçou seus surradíssimos All Stars, pegou seu molho de chaves na mesa da cozinha e, sem mais nem menos, perguntou:

– Você tem problema com alturas?

– Não gosto de cair delas – respondeu Wolf, confuso.

– Então... vamos lá? – disse ela e saiu junto com ele.

Wolf não demorou para constatar que Ashley havia superestimado grosseiramente o tal café da esquina. Os componentes do legítimo café da manhã britânico sobre a mesa davam a impressão de que estavam vivos ao deslizarem na própria gordura. Ashley sequer conseguia terminar sua torrada. O mais provável era que ela tivesse sugerido o lugar simplesmente para tomar um ar fresco na rua, sair um pouco da sua prisão domiciliar. Certamente nunca tinha pisado ali antes: não faria a burrice de cometer o mesmo erro duas vezes.

– Não me leve a mal, Lochlan, mas este seu café...

– Trabalho aqui.

– ... é muito bom. É ótimo.

Eles haviam chamado a atenção de algumas pessoas no curto trajeto desde o prédio. Talvez o tivessem reconhecido de alguma foto de jornal ou talvez estivessem apenas admirando a beleza natural de Ashley, difícil dizer. Acomodados a uma mesa ao lado da janela, o mais longe possível dos demais clientes que devoravam suas salsichas e ovos sem nenhum pudor, eles vinham jogando conversa fora por mais de vinte minutos.

– Tenho andado muito preocupada com você – disse Ashley à queima-roupa, embora eles ainda estivessem falando dos seus discos preferidos de Bon Jovi, pelo menos na opinião de Wolf.

– Hein?

– Como é que você está... lidando com tudo isso?

– Deixa eu ver se entendi direito: você está marcada pra morrer daqui a três dias e está preocupada comigo? – perguntou Wolf, aproveitando a oportunidade para largar no prato os talheres engordurados.

– Você também está marcado pra morrer – retrucou ela. – Daqui a cinco dias.

Isso o tomou de surpresa. Ele andava tão imerso na investigação que nem havia notado a passagem do tempo.

– Tenho visto todos os noticiários – disse Ashley. – Não há muito que fazer quando você está trancada num apartamento de quatro cômodos. Esse cara que está infernizando a gente, seja lá quem ele for... ele está fazendo com você a mesma coisa que um gato faz quando está brincando com o rato: quanto mais ele vê que o rato está judiado, mais ele quer brincar.

– Eu não sabia que estava “judiado” – brincou Wolf.

– Mas está – disse ela. – Olha... isso que aconteceu com essas pessoas... e que talvez aconteça comigo também... você não tem culpa de nada.

Wolf deixou escapar um risinho irônico. Se a intenção da garota era consolar alguém, ela estava perdendo seu tempo.

– Você está muito tranquila diante dessa coisa toda – concluiu ele. – Chega a ser bizarro.

– Acredito no destino, só isso.

– Não quero jogar mosca na sua sopa, mas... se realmente existe um Deus por aí, estamos fodidos. Porque aparentemente ele não está do nosso lado.

– Não é de Deus que estou falando. É que... a vida dá umas voltas engraçadas.

– Como assim?

– A vida colocou você hoje aqui comigo, duas pessoas que em tese nunca teriam se conhecido. E agora finalmente vou poder me redimir de uma coisa que fiz anos atrás.

Wolf ficou curioso. Instintivamente olhou à sua volta para ter certeza de que ninguém bisbilhotava a conversa. Estava tão cativado por Ashley que praticamente havia esquecido onde se encontravam. Uma mulher tão agradável e linda não combinava com a espelunca que era o tal café. Vê-la ali era tão incongruente quanto ver o porco Andrew Ford no luxo da embaixada irlandesa.

– Promete que vai me deixar terminar antes de... Promete?

Wolf cruzou os braços numa postura defensiva e se recostou na cadeira. Ambos sabiam que Edmunds havia descoberto as 5 mil libras que Vijay Rana depositara na conta dela.

– Quatro anos atrás eu trabalhava num pub em Woolwich. Eu passava por uma fase difícil. O Jordan tinha só 1 ano e eu tinha acabado de me separar do pai dele, que não era exatamente um cara legal. Eu só podia trabalhar meio expediente enquanto mamãe tomava conta do menino. Vijay frequentava esse pub. Almoçava lá quase todo dia, a gente era quase amigo um do outro. Mais de uma vez ele me pegou chorando por causa do divórcio ou da falta de grana. Era um homem generoso. Dava gorjetas de 10 libras, que eu recusava, mas ele insistia, dizendo que queria me ajudar. Aquilo me ­comovia...

– Talvez ele quisesse mais do que simplesmente ajudar – interveio Wolf, azedo. Não guardava a menor simpatia pelo irmão de Khalid.

– Ele não era esse tipo de homem. Tinha uma família. Então um dia apareceu com uma proposta. Falou que um amigo dele estava enrolado com a polícia, mas podia jurar que ele era inocente. Me ofereceu 5 mil libras só pra dizer que eu tinha visto uma pessoa na rua, voltando pra casa numa determinada hora. Só isso.

Você deu um depoimento falso? – perguntou Wolf, sem conseguir conter o espanto.

– Estava desesperada... Morro de vergonha, mas acabei topando. Achei que aquilo não fosse fazer muita diferença e, na época, não tinha mais do que 15 libras no bolso pra criar o meu filho.

– Pois fez toda a diferença! – esbravejou Wolf. A essa altura ele já havia perdido todo o encanto pela garçonete.

– Pois é. Quando fiquei sabendo que tinha dado um depoimento falso no caso do Cremador... eu entrei em pânico. – Os olhos dela começaram a marejar. – Jamais ajudaria alguém com aqueles crimes horrorosos nas costas, nem por todo o dinheiro do mundo. Então procurei o Vijay na casa dele, dizendo que não podia fazer aquilo. Você tem de acreditar em mim! Falei que não contaria nada à polícia sobre o envolvimento dele, nem sobre o dinheiro. Contaria apenas que tinha me enganado.

– E o que foi que ele falou?

– Tentou me dobrar, mas acho que entendeu. No caminho de casa eu liguei pro escritório do advogado que estava presente no dia do meu depoimento.

– Collins & Hunter?

– Isso, e eles me transferiram pra um dos sócios.

– Michael Gable-Collins?

– Ele mesmo! – disse Ashley, surpresa. Nem ela nem ninguém sabia que o homem estava morto. – Falei que queria anular meu depoimento e ele começou a me ameaçar. Primeiro, enumerou os crimes que eu tinha cometido: falso testemunho, obstrução da justiça, talvez até cumplicidade! Perguntou se eu queria ser presa, e quando contei sobre Jordan, ele falou que a vara de família teria de ser envolvida, que eu até corria o risco de perder a guarda do meu filho.

A lembrança da conversa deixara a garçonete visivelmente abalada. Num gesto automático, Wolf ofereceu um guardanapo para que ela secasse os olhos.

– Era um caso importante demais – disse. – Eles não podiam perder de jeito nenhum.

– O tal Michael mandou que eu ficasse de boca fechada. Foi grosseiro comigo, mas falou que ia fazer o possível pra me manter longe do tribunal. Essa foi a única vez que a gente conversou. Depois acompanhei todo o desenrolar do caso, vi o que você fez pra tentar tirar de circulação o homem que eu tinha ajudado a inocentar. Então... eu sinto muito... Desculpa.

Ashley se desmanchou em lágrimas.

Wolf ficou de pé, deixou uma nota de 10 libras sobre a mesa.

– Não é comigo que você tem de se desculpar – foi só o que ele disse antes de ir embora e deixar sozinha no canto do café a mulher que lhe cabia ­proteger.