Capítulo 35
Segunda-feira, 14 de julho de 2014
11h57
Após uns vinte minutos, os alarmes cessaram de repente, deixando ecos fantasmagóricos na enorme rotunda do saguão. O silêncio mal havia retornado à Sala 1 quando novos ruídos surgiram para quebrá-lo outra vez: passos solitários se aproximavam das portas. Wolf permaneceu sentado na galeria, fazendo um esforço consciente para manter a regularidade da respiração, apertando as mãos em punho até esbranquiçar as articulações.
Uma lembrança distante escolheu um péssimo momento para vir à tona: um longo corredor com sua luz ofuscante, a campainha escandalosa de um telefone, alguém atendendo a chamada. Sua vontade era gritar para eles, alertá-los, mandar o bom senso às favas e sucumbir ao irracional ainda que por um breve instante.
Esse era o mesmo medo que agora o acometia.
Ele aguçou os ouvidos à medida que os passos foram ficando mais próximos, assustou-se quando a porta da sala bateu pesadamente a seus pés. Com olhos arregalados, ouviu os passos recomeçarem abaixo da galeria, até que um vulto imponente, escondido sob o capuz de um sobretudo preto, emergiu no seu campo de visão. No estado de inquietação em que se encontrava, chegou a pensar que o Anjo Escriba, sob uma nuvem de poeira e escombros, havia se despregado da fachada do prédio para martelar seu julgamento sobre ele.
– Devo confessar uma coisa – disse Masse, engrolando as palavras, dando a impressão de que cada sílaba precisava ser arrancada à força da sua boca. Era como se ele tivesse desaprendido a falar. – Estou muito impressionado que você tenha ficado.
Em seguida foi descendo pelo corredor lateral, roçando os dedos esqueléticos e muito brancos na madeira brilhante dos bancos, neste ou naquele objeto que alguém havia deixado para trás na pressa de sair da sala. Para Wolf era desconcertante que o homem soubesse exatamente onde ele estava, mesmo sem ter olhado para cima. Pensava ter chegado ali por vontade própria, mas começava a desconfiar de que havia inconscientemente cumprido a vontade dele.
– “Na certeza de vencer, qualquer covarde pode se jogar numa batalha; comigo quero apenas os que têm a coragem de lutar quando sabem que vão perder” – citou Masse, subindo os degraus para a tribuna onde ficavam as cinco cadeiras dos magistrados. Sem nenhuma pressa ele se adiantou até a cadeira central, retirou a Espada da Justiça que pendia acima do espaldar, lentamente puxou a lâmina da bainha metálica e ergueu-a para admirá-la melhor. – Foi George Eliot quem disse isso. Imagino que teria gostado de você.
A luz da sala refletia no aço da espada para pontilhar a madeira escura dos lambris. Até que, num gesto repentino e violento, Masse cravou a arma na mesa à sua frente, fundo o bastante para que ela permanecesse espetada ali, balançando de leve. Em seguida, sentou-se placidamente no banco do juiz.
Quanto mais se via na presença do homem, mais Wolf ficava apreensivo. Sabia que por baixo daquele capuz havia uma pessoa de carne e osso como qualquer outra: um assassino engenhoso e cruel, claro, mas ainda assim uma pessoa. Por outro lado seria pouco prudente ignorar que ali estava a verdade concreta daquilo que outros viam apenas como uma lenda urbana ou desprezar a comoção que, com sua última leva de crimes, ele havia conseguido provocar numa sociedade essencialmente apática. Se não era nenhum demônio, Masse era mais próximo disso que ele, Wolf, tivera a oportunidade de encontrar.
– Uma arma de verdade – disse Masse, apontando para a espada – pendurada acima da cabeça dos juízes numa sala constantemente frequentada por homicidas. – Ele levou a mão à garganta, começando a sofrer com o esforço do monólogo. – Há que se admirar os ingleses, não é? Mesmo depois daquilo que você próprio fez aqui dentro, eles ainda dão mais valor à pompa e à tradição do que à segurança e ao bom senso.
Masse sucumbiu a um violento acesso de tosse e Wolf aproveitou a oportunidade para tirar o cadarço de um dos sapatos, rezando para que as coisas não chegassem a um ponto em que ele fosse obrigado a usá-lo como garrote para se defender. Começou a enrolá-lo na mão, mas parou assim que viu o homem descer o capuz para revelar o rosto castigado pelas queimaduras. Tinha visto fotografias dele, lido alguns relatórios médicos, mas nada era fiel àquilo que ele agora vislumbrava à sua frente: a pele fina e funestamente branca se estriava com uma malha de pequenas cicatrizes que iam inchando ou murchando ao sabor das expressões faciais.
Masse enfim ergueu os olhos para a galeria. Em razão da investigação paralela que havia feito, Wolf sabia que ele vinha de uma família abastada e tradicional: brasão centenário, escolas particulares, barcos, clubes, etc. Aliás, fora um rapaz até bonito. Ainda escondia traços da dicção aristocrática no seu modo arrastado de falar, sequela das queimaduras, mas ainda assim era bizarro ver um assassino desfigurado e doentio discursando com tanta verve e citando romancistas vitorianas.
Talvez isso explicasse por que ele havia se isolado do mundo: após o acidente no Afeganistão, não havia como voltar para o seio de uma família acostumada a campos de golfe e jantares filantrópicos. Talvez por isso ele tivesse agonizado tanto ao saber que não poderia retomar a carreira militar. Não havia mais lugar para ele no mundo real.
Uma cabeça brilhante presa a um corpo queimado.
Por um instante Wolf cogitou se o homem teria se tornado um cidadão comum caso tivesse tido um destino diferente ou se apenas havia perdido a máscara aristocrática na explosão daquela bomba caseira.
– Mas então, William... As coisas saíram como você queria? Será que nossa pequena Annabelle Adams pode finalmente descansar em paz, sabendo que foi vingada?
Wolf não respondeu. Com um sorriso torto nos lábios, Masse prosseguiu:
– Gostou de ver o prefeito se desfazer em chamas?
Num gesto automático, Wolf fez que não com a cabeça.
– Não gostou?
– Nunca quis nada disso – disse ele, não se contendo.
– Ah, quis, sim – ironizou Masse. – Foi você que fez tudo isso com essas pessoas.
– Eu estava doente! Revoltado! Não sabia o que estava fazendo! – explodiu Wolf, e ficou furioso consigo mesmo, ciente de que se deixava provocar.
Masse suspirou e disse:
– Vou ficar muito desapontado se você se revelar um desses bananas que dizem: “Essa não era a minha intenção!”, “Quero voltar atrás no nosso acordo!”. Ou melhor ainda: “Encontrei Deus!” Muito embora... se esse for o seu caso, vou adorar saber onde foi que o nosso amigo se escondeu.
A risada de Masse resvalou para mais um acesso de tosse, dando a Wolf a oportunidade de se recompor:
– E eu vou ficar muito desapontado se você se revelar uma dessas aberrações que...
– Não sou nenhuma aberração! – interrompeu Masse, levantando-se da cadeira, gritando mais alto do que Wolf teria imaginado possível.
A atmosfera ficou ainda mais tensa quando as sirenes da polícia começaram a uivar ao longe.
Uma espuma de sangue invadia o tribunal enquanto Masse ofegava de raiva, sua terrível perda de controle dando a Wolf a coragem necessária para desafiá-lo.
– ... essas aberrações que botam a culpa de todas as atrocidades e perversões nas vozes que escutam dentro da cabeça. Você mata pelo mesmo motivo banal que leva todos os seus semelhantes a matar: é um fraco que precisa se sentir forte!
– Será que é mesmo necessário você continuar fingindo que não sabe quem eu sou? Ou o que eu sou?
– Sei muito bem o que você é, Lethaniel. É um psicopata narcisista e delirante que muito em breve será apenas mais uma aberração embrulhada pra presente num uniforme presidiário.
Masse crivou em Wolf com um olhar que o deixou assustado. Depois caiu num silêncio desconcertante, formulando sua resposta. Dali a pouco, com a mais absoluta firmeza, disse:
– Sou constante. Sou eterno. Sou perpétuo.
– Daqui de cima você não me parece nada disso. Nem constante, nem eterno, nem perpétuo – disse Wolf com a segurança que conseguiu fabricar. – Na realidade, dá a impressão de que uma gripezinha vagabunda pode acabar com você antes que eu tenha o prazer de fazer isso com as minhas próprias mãos.
Correndo os dedos sobre as cicatrizes da cabeça, Masse disse:
– Isto que você vê pertencia a Lethaniel Masse, uma pessoa frágil, um fraco. Morreu queimado e eu tomei pra mim a carcaça que ele deixou pra trás. – Em seguida arrancou a espada da mesa e desceu com ela para o chão da sala. A essa altura as sirenes já estavam bem mais próximas. – Você está tentando me antagonizar, não está? Por isso eu gosto de você, William. É um homem tenaz, determinado. Se os juízes dizem que precisam de mais provas, você inventa essas provas. Se um réu é absolvido pelos jurados, você espanca esse mesmo réu até a morte. Se é afastado da polícia, você dá um jeito e acaba voltando. E mesmo quando está cara a cara com a própria morte, agarra-se à vida com unhas e dentes. É admirável. Realmente admirável.
– Se você me admira tanto assim... – arriscou Wolf.
– Quer que eu deixe você ir? – perguntou Masse, como se a ideia fosse inteiramente nova para ele. – Você sabe muito bem que não é assim que a coisa funciona.
As sirenes se calaram de repente, o que significava que a qualquer momento o prédio seria invadido por um enxame de policiais armados.
– Eles já estão aí, Masse – disse Wolf, levantando-se para sair. – Não há nada que você possa contar a meu respeito que eles já não saibam. Acabou.
– Ah, o destino... sempre tão cruel. Até agora você ainda não se deu conta de que vai morrer aqui, nesta sala de tribunal. E como poderia ser de outra forma? Afinal, basta você sair por esta porta e não voltar nunca mais. Acho mesmo que é isso que você deve fazer.
– Adeus, Lethaniel.
– É tão triste ver você assim: preso numa coleira, subjugado pelo medo... Este aí não é o William Fawkes que eu conheço. O William que eu conheço não compara as alternativas, não toma decisões sensatas... aliás, não tem nenhum instinto de autopreservação. O William que eu conheço é só fogo e fúria, o homem que eles precisaram trancafiar num hospital psiquiátrico, o homem que me procurou em busca de vingança, o homem que tentou matar um assassino aqui mesmo nesta sala. O William que eu conheço optaria por descer até aqui pra morrer.
Wolf ficou confuso. Não sabia ao certo o que Masse estava tentando fazer. Cautelosamente ele foi se afastando para a porta de saída da galeria.
– Ronald Everett era um homem grande – disse Masse com a maior naturalidade do mundo. – Calculo que tenha produzido uns... seis ou sete litros de sangue? Talvez mais? Aceitou sua própria morte com a dignidade de um cavalheiro. Fiz uma pequena incisão na artéria femoral, depois ficamos conversando tranquilamente enquanto ele sangrava. Tudo muito... civilizado. Em cinco minutos ele apresentou os primeiros sinais de choque hipovolêmico. Imagino que tenha perdido entre 20 e 25 por cento do sangue que tinha no corpo. Em nove minutos e meio perdeu a consciência e, em onze, seu coração exangue parou de bater.
Wolf já ia saindo da sala quando ouviu Masse arrastando algo pelo chão, abaixo da galeria.
– Só estou lhe contando essas coisas – gritou Masse de onde estava – porque faz oito minutos que esta aqui está sangrando.
Wolf rapidamente voltou para o guarda-corpo da galeria e precisou se conter para não gritar quando viu Masse arrastando Emily pelos cabelos, deixando no chão um longo rastro de sangue. O psicopata usara a echarpe e as algemas que ela sempre levava na bolsa para amordaçar e amarrar sua mais recente vítima, que àquela altura estava lívida, quase sem forças.
– Devo confessar que estou improvisando aqui – gritou ele para Wolf no alto da galeria, avançando na sala com sua presa. – Tinha outros planos pra você. Quem poderia imaginar que ela viria sozinha atrás da gente? Mas veio, então fiz o que tinha de fazer.
Ele largou Emily no chão e se ajoelhou ao lado, próximo o bastante para que ela visse a dança das cicatrizes no crânio dele, para que sentisse no ar o bafo pestilento e o cheiro forte das pomadas que ele devia usar para acalmar a pele sofrida. Ela ainda teve forças para se debater quando Masse tomou o braço dela, reacomodou-o à direita da virilha e pressionou para estancar o sangramento.
– Faça o mesmo de antes e mantenha a pressão – disse ele, cuspindo sua baba pelos cantos da boca. – Não queremos que você apague antes da hora, está bem?
Uma sombra desceu sobre Wolf, varrendo da sua cabeça todo o medo que ele ainda pudesse ter do falso demônio e da espada real que ele ainda tinha na mão. Sem pensar duas vezes, disparou galeria afora e seguiu correndo para a escada que levava ao pavimento de baixo.
Masse se levantou e, olhando para as portas da sala, disse:
– Finalmente nosso herói vem buscar sua própria morte...