Capítulo 26
Quarta-feira, 9 de julho de 2014
19h05
Wolf não se importou quando começou a chover no seu caminho rumo à casa de Ashley Lochlan: por sorte a água diluiria o cheiro forte da sua nova loção pós-barba. Depois de empestear a si mesmo com o presente bem-intencionado dos colegas, ele ainda havia borrifado um pouco do líquido nas paredes do apartamento, esperando que aquilo desse fim às misteriosas criaturas que arranhavam o outro lado do gesso. Consumira uns bons trinta minutos escolhendo a roupa certa e penteando os cabelos. Estava nervoso. Afinal, aquele era seu primeiro jantar romântico em dez anos. No entanto, encarando-se no espelho, constatou que era o mesmo Wolf de sempre, apesar de todo o esforço direcionado no sentido contrário.
Ele parou num mercado de esquina e comprou duas garrafas de vinho, uma de tinto e outra de branco, os dois únicos rótulos que conhecia – os favoritos de Emily. Na garagem vizinha, comprou o último buquê que ainda estava à venda. As flores pareciam tão caídas e tristes que, saindo da loja, ele cogitou se não havia pagado uma fortuna por um mato que havia crescido naturalmente no balde velho onde se encontrava.
Chegando ao prédio decrépito, ele subiu as escadas externas e cumprimentou os policiais que montavam guarda à porta do apartamento. Nenhum dos dois parecia muito feliz em revê-lo.
– Registramos uma queixa contra o senhor – disse a mulher com o nariz em riste.
– Você vai ficar com remorsos se eu morrer daqui a uma semana – retrucou Wolf.
Ele riu, ela não. Wolf se adiantou para tocar a campainha.
– Dessa vez, tenta pelo menos não fazer a moça chorar – pediu o rapaz, certamente enciumado.
Wolf ignorou o comentário, mas começou a achar que deveria dizer algo quando um silêncio embaraçoso se instalou com a demora de Ashley para atender a campainha. Dali a pouco, no entanto, ela surgiu à porta. Linda. Tão linda que ele pensou ter ouvido o policial sussurrar um “uau” às suas costas. Ela havia escolhido um vestido de renda rosa – um exagero para um jantar íntimo – e prendido os cabelos num rabo de cavalo no alto, deixando as mechas caírem displicentemente sobre o rosto.
– Você está atrasado – disse ela de cara e recuou sala adentro.
Hesitante, Wolf entrou logo atrás e bateu a porta contra as duas gárgulas que a vigiavam do lado de fora.
– Você está linda – disse, arrependido de não ter usado, e de não possuir, uma gravata. Entregou os vinhos e as flores, que ela colocou num jarro com água na vã esperança de ressuscitá-las.
– Sei que exagerei na produção, mas talvez não tenha outra oportunidade de me vestir assim. Então mandei ver.
Ashley abriu o vinho tinto para ela e o branco para Wolf. Eles ficaram conversando na cozinha enquanto ela finalizava a comida. Falaram de tudo um pouco, os mesmos assuntos batidos de qualquer primeiro encontro: família, hobbies, aspirações, valendo-se dos ganchos mais absurdos para encaixar esta ou aquela história de um repertório já testado e aprovado pela experiência. Por algum motivo Wolf lembrou-se do pai. E pela primeira vez desde o começo daquele suplício, ambos se sentiram pessoas normais, como se tivessem pela frente um futuro ilimitado, como se aquele encontro pudesse desabrochar em algo especial.
O jantar estava delicioso, mesmo assim Ashley volta e meia se desculpava pelos “queimadinhos” que só ela via. Esvaziando nas taças o que ainda sobrava do vinho, ela buscou a sobremesa e dali em diante a conversa tornou-se um pouco mais melancólica, porém não menos interessante.
Ashley já tinha advertido que o apartamento ficava insuportavelmente quente quando a atividade era intensa na cozinha. Quando enfim venceu a timidez, Wolf subiu as mangas da camisa e deixou à mostra as cicatrizes da queimadura. Ashley arrastou sua cadeira para vê-las de perto, mais intrigada que assustada, depois passou os dedos delicadamente sobre a pele ainda sensível, próxima o bastante para que Wolf sentisse novamente o perfume cítrico do seu xampu, o hálito de vinho. A certa altura ela ergueu os olhos para fitá-lo e...
A máscara de lobo.
Wolf estremeceu e ela recuou. A imagem desmanchou-se imediatamente, porém tarde demais, pois ele já havia arruinado o momento, podia ver nos olhos de Ashley a mágoa da rejeição. Precisava fazer alguma coisa para salvar do desastre total aquela que vinha sendo uma das noites mais agradáveis da sua vida.
– Desculpa...
– Não, sou eu que peço desculpas.
– Será que a gente pode começar de novo? Sua mão no meu braço, você olhando pra mim, etc., etc.
– Por que você se afastou?
– Eu me afastei, sim, mas não foi de você. A última pessoa que chegou assim tão perto do meu rosto foi este homem que está tentando matar nós dois. Ontem.
– Você viu o cara? – perguntou Ashley, arregalando os olhos.
– Ele estava usando uma máscara.
Wolf contou o que havia acontecido diante da embaixada, a tensão do seu cara a cara com o lobo, e algo na história aparentemente reacendeu o fogo de Ashley, pois aos poucos ela foi retomando os carinhos no braço dele, chegando cada vez mais perto, entreabrindo os lábios...
Eles já estavam a poucos centímetros um do outro quando o telefone de Wolf tocou.
– Merda! – disse ele, e olhou para ver quem era.
Cogitou recusar a ligação, mas mudou de ideia, pediu desculpas e levantou da mesa para atender.
– Oi, Emily. Quem? Não, não faça isso. Onde? Chego em uma hora.
Visivelmente chateada, Ashley começou a recolher os pratos.
– Você vai ter de sair, não é?
Derretendo-se com o sotaque escocês e com a tristeza escondida nele, Wolf precisou firmar o pensamento para não voltar atrás.
– Uma amiga está em apuros.
– Por que não chamou a polícia?
– Não é esse tipo de apuro. Acredite em mim: se fosse qualquer outra pessoa, eu mandava passear.
– Então deve ser uma amiga muito especial...
– Sim. Infelizmente.
Edmunds abriu os olhos e por alguns segundos ficou desorientado, sem ao menos saber onde estava. Deitado num colchão de papéis, babando pelos cantos da boca, via apenas uma infinidade de prateleiras e caixas de papelão correndo no alto em ambas as direções. Estava de tal modo cansado que acabara dormindo, vencido pelo poder sedutor da penumbra e do silêncio à sua volta. Preparando-se para o pior, conferiu as horas no relógio: 21h20.
– Bosta!
Rapidamente ele guardou toda a papelada, devolveu a caixa para a prateleira e disparou rumo à porta de saída.
Wolf precisou raspar a carteira para pagar o preço absurdo da corrida de táxi que o deixou diante do Hemingways na Wimbledon High Street. Desceu do carro, abriu caminho entre os notívagos que bebiam na rua e mostrou seu distintivo à entrada do bar.
– Está lá dentro, apagada no banheiro – informou a moça que tirava o chope das torneiras. – Tem uma pessoa com ela. A gente quis chamar uma ambulância, mas ela insistiu em falar com você primeiro. Espera aí. Você não é aquele detetive... Wolf? O Wolf?
Wolf já estava a meio caminho dos banheiros quando a bartender sacou seu celular para tirar uma foto. Agradeceu a garçonete que fizera a gentileza de ficar com Emily até sua chegada, dispensou-a, depois se ajoelhou ao lado da amiga, que ainda estava consciente mas reagia apenas quando ele a beliscava ou gritava o nome dela.
– Como nos velhos tempos...
Prevendo que àquela altura a moça do bar já tivesse contado a todos os fotógrafos amadores presentes que o detetive da televisão estava no banheiro feminino, ele cobriu a cabeça da amiga com a jaqueta dela, içou-a pelas axilas e saiu com ela para a rua. O leão de chácara abriu um corredor na multidão para que eles passassem, mais para se ver livre da beberrona que não parava de vomitar do que por comiseração, pensou Wolf. Mesmo assim a ajuda foi bem-vinda.
Depois de tê-la arrastado desde o bar até o prédio, por pouco ele não encontrou forças para subir as escadas com ela. Abrindo a porta do apartamento como podia, deparou com um rádio ligado no volume máximo. Tropegamente foi para o quarto, deixou-a cair na cama, tirou os sapatos dela e prendeu os cabelos num rabo de cavalo, assim como havia feito inúmeras vezes num passado mais ou menos distante. Em seguida buscou uma bacia na cozinha, desligou o rádio e deu comida para Echo, o gato. Vira duas garrafas de vinho vazias na pia, e agora se arrependia de não ter perguntado no bar o que mais ela havia bebido por lá.
Encheu dois copos d’água, bebeu um deles e voltou ao quarto com o outro, além da bacia. Deixou o primeiro na mesinha de cabeceira, a segunda no chão, depois tirou os sapatos e se deitou ao lado de Emily, que já estava roncando. Desligou o abajur e ficou olhando para o teto, ouvindo os pingos de chuva que começavam a bater na janela, rezando para que aquelas recaídas recentes da colega fossem apenas uma fraqueza diante do estresse que todos vinham enfrentando ultimamente.
Por sorte ainda teria algum controle sobre aquele vício do qual Emily ainda não se libertara por completo. Fazia tempo que Wolf vinha ajudando sua amiga a escondê-lo dos outros. Talvez tempo demais. Preparando-se para mais uma noite em claro, volta e meia conferindo se ela ainda respirava, ele chegou a duvidar se realmente estava sendo de alguma ajuda.
Edmunds estava ensopado de chuva quando chegou em casa e encontrou todas as luzes apagadas. Entrou no hall e seguiu tateando no escuro, procurando fazer o mínimo de barulho possível, dando por certo que Tia já estava dormindo. No entanto, chegando ao quarto, viu que a cama ainda estava feita.
– T? – chamou ele.
Em seguida foi passando de cômodo em cômodo, acendendo as luzes e notando as coisas que faltavam: a bolsa que a noiva usava para ir trabalhar, os jeans favoritos dela, o gatinho destruidor de narizes. Ela não havia deixado nenhum bilhete. Nem precisava: estava na casa da mãe. Não era a primeira vez que ele furava com ela desde que fora transferido para o novo departamento, mas essa, ao que tudo indicava, havia sido a gota d’água.
Jogando-se no sofá como nas noites de castigo, ele esfregou os olhos cansados e refletiu. Sentia-se péssimo por estar contrariando mais uma vez a noiva grávida, mas, de um jeito ou de outro, aquela maratona terminaria dali a cinco dias. Não custava nada esperar só mais um pouco. Ele cogitou telefonar, mas sabia que ela teria desligado o aparelho.
Quase dez e meia. O mais provável era que a mãe tivesse vindo buscá-la, pois o carro continuava na vaga. Pegando as chaves do gancho, ele ignorou o cansaço e voltou para a rua.
Naquela hora quase não havia trânsito e ele atravessou a cidade em pouco tempo. Estacionou bem na frente do prédio, passou rapidamente pelo esquema de segurança e desceu para o subsolo, onde foi imediatamente reconhecido pela plantonista dos arquivos. Trocou um dedo de prosa com ela, entregou seus objetos pessoais e mergulhou novamente na pesquisa interrompida pouco antes.
O vinho ajudara Wolf a dormir, mas em menos de uma hora ele foi acordado pelos espasmos de Emily, que vomitava no banheiro do quarto. Ficou onde estava, olhando para a luz que vazava da porta, ouvindo de longe enquanto ela dava descarga no vaso e gargarejava com o desinfetante bucal. Estava prestes a se levantar para ir embora, achando que a amiga já estava lúcida o bastante para enfrentar sozinha o resto da noite, quando ela saiu cambaleando do banheiro, jogou-se na cama e, ainda meio zonza, pousou o braço sobre o peito dele.
– Então, como foi o jantar? – perguntou ela.
– Curto – respondeu ele, irritado não só com a indiscrição de Finlay, mas sobretudo com a inconveniência daquela bebedeira, conveniente demais para a bêbada em questão, como ele já começava a desconfiar.
– Pena... – disse ela sonolenta. – Obrigada por ter ido me buscar.
– Quase não fui.
– Mas foi. Eu sabia que iria – balbuciou ela e apagou de novo.
Edmunds sabia desde o início que podia contar com sua intuição. Felizmente ele encontrou a caixa que, na pressa de ir embora mais cedo, ele havia colocado na prateleira errada. Dentro dela estava o caso de 2009, o do herdeiro que havia desaparecido de um quarto de hotel, deixando uma piscina do próprio sangue para trás. Depois de examinar uma a uma as fotografias arquivadas, ele enfim encontrou aquela que confirmava suas suspeitas.
Na parede ao lado da piscina de sangue, um conjunto de oito pequenos respingos havia sido registrado e ignorado como apenas “mais sangue”, o que não deixava de ser compreensível. No entanto, aquele padrão e aquelas circunstâncias eram muito parecidos com o que eles haviam encontrado mais cedo naquele mesmo dia. Diante das informações que já possuíam, estava óbvio que aqueles respingos aparentemente insignificantes haviam sido produzidos enquanto o assassino desmembrava sua vítima para depois fugir com as partes sem ser percebido.
Ali estava o assassino que eles procuravam, Edmunds podia quase jurar.
Bem mais animado, ele guardou todo o material de volta na caixa. Enfim tinha encontrado algo suficientemente promissor para dividir com o resto da equipe. Ao se levantar, deixou cair no chão uma folha de papel: o formulário de protocolo que acompanhava todas as caixas do arquivo. Era nele que os usuários anotavam seus respectivos nomes, as datas de retirada e devolução, e uma breve descrição dos motivos para tirá-las do depósito. Edmunds recolheu o papel do chão, colocou-o de volta na caixa e já ia fechando a tampa quando notou o último nome na lista de usuários:
Sargento-detetive William Fawkes – 05/02/2013: Análise de respingos de sangue.
Sargento-detetive William Fawkes – 10/02/2013: Devolução.
Edmunds ficou confuso. Não havia nenhum relatório pericial de Wolf além dos originais de 2009. O mais provável era que ele tivesse estudado o caso em 2013 durante a investigação de outro parecido. Talvez houvesse acidentalmente tropeçado naquela vítima antiga do Bonequeiro, inconscientemente chamando a atenção dele. Isso explicaria a birra pessoal que havia despertado no homem, bem como a admiração: ali estava o único policial digno das próprias calças e da própria patente.
Finalmente eles agora poderiam caçar o caçador.