Hospital St. Ann’s
Sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
7h39
Joel rezava ajoelhado no chão frio como fazia todos os dias antes do café da manhã. Fora acordado no horário normal pelo enfermeiro que destrancara a porta para colocar as algemas que ele agora era obrigado a usar sempre que saía do quarto. Duas semanas antes atacara uma enfermeira numa bem-sucedida tentativa de prolongar sua internação. Gostava da moça, receava tê-la machucado mais que o necessário, mas não podia sair dali. Sabia que era uma grande fraqueza fugir do próprio destino, mas conhecia a si mesmo, havia muito aceitara a própria covardia.
Alguém gritou no corredor e passou correndo pela porta aberta do quarto. Ele interrompeu suas orações e dali a pouco ouviu um berro mais ao longe no prédio, um grito angustiado o bastante para fazer seu coração disparar dentro do peito. Levantando-se para ver o que era, deparou com diversos internos fazendo o mesmo que ele, espiando à porta dos seus respectivos quartos, olhando na direção da sala de recreação. Um enfermeiro parrudo surgiu segundos depois, gritando enquanto corria:
– De volta pra cama, todo mundo! Não quero ninguém no corredor!
Seguiu-se outro grito, tão desesperado quanto o primeiro.
Desobedecendo às ordens do enfermeiro, Joel e outros tantos seguiram correndo para as portas de vidro da sala de recreação, onde eles passavam boa parte do dia. Assim que ouviu um terceiro grito, reconheceu a voz de Wolf. Então abriu caminho entre os curiosos e entrou na sala.
Por toda parte viam-se móveis quebrados ou rachados. Um médico jazia inconsciente no chão, socorrido pelos enfermeiros. Wolf estava completamente fora de si. Três funcionários do hospital tentavam imobilizá-lo enquanto uma enfermeira apavorada pedia ajuda por telefone.
– Eu falei pra eles, eu avisei! – gritava Wolf, olhando furioso para a televisão da sala. – Eu avisei que ele ia fazer isso!
Assustado, Joel olhou para a televisão também. Numa rua qualquer da capital, uma repórter transmitia sua matéria enquanto dois policiais aturdidos improvisavam uma cortina para esconder aquilo que fumegava do outro lado.
– Eu poderia ter evitado! – berrou Wolf, o rosto empapado de lágrimas. E tentou se desvencilhar com gestos violentos quando um médico se aproximou erguendo uma seringa grande, não muito diferente da de um veterinário disposto a sacrificar o urso feroz à sua frente.
Tudo ficou claro para Joel quando a repórter repetiu o pouco de informação que havia conseguido divulgar:
– “Para os espectadores que estão chegando agora, testemunhas afirmam que Naguib Khalid, principal suspeito dos crimes do Cremador, e absolvido destes mesmos crimes no último mês de maio, foi novamente preso pela polícia. Relatos ainda não confirmados dão conta de mais um homicídio e, como vocês podem ver, ainda há fumaça do outro lado do cordão de isolamento da polícia...”
Wolf gritou quando o médico espetou a agulha enorme em seu braço esquerdo, depois amoleceu o corpo, e os funcionários do hospital, já cansados, tiveram dificuldade para sustentar o peso dele. Antes de apagar completamente, Wolf olhou para Joel, que o fitava sem nenhuma expressão no olhar, nem de piedade, nem de surpresa, apenas meneando a cabeça como se dissesse: “Eu entendo.”
Já havia anoitecido quando Wolf voltou a si. Deitado em seu quarto e com a visão um pouco turva, ele demorou alguns segundos para entender por que não conseguia erguer as mãos para afagar a cabeça que latejava: os enfermeiros o haviam amarrado à cama. Em vão ele tentou se desvencilhar das espessas pulseiras de couro, a fúria de antes ainda circulando nas veias. Lembrando-se das imagens do noticiário, da fumaça que espiralava sobre a cortina improvisada pelos policiais, ele espichou a cabeça para o lado e vomitou no chão. Sabia perfeitamente o que havia atrás daquele lençol. Podia muito bem imaginar o suplício de mais aquela vítima do Cremador. Um suplício desnecessário.
Ele precisava se concentrar. A raiva o consumia por dentro, nublando os pensamentos. Então fechou os olhos e, murmurando, começou a enumerar todas as pessoas que responsabilizava por mais aquela tragédia. Ainda pensava nisso quando uma ideia atravessou sua cabeça: um último recurso, um ato de desespero, ruminações confusas de uma mente instável.
– Enfermeira! – chamou ele. – Enfermeira!
Levou mais de cinquenta minutos para persuadir os médicos a soltá-lo da cama e outros trinta para arrancar deles a permissão para usar o telefone. Enquanto esperava por uma decisão, pegara a folha amassada que havia escondido debaixo do colchão; quase havia se esquecido dela por completo.
Com as pernas ainda um tanto bambas, precisou de ajuda para ficar de pé e caminhar até o telefone da estação das enfermeiras. Assim que se viu sozinho, desdobrou o papel amassado e pela primeira vez atentou para o que estava escrito abaixo dos dígitos: “Deus. Diabo. Alma. Inferno.” Apoiando-se na parede para não cair, discou o número anotado e esperou. Dali a pouco ouviu um clique abafado do outro lado da linha, seguido de um estranho silêncio.
– Alô? – disse ele, nervoso.
Mais silêncio.
– Alô? – insistiu ele.
Por fim foi atendido por uma voz feminina automatizada:
– Deixe. Seu nome. Completo. Após. O sinal.
Wolf esperou pelo bipe, depois disse:
– William Oliver Layton-Fawkes.
Como resposta obteve apenas um novo e interminável silêncio. Sabia que isso não era racional, mas havia algo de desconcertante naquela voz robótica, algo na entonação ou no timbre. Era como se do outro lado da linha houvesse alguém se divertindo com o desespero dele, rindo dele.
– Em. Troca. De? – disseram afinal.
– Naguib Khalid... O prefeito Raymond Turnble... Madeline Ayers... O segurança do tribunal... O detetive Benjamin Chambers... E quem mais tiver nas mãos o sangue daquela menina – rosnou Wolf.
Silêncio.
Ele esperou mais um pouco, mas enfim desligou. E riu de si mesmo. Apesar dos medicamentos que ainda faziam efeito, tinha plena consciência do quão ridículo era aquilo. Por algum motivo, no entanto, sentia-se mais leve depois de ter dito aqueles nomes todos em voz alta, ainda que para uma secretária eletrônica.
Estava a meio caminho do quarto quando ouviu o mesmo telefone tocar às suas costas, mas com uma campainha ensurdecedora que o fez cair de joelhos e tapar os ouvidos com as mãos. Cogitou se era possível um telefone tocar tão alto assim ou se a medicação havia afetado também seus sentidos.
Um dos enfermeiros obesos passou por ele às pressas, resmungando algo incompreensível enquanto corria para o telefone. Wolf ficou aflito ao vê-lo atender a chamada, perguntando-se quem, ou o quê, poderia estar do outro lado da linha.
O homem abriu um sorriso largo, depois disse:
– Eu sei, eu sei... Desculpa. Um dos pacientes estava usando o aparelho.
Wolf se levantou como pôde e foi se arrastando de volta para o quarto, aventando a possibilidade de que realmente estivesse ficando louco.