2

Mais ou menos duas semanas depois da recepção de casamento, um domingo, logo antes do amanhecer, Sumire me ligou. Naturalmente, eu estava dormindo. Tão morto para o mundo quanto uma bigorna. Na semana anterior, eu tinha sido encarregado de organizar uma reunião e só conseguira cochilar algumas horas, enquanto juntava todos os documentos importantes (leia-se insignificantes) de que precisávamos. No fim de semana, tudo o que eu queria era dormir. Foi quando, é claro, o telefone tocou.

— Estava dormindo? — investigou Sumire.

— Humm — gemi e, instintivamente, relanceei os olhos ao despertador do lado da cama. O relógio tinha os ponteiros enormes e fluorescentes, mas não consegui ver as horas. A imagem projetada em minha retina e a parte do meu cérebro que a processava estavam fora de sincronia, como uma senhora idosa lutando, em vão, para enfiar a linha na agulha. O que consegui entender foi que estava tudo escuro e semelhante ao “Noite escura da alma”, de Fitzgerald.

— Vai amanhecer daqui a pouco.

— Hummm — murmurei.

— Do lado de onde moro, tem um homem que cria galos. Deve tê-los há anos e anos. Em meia hora, mais ou menos, estarão cantando alucinadamente. É a minha hora do dia favorita. O céu escuro como breu começando a clarear a leste, os galos cantando com todas as suas forças, como se se vingassem de alguém. Tem galo aí perto?

No lado de cá da linha, balancei a cabeça ligeiramente.

— Estou ligando da cabine telefônica perto do parque.

— Hum — eu disse. Havia uma cabine a cerca de duzentos metros de seu apartamento. Como Sumire não tinha telefone, sempre precisava ir até lá para ligar. Uma cabine de telefone comum.

— Sei que não devia ligar tão cedo. Sinto muito mesmo. Uma hora em que nem os galos começaram a cantar. Em que a lua deplorável pende no canto oriental do céu como um rim gasto. Mas ponha-se no meu lugar: tive de atravessar o breu até chegar aqui. Com este cartão de telefone que ganhei no casamento do meu primo preso à minha mão. Com uma foto do feliz casal de mãos dadas. Pode imaginar como é deprimente? Minhas meias nem mesmo combinam, por Deus! Uma tem a imagem do Mickey Mouse, a outra é lisa, de lã. O meu quarto é um completo desastre, não consigo achar nada lá. Não quero dizer isso em voz alta, mas você não ia acreditar em como minhas calcinhas são horríveis. Duvido que até mesmo um desses ladrões de calcinhas tocasse nelas. Se algum pervertido me matasse, eu nunca superaria essa vergonha. Não estou pedindo compreensão e simpatia, mas seria gentil se pudesse me responder com alguma coisa a mais. Outra coisa que não essas suas interjeições frias, ohs e hums. Que tal uma conjunção? Uma conjunção seria legal. Um todavia ou um mas.

— No entanto — eu disse. Eu estava exausto e me sentia como se estivesse no meio de um sonho.

— No entanto — repetiu ela. — O.k., isso serve. Um pequeno passo para um homem. Um passo muito pequeno, no entanto.

— Bem, está querendo alguma coisa?

— Exatamente, quero que me diga uma coisa. Foi por isso que liguei — disse Sumire. Pigarreou levemente. — O que quero saber é: qual é a diferença entre signo e símbolo?

Tive uma sensação esquisita, como se algo desfilasse silenciosamente por minha cabeça.

— Pode repetir a pergunta?

Ela repetiu.

— Qual é a diferença entre signo e símbolo?

Sentei-me na cama, passei o telefone da mão esquerda para a direita.

— Vamos ver se entendi direito. Você está me ligando porque quer descobrir a diferença entre um signo e um símbolo. No domingo, antes do amanhecer. Hum...

— Às quatro e quinze da manhã, para ser exata — disse ela. — Isso estava me incomodando. Qual poderia ser a diferença entre um signo e um símbolo? Alguém me fez esta pergunta há algumas semanas, e não consigo tirá-la da cabeça. Estava tirando a roupa para ir dormir e, de repente, me lembrei. Não posso dormir até descobrir. Pode explicar isso? A diferença entre um signo e um símbolo?

— Deixe-me pensar — disse eu, e olhei fixamente para o teto. Mesmo quando estava completamente consciente, explicar coisas logicamente a Sumire nunca era fácil. — O imperador é um símbolo do Japão. Está acompanhando?

— De certa forma — replicou ela.

— “De certa forma” não impede que seja assim. É o que está dito na constituição japonesa — disse eu, o mais calmamente possível. — Não há espaço para discussões nem dúvidas. Tem de aceitar isso, ou não chegaremos a lugar nenhum.

— Saquei. Eu aceito.

— Obrigado. Então... o imperador é um símbolo do Japão. Mas isso não significa que o Japão e o imperador sejam equivalentes. Está acompanhando?

— Não entendi.

— O.k., e isto: a flecha aponta em uma única direção. O imperador é um símbolo do Japão, mas o Japão não é um símbolo do imperador. Isso você entende, não?

— Acho que sim.

— Digamos, por exemplo, que você escreva “O imperador é um signo do Japão”. Isso torna os dois equivalentes. Por isso, quando disséssemos “Japão”, também estaríamos dizendo “o imperador”. Em outras palavras, seriam intercambiáveis. O mesmo que dizer “a é igual a b, logo b é igual a a”. Signo é isso.

— Está dizendo que pode trocar o imperador pelo Japão? Pode fazer isso?

— Não é isso o que eu disse — repliquei, sacudindo a cabeça vigorosamente do lado de cá da linha. — Estou apenas tentando explicar da melhor forma possível. Não estou planejando trocar o imperador pelo Japão. É simplesmente uma maneira de explicar.

— Humm — disse Sumire. — Acho que entendi. Uma imagem. É como a diferença entre uma rua de mão única e uma de mão dupla.

— Para o nosso propósito, está próximo.

— Sempre fico perplexa com como você é bom em explicar as coisas.

— É o meu trabalho — repliquei. Minhas palavras pareceram, de certa forma, chocas e rançosas. — Você devia, um dia, tentar ser professora do ensino fundamental. Não pode imaginar o tipo de perguntas que me fazem. “Por que o mundo não é quadrado?” “Por que as lulas têm dez braços e não oito?” Aprendi a dar resposta a quase tudo.

— Você deve ser um grande professor.

— Tenho minhas dúvidas — eu disse. Eu realmente tinha dúvidas.

— A propósito, por que as lulas têm dez braços e não oito?

— Posso voltar a dormir agora? Estou morto. Só segurar este telefone já me faz sentir como se estivesse segurando um muro de pedra se desmoronando.

— Sabe... — disse Sumire, deixando uma pausa delicada intervir, como um velho guarda-cancela fechando, com um estampido, a passagem de nível da ferrovia, logo antes de o trem com destino a St. Petersburgo passar. — É realmente uma tolice dizer isto, mas estou apaixonada.

— Ahmm — disse eu, passando o telefone de novo para a mão esquerda. Dava para ouvir a respiração dela. Eu não tinha a menor idéia de como deveria responder. E como quase sempre acontece quando não sei o que dizer, deixei escapulir um comentário meio descabido. — Não por mim, suponho.

— Não por você — respondeu Sumire. Ouvi o som de um isqueiro acendendo um cigarro. — Está livre, hoje? Gostaria de falar mais.

— Quer dizer, sobre você estar apaixonada por outra pessoa que não eu?

— Exato — disse ela. — Sobre eu estar perdidamente apaixonada por outra pessoa que não você.

Prendi o telefone entre a cabeça e o ombro, e me espreguicei.

— Estarei livre no fim da tarde.

— Passo às cinco — disse Sumire. Em seguida, acrescentou, como se tivesse refletido. — Obrigada.

— Por quê?

— Por ter sido gentil o bastante para responder à minha pergunta em plena madrugada.

Dei uma resposta vaga, desliguei e apaguei a luz. Fiquei de novo no breu. Logo antes de adormecer, pensei em seu obrigada ao se despedir e se já tinha escutado essa palavra vindo dela antes. Talvez tivesse, uma vez, mas não conseguia me lembrar.

Sumire chegou ao meu apartamento um pouco antes das cinco. Não a reconheci. Havia sofrido uma completa mudança de estilo. O cabelo curto estava cortado na moda, a franja ainda com vestígios do recorte da tesoura. Vestia um cardigã leve sobre um vestido azul-marinho de mangas curtas e sapatos pretos de verniz de salto médio. Estava, até mesmo, com meias de seda. Meias? Roupa de mulher não era exatamente o meu forte, mas estava óbvio que tudo que ela estava usando era muito caro. Vestida desse jeito, Sumire parecia educada e graciosa. Para dizer a verdade, tudo lhe caía muito bem. Embora eu preferisse a Sumire excêntrica de antes. Cada qual com seu gosto.

— Nada mal — disse eu, dando uma olhada rápida. — Mas não sei o que o velho e bom Jack Kerouac diria.

Sumire sorriu, um sorriso muito-mais-ligeiramente sofisticado do que o usual.

— Por que não vamos dar uma volta?

Descemos lado a lado o bulevar da Universidade em direção à estação e paramos em nosso café preferido. Sumire pediu o pedaço de bolo e café de sempre. Era um claro entardecer de domingo, quase fim de abril. As lojas de flores estavam repletas de crocos e tulipas. Soprava uma brisa delicada, fazendo a bainha das saias das garotas farfalhar suavemente e carregando com ela a fragrância ociosa das árvores jovens.

Cruzei as mãos atrás da cabeça e observei Sumire devorando vagarosamente, embora avidamente, seu bolo. Dos pequenos alto-falantes no teto da cafeteria, Astrud Gilberto cantava uma antiga música bossa-nova. “Leve-me para Aruanda”, cantava ela. Fechei os olhos e o tinido das xícaras e pires ressoaram como o bramido de um mar distante. Aruanda... como será lá?, eu me perguntei.

— Ainda com sono?

— Agora não — respondi, abrindo os olhos.

— Você está bem?

— Estou. Tão bem quanto o rio Moldau na primavera.

Sumire encarou por um certo tempo o prato vazio, onde antes estivera seu pedaço de bolo. Olhou para mim.

— Não acha estranho eu estar usando estas roupas?

— Talvez.

— Não as comprei. Não tenho dinheiro para isso. Há uma história por trás.

— Importa-se que eu tente adivinhar a história?

— Vá em frente — disse ela.

— Lá estava você com a sua roupa Jack Kerouac xumbrega, o cigarro pendurado na boca, lavando as mãos em algum banheiro público, quando uma mulher de um metro e cinqüenta e seis centímetros entrou correndo, esbaforida, usando a sua melhor roupa, e disse: “Por favor, você tem de me ajudar! Não tenho tempo para explicar, mas estou sendo perseguida por algumas pessoas terríveis. Pode trocar de roupa comigo? Se trocarmos a roupa, poderei escapar deles. Graças a Deus, temos o mesmo manequim.” Exatamente como um filme de ação de Hong Kong.

Sumire riu.

— E acontece que a outra mulher usava sapatos 35 e manequim 38. Por pura coincidência.

— E imediatamente, trocaram as roupas, até a sua calcinha Mickey Mouse.

— São as minhas meias que têm o Mickey Mouse, e não as minhas calcinhas.

— Não importa — disse eu.

— Humm — refletiu Sumire. — Na verdade, você não está muito longe.

— O quão longe?

Ela inclinou-se à frente, sobre a mesa.

— É uma longa história. Gostaria de escutá-la?

— Já que veio até aqui para me contar, tenho a nítida sensação de que não importa muito se eu gostaria ou não. De qualquer jeito, vá em frente. Acrescente um prelúdio, se quiser. E uma “Dança dos espíritos bem-aventurados”.[2] Eu não me importo.

Ela começou a falar. Sobre a recepção de casamento de seu primo e sobre o almoço com Miu em Aoyama. E foi uma longa história.