Capítulo 32
Domingo, 13 de julho de 2014
6h20
A comandante Vanita e o detetive Simmons haviam saído às sete e meia e às nove da noite, respectivamente, ao passo que os detetives Edmunds e Finlay se preparavam para mais uma noite em claro no trabalho. A sargento Baxter se juntara a eles no início da madrugada, tendo despachado os Lochlans de volta para casa com uma escolta policial.
Depois de ter transformado a casa deles num albergue para estranhos, Edmunds havia se preparado para uma enxurrada de mensagens e ligações de Tia, mas a futura mamãe passara o dia inteiro brincando com sua hóspede de 9 anos e mergulhara em sono profundo quando Emily enfim saiu.
Finlay vinha trabalhando na árdua tarefa de compilar sua lista de militares reformados. Na sala de reuniões, Edmunds revirava pelo avesso a papelada que havia despejado das suas caixas de arquivo, tentando ligar os inúmeros pontos.
Emily sempre estranhava a atmosfera do departamento durante a madrugada. Ainda que o prédio fervilhasse de funcionários movidos a cafeína, o pessoal da noite parecia bem mais silencioso, assim como a iluminação parecia mais branda em razão da quantidade maior de salas e corredores vazios. Sem falar nas campainhas de telefone, bem menos frequentes e escandalosas que no turno normal, quando muitas vezes as pessoas precisavam gritar para serem ouvidas.
Às 6h20 Finlay roncava baixinho na sua cadeira enquanto Emily levava adiante a odiosa compilação. Guiando-se pelo perfil estabelecido por Edmunds e diante do expressivo contingente eliminado pela gravidade das deficiências físicas, até então eles haviam chegado a uma lista de apenas 26 nomes entre os primeiros mil examinados.
Alguém pigarreou por perto.
Erguendo o rosto, Emily deparou com um auxiliar de boné à sua frente.
– São para o detetive Alex Edmunds – disse ele, apontando para as sete caixas acondicionadas no carrinho às suas costas.
– Ok, ele está logo ali na... – Virando-se para a sala de reuniões, ela viu Edmunds arremessar uma caixa para longe num acesso de raiva. – Pode deixar que eu mesma entrego a ele – falou ela ao rapaz.
Uma chuva de papéis caiu sobre sua cabeça quando ela fechou a porta de vidro atrás de si.
– Não consigo enxergar isso que ele enxergou! – berrou Edmunds, cada vez mais irritado. – O que ele descobriu nisto aqui? – disse e arremessou mais um punhado de papéis na direção da antiga chefe. – Nenhuma impressão digital, nenhuma testemunha, nenhuma conexão entre as vítimas... nada!
– Ok, rapaz, fica frio. A gente nem sabe se isso que o Wolf descobriu continua aí – disse ela.
– E também não há como verificar, porque ele terceirizou os serviços de perícia. Pra piorar, hoje é domingo e está tudo fechado! – Edmunds se esparramou no chão. Estava exausto, as olheiras mais negras e profundas do que nunca. Deu um tapa na própria cara, depois disse: – Não é uma boa hora pra ser burro ou incompetente! Não temos tempo pra isso!
Emily percebeu então que o esforço do garoto, que havia produzido resultados tão brilhantes, não era motivado por um desejo de mostrar serviço para o resto da equipe, nem por ambição, nem por vaidade, mas, sim, por uma necessidade patente e quase patológica de controle. Edmunds era muito mais parecido com Wolf do que imaginava, mas, diante das circunstâncias, aquele não era exatamente um bom momento para dizer isso a ele.
– Chegaram umas caixas aí pra você – disse ela.
Edmunds olhou para ela com uma careta de espanto.
– Por que você não falou antes? – perguntou, e levantou de um pulo para buscá-las.
Fazia uma hora que Wolf esperava no mesmo ponto de ônibus na rua Coventry e a garoa fina começava a ensopar suas roupas. Durante todo esse tempo ele não havia despregado os olhos de um estabelecimento no outro lado da rua, um cibercafé que de algum modo, assim como aquelas inúmeras lojinhas de suvenir que vendiam quinquilharias da Família Real, conseguia sobreviver naquela vizinhança de lojas caríssimas.
Ele havia seguido o homem até ali, mantendo certa distância ao vê-lo pegar o metrô na Goldhawk Road, depois abrindo caminho na multidão reunida em torno dos artistas de rua em Covent Garden, depois entrando no tal cibercafé, que não ficava muito longe de Picadilly Circus.
A temperatura caíra o bastante para que sua presa se camuflasse no uniforme londrino para os dias chuvosos: sobretudo preto, sapatos pretos, guarda-chuva preto. Além disso, por vezes não era fácil acompanhar os passos ágeis do grandalhão através das hordas que enchiam as calçadas. Volta e meia alguém trombava com ele, vindo na direção contrária, ou então tentava pará-lo para pedir uns trocados ou entregar um panfleto. Mas nenhum deles podia imaginar o monstro que ia ali: um lobo selvagem em pele de cordeiro.
Pouco depois de deixar Covent Garden ele tinha tomado um atalho através de uma ruazinha mais tranquila e Wolf, seguindo muito atrás, aproveitara a oportunidade para apertar o passo e encurtar a distância entre eles. Estava quase correndo atrás do sujeito, que, aliás, nem desconfiava da sua presença, quando um táxi dobrou a esquina e parou mais adiante na rua, obrigando-o a despistar e retomar a caminhada normal rumo à movimentada avenida em que vira o homem entrar.
De repente a garoa deu lugar a uma chuva de verdade. Wolf subiu as lapelas do sobretudo preto e se encolheu para se proteger do frio. Na vitrine do cibercafé havia um relógio de néon que aos poucos foi se tornando ilegível por conta da água, lembrando a Wolf que aquele era o seu último dia, aquela era sua última chance.
Ele estava perdendo tempo.
Isobel Platt vinha recebendo um intensivão de última hora para aprender a lidar com uma gravação de estúdio. Ao que parecia eram necessários cinco técnicos para explicar à repórter absurdamente bonita os momentos certos de olhar para esta ou aquela câmera. Isobel havia optado por se vestir da maneira mais conservadora possível para aquela inesperada oportunidade na sua incipiente carreira, mas Elijah já dera seu pitaco, ordenando que ela desabotoasse três casas da blusa.
Embora o formato da sua estreia em estúdio fosse relativamente simples – uma entrevista direta com apenas duas inserções de vídeo –, ela sabia que era esperada uma audiência na casa dos muitos milhões para aqueles reles trinta minutos de programa, gente de todo o planeta. Bastava pensar nisso para que Isobel tivesse ânsias de vômito.
Essa nunca havia sido sua ambição. Aliás, ela nem mesmo havia almejado o emprego de repórter; ficara tão perplexa quanto todos os demais ao ser convidada para o posto sem nenhuma experiência ou qualificação. O namorado insistia para que ela continuasse, mas ela odiava aquele trabalho e decidira que cedo ou tarde pediria as contas.
Todos na redação a viam como burra, ou como piranha, ou como uma piranha burra. Ela sabia muito bem o que cochichavam às suas costas. Era a primeira a admitir que não era nenhum gênio, mas enquanto outros eram perdoados por suas mancadas só porque tinham um mínimo de formação, Isobel era constantemente ridicularizada. Então se fazia de boba, ria das piadinhas idiotas e naquele exato momento fingia estar muito honrada com a oportunidade recebida, quando na verdade preferia mil vezes que Andrea estivesse ali no seu lugar, lidando com a pingue-pongue daquelas câmeras, com o timing complexo do programa.
– Assim vou acabar ficando mal acostumada – disse ela quando alguém a empurrou para a bancada na sua cadeira de rodinhas.
– Melhor não – falou Andrea, atravessando o estúdio a caminho da maquiagem, chegando surpreendentemente cedo para seu primeiro dia na nova posição. – Você só está aí porque não posso entrevistar a mim mesma, certo?
– Encontrei uma coisa! – berrou Edmunds da sala de reuniões.
Finlay, Vanita e Simmons haviam se aproximado quando Emily entrou também e fechou a porta às suas costas. O chão era um mar de papéis espalhados, e Simmons precisou contar até dez para não repreender o novato pela bagunça. Edmunds retirou alguns documentos de uma das caixas de arquivo e distribuiu para os quatro.
– Vamos lá – disse ele ofegante. – Vou pedir um pouquinho de paciência. A coisa ainda está meio confusa. Espera aí, esses não. – Puxou de volta os papéis que acabara de entregar a Simmons, jogou-os no chão e sinalizou para que ele acompanhasse com Finlay. Só então começou: – Este é um dos casos que o Wolf consultou nos arquivos. Stephan Shearman, 59 anos, CEO de uma empresa de eletrônicos em situação de falência. O filho dele era diretor da companhia e se matou depois que uma operação de fusão deu errado. Ou algo assim, não é importante.
– E qual é a relevância dessa história? – questionou Vanita.
– Foi o que eu fiquei me perguntando também – disse Edmunds, empolgado. – Mas adivinha quem foi o responsável pelo fracasso da tal fusão? Gabriel Poole Junior.
– Quem? – perguntou Emily, falando pelo grupo.
– O herdeiro da empresa de eletrônicos que desapareceu do quarto de hotel: piscina de sangue no chão, nenhum corpo.
– Ah – comentou ela, fingindo interesse. Todos ali tinham coisas mais importantes para fazer.
– Esta aqui – disse ele, esvaziando mais uma das caixas de papelão. – A filha dele foi morta por uma bomba... – Apontou para outra caixa. – ... plantada por este homem, que conseguiu morrer por sufocamento numa cela trancada.
Os quatro se entreolharam sem entender nada.
– Vocês não estão percebendo? – disse Edmunds. – São crimes faustianos!
Eles entenderam menos ainda.
– Isso é uma lenda urbana, rapaz – resmungou Finlay.
– São todos a mesma coisa! Todos! Crimes de vingança seguidos de um sacrifício! Era isso que faltava entender: a presença do próprio Wolf na lista dos inimigos dele. Mas agora tudo se encaixa!
– Isso é absurdo – disse Simmons.
– Uma grande conjetura, devo admitir – emendou a comandante Vanita.
Edmunds vasculhou o conteúdo de uma caixa, tirou dela um papel. Um relatório.
– Joel Shepard – disse. – Morreu seis meses atrás, talvez por suicídio. Condenado por três homicídios de vingança, convencido de que o Diabo estava vindo buscar a alma dele. Estava internado num hospital psiquiátrico.
– Bem, isso explica muita coisa – riu Simmons.
– No hospital St. Ann’s – explicou Edmunds. – Estava internado lá na mesma época em que o Wolf. Dez dias atrás o Wolf retirou esta caixa dos arquivos e agora uma prova sumiu de dentro dela.
– Que prova? – perguntou Vanita.
– Uma página da Bíblia. Uma página ensanguentada, como está descrito aqui neste relatório. Acho que o Wolf descobriu alguma coisa.
– Então você está dizendo que o nosso Bonequeiro é muito mais prolífico do que tínhamos imaginado inicialmente? – perguntou a comandante Vanita.
– Estou dizendo que estes crimes faustianos não são apenas uma lenda urbana. Estou dizendo que os crimes do Boneco também são crimes faustianos. O Wolf descobriu a identidade do assassino e está por aí em algum lugar, caçando um indivíduo que acredita piamente ser, no mínimo, uma encarnação do Diabo.
A porta do cibercafé se abriu e um homem saiu para se misturar aos pedestres que seguiam feito um enxame de mariposas rumo às luzes de Piccadilly Circus. Wolf deu alguns passos para a direita para ver melhor, mas o rosto do sujeito já se escondia do outro lado do guarda-chuva que ele acabara de abrir e das pessoas que o cercavam.
O homem começava a se afastar e Wolf precisava tomar uma decisão rápida: permanecer onde estava ou ir atrás dele. Podia jurar que era sua presa que ia ali, estava a um passo de perdê-la de vista. Atravessou a rua depressa, cobrindo o próprio rosto para evitar ser reconhecido pelos tripulantes de um carro de patrulha estacionado. A chuva se intensificou de repente, afugentando alguns para o abrigo mais próximo e obrigando outros a sacar o guarda-chuva, o que vinham evitando fazer bravamente até então. Não demorou para que ele visse dez ou doze guarda-chuvas idênticos se abrirem em torno daquele que lhe interessava, todos pretos.
Receando perder definitivamente sua presa de vista, ele embrenhou-se pela rua e correu uns 10 metros até alcançar o vulto imponente do homem. Passando pela vitrine de uma loja, procurou ver o rosto dele refletido no vidro: precisava ter certeza de que estava perseguindo a pessoa certa antes de agir. Seu comportamento estranho vinha chamando a atenção dos que estavam por perto e, de repente, ele se viu cercado por dois ou três curiosos que certamente o haviam reconhecido dos jornais e noticiários. Empurrando-os sem nenhuma cerimônia, ele apertou o passo novamente e quando passou pelo Trocadero tinha apenas duas pessoas como obstáculo no seu caminho até o homem. Ultrapassou a primeira e levou a mão para a faca que escondia no interior do casaco, uma faca de cozinha com 15 centímetros de lâmina.
Não poderia errar. Não poderia correr o risco de que o assassino sobrevivesse.
Ele vinha esperando pelo momento perfeito de entrar em ação, um parque tranquilo ou uma ruazinha vazia, mas percebera que aquele formigueiro de gente era o que mais lhe convinha. Seria apenas mais um rosto na multidão, mais um pedestre a se assustar quando o corpo desabasse na calçada.
Wolf viu quando ele virou o rosto antes de atravessar uma rua. Não tinha mais dúvida: era o homem certo. Então tomou sua posição atrás dele, perto o bastante para receber no rosto os pingos que caíam do guarda-chuva do vizinho. Depois sacou a faca e a manteve junto do peito, respirando fundo para firmar as mãos. Bastaria uma única estocada para enterrar a lâmina na nuca à sua frente.
De repente algo chamou sua atenção do outro lado da rua: seu nome e o de Andrea rolavam na fachada do Criterion Building, mais precisamente no cilindro de vidro que separava os quatro cavalos de Hélio das três filhas douradas do deus-sol. Ele levou um instante pra perceber que as letras invertidas eram um reflexo do luminoso da LG às suas costas, sob o qual um letreiro anunciava: “... ENTREVISTA EXCLUSIVA DE ANDREA HALL/FAWKES ÀS 13H. NÃO PERCAM...”
Wolf foi despertado dos seus pensamentos quando os carros pararam no sinal e as pessoas à sua volta começaram a passar por cima dele para atravessar a rua, fazendo com que novamente perdesse de vista o assassino. Aflito, guardou a faca na manga do casaco, seguiu adiante e correu os olhos por toda parte, procurando pelo homem na enxurrada de guarda-chuvas pretos. Um aguaceiro desabou de repente, para desespero dos turistas despreparados.
Assim que alcançou o famoso cruzamento, Wolf se viu cercado não só dos luminosos que multicoloriam o céu cinzento, mas sobretudo da horda de pedestres que vinha na direção contrária. Então se deu conta de como estava vulnerável, acotovelando-se indistintamente com aquelas pessoas, uma das quais não era o que aparentava ser.
Wolf começou a se apavorar. Na ânsia de sair dali, foi abrindo caminho na multidão, derrubando quem precisasse derrubar, perdendo sua faca no caminho. Via apenas rostos hostis a seu redor e quando deu por si estava correndo no meio da rua entre os carros engarrafados, aqui e ali virando o rosto para trás. Para ver se a morte não vinha no seu encalço.