Capítulo 33

Domingo, 13 de julho de 2014

13h10

O detetive Finlay riscou mais um nome na sua lista e se presenteou com dez segundinhos de alongamento antes de atacar os quatrocentos militares reformados restantes. Emily Baxter debruçava-se sobre sua mesa, compenetrada no que fazia, fones de ouvido bloqueando o burburinho à sua volta. Edmunds havia deixado a sala de reuniões num estado deplorável e agora, no computador de Simmons, acessava um programa do qual Finlay nunca tinha ouvido falar.

Simmons, por sua vez, estava na toca da comandante Vanita para assistir com ela à entrevista de Andrea Hall, ambos se preparando para juntar os cacos da polícia após mais uma bomba despejada pela bela ex-mulher de Wolf. Não precisavam de um Relógio da Morte para saber que estavam correndo contra o tempo.

Finlay leu o nome seguinte na sua lista. Para chegar a um elenco final de suspeitos ele vinha somando o pouco que o Ministério da Defesa lhe permitira acessar nos seus bancos de dados àquilo que podia encontrar nos registros da Polícia Nacional e da própria Polícia Metropolitana, às vezes até mesmo no Google. Estaria mais tranquilo se eles estivessem arriscando menos, pois nada impedia que o Bonequeiro ainda estivesse na ativa ou fosse um militar. Melhor não pensar nisso. Essa era a última esperança que eles tinham de encontrar Wolf e só o que eles podiam fazer, tanto ele quanto Emily, era continuar fornecendo nomes de possíveis suspeitos a Edmunds.

Saunders veio caminhando feito um pavão e fincou os pés diante da mesa de Emily, mas ela seguiu trabalhando com os fones nos ouvidos, esperando que ele entendesse o recado e fosse embora. Não demorou para que o outro acenasse a mão diante dela.

– Vaza, Saunders – esbravejou ela.

– Uau! Pra que tanta marra? Só vim saber como você estava. Afinal, depois desse último escândalo anunciado por Andrea Hall... – disse ele com um sorrisinho irônico. – Sobre Wolf e uma colega de trabalho “não identificada”... Quer dizer, todo mundo já desconfiava, né? Mesmo assim... – Ele se calou imediatamente quando viu a expressão no rosto da detetive. Chegou a recuar um passo, depois balbuciou alguma coisa inaudível e se afastou.

Ela ficou chocada com o que ouviu. E um tanto magoada também, por mais que lhe custasse admitir. Acreditava que ela e Andrea tivessem acertado seus ponteiros e que a outra finalmente tivesse aceitado a verdade de que nada havia acontecido entre ela e Wolf. Por outro lado, o que esperar de uma mulher que não tinha o menor escrúpulo de divulgar intimidades do ex-marido horas antes do possível assassinato dele? Ainda assim o que ela agora estava sentindo diante das pequenas traições da jornalista não era nada se comparado ao que ela sentia em relação à traição de Wolf.

Dali a uma hora, catando seus milhos no teclado, Finlay digitou o nome seguinte no computador. Era vergonhosamente mais lento que a detetive Baxter, mas queria ir o mais fundo possível antes que ela terminasse sua própria metade e viesse buscar mais nomes com ele. As informações do Ministério da Defesa eram sucintas como sempre: “Sargento Lethaniel Masse, Nasc.: 16/02/1974, (HUMINT), Serviço de Inteligência, dispensado por invalidez em junho de 2007”.

– De que lado será que eles estão? – resmungou Finlay para si mesmo, já achando que aquela gente não conseguiria ser mais vaga nem se tentasse. Num guardanapo que havia sobrado do almoço ele rabiscou “inteligência militar”.

Uma pesquisa no Google produziu páginas e mais páginas de resultados, quase sempre com matérias de jornal e fóruns de discussão. Ele abriu o primeiro link da lista: “... Sargento Masse, temporariamente transferido para o regimento de infantaria Mercian do Exército Britânico... único sobrevivente ao ataque que vitimou outros nove da sua unidade... comboio atropelou uma bomba caseira ao sul de Hyderabad, na província de Helmand... hospitalizado com lesões internas graves e queimaduras ‘devastadoras’ no rosto e no tórax.”

No mesmo guardanapo, ao lado de uma mancha de café, ele rabiscou: “Sobrevivente – Megalomania?” Consultando a base de dados da Polícia Nacional, ficou surpreso ao encontrar um número bem maior de informações a respeito do tal sargento, incluindo altura (1,92 metro), estado civil (solteiro), ocupação (desempregado), registro de invalidez (sim), parente mais próximo (nenhum) e endereços conhecidos (nenhum nos últimos cinco anos).

Empolgado com o número de semelhanças com o perfil estabelecido por Edmunds, ele passou para a página seguinte e ali encontrou o motivo para tantas informações sobre Lethaniel Masse. Dois links faziam parte do dossiê. O primeiro levava a um boletim de ocorrência criado pela Polícia Metropolitana em junho de 2007:

2874 26/06/2007.

Clínica de Saúde Ocupacional, 57 Portland Place, W1, 3o andar.

[14h40] Comparecimento ao endereço após denúncia de tumulto: comportamento agressivo do paciente Lethaniel Masse com a equipe de funcionários da clínica. Chegando ao local, altercação ouvida nos andares superiores. Encontramos o Sr. Masse (cidadão britânico, branco, 30-40 anos, mais de 1,90 metro de altura, cicatrizes no rosto) sentado de pernas cruzadas no chão, olhando para o nada com um talho em sangue numa das faces. Mesa caída no chão, janela rachada. Enquanto colega interrogava o Sr. Masse, fui informado de que o talho da cabeça era autoimpingido e que não havia mais feridos no recinto. Acompanhado pelo Dr. James Bariclough num caso de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), paciente entrou em surto após ser informado de que não poderia voltar ao serviço militar em razão das suas sequelas físicas e mentais. Nem o médico nem os funcionários quiseram prestar queixas. Nenhum motivo para detenção ou envolvimento adicional da polícia. Ambulância solicitada em razão do ferimento na cabeça e do risco de suicídio diante das condições mentais do paciente. Ficaremos no local até a chegada do veículo.

[15h30] Chegada dos paramédicos.

[15h40] Escolta aos paramédicos até o University College Hospital.

[16h05] Operação encerrada.

Ansioso para dividir sua descoberta com o resto da equipe, Finlay percebeu que já estava de pé quando abriu o segundo link, uma pasta com três arquivos de imagem. Os dois primeiros não mostravam nada de relevante (um computador quebrado ao lado de uma mesa tombada, as vidraças rachadas de uma janela grande), mas o terceiro provocou nele um arrepio na espinha: Lethaniel Masse sentado no chão, observado de longe por alguns funcionários da clínica. O que mais o assustava não eram exatamente as cicatrizes horríveis no rosto do homem, mas o olhar dele: um olhar fixo, frio, calculista. Na sua longa carreira de policial ele já havia encontrado um número suficiente de monstros para saber que todos tinham em comum aquele mesmo olhar doentio que agora parecia encará-lo de volta na tela do computador.

– Emily! Edmunds! – chamou ele.

Lethaniel Masse era um assassino, quanto a isso não havia dúvida. Se era o Bonequeiro, o Diabo Faustiano ou os dois, tanto fazia. Edmunds que se virasse para averiguar as provas, porque ele e a detetive Baxter tinham coisa bem mais importante a fazer: encontrar o homem.

A paciência de Wolf chegava ao limite. Fazia horas que vinha acompanhando a chuva através da única janela do claustrofóbico apartamento, volta e meia limpando o vapor das vidraças, rezando para que Masse não demorasse a chegar, totalmente consciente de que poderia ter desperdiçado a única oportunidade que tivera para dar fim àquilo que ele próprio havia desencadeado anos antes.

Teria de se adaptar, de improvisar. Supunha que àquela altura estivesse muito além de qualquer redenção possível. Jamais poderia ter imaginado que seria obrigado a fazer sua parte sob os holofotes da mídia ou que, entre todas as pessoas possíveis, Masse escolhesse justamente Andrea como sua mensageira. Se as coisas tivessem tomado um rumo diferente, na manhã de terça-feira ele poderia chegar à New Scotland Yard como herói, mais um alvo inocente do ex-militar que ele fora obrigado a matar em legítima defesa. Qualquer prova do seu envolvimento morreria com Lethaniel ­Masse.

Ele ainda tinha consigo os recortes de jornal que havia escolhido cuidadosamente para plantar no apartamento do homem. A maioria deles tinha a ver com o julgamento do Cremador, relatos acusatórios de todos os tropeços (com os nomes sublinhados) que haviam culminado na morte desnecessária da menina Annabelle Adams. Outros falavam das tentativas das Forças Armadas de minimizar o número de crianças e civis mortos no Afeganistão, sobretudo naquelas manobras de infantaria das quais fazia parte o regimento de Masse. Wolf confiava que esses fatos, somados às sequelas do episódio com a bomba caseira no deserto afegão, bastassem para explicar a perturbação mental do ex-militar.

Tudo isso agora era irrelevante. Ele soltara nas ruas da capital um predador com tendências sádicas e qualquer esperança que pudesse ter de uma vida minimamente normal havia se desintegrado juntamente com seu plano original. Elizabeth Tate e a filha dela nunca deveriam ter sido enredadas naquele horror. Fora uma grande imprudência envolver-se com Ashley Lochlan. E o maior imprevisto de todos: Alex Edmunds.

O novato vinha rondando desde o início, havia descoberto pelo menos um dos assassinatos mais antigos e mais atrapalhados de ­Masse. Era apenas uma questão de tempo até que ligasse todos os pontos. Se Wolf não tivesse cometido a burrice de soltar os cachorros para cima do garoto, naquele momento saberia exatamente o que ele e os outros haviam conseguido desenterrar.

Nada disso era tão importante quanto Emily ter descoberto não só o que ele havia feito, mas também o que ainda precisava fazer. Sabia que ela jamais conseguiria entender, por mais que tentasse. Apesar de todas as provas em contrário, ela ainda acreditava na lei, na justiça, naquele sistema podre que favorecia a todos os falsos e corruptos que operavam tranquilamente no seio de uma sociedade apática. Ela o veria como um inimigo, como alguém não muito diferente de Lethaniel Masse. O que, para ele, era insuportável.

Wolf ouviu a porta bater na portaria do prédio decrépito. Rapidamente buscou o martelo que havia encontrado sob a pia da cozinha e ficou esperando junto à porta de compensado. Segundos depois ouviu outra porta bater no andar de baixo, alguém ligando a televisão. Então baixou a guarda e voltou para a janela, cuja vista não poderia ser mais triste: as instalações desativadas do Shepherd’s Bush Market e, para além delas, os trilhos do trem.

No apartamento não havia televisão, nem computador, nem espelhos. Seis conjuntos idênticos de roupas esperavam no armário com as peças meticulosamente dobradas nas gavetas ou penduradas nos cabides. Na geladeira, apenas uma caixa de leite. No lugar da cama, apenas um colchão fino no chão, prática comum entre os soldados que voltavam da guerra intactos por fora mas irremediavelmente alterados por dentro. Os livros de uma estante davam a impressão de terem sido organizados pela cor: Sobre a guerra e a moral; A espécie acidental: equívocos sobre a evolução humana; Enciclopédia dos explosivos; Usos da bioquímica na medicina...

Limpando mais uma vez o vapor da vidraça, Wolf viu um carro parado mais adiante na rua estreita. Um carro ligado, ele podia ouvir o ronronar do motor através das frestas na esquadria, que não eram poucas. Não reconhecia nem marca nem modelo, mas podia ver que era um carro caro demais para pertencer a qualquer um dos moradores daquela modesta vizinhança. Então ficou de pé, intuindo que algo estava errado.

O carro arrancou de repente e parou logo abaixo da sua janela no segundo andar, atropelando gramado e canteiros, seguido de perto por duas Unidades Armadas da polícia.

– Merda – disse ele, afastando-se rapidamente.

Saindo ao corredor escuro, deixou a porta do apartamento de Masse bater às suas costas e dali mesmo pôde ouvir as passadas dos policiais que subiam a escada do prédio. Não havia para onde fugir: nenhuma escada de incêndio, nenhuma janela, apenas a porta do outro apartamento no mesmo andar.

Ele chutou uma vez: nada. Ao chutar outra vez, abriu uma rachadura no compensado. Depois disso bastou uma ombrada forte para que a madeira da fechadura enfim cedesse ao impacto. Ele entrou, encostou a porta arrombada e segundos depois ouviu alguém esmurrar a porta de Masse.

– Polícia! Abra!

Foi com o auxílio de um Enforcer, uma versão moderna do aríete medieval, que eles conseguiram entrar no minúsculo apartamento do sargento reformado. Não era a primeira vez que Wolf ouvia aquele estrondo de aço contra madeira. Com o coração a mil, ele se agachou junto da porta e ficou ouvindo os ruídos preocupantes da busca que os policiais armados vinham fazendo a poucos metros de distância.

– Tem só um quarto na porra deste apartamento! – disse uma voz conhecida no corredor. – Se não encontraram nada até agora, não vão encontrar nunca!

Wolf levantou-se novamente e, espiando pelo olho mágico, viu os detetives Baxter e Finlay esperando com impaciência no corredor. Houve um momento em que Emily olhou diretamente na sua direção e ele chegou a pensar que tinha sido descoberto. Notando a fechadura quebrada, ela disse para Finlay:

– Um prédio familiar...

Em seguida empurrou a porta de leve, abrindo uma pequena fresta até a madeira bater contra os pés de Wolf. Virando o rosto, ele viu que do outro lado da janela às suas costas ficava o terraço do prédio vizinho, próximo o bastante para que ele o alcançasse com um só pulo.

– Não tem ninguém aqui, mas encontramos isto – disse um dos policiais, saindo para o corredor com um laptop nas mãos. – Estava escondido dentro do colchão e é um dos seus – disse ele com um olhar de censura.

Com efeito, um adesivo na tampa indicava que o computador pertencia ao Departamento de Homicídios e Crimes Hediondos. Manchas escuras se espalhavam no metal prateado: marcas deixadas por dedos ensanguentados, quase pretas sob a pouca luz do corredor. Ela abriu a máquina e a repassou imediatamente para Finlay, sem conseguir olhar para ela.

– Era do Chambers – explicou.

– Como você sabe?

– A senha.

Sobre o teclado havia um pedacinho de papel, também sujo de sangue, com uma senha anotada: “Eve2014”.

Finlay pressionou uma tecla qualquer e o sistema operacional despertou do estado de sono em que fora deixado. A tela inicial era a mesma de todos os computadores vinculados ao servidor seguro da Polícia Metropolitana. Uma pequena mensagem de e-mail, datada de 7 de julho, estava aberta: “Você está recebendo esta mensagem porque foi recentemente removido(a) do grupo de destinatários do seu departamento. Se achar que se trata de um engano, favor entrar em contato com nosso serviço de atendimento aos usuários. Saudações, Suporte IT.” Finlay virou a tela para Emily.

– Ele estava conectado com o nosso servidor durante todo esse tempo – concluiu ela. – Por isso estava sempre um passo na nossa frente! Eu sabia desde o início que o Edmunds estava enganado. Não era o Wolf que estava vazando informações!

– Sei que é nisso que você quer acreditar. Eu também. Mas ainda não podemos afirmar nada.

Ela fez uma careta de irritação, depois se afastou para a porta do apartamento e apressou a saída dos policiais armados, dizendo:

– Valeu, valeu, muito obrigada, voltem sempre...

Nesse meio-tempo, Wolf correu para a janela, saltou para o telhado do prédio vizinho e desceu à rua, discretamente virando o rosto ao passar pelos dois policiais que montavam guarda na esquina. Sob uma chuva fininha ele caminhou até a estação da avenida Goldhawk e ali tomou seu metrô de volta para o centro, ciente de que acabara de perder a pouca vantagem que ainda tinha sobre os companheiros.