Capítulo 31

Sábado, 12 de julho de 2014

8h36

– Foi você, não foi? – disparou a comandante Vanita, apontando para Finlay assim que entrou na sala de reuniões. – Ou será que foi você, Simmons?

Nenhum dos dois sabia do que ela estava falando.

Enfurecendo-se ainda mais com o espanto de ambos, a comandante pegou o controle remoto, ligou a televisão e foi passando os canais até encontrar Andrea na sua bancada com o Relógio da Morte no alto. Aumentou o volume quando surgiu na tela a imagem de uma foto desfocada.

– “... mostra Ashley Lochlan sendo escoltada no Aeroporto Internacional de Dubai pelo chefe de segurança Farahd Al Murr” – dizia Andrea. A foto deu lugar a um vídeo em câmera lenta, filmado com um telefone celular. – “E aqui vemos claramente o sargento-detetive Fawkes com Ashley Lochlan no Terminal 1 do Aeroporto de Glasgow...”

– Disso a gente já sabia – falou Finlay.

– Tem mais – rosnou a chefe.

Andrea reapareceu na tela.

– “Uma fonte próxima à investigação nos revelou com exclusividade que a Srta. Lochlan depôs como testemunha no julgamento de Naguib Khalid, o Cremador, e possui vínculos com outras vítimas do Bonequeiro ainda não identificado. Essa mesma fonte também confirmou a participação do detetive Fawkes na operação para retirar Ashley Lochlan do país.”

– Muito bem, garota – aplaudiu Finlay.

Hein? – disse a comandante Vanita, perplexa.

– Emily. Ela não vazou nada de muito importante, apenas o suficiente pra provar que a menina Ashley Lochlan não é o alvo real do assassino. Acho difícil que ele agora faça mais uma tentativa contra ela ou contra qualquer outra Ashley Lochlan que exista por aí. Andrea acabou de informar ao mundo que ele vai fracassar.

– Acabou de informar ao mundo que a Polícia Metropolitana é tão incompetente que essa mulher achou melhor agir por conta própria do que aceitar nossa proteção! – disse a comandante Vanita.

– Ela está salvando vidas.

– Mas a que preço?

O telefone começou a tocar na sala da comandante. Ela soltou um palavrão e saiu da sala, chamando Simmons como se ele fosse um cachorrinho. Simmons hesitou um instante, olhou para Finlay.

– Terrence! – chamou ela de novo.

E Finlay balançou a cabeça, decepcionado ao ver o ex-chefe obedecer de modo tão submisso.

– A subserviência da liderança... – resmungou ele para si mesmo.

Edmunds abriu caminho para Simmons e entrou na sala. Calmamente foi tirando sua papelada da mochila e colocando sobre a mesa, indiferente ao noticiário da TV. Já havia conversado longamente sobre tudo aquilo com Emily Baxter.

– Então é o Will mesmo? – perguntou Finlay.

– Sim – confirmou Edmunds, solene, entregando a ele uma das suas ­pastas.

– Não quero nem ver – disse Finlay, voltando sua atenção para a TV. – Acredito em você.

– Não me leve a mal, mas... você não me parece muito surpreso.

– Quando você está neste ramo há tanto tempo quanto eu, nada te surpreende mais. Apenas entristece. Se tem uma coisa que aprendi na vida foi isto: se você continuar sacudindo uma pessoa, vai chegar uma hora que ela vai sacudir você de volta.

– Você não está tentando justificar os atos de Wolf, está?

– Claro que não. Mas ao longo dos anos vi muita gente supostamente “boa” fazendo coisas horríveis: marido estrangulando a mulher que o chifrou; irmão matando o namorado violento da irmã... No fim das contas você acaba concluindo que...

– Concluindo o quê?

– Que não existe isso de “gente má” ou “gente boa”. Existem apenas aquelas pessoas que foram sacudidas além da conta e as que não foram.

– Você fala como se estivesse torcendo pra que o Wolf não seja pego.

– Precisamos pegá-lo. Algumas daquelas pessoas não mereciam o que aconteceu a elas.

– E você acha que outras mereceram?

– Acho, sim. Mas fique tranquilo, rapaz. Quero pegar o Wolf mais do que qualquer um de vocês. No mínimo porque quero vê-lo vivo.

A comandante Vanita e o inspetor Simmons voltaram à sala e, acanhados, ocuparam suas respectivas cadeiras. Edmunds entregou a ambos o perfil que havia preparado para o Bonequeiro.

– Estamos correndo contra o tempo – disse ele –, então reuni numa lista tudo aquilo que sabemos sobre nosso homem, mais algumas suposições pra afunilar as possibilidades: sexo masculino; branco; altura entre 1,82 metro e 1,95 metro; calvo ou cabelos raspados bem curto; cicatrizes no antebraço direito e na nuca; coturnos tamanho 44, fabricados pelo Exército até 2012; militar na ativa ou reformado. Inteligência superior, que ele coloca à prova regularmente apenas pra satisfazer a própria vaidade. Emocionalmente frio, dá pouco valor à vida humana, gosta de desafios e quer ser testado. Está entediado, portanto o mais provável é que já tenha pendurado as chuteiras. A teatralidade do seu modo de operar é sinal de que ele está se divertindo com a coisa toda. Provavelmente solteiro. Um solitário, um pária. Levando em conta os preços absurdos de Londres, deve morar sozinho num quarto e sala numa parte menos valorizada da cidade.

– São muitas conjeturas aí – disse Simmons.

– Conjeturas com algum fundamento, o que é melhor do que nada – retrucou ele com firmeza. – Precisamos compilar uma lista de todas as pessoas que batem com essa descrição e que foram dispensadas do serviço militar antes de 2008, ano do primeiro dos nossos casos arquivados.

– Mais um belo trabalho, Edmunds – elogiou a comandante.

– Com sua permissão, eu gostaria de continuar trabalhando nos arquivos junto com o Finlay. Seria ótimo se o detetive Simmons pudesse compilar esta lista por mim.

Simmons não gostou nem um pouco de receber ordens de um reles novato, e ia soltar os cachorros quando a comandante falou:

– Tudo que você precisar. Imagino que Baxter esteja procurando por Fawkes, não?

– Ela não vai sair do lado daquela menina antes da meia-noite. Você pode até falar grosso, ameaçar, implorar... mas acho difícil que mude de ideia. No seu lugar eu não perderia tempo com isso.

Finlay e Simmons olharam um para o outro, estupefatos. O frangote agora dava ordens à comandante?

– O assassino está chegando cada vez mais perto a cada morte. Provavelmente vai querer terminar sua história com uma acareação. Se o encontrarmos, encontraremos o Wolf também.

A comandante Vanita deu a reunião por encerrada e saiu com Simmons para a sala dela. Edmunds pediu a Finlay que esperasse um pouquinho, queria falar com ele em particular. Meio sem jeito, começou:

– É uma pergunta... estranha.

– Tudo bem, manda bala.

– Ontem, você e o Simmons estavam falando de uma coisa...

– Você vai ter de ser um pouquinho mais específico – riu Finlay.

– Simmons usou esta palavra: “faustiano”. Eu queria entender melhor o que ele quis dizer com isso.

– Pra falar a verdade, nem lembro mais o que foi dito naquela reunião.

Hora de sacar o caderno.

– Estávamos falando das vítimas, e a certa altura você disse: “... é como se fosse a lista de arqui-inimigos do Will, se ele não estivesse incluso nela.” Aí o Simmons disse: “Faustiano, eu diria.” Mais ou menos isso.

Finlay assentiu, lembrando-se da conversa.

– Não foi nada. Uma observação boba, só isso.

– Mas você pode me explicar?

Finlay encolheu os ombros, voltou a sentar.

– Anos atrás tivemos um onda de malucos jurando de pés juntos pela própria inocência enquanto a pilha de cadáveres ia crescendo em torno deles.

– Pessoas que botavam a culpa num demônio qualquer? Ou no Diabo? – perguntou Edmunds, fascinado.

– Sim. O álibi faustiano, como a coisa ficou conhecida – explicou Finlay.

– Mas como era exatamente o esquema dessas pessoas?

– Como assim, o esquema?

– Em termos práticos, como elas faziam?

– Termos práticos? – riu Finlay, confuso. – É só uma maluquice, garoto.

– Vai, me explica.

– Mas aonde é que você pretende chegar com essa bobagem?

– Pode ser importante. Por favor.

Finlay conferiu as horas no relógio. O tempo era pouco e precioso.

– Tudo bem. Funciona assim: tem por aí uns números de telefone, números comuns de celular. Ninguém sabe de quem são, ninguém nunca conseguiu rastreá-los. São usados pra uma única chamada, depois desativados. Se uma pessoa consegue falar com um desses números, ela recebe uma oferta e se topar...

– Um pacto com o Diabo – disse Edmunds, cada vez mais interessado.

– Exatamente, um pacto com o Diabo – suspirou Finlay. – Mas como em todas as histórias que envolvem o coisa-ruim, a via é de mão-dupla: você precisa oferecer alguma coisa em troca. – Ele sinalizou para que Edmunds se aproximasse, depois berrou no ouvido dele: – Sua alma! – E se dobrou de tanto rir com o susto do outro.

– Você acha que pode haver algum fundo de verdade nisso tudo? – perguntou Edmunds.

– O Diabo como diarista? Não, não acho – disse Finlay, agora sério. – Você tem coisas mais importantes pra fazer hoje, não tem?

Edmunds fez que sim com a cabeça.

– Então vai lá.

O Sr. e a Sra. Lochlan viam televisão na modesta salinha de Edmunds. Baxter estava à mesa da cozinha, mas de lá podia ouvir Ashley brincando no andar de cima. Ia se levantando para comer alguma coisa quando estranhou o súbito silêncio da menina. Apesar do barulho da TV, aguçou os ouvidos e redobrou a atenção. Tranquilizou-se assim que a ouviu sair do quarto e a viu descendo alegremente as escadas. Dali a pouco viu-a entrar na cozinha com uma infinidade de presilhas e flores distribuídas a esmo pelos cabelos.

– Olá, Emily – disse ela sorrindo.

– Olá, Ashley – respondeu a detetive. Nunca tivera muito jeito com as crianças, não sabia direito como conversar com elas. Era como se as pestinhas farejassem seu medo. – Você está muito bonita.

– Obrigada. Você também.

Dificilmente, pensou Emily, mesmo assim sorriu para a menina.

– Eu só queria saber se você ainda quer que eu avise se eu vir alguém lá fora.

– Claro, por favor! – disse Emily com o entusiasmo que conseguiu reunir. – Estou esperando um amigo – mentiu.

– Ok!

Emily aguardou que a menina voltasse correndo para o quarto, mas ela ficou parada onde estava, rindo.

– O que é?

– Que é o quê? – devolveu Ashley, rindo ainda.

– O que você está fazendo aí parada? – disse a detetive, com uma pontada de impaciência.

– Isso que você me pediu pra fazer! Vim avisar que tem uma pessoa lá no jardim!

Emily imediatamente apagou seu sorriso forçado. Arrastando Ashley pelo braço, saiu para a sala, jogou a menina nos braços dos pais assustados e sussurrou para eles:

– Subam pro quarto e tranquem a porta.

Assim que os viu na escada, voltou para a cozinha e tirou a arma da bolsa. Quando ouviu um barulho estranho do lado de fora, correu para a janela mais próxima, mas não viu nada.

Algo bateu contra a porta da frente.

Ela correu para o banheiro do corredor e apontou a Glock quando ouviu um ruído metálico na fechadura. A porta se abriu devagar. Percebendo um vulto à soleira, ela prendeu a respiração e esperou que ele passasse diante do banheiro. No momento certo saltou para o corredor e enfiou o cano da arma na nuca encapuzada, fazendo com que o invasor deixasse cair uma bolsa repleta de tesouras afiadas, luvas descartáveis e lâminas de barbear.

– Polícia – disse ela, examinando a estranha bagunça espalhada no chão. – Quem é você?

– Tia. Noiva do Edmunds. Eu moro aqui.

– Meu Deus! Desculpa, desculpa, desculpa... – disse ela, baixando a arma. – Eu sou a Emily. Emily Baxter. É um prazer finalmente conhecê-la.

O chefe de segurança do aeroporto de Dubai já havia conversado com Wolf quando Ashley desembarcou. Era um brutamontes que não parava de distribuir ordens à sua volta, de modo que ela não ficou nem um pouco surpresa quando entrou no avião para Melbourne e constatou que o homem havia obrigado a companhia aérea a modificar todo o mapa de assentos para acomodá-la. Agora sentia-se péssima, pois os demais passageiros se espremiam em todos os assentos disponíveis enquanto ela viajava sozinha na sua poltrona, cercada de quatro fileiras vazias.

O relógio de bordo refletia a mudança no fuso horário. Na Austrália era oficialmente domingo, mas ela deixaria para se sentir segura apenas quando passasse da meia-noite no fuso britânico.

Ao ouvir os planos de Wolf ainda em Glasgow, ela ficara com receio ao saber que teria de embarcar num avião repleto de inocentes: ao que tudo indicava, aquele assassino onipresente não conhecia limite, e nada impedia que entre os seus múltiplos talentos estivesse o de explodir em pleno voo um jato da aviação civil. Fazia horas que ela se agarrava aos braços da poltrona, esperando despencar a qualquer momento. Além disso, tal como Wolf havia instruído, ela não aceitara nada para beber e ficava atenta toda vez que alguém se levantava para ir ao banheiro.

De um segundo a outro as poucas luzes ainda acesas na cabine começaram a piscar. Os comissários de bordo não deram muita importância ao fato, seguiram zanzando entre os passageiros adormecidos. Mas a coisa piorou e ela então pôde sentir um tremor no braço da poltrona, um tremor cada vez mais violento. O ícone de “apertar os cintos” acendeu no alto com um sinal sonoro festivo demais para as circunstâncias.

Pronto, o assassino a tinha encontrado.

O avião inteiro começou a sacudir, acordando as pessoas. Ashley não pôde deixar de notar a súbita preocupação dos comissários, que foram voltando às pressas para os seus respectivos assentos, tranquilizando este ou aquele passageiro ao longo do caminho. As luzes então se apagaram por completo. Ashley olhou pela janela, mas enxergava apenas o breu da noite. Era como se já estivesse morta.

Aos poucos os sacolejos foram diminuindo e não demorou para que as luzes se acendessem de novo, arrancando risos nervosos de muita gente. O ícone dos cintos se apagou. Pelo sistema de comunicação interna o piloto pediu desculpas pela turbulência, depois brincou, dizendo que naquela companhia todos tinham direito a massagem, não só os passageiros da primeira classe. Aos poucos as pessoas foram adormecendo outra vez.

Menos ela, Ashley, que contou cada um dos segundos e minutos até pousar em total segurança no aeroporto de Melbourne.

Andrea encerrou o noticiário com as palavras de sempre. A pauta havia sido bem melhor do que ela havia imaginado, mais leve que as anteriores, diversas pessoas desejando boa sorte a Ashley Lochlan ou dispensando conselhos para que ela finalmente conseguisse vencer o facínora até então invicto. O maldito Relógio da Morte agora fazia sua contagem regressiva, não para a morte de mais uma vítima, mas para o fracasso de um assassino, e um espectador havia ligado para sugerir que ele fosse rebatizado como Relógio da Vida – um primeiro sinal de otimismo naquele mar de notícias ruins. Quando os créditos finais começaram a rolar, ele marcava: - 16:59:56.

No entanto, o bom humor de Andrea desceu pelo ralo assim que ela voltou à redação e avistou Elijah empoleirado no seu mezanino, arrogante como sempre, sinalizando para que ela subisse.

Ela não subiu. Em vez disso foi para sua mesa e se deu alguns minutos para acalmar os nervos, tentando não pensar na gravidade da decisão que estava prestes a tomar ou que já havia tomado. Respirou fundo e só então atravessou o salão para subir a escada metálica que levava à sala do editor-chefe.

Wolf assistia ao noticiário no quarto de um hotelzinho barato pelo qual havia pagado com dinheiro vivo. As últimas horas tinham sido de pura tensão e o susto foi grande quando, pouco depois da meia-noite, seu celular pré-pago apitou na mesinha com a mensagem de texto de um número desconhecido. “Vivinha da silva. Bj, L.”, era o que estava escrito.

Ela estava segura.

Aliviado, ele retirou o chip do aparelho, fechou-o e já ia desligando a televisão quando percebeu que o Relógio da Morte acabara de virar: - 23:54:23. Sem que ele sequer tivesse notado, cinco minutos haviam passado daquele que podia ser seu último dia de vida.