Li os dois documentos duas vezes, primeiro uma olhada rápida, depois devagar, prestando atenção aos detalhes, gravando-os na minha mente. Os documentos eram, definitivamente, de Sumire; o fraseado era bem o dela. No entanto, havia, de modo geral, algo diferente no tom, alguma coisa com que eu não consegui atinar. Era mais contido, mais distanciado. Mas não havia dúvida — Sumire havia escrito os dois.
Depois de um momento de hesitação, pus o disquete na minha bolsa. Se Sumire voltasse sem incidentes, eu o recolocaria no lugar. O problema era o que fazer se ela não retornasse. Se alguém mexesse em suas coisas, fatalmente daria com o disquete, e eu não suportava pensar em outros olhos encontrando o que eu acabara de ler.
Depois de ler os documentos, tive de sair da casa. Vesti uma camisa limpa, deixei o chalé e desci a escadaria para a cidade. Troquei um traveler’s check de cem dólares, comprei um tablóide em inglês, no quiosque, e me sentei sob um pára-sol em um café para lê-lo. Um garçom sonolento anotou meu pedido de limonada e torrada com queijo derretido. Ele anotou-o com um toco de lápis, sem a menor pressa. O suor tinha filtrado pelas costas de sua camisa, formando uma grande mancha. A mancha parecia estar enviando uma mensagem, mas eu não consegui decifrá-la.
Folheei, mecanicamente, a metade do jornal, depois observei, distraído, a cena no porto. Um cachorro preto e magricela surgiu não sei de onde, farejou minhas pernas e então, perdendo o interesse, afastou-se lentamente. As pessoas passavam a tarde lânguida de verão sem sair do lugar. Os únicos que pareciam se mover eram o garçom e o cachorro, se bem que eu tivesse dúvidas de por quanto tempo continuariam assim. O velho do quiosque em que comprei o jornal tinha adormecido rapidamente sob o guarda-sol, as pernas abertas. Na praça, a estátua do herói permanecia impassível como sempre, de costas para a intensa luz do sol.
Refresquei as palmas das mãos e a testa com o copo de limonada gelada, revolvendo, na mente, as conexões possíveis entre o desaparecimento de Sumire e o que ela tinha escrito.
Sumire não escrevera durante muito tempo. Quando conheceu Miu, na recepção de casamento, seu desejo pela escrita havia voado pela janela. Mas ali, naquela pequena ilha, ela havia produzido esses dois textos em um breve período. Um feito nada insignificante, completar tanto em tão poucos dias. Alguma coisa deve ter motivado Sumire a sentar-se à mesa e escrever. Onde estava a motivação?
Ainda mais relevante, que tema ligava esses dois documentos? Olhei para cima, observei os pássaros pousados no cais e refleti um pouco.
Estava quente demais para pensar sobre questões complicadas. Na verdade, eu estava cansado e confuso. Porém, como se reunisse e organizasse o que restara de um exército derrotado — menos os tambores e cornetas —, reorganizei meus pensamentos dispersos. Com a mente concentrada, comecei a juntar todas as partes.
“O que é importante aqui”, sussurrei para mim mesmo, “não são as coisas grandes que outras pessoas pensaram, mas as pequenas coisas que você, você próprio, pensou.” Minha máxima padrão que ensinei aos meus alunos. Mas seria isso verdade? É fácil falar, mas pôr em prática é outra história. É difícil começar, até mesmo, com as coisas pequenas, imagine só o Grande Quadro. Ou, talvez, quanto menor a noção, mais difícil é compreendê-la. Além do mais, não ajudava nada eu estar tão longe de casa.
O sonho de Sumire. A divisão de Miu.
São dois mundos diferentes, percebi. Esse é o elemento comum aqui.
Documento 1: Relaciona-se ao sonho que Sumire teve. Ela está subindo uma longa escada para ir ao encontro de sua mãe morta. Mas, no momento em que chega, sua mãe já está retornando para o outro lado. E Sumire não consegue detê-la. E ela é deixada no topo de uma torre, cercada de objetos de um mundo diferente. Sumire teve vários sonhos semelhantes.
Documento 2: Esse refere-se às experiências estranhas que Miu teve há quatorze anos. Ela ficou presa, durante uma noite inteira, na roda-gigante de um parque de diversões em uma pequena cidade suíça e, ao olhar com o binóculo para o seu próprio quarto, viu um segundo eu lá. Um doppelgänger. E essa experiência destruiu Miu como pessoa — ou, pelo menos, tornou palpável essa destruição. Como Miu colocou, ela foi dividida em duas, com um espelho entre os dois eus. Sumire tinha convencido Miu a contar a história e a transcreveu na melhor forma de que foi capaz.
Este lado — o outro lado. Esse era o fio comum. O movimento de um lado para o outro. Sumire deve ter sido motivada por isso, e o bastante para passar tanto tempo o transcrevendo. Usando suas próprias palavras, escrever tudo isso a ajudava a pensar.
O garçom veio limpar os restos de minha torrada, e eu pedi mais um copo de limonada. Com muito gelo, eu disse. Quando ele trouxe o refresco, bebi um gole e usei o copo, de novo, para refrescar a testa.
“E se Miu não me aceitar, o que vai ser?” Sumire tinha escrito. “Pensarei nisso quando for a hora. Sangue deve ser derramado. Afiarei minha faca, deixá-la pronta para cortar a garganta de um cachorro em algum lugar.”
O que ela estava tentando transmitir? Estaria insinuando que poderia se matar? Eu não podia aceitar isso. Suas palavras não exalavam o cheiro acre da morte. O que eu sentia era mais a vontade de seguir adiante, de lutar por um recomeço. Cachorros e sangue são apenas metáforas, como eu tinha lhe explicado naquele banco no parque Inogashira. Elas extraem seu significado das forças mágicas vitais. A história sobre os portões chineses era uma metáfora de como uma história captura essa mágica.
Pronta para cortar a garganta de um cachorro em algum lugar.
Em algum lugar?
Meus pensamentos chocaram-se contra uma parede sólida. Um impasse total.
Aonde Sumire poderia ter ido? Há algum lugar, nesta ilha, a que ela precisava ir?
Não conseguia tirar da cabeça a imagem de Sumire caindo em um poço, em alguma área remota, e esperando socorro sozinha. Ferida, sozinha, morrendo de fome e sede. Esse pensamento quase me deixou louco.
A polícia tinha deixado claro que não existia um único poço na ilha. Tampouco tinham ouvido falar de um buraco perto da cidade. Se houvesse algum, seríamos os primeiros a saber, declararam. Eu tive de concordar.
Decidi arriscar uma teoria.
Sumire tinha passado para o outro lado.
Isso explicaria quase tudo. Sumire tinha atravessado o espelho e viajado para o outro lado. Para se encontrar com a Miu que estava lá. Se a Miu do lado de cá a rejeitava, não seria a coisa mais lógica a fazer?
Rememorei o que ela tinha escrito: “O que fazer para evitar uma colisão? Logicamente, é fácil. A resposta é sonhos. Sonhar sem parar. Entrar no mundo dos sonhos e não sair nunca mais. Viver lá para o resto da vida.”
No entanto, fica uma pergunta. Uma pergunta importante. Como se chega lá?
Em simples termos lógicos, é fácil. Embora explicá-lo não.
Eu tinha voltado para onde começara.
Pensei em Tóquio. Em meu apartamento, a escola em que eu ensinava, o lixo da cozinha que eu tinha jogado furtivamente em uma lata de lixo na estação. Só estava fora havia dois dias, mas o Japão já parecia um mundo diferente. O semestre começaria em uma semana. Imaginei-me em pé diante de trinta e cinco alunos. Dessa distância, o pensamento de me ver ensinando alguém — mesmo crianças de dez anos — pareceu absurdo.
Tirei os óculos escuros, enxuguei o suor da testa com um lenço e tornei a pôr os óculos. E observei as aves marinhas.
Pensei em Sumire. Sobre a ereção colossal que tive na vez que me sentei do seu lado quando se mudou para o novo apartamento. Um tipo impressionante, rijo como uma rocha, de ereção que eu nunca tinha experimentado antes. Como se o meu corpo fosse explodir. Na hora, em minha imaginação — algo como o mundo dos sonhos sobre o qual Sumire escreveu —, fiz amor com ela. E a sensação foi muito mais real do que qualquer sexo que eu já tinha feito.
Tomei um pouco da limonada para limpar a garganta.
Retomei a minha hipótese, dando um passo à frente. Sumire, de alguma maneira, encontrou uma saída. Que tipo de saída e como a descobriu eu não tinha como saber. Vou deixar isso para depois. Suponhamos que seja uma espécie de porta. Fechei os olhos e evoquei a imagem — uma imagem elaborada de com que essa porta se parecia. Simplesmente uma porta comum, parte de uma parede comum. Sumire encontrou, por acaso, essa porta, girou a maçaneta e passou para fora — deste lado para o outro lado. Vestida apenas com um pijama de seda e sandálias.
O que há além dessa porta está além da minha capacidade de imaginar. A porta fechou-se e Sumire não pôde retornar.
Voltei ao chalé e preparei um jantar simples com coisas que encontrei na geladeira. Tomate e massa com manjericão, uma salada, uma cerveja Amstel. Sentei-me na varanda, absorto em pensamentos. Ou, talvez, pensando em nada. Ninguém ligou. Miu talvez tentasse ligar de Atenas, mas não se podia contar com que o telefone completasse a ligação.
A cada instante, o azul do céu tornava-se mais escuro, uma grande lua circular levantava-se do mar, algumas estrelas perfuravam o céu. Uma brisa soprava nas encostas, farfalhando os hibiscos. Na ponta do píer, o farol despovoado piscava de quando em quando a sua lanterna de aparência antiga. As pessoas desciam, lentamente, a encosta, conduzindo burros. Sua conversa em voz alta tornava-se mais próxima, depois desaparecia a distância. Observei tudo em silêncio, essa cena estrangeira me parecendo perfeitamente natural.
O telefone acabou não tocando e Sumire não apareceu. Calmamente, delicadamente, o tempo passava, a noite se aprofundava. Peguei umas duas fitas no quarto de Sumire e as toquei no som que estava na sala. Uma delas era uma coletânea de canções de Mozart. Elisabeth Schwarzkopf e Walter Gieseking (p), dizia a etiqueta escrita à mão. Não conheço muito de música clássica, mas bastou ouvi-la uma vez para sentir como era adorável. O estilo do canto era um pouco antiquado, mas me lembrou a leitura de uma memorável e bela prosa — que pede que se sente ereto e preste atenção. Os intérpretes, parecia, estavam logo ali, na minha frente, o fraseado delicado se intensificando, depois se retraindo, para tornar a se intensificar. Uma das músicas deveria ser Sumire. Afundei na cadeira, fechei os olhos e compartilhei essa música com a minha amiga desaparecida.
Fui despertado por música. Uma música distante, quase inaudível. De maneira regular, como um marinheiro sem rosto puxando uma âncora do fundo do mar, o som fraco me fez recobrar os sentidos. Sentei-me na cama, inclinei-me na direção da janela aberta e escutei com atenção. Definitivamente, era música. O relógio de pulso do lado da cama mostrava que passava da uma da manhã. Música? A essa hora da noite?
Vesti a calça e uma camisa, pus os sapatos e fui lá para fora. As luzes na vizinhança estavam todas apagadas, as ruas desertas. Sem vento, nem mesmo o ruído das ondas. Somente o luar banhando a terra. Fiquei ali, escutando. O mais estranho era que a música parecia vir do cume das montanhas. Não havia nenhuma aldeia nas montanhas íngremes, apenas alguns poucos pastores e mosteiros, onde monges levavam sua vida enclausurada. Era difícil imaginar qualquer um dos dois grupos realizando um festival a essa hora.
Lá fora, a música era mais audível. Eu não consegui compreender a melodia, mas, pelo ritmo, era claramente grega. Tinha o som irregular, agudo, da música ao vivo, não de algo tocado por alto-falantes.
A essa altura, eu estava totalmente desperto. O ar da noite de verão era agradável, com uma profundidade misteriosa. Se eu não estivesse preocupado com Sumire, talvez tivesse percebido uma celebração. Apoiei as mãos nos quadris, estiquei-me, olhando para o céu e respirei fundo. O frescor da noite me inundou. De repente, ocorreu-me um pensamento — talvez, neste exato momento, Sumire esteja ouvindo a mesma música.
Decidi caminhar um pouco na direção da música. Tinha de descobrir de onde vinha, quem a estava tocando. A estrada para o cume da montanha era a mesma que eu tinha percorrido pela manhã para ir à praia, de modo que sabia o caminho. Vou até onde puder, decidi.
O luar intenso iluminava tudo, tornando fácil a caminhada. Criava sombras complexas entre os rochedos, tingindo o solo com matizes inesperados. Toda vez que a sola do meu tênis pisava em um seixo, o som era amplificado. A música se tornava mais pronunciada, à medida que eu subia a encosta. Como havia suposto, vinha do cimo da montanha. Pude distinguir um certo tipo de percussão instrumental, uma espécie de alaúde, um acordeão e uma flauta. Possivelmente um violão. Exceto isso, não ouvi mais nada. Ninguém cantando, nenhum grito. Apenas a música, tocando interminavelmente em um andamento neutro, quase monótono.
Eu queria ver o que estava acontecendo no cimo da montanha, mas, ao mesmo tempo, achava que devia me manter a distância. Curiosidade irreprimível disputando com um medo instintivo. Ainda assim, tive de seguir adiante. Sentia como se estivesse vivendo um sonho. Faltava o princípio que tornava outras escolhas possíveis. Ou era a escolha que tornava o princípio possível que estava faltando?
Considerando-se o pouco que eu sabia, Sumire teria, alguns dias antes, despertado com a mesma música, a curiosidade dominando-a enquanto subia a encosta, de pijama.
Parei e me virei para trás. A encosta descia sinuosa e pálida em direção à cidade, como rastros de um inseto gigantesco. Olhei para o céu, sob o luar, e relanceei os olhos para a palma da minha mão. Com um lampejo de compreensão, percebi que não era mais a minha mão. Não posso explicar. Mas com um olhar de relance eu soube. A minha mão não era mais a minha mão, as minhas pernas não eram mais as minhas pernas.
Banhado pela luz pálida da lua, meu corpo, como um boneco de gesso, havia perdido todo o calor da vida. Como se um feiticeiro vodu tivesse me lançado um sortilégio, insuflando a minha vida transitória nessa massa de barro. A centelha de vida tinha desaparecido. A minha vida real tinha adormecido em algum lugar, e alguém sem rosto a estava enfiando em uma mala, preparando-se para partir.
Um calafrio horripilante me atravessou e fiquei sem ar. Alguém tinha reordenado as minhas células, desatado os fios que mantinham a minha mente íntegra. Não consegui raciocinar direito. Tudo que consegui foi retroceder o mais rápido possível ao meu refúgio habitual. Respirei bem fundo, afundando no mar de consciência, bem fundo. Afastando a água pesada, mergulhei rapidamente e me agarrei a uma rocha enorme com os dois braços. A água comprimia meus tímpanos. Fechei meus olhos bem apertados, prendi a respiração, resistindo. Quando tomei a decisão, não foi tão difícil. Fui-me acostumando — à pressão da água, à falta de ar, à escuridão paralisante, aos sinais de caos emitidos. Era algo com que eu tinha lutado repetidamente quando criança.
O tempo se inverteu, deu a volta para trás, ruiu, reordenou-se. O mundo expandia-se interminavelmente — e, ainda assim, era definido e limitado. Imagens nítidas — só as imagens — percorriam corredores escuros, como águas-vivas, como almas à deriva. Mas revesti-me de coragem e não olhei para elas. Se as reconhecesse, nem que fosse só um pouco, adquiririam um significado. O significado estava fixado no temporal, e o temporal estava tentando me obrigar a subir à superfície. Fechei o acesso à minha mente, esperando a procissão passar.
Por quanto tempo permaneci assim, não sei. Quando voltei à tona, abri os olhos e respirei silenciosamente, a música já tinha cessado. A performance enigmática tinha se encerrado. Escutei com atenção. Não ouvi nada. Absolutamente nada. Nenhuma música, nenhuma voz, nenhum farfalhar do vento.
Tentei ver as horas, mas estava sem relógio. Tinha deixado o meu na mesa-de-cabeceira.
O céu, agora, estava cheio de estrelas. Ou seria imaginação minha? O céu parecia ter-se transformado em algo diferente. A sensação estranha de alienação que eu tinha sentido havia desaparecido. Espreguicei-me, curvei meus braços, meus dedos. Nenhuma sensação de estarem fora do lugar. Minhas axilas estavam úmidas, mas isso era tudo.
Levantei-me da relva e prossegui a subida. Se tinha chegado até ali, podia muito bem atingir o cume. Teria realmente havido música lá? Tinha de ver por mim mesmo, ainda que só restassem vestígios indistintos. Em cinco minutos, cheguei ao alto. Em direção ao sul, a colina pendia para o mar, para o porto, para a cidade adormecida. Alguns postes de luz iluminavam a estrada litorânea. O outro lado da montanha estava coberto pelas trevas, nenhuma luz visível. Olhei fixamente para o escuro e, finalmente, divisei uma cadeia de montanhas, sob a luz da lua. Além dela, as trevas eram ainda mais intensas. E ali, à minha volta, nenhum sinal de que um animado festival tivesse acontecido há tão pouco tempo.
Apesar de seu eco persistir bem no fundo de minha cabeça, passei a nem mesmo ter certeza de que realmente tinha ouvido uma música. Com o passar do tempo, fui ficando cada vez mais na dúvida. Talvez isso tudo tivesse sido uma ilusão, os meus ouvidos tivessem captado sinais de outro tempo e lugar. Fazia sentido — a idéia de que pessoas se reuniriam no alto de uma montanha à uma da manhã para tocar música era muito absurda.
No céu acima do cume, a lua de aparência tosca assomava incrivelmente próxima. Uma bola de pedra dura, a pele consumida pela inclemente passagem do tempo. Sombras agourentas em sua superfície eram células cancerígenas cegas que estendiam tentáculos na direção do calor da vida. O luar envolvia todo som, apagava todo significado, jogava toda mente no caos. Fez Miu ver um segundo eu. Levou o gato de Sumire para algum lugar. Fez Sumire desaparecer. E me levou até ali, no meio da música que — provavelmente — nunca existiu. À minha frente, uma escuridão sem fim; atrás de mim, um mundo de luz pálida. Fiquei ali, no cimo de uma montanha em uma terra estrangeira, banhado pelo luar. Talvez isso tudo tivesse sido meticulosamente planejado, desde o começo.
Retornei ao chalé e bebi um copo do conhaque de Miu. Tentei dormir, mas não consegui. Não preguei os olhos. Até o céu a leste clarear, fiquei sob o domínio da lua, e da gravidade, e de algo desperto no mundo.
Imaginei gatos morrendo de fome em um apartamento fechado. Carnívoros pequenos, macios. Eu — o meu eu real — estava morto, e eles estavam vivos, devorando a minha carne, mastigando o meu coração, chupando o meu sangue. Se eu prestasse muita atenção, podia ouvir, em algum lugar muito remoto, os gatos comendo avidamente o meu cérebro. Três gatos ágeis, cercando minha cabeça quebrada, sorvendo ruidosamente a sopa cinzenta, polpuda, em seu interior. A ponta de suas línguas vermelhas, ásperas, lambiam as pregas suaves de minha mente. E a cada lambida de suas línguas, a minha mente — como um sopro de ar quente — estremecia e desaparecia gradativamente.