Na primavera de seu vigésimo segundo ano, Sumire apaixonou-se pela primeira vez. Um amor intenso, um verdadeiro tornado que varre planícies — aplanando tudo em seu caminho, lançando coisas para o ar, deixando-as em frangalhos, triturando-as. A intensidade do tornado não abranda nem por um segundo, enquanto sua rajada atravessa o oceano, destruindo Angkor Wat, incinerando a selva indiana, tigres e tudo, transformando-se em uma tempestade de areia no deserto persa, sepultando uma exótica cidade-fortaleza sob um mar de areia. Em resumo, um amor de proporções realmente monumentais. A pessoa por quem Sumire se apaixonou era, por acaso, dezessete anos mais velha do que ela. E casada. E, devo acrescentar, era uma mulher. Foi aí que tudo começou, e onde tudo acabou. Quase.
Na época, Sumire — “Violeta” em japonês — concentrava todos os seus esforços em se tornar uma escritora. Não importa quantas opções a vida colocasse em seu caminho, era romancista ou nada. A sua determinação era um rochedo de Gibraltar. Nada se interpunha entre ela e sua fé na literatura.
Depois de se graduar em uma escola pública na Prefeitura de Kanagawa, entrou para o departamento de artes liberais de uma pequena e acolhedora universidade particular em Tóquio. Achou a faculdade completamente desinformada, um lugar insípido, desanimado, e a detestou — e achou seus colegas (que, receio, incluíam a mim) extremamente maçantes, espécimes de segunda classe. Não é de admirar, portanto, que logo antes de seu terceiro ano, ela simplesmente tenha abandonado o curso. Permanecer ali por mais tempo, concluiu, era perda de tempo. Acho que foi a atitude certa, mas, se me permitem uma generalização medíocre, as coisas inúteis também não têm um lugar neste mundo longe de ser perfeito? Retire tudo que é fútil de uma vida imperfeita e ela perderá, até mesmo, sua imperfeição.
Sumire era uma romântica incurável, aferrada a seus hábitos — um pouco inocente, para citar algo simpático. Se começava a falar, não parava mais, porém se estava com alguém de quem não gostava — em outras palavras, a maioria das pessoas no mundo —, mal abria a boca. Fumava demais, e podíamos ter sempre certeza de que perderia o bilhete ao pegar o trem. Às vezes, ficava tão absorta em seus próprios pensamentos que se esquecia de comer, e era tão magra quanto um desses órfãos de guerra em filme italiano antigo — como uma vara com olhos. Adoraria mostrar-lhes uma foto dela, mas não tenho nenhuma. Ela detestava que a fotografassem — nenhum desejo de deixar para a posteridade um Retrato de um(a) artista quando jovem. Se houvesse uma fotografia de Sumire tirada nessa época, não tenho dúvida de que seria um registro valioso de como certas pessoas são especiais.
Estou misturando a ordem dos eventos. O nome da mulher por quem Sumire se apaixonou era Miu. Pelo menos era assim que todos a chamavam. Não sei o seu nome verdadeiro, fato que, mais tarde, causou problemas, mas, de novo, estou me adiantando. Miu era de nacionalidade coreana, mas até decidir estudar coreano, quando estava com vinte e poucos anos, não falava uma palavra dessa língua. Nasceu e foi criada no Japão e estudou em uma academia de música na França, de modo que era fluente em francês e inglês, além de japonês. Estava sempre bem-vestida, de uma maneira refinada, com acessórios caros, embora sóbrios, e dirigia um Jaguar azul-marinho, doze cilindros.
Quando Sumire conheceu Miu, falou com ela sobre os romances de Jack Kerouac. Sumire era louca por Kerouac. Sempre tinha um Ídolo Literário do Mês, e, nesse momento, acontecia de ser o fora de moda Kerouac. Ela levava um exemplar, com folhas marcadas, de On the Road ou Lonesome Traveler enfiado no bolso de seu casaco, folheando-o sempre que tinha chance. Toda vez que se deparava com frases de que gostava, assinalava-as com lápis e as memorizava como se fossem a Escritura Sagrada. As suas preferidas eram da parte que tratava da vigilância do fogo, em Lonesome Traveler. Kerouac passou três meses no cume de uma montanha elevada, trabalhando como vigilante do fogo. Sumire gostava especialmente da seguinte passagem:
Nenhum homem deve passar pela vida sem experimentar uma vez a saudável, ainda que entediante, solidão no ermo, dependendo exclusivamente de si mesmo e, assim, descobrindo a sua força oculta e verdadeira.
— Não gosta disso? — disse ela. — Todo dia, no alto de uma montanha, varrendo trezentos e sessenta graus, checando se há algum incêndio. E pronto. Encerrou por aquele dia. O resto do tempo pode ler, escrever, o que quiser. À noite, ursos sujos rondando a sua cabana. Vida é isso! Comparando, estudar literatura em universidade é como morder o lado mais amargo do pepino.
— Certo — repliquei —, mas um dia vai ter de descer da montanha. — Como sempre, minhas opiniões práticas, triviais, não a surpreenderam.
Sumire queria ser como um personagem de um romance de Kerouac — selvagem, fria, devassa. Andava por aí com as mãos enfiadas no fundo do bolso do casaco, o cabelo despenteado, olhando apaticamente para o céu através de seus óculos de armação preta de plástico, que usava apesar de sua vista perfeita. Estava, invariavelmente, vestida com um paletó espinha-de-peixe, de tamanho bem maior que o seu manequim, comprado em uma loja de roupas usadas, e um par de coturnos. Se houvesse um jeito de ela ter barba, estou certo de que a teria.
Sumire não era exatamente uma beldade. Suas bochechas eram encovadas, a boca um pouco larga demais. O nariz era pequeno e arrebitado. Tinha o rosto expressivo e um grande senso de humor, se bem que nunca tivesse dado uma gargalhada. Era baixa e, mesmo de bom humor, falava como se estivesse a meio passo de provocar uma briga. Nunca soube que tivesse usado batom ou lápis nas sobrancelhas, e tenho cá minhas dúvidas de que ela soubesse que os sutiãs vinham em tamanhos diferentes. Ainda assim, Sumire era, de certa forma, especial, tinha algo que atraía as pessoas. Definir esse algo especial não é fácil, mas quando se olhava fixo em seus olhos, sempre o percebíamos, refletido bem lá no fundo.
Bem, não há por que não ser franco. Eu era apaixonado por Sumire. Senti-me atraído por ela desde a primeira vez que conversamos, e logo não teve mais volta. Durante muito tempo, ela foi a única coisa em que eu conseguia pensar. Tentei dizer-lhe como me sentia, mas, não sei por quê, o sentimento e as palavras certas não conseguiram se conectar. Talvez tenha sido melhor assim. Se eu tivesse sido capaz de expor os meus sentimentos, ela teria rido de mim.
Quando eu e Sumire éramos amigos, eu saía com duas ou três outras garotas. Não é que não me lembre do número exato. Duas, três — depende de como se conta. Acrescentando a essas as garotas com quem dormi uma ou duas vezes, a lista ficaria um pouco maior. De qualquer jeito, enquanto fazia amor com essas outras garotas, eu pensava em Sumire. Ou, pelo menos, esse pensamento roçava um canto de minha mente. Eu me imaginava segurando-a. Coisa meio de caddy,[1] mas não conseguia evitar.
Agora, vou voltar a como Sumire e Miu se conheceram.
Miu ouvira falar em Jack Kerouac e tinha uma vaga noção de que ele era romancista de um certo tipo. De que tipo ela não se lembrava.
— Kerouac... Humm... Não era um Sputnik?
Sumire não entendeu o que ela quis dizer. Garfo e faca no ar, refletiu um pouco.
— Sputnik? Refere-se ao satélite que os soviéticos lançaram na década de cinqüenta? Jack Kerouac foi um romancista americano. Acho que realmente coincidiram em termos de geração...
— Não é assim que chamavam os escritores na época? — perguntou Miu. Traçou, com a ponta do dedo, um círculo sobre a mesa, como se remexesse em uma jarra especial, cheia de recordações.
— Sputnik...?
— O nome de um movimento literário. Você sabe... como classificam os escritores nas diversas escolas literárias. Como Shiga Naoya era na White Birch School.
Por fim, Sumire começou a entender.
— Beatnik!
Miu delicadamente limpou o canto da boca com o guardanapo.
— Beatnik. Sputnik. Nunca me lembro desse tipo de termos. É como o Kenmun Restoration ou o Tratado de Rapallo. História antiga.
Um silêncio delicado desceu sobre elas, sugestivo do fluxo do tempo.
— Tratado de Rapallo? — perguntou Sumire.
Miu sorriu. Um sorriso nostálgico, íntimo, como um bem antigo, precioso, tirado do fundo de uma gaveta. Seus olhos estreitaram-se de uma maneira definitivamente encantadora. Estendeu o braço e, com seus dedos longos e finos, despenteou delicadamente o já embaraçado cabelo de Sumire. Foi um gesto de tal modo repentino, ainda que natural, que Sumire não pôde fazer outra coisa senão devolver o sorriso.
A partir desse dia, o nome particular de Sumire para Miu foi Querida Sputnik. Sumire adorou o som da expressão. Fazia com que pensasse em Laika, a cadela. O satélite feito pelo homem riscando a negritude do espaço sideral. Os olhos escuros, brilhantes, da cadela olhando fixo pela janela minúscula. Na solidão infinita do espaço, para o que a cadela poderia estar olhando?
Essa conversa Sputnik aconteceu na recepção do casamento do primo de Sumire em um hotel sofisticado em Akasaka. Sumire não era particularmente próxima de seu primo; de fato, não se davam nem um pouco bem. Era uma tortura para ela comparecer a esse tipo de recepção, mas não pôde deixar de ir. Ela e Miu estavam sentadas lado a lado a uma das mesas. Miu não entrou em detalhes, mas parece que havia dado aulas de piano a seu primo — ou algo no gênero —, quando ele ia fazer o exame de admissão para o departamento de música da universidade. Não era uma relação de muito tempo nem muito íntima, evidentemente, mas Miu sentiu-se na obrigação de comparecer.
No instante em que Miu tocou em seu cabelo, Sumire se apaixonou, como se estivesse atravessando um campo e, bang!, um raio caísse direto em sua cabeça. Algo parecido com uma revelação artística. Foi por isso que, a essa altura, não tinha importância para ela que a pessoa por quem se apaixonasse fosse uma mulher.
Acho que Sumire nunca teve o que se chama de um amante. No ensino médio, teve poucos namorados, garotos com quem ia ao cinema ou nadar. Não consigo imaginar nenhuma dessas relações se aprofundando mais que isso. Sumire estava excessivamente concentrada em se tornar uma romancista para realmente se apaixonar por alguém. Se, na escola, chegou a experimentar o sexo — ou algo próximo a isso —, tenho certeza de que foi menos por desejo sexual ou amor do que por curiosidade literária.
— Para ser totalmente franca, o desejo sexual me confunde — Sumire me disse uma vez, fazendo uma cara pensativa. Isso foi logo antes de ela deixar a faculdade, creio eu; ela tinha tomado cinco daiquiris de banana e estava bêbada. — Sabe... como acontece. Como você entende isso?
— O desejo sexual não é uma coisa para se entender — disse eu, dando a minha opinião moderada de sempre. — Simplesmente acontece.
Ela me observou atentamente por um certo tempo, como se eu fosse uma máquina movida por uma fonte de energia até então desconhecida. Perdendo o interesse, olhou para o teto, e a conversa minguou. Não adianta falar disso com ele, ela deve ter concluído.
Sumire tinha nascido em Chigasaki. Sua casa ficava perto do litoral e ela cresceu com o ruído seco do vento cheio de areia soprando contra as suas janelas. Seu pai dirigia uma clínica dentária em Yokohama. Era extraordinariamente bonito, seu nariz perfeito lembrando o de Gregory Peck em Quando fala o coração. Nem Sumire nem seu irmão, segundo ela, herdaram o belo nariz. Sumire achava surpreendente que os genes que tinham produzido esse nariz tivessem desaparecido. Se eles, realmente, estivessem enterrados no fundo do lago dos genes, o mundo seria um lugar mais triste. Esse nariz era belo assim.
O pai de Sumire foi uma figura quase mítica para as mulheres na região de Yokohama que precisavam de tratamento dentário. Na sala de exames, ele sempre usava a boina cirúrgica e uma grande máscara, de modo que a única coisa que o paciente via era um par de olhos e de orelhas. Mesmo assim, era óbvio como era atraente. Seu belo nariz viril dilatava-se insinuantemente sob a máscara, fazendo corar suas pacientes. Em um instante — se o plano de saúde cobria os custos não estava em questão —, elas se apaixonavam.
A mãe de Sumire faleceu de uma deficiência cardíaca congênita quando tinha somente trinta e um anos. Sumire mal completara três. A única recordação de sua mãe era vaga, do cheiro de sua pele. Restaram apenas algumas fotografias dela — uma foto posada, tirada em seu casamento, e um instantâneo tirado logo após o nascimento de Sumire. Sumire costumava pegar o álbum de fotografias e olhar as fotos. A sua mãe era — para não dizer outra coisa — uma pessoa que passava totalmente despercebida. O corte de cabelo curto, comum, roupas que faziam com que a gente se perguntasse no que ela poderia estar pensando, um sorriso constrangido. Se ela desse um passo para trás, se fundiria com a parede. Sumire estava decidida a gravar o rosto de sua mãe em sua memória. Desse modo, um dia, poderia encontrá-la em seus sonhos. Apertariam as mãos e bateriam um bom papo. Mas as coisas não eram tão fáceis assim. Por mais que se esforçasse para se recordar, seu rosto logo desapareceu. Melhor deixar o sonho de lado — se Sumire passasse por ela na rua, em plena luz do dia, não a reconheceria.
O pai de Sumire quase nunca falava em sua falecida esposa. Para começar, ele não era um homem loquaz, em nenhum aspecto da vida, e nunca falava de seus sentimentos — como se fossem uma espécie de infecção na boca que ele quisesse evitar pegar. Sumire não tinha nenhuma lembrança de, algum dia, ter perguntado a seu pai sobre sua mãe. Exceto uma vez, quando ainda era muito pequena. Por algum motivo, ela lhe perguntou: “Como era a minha mãe?” Lembrava-se claramente dessa conversa.
Seu pai desviou o olhar e refletiu por um momento antes de responder: “Ela era boa em se lembrar das coisas”, disse ele. “E tinha uma letra bonita.”
Uma maneira estranha de descrever uma pessoa. Sumire esperava com ansiedade, a primeira página em branco de seu caderno de anotações aberta, por palavras alentadoras que pudessem ser uma fonte de calor e conforto — um pilar, um eixo, para ajudar a sustentar a sua vida aqui, neste terceiro planeta a partir do Sol. Seu pai deveria ter dito alguma coisa em que sua filha pequena pudesse se segurar. Mas o belo pai de Sumire não estava disposto a falar essas palavras, as palavras de que ela mais precisava.
O pai de Sumire casou-se pela segunda vez quando ela tinha seis anos e, dois anos depois, nasceu seu irmão. Sua nova mãe tampouco era bonita. Além disso, não era tão boa em se lembrar das coisas nem a letra era lá muito bonita. Mas era uma pessoa gentil e generosa. Foi uma sorte para a pequena Sumire, a nova enteada. Não, sorte não é a palavra adequada. Afinal, seu pai tinha escolhido a mulher. Ele pode não ter sido o pai ideal, mas, quando se tratava de escolher uma companheira, sabia o que estava fazendo.
O amor de sua madrasta por ela nunca vacilou durante os longos e difíceis anos de sua adolescência, e quando Sumire declarou que ia abandonar a faculdade e escrever romances, ela — embora tivesse uma opinião pessoal sobre o assunto — respeitou seu desejo. Ela sempre achara bom que Sumire gostasse tanto de ler e a estimulara em seus esforços literários.
Sua madrasta acabou convencendo seu pai e decidiram que, até ela completar vinte e oito anos, eles lhe dariam uma pequena mesada. Se, então, ela não conseguisse viver de escrever, teria de se virar por conta própria. Se sua madrasta não tivesse interferido em sua defesa, Sumire talvez tivesse sido jogada — sem um tostão, e sem o manejo social necessário — no deserto de uma realidade, de certa forma, sem senso de humor. A Terra, afinal, não range e geme ao traçar seu caminho em volta do Sol, de modo que os seres humanos possam se divertir e rir.
Sumire conheceu sua Querida Sputnik pouco mais de dois anos depois de ter deixado a universidade.
Sumire vivia em um conjugado em Kichijoji, onde se virava com um mínimo de móveis e o máximo de livros. Levantava-se ao meio-dia, e à tarde, com o mesmo entusiasmo de um peregrino percorrendo seu caminho por montanhas sagradas, dava uma volta no parque Inogashira. Nos dias de sol, sentava-se em um banco no parque, comia pão, fumava um cigarro atrás do outro, lia. Nos dias chuvosos ou frios, ia para um café antiquado, onde se tocava música clássica a todo o volume, afundava-se em um sofá gasto e lia seus livros, a expressão séria enquanto ouvia as sinfonias de Schubert, as cantatas de Bach. À noite, tomava uma cerveja e comprava, para o seu jantar, comida pronta no supermercado.
Por volta das onze da noite, instalava-se à sua mesa. Sempre havia uma garrafa térmica cheia de café quente, uma caneca (que lhe dei em seu aniversário, com a imagem de Snafkin), um maço de Marlboro e um cinzeiro de vidro. É claro que também tinha um processador de texto. Cada tecla com sua própria letra.
Seguia-se um profundo silêncio. Sua mente ficava tão clara quanto um céu noturno de inverno, a Ursa Maior e a Estrela Polar em seus devidos lugares, cintilando intensamente. Tinha tantas coisas a escrever, tantas histórias a contar. Se encontrasse a saída certa, pensamentos e idéias apaixonadas jorrariam como lava, solidificando-se em uma corrente regular de obras inventivas, que o mundo jamais tinha visto. Os olhos das pessoas se esbugalhariam diante da estréia súbita dessa Jovem Escritora Promissora de Raro Talento. Uma foto sua, sorrindo indiferente, seria publicada na seção de arte do jornal, e choveriam editores na sua porta.
Mas nunca aconteceu nada assim. Sumire escreveu algumas obras que tinham um começo. E algumas que tinham um fim. Mas nunca uma que tivesse começo e fim.
Não que ela sofresse do bloqueio do escritor. Longe disso — ela escrevia sem parar, tudo que vinha à sua cabeça. O problema era que escrevia demais. A impressão que dava era de que só precisava cortar as partes excessivas e pronto, mas as coisas não eram tão fáceis assim. Ela nunca conseguia decidir — o que era necessário e o que não era. No dia seguinte, quando relia o que havia imprimido, cada frase parecia absolutamente essencial. Ou então, apagava tudo. Às vezes, em desespero, rasgava em pedacinhos o manuscrito e confiava tudo ao lixo. Se fosse noite de inverno e houvesse uma lareira, certamente haveria com que aquecê-la — imaginem uma cena de La Bohème —, mas no apartamento de Sumire não só não tinha lareira como também não tinha telefone. Sem falar em um espelho decente.
Nos fins de semana, Sumire aparecia no meu apartamento, esboços de seus romances quase caindo de seus braços — os manuscritos afortunados que tinham escapado do massacre. Ainda assim, formavam uma pilha incrível. Sumire só mostrava seus manuscritos a uma única pessoa no mundo. A mim.
Na universidade, eu estava dois anos na sua frente, e os nossos créditos eram diferentes, portanto não havia muitas chances de nos encontrarmos. Nós nos conhecemos por puro acaso. Em uma segunda-feira de maio, um dia depois de uma série de feriados, eu estava no ponto de ônibus em frente ao portão principal da faculdade, lendo um romance de Paul Nizan que tinha descoberto em um sebo. Uma garota baixa do meu lado inclinou-se sobre o livro, deu uma olhada nele e me perguntou: “Por que logo Nizan?” Seu tom era o de alguém que queria provocar uma briga. Como se quisesse chutar alguma coisa e mandá-la pelos ares, mas que, na falta de algo que servisse, atacasse a minha escolha de leitura.
Sumire e eu éramos muito parecidos. Devorar livros era tão natural para nós quanto respirar. Cada momento de folga, nos instalávamos em um canto quieto, virando páginas interminavelmente. Romances japoneses, romances estrangeiros, obras novas, clássicos, obras de vanguarda a best-sellers — contanto que houvesse algo intelectualmente estimulante em um livro, o líamos. Fazíamos ponto em livrarias, passando dias inteiros folheando livros em Kanda, a meca dos sebos de Tóquio. Nunca me deparei com alguém que lesse tão vorazmente — tão profundamente, tão amplamente — quanto Sumire, e estou certo de que ela sentia o mesmo em relação a mim.
Formei-me na época em que ela deixou a faculdade e, depois disso, ela aparecia lá em casa duas ou três vezes por mês. Ocasionalmente, eu ia ao seu apartamento, porém mal dava para duas pessoas se espremerem lá dentro, e por isso era ela que quase sempre ia ao meu. Conversávamos sobre os romances que tínhamos lido e trocávamos livros. Preparei um bocado de jantares. Eu não me importava de cozinhar, e Sumire era do tipo que prefere passar fome a ter de cozinhar. Como agradecimento, levava presentes de seus empregos de meio expediente. Certa vez, trabalhou meio expediente em um laboratório de produtos médicos e farmacêuticos e me levou seis dúzias de camisinhas. Provavelmente tinham sido roubadas do fundo de alguma gaveta.
Os romances — ou, na verdade, fragmentos de romances — que Sumire escrevia eram tão terríveis quanto ela achava. De fato, às vezes, o seu estilo parecia uma colcha de retalhos costurada por um grupo de velhas teimosas, cada uma com seu próprio gosto e queixas, trabalhando em um silêncio soturno. Acrescente-se a isso a sua personalidade, às vezes, maníaco-depressiva, e, ocasionalmente, as coisas escapavam do controle. Como se isso não fosse o bastante, Sumire estava completamente determinada a criar um Romance Completo no estilo do século XIX, uma espécie de mala cheia de todos os fenômenos possíveis para capturar a alma e o destino humano.
Isso dito, a escrita de Sumire tinha um extraordinário frescor, uma tentativa de retratar francamente o que era importante para ela. Além do mais, ela não tentava imitar o estilo de ninguém, e não tentava destilar tudo em algumas pequenas peças preciosas, inteligentes. Era disso que eu mais gostava. Não seria certo reduzir o poder direto de sua escrita só para que assumisse uma forma agradável, confortável. Não havia necessidade de pressa. Ela ainda tinha muito tempo para digressões. Como reza o ditado: “O apressado come cru.”
— A minha cabeça é como um celeiro absurdo, cheio de coisas sobre o que eu quero escrever — disse Sumire. — Imagens, cenas, pedaços de palavras... na minha mente, todos estão brilhando, todos estão vivos. Escreva!, gritam para mim. Uma grande história está prestes a nascer, posso senti-la. Ela me transportará para um lugar totalmente novo. O problema é que, quando me sento à mesa e ponho tudo no papel, percebo que está faltando algo vital. Não cristaliza. Nenhum cristal, somente seixos. E não sou transportada a lugar nenhum.
Franzindo o cenho, Sumire pegou a sua ducentésima qüinquagésima pedra e a lançou no lago.
— Talvez esteja me faltando alguma coisa. Alguma coisa que necessariamente se deve ter para ser um romancista.
Seguiu-se um profundo silêncio. Parecia que estava pedindo a minha humilde opinião.
Depois de algum tempo, comecei a falar.
— Muito tempo atrás, na China, havia cidades circundadas por muros altos, com portões enormes, suntuosos. Os portões não eram apenas portas que permitiam a entrada ou saída das pessoas. Eles tinham uma grande importância. As pessoas acreditavam que a alma da cidade residia nos portões. Ou que, pelo menos, deveria ali residir. Como na Europa, na Idade Média, quando as pessoas sentiam que o coração da cidade ficava em sua catedral e na praça central. Por isso, até hoje, na China, há uma porção de portões maravilhosos ainda de pé. Sabe como os chineses construíam esses portões?
— Não faço a menor idéia — respondeu Sumire.
— As pessoas levavam carretas aos campos em que se travaram batalhas e coletavam os ossos descorados que haviam sido enterrados ou que se espalhavam por ali. A China é uma bonita região, um monte de antigos campos de batalhas, por isso nunca precisaram buscar muito longe. Na entrada da cidade, construíam um portão imenso e o vedavam com os ossos dentro. Esperavam que, homenageando-os dessa maneira, os soldados mortos continuariam a proteger a sua cidade. E tem mais. Quando o portão era concluído, levavam vários cachorros, cortavam suas gargantas e borrifavam o portão com seu sangue. Somente misturando sangue fresco com ossos exangues, a alma antiga dos mortos reviveria magicamente. Pelo menos, essa era a idéia.
Sumire esperou em silêncio que eu prosseguisse.
— Escrever romances é a mesma coisa. Juntam-se os ossos e faz-se o portão, porém não importa o quão maravilhoso se torne, só isso não o torna um romance vivo, que respira. Uma história não é algo deste mundo. Uma verdadeira história requer uma espécie de batismo mágico para ligar o mundo deste lado ao mundo do outro lado.
— O que está querendo dizer é que devo partir sozinha e encontrar o meu próprio cachorro?
Concordei com um movimento da cabeça.
— E derramar sangue fresco?
Sumire mordeu o lábio e refletiu. Lançou outra pedra impotente no lago.
— Eu realmente não quero matar um animal, se puder evitá-lo.
— É uma metáfora — disse eu. — Não precisa matar de verdade coisa nenhuma.
Estávamos sentados, como sempre, lado a lado no parque Inogashira, em seu banco favorito. O lago estendia-se à nossa frente. Era um dia sem vento. As folhas ficavam onde caíam, coladas na superfície da água. Eu sentia o cheiro de uma fogueira a distância. O ar estava perfumado com a fragrância do fim do outono, e sons longínquos eram perfeitamente audíveis.
— Do que você precisa é de tempo e experiência — eu disse.
— Tempo e experiência — refletiu Sumire, e olhou para o céu. — Não há muito o que se possa fazer em relação ao tempo. Simplesmente ele está sempre passando. Mas a experiência? Não me fale dela. Não que tenha orgulho disso, mas não sinto nenhum desejo sexual. E que tipo de experiência pode ter uma escritora, se ela não sente paixão? Seria como um mestre-cuca sem apetite.
— Não sei aonde foi seu desejo sexual — disse eu. — Talvez esteja se escondendo. Ou tenha viajado e se esquecido de voltar para casa. Mas se apaixonar sempre é uma coisa muito louca. Pode acontecer inesperadamente e, simplesmente, arrebatá-la. Quem sabe... talvez, até mesmo, amanhã.
Sumire desviou o olhar do céu para o meu rosto.
— Como um tornado?
— Se você diz.
Ela pensou sobre isso.
— Já chegou a ver um tornado de verdade?
— Não — repliquei. Graças a Deus, Tóquio não era exatamente uma Alameda de Tornados.
Aproximadamente meio ano depois, exatamente como eu havia predito, de súbito, absurdamente, um amor do tipo tornado arrebatou Sumire. Por uma mulher dezessete anos mais velha. A sua Querida Sputnik.
Quando Sumire e Miu se sentaram juntas à mesa na recepção de casamento, fizeram o que qualquer pessoa no mundo faria em tal situação, isto é, apresentaram-se uma à outra. Sumire detestava seu próprio nome e tentava omiti-lo sempre que podia. Mas, quando alguém pergunta o seu nome, a única coisa educada a fazer é ir em frente e dizê-lo.
Segundo seu pai, havia sido sua mãe que escolhera Sumire. Ela adorava a música de Mozart com esse nome e decidira, tempos antes, que, se tivesse uma filha, a chamaria assim. Na estante da sala havia um disco de Mozart, sem dúvida o que sua mãe ouvia. Quando era criança, Sumire colocava o pesado LP na placa giratória e ouvia a música várias vezes. Elisabeth Schwarzkopf era a soprano, Walter Gieseking ao piano. Sumire não entendia a letra, mas, a partir do motivo gracioso, tinha certeza de que a música era uma exaltação às belas violetas que floresciam em um campo. Sumire adorava essa imagem.
No entanto, no ginásio, ela se deparou com a tradução da música para o japonês na biblioteca da escola e ficou chocada. A letra falava da insensível filha de um pastor pisando uma desafortunada violeta em um campo. A garota sequer notou que tinha esmagado a flor. Era baseado em um poema de Goethe, e Sumire não achou nada de redentor na história, nenhuma lição a ser aprendida.
— Como a minha mãe pode ter-me dado um nome tão terrível? — disse Sumire, franzindo o cenho.
Miu ajeitou as pontas do guardanapo no colo, sorriu com neutralidade e olhou para Sumire. Os olhos de Miu eram pretos. Várias cores misturadas, mas eram límpidos.
— Acha a música bonita?
— Sim, a música, em si, é bonita.
— Se a música é linda, acho que isso deveria bastar. Afinal, nem tudo neste mundo pode ser belo, certo? Sua mãe deve ter gostado tanto da música que a letra não a incomodou. E, além do mais, se você continuar a fazer essa cara, vai adquirir rugas permanentes.
Sumire permitiu-se relaxar o cenho.
— Talvez você tenha razão, mas é que fiquei tão decepcionada. Quer dizer, a única coisa palpável que minha mãe me deixou foi esse nome. Além de mim mesma, é claro.
— Bem, eu acho Sumire um nome adorável. Gosto muito — disse Miu e inclinou, levemente, a cabeça, como se para ver as coisas de um novo ângulo. — A propósito, seu pai está aqui, na recepção?
Sumire olhou em volta. O salão era grande, mas seu pai era alto e ela o localizou com facilidade. Estava sentado duas mesas adiante, o rosto virado para o lado, conversando com um homem baixo, idoso, em traje de luto. O seu sorriso era tão confiante e afetuoso que derreteria até mesmo uma geleira. Sob a luz dos castiçais, seu belo nariz erguia-se suavemente, como um camafeu rococó, e até mesmo Sumire, que estava acostumada a vê-lo, comoveu-se com a sua beleza. Seu pai ajustava-se perfeita e genuinamente a esse tipo de reunião. Sua mera presença conferia ao lugar uma atmosfera suntuosa. Como flores em um vaso grande ou uma comprida limusine bem preta.
Quando Miu olhou disfarçadamente para o pai de Sumire, ficou sem fala. Sumire ouviu sua inalação. Como o som de uma cortina de veludo aberta em uma manhã tranqüila, para deixar a luz do sol despertar alguém muito especial. Talvez eu devesse ter trazido binóculos, refletiu. Mas estava acostumada com a reação dramática que a aparência de seu pai provocava nas pessoas — especialmente em mulheres de meia-idade. O que é a beleza? Que valor tem? Sumire sempre achou isso estranho. Mas ninguém nunca lhe respondeu. Provocava sempre esse mesmo efeito, imutável.
— Como é ter um pai tão bonito? — perguntou Miu. — Só por curiosidade.
Sumire deu um suspiro. As pessoas eram tão previsíveis.
— Não posso dizer que goste disso. Todo mundo acha a mesma coisa: que homem bonito! Um verdadeiro gato. Mas a sua filha, bem... não tem muito o que olhar nela, não é? Deve ser o que chamam de atavismo, pensam.
Miu virou-se para ela, puxou seu queixo ligeiramente e olhou seu rosto com atenção. Como se estivesse admirando um quadro em uma galeria de arte.
— Se é assim que se tem sentido até hoje, tem sentido errado — disse Miu. — Você é encantadora. Tanto quanto seu pai. — Estendeu a mão e, sem a menor afetação, tocou levemente na mão de Sumire, que estava sobre a mesa. — Não se dá conta de como é atraente.
O rosto de Sumire ficou quente. Seu coração galopou tão ruidosamente quanto um cavalo enlouquecido em uma ponte de madeira.
Depois disso, Sumire e Miu ficaram absortas em sua própria conversa. A recepção estava animada, com o sortimento de discursos de sempre após o jantar (inclusive do pai de Sumire), e o menu era excelente. Mas nem um tantinho disso ficou na memória de Sumire. A entrada foi carne? Ou peixe? Ela usou garfo e faca e tomou cuidado com suas maneiras? Ou comeu com as mãos e lambeu o prato? Sumire não tinha a menor idéia.
As duas conversaram sobre música. Sumire era uma grande fã de música clássica e, desde pequena, gostava de fuçar a coleção de discos de seu pai. Ela e Miu tinham o mesmo gosto musical, acabaram descobrindo. As duas gostavam de piano e estavam convencidas de que a Sonata nº 32 de Beethoven era o ápice absoluto na história da música. E que a incomparável gravação dessa sonata por Wilhelm Backhaus, para a Decca, estabelecia o padrão interpretativo. Que coisa mais prazerosa, vibrante e alegre!
As gravações monofônicas de Chopin por Vladimir Horowitz, especialmente os scherzos, são emocionantes, não? As interpretações de Friedrich Gulda dos prelúdios de Debussy são espirituosas e adoráveis. O Grieg de Gieseking é, do início ao fim, doce. Vale a pena ouvir o Prokofiev de Sviatoslav Richter repetidamente. A sua interpretação capta, com exatidão, as mudanças rápidas de humor. E as sonatas de Mozart por Wanda Landowska, tão cheias de calor e ternura que é difícil entender por que não foram mais aclamadas.
— O que você faz? — perguntou Miu, depois de concluída a conversa sobre música.
Larguei a faculdade, explicou Sumire, e trabalho meio expediente enquanto desenvolvo meus romances. Que tipo de romances?, perguntou Miu. É difícil explicar, replicou Sumire. Bem, disse Miu, então que tipo de romances você gosta de ler? Se eu listasse todos, ficaríamos aqui para sempre, disse Sumire. Ultimamente, tenho lido Jack Kerouac.
E foi aí que a parte Sputnik da conversa começou.
Exceto alguma ficção leve para passar o tempo, Miu não tocava em romances. Não consigo tirar da cabeça que é tudo inventado, explicou, por isso não consigo sentir nenhuma empatia com os personagens. Sempre fui desse jeito. Por isso a sua leitura limitava-se a livros que tratavam a realidade como realidade. Livros, em sua maioria, que a ajudavam em seu trabalho.
Que tipo de trabalho você faz?, perguntou Sumire.
— Geralmente tem a ver com países estrangeiros — disse Miu. — Treze anos atrás, assumi a firma comercial que meu pai dirigia, já que eu era a filha mais velha. Estudei para ser pianista, mas meu pai faleceu de câncer e minha mãe não era forte fisicamente, além de não falar o japonês muito bem. Meu irmão ainda estava no ensino médio, de modo que decidimos que, por enquanto, eu cuidaria da empresa. Vários parentes dependiam da empresa para viver, portanto eu não podia, simplesmente, deixar que se arruinasse.
Pontuou tudo isso com um suspiro.
— A empresa de meu pai importava, originalmente, alimentos secos e ervas medicinais da Coréia, mas agora negocia uma grande variedade de coisas. Até mesmo acessórios de computadores. Continuo oficialmente como a presidente da companhia, mas o meu marido e o meu irmão mais novo a assumiram, de modo que não preciso ir ao escritório com muita freqüência. Agora, tenho o meu próprio negócio.
— Fazendo o quê?
— Importo vinho, principalmente. Ocasionalmente, também organizo concertos. Viajo muito para a Europa, já que esse tipo de negócio depende de conexões pessoais. É por isso que sou capaz de, sozinha, competir com algumas firmas importantes. Mas todo esse trabalho de estabelecer relações profissionais absorve muito tempo e energia. Mas isso é assim mesmo, suponho... — Ergueu os olhos, como se acabasse de se lembrar de alguma coisa. — A propósito, você fala inglês?
— Falar inglês não é a minha melhor qualidade, mas falo, acho. Em compensação, adoro ler inglês.
— Sabe usar o computador?
— Não, realmente, mas tenho usado um processador de texto, e estou certa que posso melhorar.
— E dirigir?
Sumire negou balançando a cabeça. No ano em que começou a faculdade, tentou entrar de ré com a caminhonete Volvo de seu pai na garagem e amassou a porta em uma coluna. Desde então, não dirigira mais.
— Está bem. Pode explicar em, no máximo, duzentas palavras a diferença entre um signo e um símbolo?
Sumire ergueu o guardanapo do colo, limpou delicadamente a boca e tornou a colocá-lo no colo. Aonde essa mulher queria chegar?
— Um signo e um símbolo?
— Nada especial. É apenas um exemplo.
Sumire, de novo, balançou a cabeça.
— Não faço idéia.
Miu sorriu.
— Se não se importa, gostaria que me dissesse que tipo de habilidades tem. No que é, especialmente, boa. Além de ler um monte de romances e ouvir música.
Sumire pôs, calmamente, o garfo e a faca no prato, olhou fixamente o espaço anônimo sobre a mesa e considerou a pergunta.
— Em vez de dizer em que sou boa, talvez seja mais fácil listar as coisas em que não sou. Não consigo cozinhar nem limpar a casa. O meu quarto é uma bagunça, e estou sempre perdendo as coisas. Adoro música, mas não consigo cantar uma nota sequer. Sou desajeitada e mal consigo dar um ponto com a agulha de costurar. O meu senso de direção é o fim, e confundo a direita com a esquerda quase o tempo todo. Quando me irrito, tendo a quebrar coisas. Pratos e lápis, despertadores. Depois, me arrependo, mas na hora não consigo me controlar. Não tenho dinheiro no banco. Retraio-me sem motivos, e quase não tenho amigos com quem conversar.
Sumire respirou e prosseguiu:
— No entanto, posso digitar rápido. Não sou atlética, mas, tirando caxumba, nunca fiquei doente em toda a minha vida. Sou sempre pontual, nunca me atraso para um compromisso. Como quase de tudo. Nunca assisto à tevê. E exceto me gabar um pouquinho, nunca me justifico. Mais ou menos uma vez por mês, meus ombros ficam tão tesos que não consigo dormir, mas o resto do tempo durmo que nem uma pedra. Minhas regras são brandas. Não tenho nenhuma cárie. E o meu espanhol é o.k.
Miu levantou os olhos.
— Você fala espanhol?
Quando Sumire estava na escola, passou um mês na casa de seu tio, um empresário que havia sido designado para a cidade do México. Aproveitando a oportunidade, ela estudou espanhol intensivamente. Também fizera espanhol na universidade.
Miu segurou o pé de sua taça de vinho com dois dedos e o girou ligeiramente, como se girasse um parafuso em uma máquina.
— O que acha de trabalhar comigo por algum tempo?
— Trabalhar? — Sem saber que expressão caberia melhor nessa situação, Sumire teve de recorrer à sua expressão séria de sempre. — Nunca tive um trabalho de verdade na vida, e não sei nem mesmo se seria capaz de atender direito um telefone. Evito pegar trem antes das dez da manhã e tenho certeza de que você pode perceber, conversando comigo, que não falo educadamente.
— Nada disso importa — disse Miu simplesmente. — A propósito, você está livre amanhã por volta do meio-dia?
Sumire disse que sim com a cabeça. Nem precisou pensar para responder. Tempo livre, afinal, era o seu principal trunfo.
— Então, por que não almoçamos juntas? Vou reservar um lugar tranqüilo em um restaurante perto — disse Miu. Ergueu a taça de vinho tinto que o garçom acabara de servir, examinou-a atentamente, aspirou o aroma, depois, deu o primeiro gole. A série toda de movimentos tinha o tipo de elegância natural de uma cadência breve que um pianista tivesse refinado ao longo dos anos.
— Conversaremos sobre os detalhes amanhã. Hoje, eu só quero me divertir. Não sei de onde vem, mas este Bordeaux é muito bom.
Sumire relaxou a expressão grave e perguntou direto:
— Mas você acaba de me conhecer, e não sabe praticamente nada a meu respeito.
— É verdade. Talvez não — admitiu Miu.
— Por que acha que posso ser útil para você?
Miu girou o vinho na taça.
— Sempre julgo as pessoas pelo rosto — disse ela. — O que quer dizer que gosto do seu, da maneira como olha.
Sumire sentiu o ar à sua volta se tornar rarefeito. O bico de seus seios se enrijeceram sob o vestido. Pegou mecanicamente um copo de água e o tomou inteiro. O garçom, vigilante, pôs-se furtivamente atrás dela e encheu seu copo com mais água e gelo. Na mente confusa de Sumire, o tinido dos cubos de gelo ecoaram entrecortados, como os gemidos de um assaltante escondendo-se em uma caverna.
Devo estar apaixonada por essa mulher, Sumire percebeu com um susto. Não havia erro. O gelo é frio; as rosas são vermelhas; estou apaixonada. E este amor vai me levar a algum lugar. A corrente é poderosa demais; não tenho escolha. Pode muito bem ser um lugar especial, onde nunca estive antes. O perigo pode estar emboscado lá, algo que talvez acabe me ferindo profundamente, fatalmente. Posso acabar perdendo tudo. Mas não tem volta. Só me resta seguir a corrente. Mesmo que signifique ser consumida, desaparecer para sempre.
Agora, depois do fato, sei que seu palpite estava certo. Cento e vinte por cento certo.