15

O telefone tocou num domingo à tarde. O segundo domingo depois de o semestre começar, em setembro. Eu estava preparando um almoço atrasado e tive de desligar o gás do fogão antes de atender. O telefone tocou com uma espécie de urgência — pelo menos, foi assim que pareceu. Eu tinha certeza de que era Miu ligando para dar notícias do paradeiro de Sumire. A ligação não era de Miu, mas da minha namorada.

— Aconteceu uma coisa — disse ela, pulando suas brincadeiras iniciais de sempre. — Pode vir agora mesmo?

Parecia algo terrível. Seu marido teria descoberto sobre nós? Respirei fundo. Se as pessoas soubessem que eu dormia com a mãe de um dos alunos em minha casa, eu estaria numa enrascada, para não dizer outra coisa. Na pior das hipóteses, podia perder o emprego. Ao mesmo tempo, porém, estava resignado. Eu sabia dos riscos.

— Onde você está? — perguntei.

— Em um supermercado — disse ela.

Peguei o trem para Tachikawa, chegando à estação perto do supermercado às duas e meia. A tarde estava excessivamente quente, o verão de volta com toda a força, mas eu estava com uma camisa branca, gravata e um terno cinza, a roupa que ela tinha pedido para eu usar. Desse jeito, vai se parecer mais com um professor, ela disse, e dará uma impressão melhor. “Às vezes, você ainda parece um estudante”, ela me disse.

Na entrada do supermercado, perguntei a um funcionário jovem, que reunia os carrinhos extraviados, onde ficava o escritório da segurança. Do outro lado da rua, no terceiro andar do anexo, ele disse. O anexo era um edifício pequeno e feio de três andares, sem nem mesmo um elevador. Ei, não se preocupe conosco, as rachaduras nas paredes de concreto pareciam dizer, de qualquer jeito, um dia, vão demolir o prédio mesmo. Subi a estreita escada gasta pelo tempo, localizei a porta com segurança e dei algumas batidinhas leves. Uma grave voz masculina respondeu; abri a porta e vi minha namorada e seu filho. Estavam sentados diante da mesa em frente de um guarda fardado, de meia-idade. Só estavam eles três.

A sala era de tamanho médio, nem grande nem pequena demais. Três mesas estavam alinhadas ao longo da janela, um cofre de aço na parede oposta. Na parede divisória para outra sala, havia um rol de tarefas e três quepes de guardas de segurança em uma prateleira de aço. Uma porta de vidro fosco, no extremo da sala, parecia dar para uma segunda sala, provavelmente usada pelos guardas para um cochilo. A sala em que estávamos era praticamente desprovida de decoração. Sem flores, sem quadros, nem mesmo um calendário. Somente um relógio redondo, excessivamente grande, na parede. Um lugar completamente árido, como um recanto antigo de que o tempo tinha se esquecido. Além disso, o lugar exalava um odor estranho — fumaça de cigarro, documentos mofados e transpiração misturados ao longo dos anos.

O guarda em serviço era um homem atarracado, na faixa dos cinqüenta e tantos anos. Tinha os braços robustos e uma grande cabeça coberta por um espesso emplastro de cabelo áspero, que ele havia achatado com algum tônico capilar barato, provavelmente o melhor que podia comprar com seu salário modesto. O cinzeiro à sua frente estava transbordando de guimbas de Seven Star. Quando entrei na sala, ele tirou os óculos de armação preta, limpou-os com um pano e tornou a pô-los. Talvez a sua maneira de cumprimentar pessoas pela primeira vez. Sem os óculos, seus olhos eram tão frios quanto rochas lunares. Quando recolocou os óculos, a frieza se retirou e foi substituída por uma espécie de olhar vidrado poderoso. De qualquer jeito, não era um olhar que deixava as pessoas à vontade.

A sala estava opressivamente quente; a janela estava escancarada, mas não entrava nem a mais ligeira brisa. Somente o barulho da rua. Um grande caminhão parou em um sinal vermelho, com seu freio de ar comprimido ecoando alto, e me fazendo lembrar de Ben Webster como tenor em seus últimos anos. Estávamos todos suando. Fui até a mesa, apresentei-me e dei ao homem o meu cartão de visita. O guarda aceitou-o sem dizer uma palavra, franziu os lábios e olhou fixo para ele durante um tempo. Pôs o cartão sobre a mesa e ergueu os olhos para mim.

— O senhor é muito jovem para um professor, não? — disse ele. — Há quanto tempo ensina?

Fingi refletir e respondi:

— Três anos.

— Humm — disse ele. E não falou mais nada. Mas o silêncio fala alto. Ele pegou meu cartão e examinou meu nome de novo, como se verificando alguma coisa.

— Meu nome é Nakamura. Sou o chefe da segurança, aqui — apresentou-se. Não ofereceu nenhum cartão de visita. — Puxe uma cadeira, por favor. Desculpe o calor. O ar-condicionado não está funcionando e ninguém aparecerá para consertá-lo num domingo. Não são gentis o bastante para me fornecerem um ventilador, de modo que me resigno e sofro. Tire o paletó, se quiser. Talvez nos demoremos um pouco aqui e eu sinto calor só de olhar para o senhor.

Fiz como ele disse, puxando uma cadeira e tirando o paletó. A camisa suada estava colada à minha pele.

— Sabe, sempre invejei os professores — começou o guarda. Um sorriso natimorto aflorou em seus lábios, se bem que seus olhos permanecessem os de um predador de mar aberto, sondando minhas águas profundas, atento ao mais leve movimento. Suas palavras eram cordiais, mas isso era apenas a aparência. A palavra professor soou como um insulto.

— Vocês têm mais de um mês de férias no verão, não precisam trabalhar aos domingos ou à noite, e as pessoas estão sempre lhes dando presentes. Uma vida boa, se quer saber. Às vezes, gostaria de ter estudado mais e me tornado professor. O destino interveio e aqui estou eu: guarda de segurança de um supermercado. Não fui esperto o bastante, suponho. Mas digo aos meus filhos para serem professores. Não me importa o que dizem, professores são bem-sucedidos.

Minha namorada estava com um vestido simples de mangas três quartos. Seu cabelo estava preso em um coque no alto da cabeça e ela usava um par de brincos pequenos. Sandálias brancas de salto alto completavam seu traje, e uma bolsa branca e um pequeno lenço cor creme estavam em seu colo. Era a primeira vez que a via desde que tinha voltado da Grécia. Ela olhava do guarda para mim, os olhos inchados de chorar. Estava evidente que tinha chorado muito.

Trocamos um olhar rápido e me virei para o seu filho. Seu nome era Shin’ichi Nimura, mas seus colegas de turma o tinham apelidado de Cenoura. Com seu rosto comprido e fino e seu cabelo encaracolado e despenteado, o nome se ajustava. Geralmente eu também o chamava assim. Era um garoto calado, quase nunca falava mais do que o necessário. Suas notas não eram ruins: raramente se esquecia de levar o dever de casa e nunca deixava de cumprir suas funções de limpeza. Nunca criava confusão. Mas lhe faltava iniciativa e nunca tinha levantado a mão em aula. Os colegas de Cenoura não desgostavam dele, mas ele não era o que se chama de popular. Isso não agradava muito a sua mãe, mas, do meu ponto de vista, ele era um bom garoto.

— Suponho que a mãe do menino tenha lhe contado o que aconteceu — disse o guarda.

— Sim, contou — repliquei. — Ele foi pego furtando.

— Exatamente — disse o guarda, e pôs uma caixa de papelão, que estava a seus pés, sobre a mesa. Empurrou-a na minha direção. Dentro havia uma coleção de pequenos grampeadores, idênticos, ainda embalados. Peguei um e o examinei. A etiqueta com o preço dizia ¥850.

— Oito grampeadores — comentei. — É tudo?

— Sim. Foi isso.

Coloquei o grampeador de volta na caixa.

— Então, a soma total é de seis mil e oitocentos ienes.

— Correto. Seis mil e oitocentos ienes. Provavelmente está pensando, “Bem, o.k., ele furtou. É um crime, é claro, mas por que fazer tanto estardalhaço por oito grampeadores? Ele é apenas uma criança.” Estou certo?

Não respondi.

— Está certo pensar assim. Pois é a verdade. Há muitos crimes mais graves do que roubar oito grampeadores. Eu era policial antes de me tornar segurança, por isso sei do que estou falando.

O guarda falava olhando diretamente em meus olhos. Sustentei seu olhar, com cuidado para não parecer desafiador.

— Se essa fosse a sua primeira infração, a loja não faria tanto barulho. Afinal, nosso negócio é lidar com clientes, e preferimos não nos chatear demais com coisas pequenas assim. Normalmente, eu traria a criança para esta sala e poria um pouco de medo de Deus em sua cabeça. Na pior das hipóteses, entraríamos em contato com seus pais e os faríamos castigar a criança. Não entramos em contato com a escola. Essa é a política da loja, cuidar discretamente de crianças que roubam.

“O problema é que não é a primeira vez que este menino roubou — ele prosseguiu. — Só em nossa loja, sabemos que aconteceu três vezes. Três vezes! Pode imaginar? E o pior é que nas duas outras vezes ele se recusou a nos dar seu nome e o da escola. Fui eu que cuidei dele, por isso me lembro bem. Ele não disse uma palavra, independentemente do que perguntamos. Tratamento de silêncio, como costumamos chamar na polícia. Nenhuma desculpa, nenhum remorso, adota simplesmente uma atitude comum de recusa a prestar declaração. Se ele não me dissesse seu nome desta vez, eu o levaria para a polícia, mas nem isso o fez reagir. Não tendo mais nada a fazer, obriguei-o a mostrar seu passe de ônibus, e foi assim que descobri seu nome.”

Ele fez uma pausa, esperando que tudo fosse bem compreendido. Continuava a olhar fixamente para mim, e eu continuei a sustentar seu olhar.

— Outra coisa é o tipo de item que ele rouba. Nada engenhoso em relação a isso. Na primeira vez, roubou quinze lapiseiras. No valor total de nove mil setecentos e cinqüenta ienes. Na segunda vez, foram oito compassos, oito mil ienes. Em outras palavras, toda vez rouba uma pilha de coisas idênticas. Não são para ele mesmo. Faz isso só por prazer, ou então pensa em vendê-los a seus colegas de escola.

Tentei evocar uma imagem de Cenoura vendendo grampeadores para seus colegas na hora do lanche. Não consegui.

— Não entendo — eu disse. — Por que roubar sempre da mesma loja? Isso não aumenta as chances de ser pego e, se isso acontece, de agravar o castigo? Se está pensando em se safar com os objetos, não experimentaria, naturalmente, outras lojas?

— Não sei. Talvez estivesse roubando também de outras lojas. Ou talvez a nossa loja seja a sua preferida. Talvez não goste da minha cara. Sou um simples guarda de segurança de um supermercado, de modo que não vou ficar ponderando sobre todas as possibilidades. Não me pagam o bastante para isso. Se quer realmente saber, pergunte a ele. Eu o trouxe para cá há três horas e nem uma palavra até agora. É surpreendente. Por isso os chamei. Desculpe tê-los feito virem no dia de folga... Mas tem uma coisa que me pergunto desde que o senhor entrou. Parece tão bronzeado. Não que isso seja relevante, mas passou suas férias de verão em algum lugar especial?

— Não, nenhum lugar especial — repliquei.

Ainda assim, ele continuou a examinar atentamente o meu rosto, como se eu fosse uma peça importante no quebra-cabeça.

Peguei de novo o grampeador e o examinei detalhadamente. Apenas um grampeador pequeno, comum, do tipo que se encontra em qualquer casa ou escritório. Material de escritório barato. Um cigarro Seven Star pendia em sua boca; o guarda acendeu-o com um isqueiro Bic e, virando-se para o lado, expirou a fumaça.

Virei-me para o garoto e perguntei delicadamente:

— Por que grampeadores?

Cenoura tinha ficado o tempo todo olhando para o chão, mas, agora, ergueu a face, em silêncio, e olhou para mim. Mas não disse nada. Notei, pela primeira vez, que a sua expressão tinha se modificado completamente: estranhamente inexpressiva, os olhos fora de foco. Ele parecia estar olhando fixamente um vazio.

— Alguém o obrigou a fazer isso?

Nenhuma resposta. Era difícil afirmar se estava escutando as minhas palavras. Desisti. Fazer qualquer pergunta ao garoto a essa altura não seria produtivo. A sua porta foi fechada, as janelas bem lacradas.

— Bem, senhor, o que propõe? — perguntou o guarda. — Sou pago para circular pela loja, checar os monitores, pegar ladrões e trazê-los a esta sala. O que acontece depois está fora da minha alçada. É especialmente difícil quando se trata de uma criança. O que sugere que façamos? Estou certo de que o senhor conhece mais essa área. Devemos deixar que a polícia trate do caso? Isso, certamente, seria mais fácil para mim. Evitaria que perdêssemos tempo quando não estamos chegando a lugar nenhum.

Na verdade, eu estava, naquele momento, pensando em outra coisa. Essa pequena sala úmida da segurança do supermercado me lembrava a delegacia na ilha grega. Pensamento que me levou direto a Sumire. E ao fato de que ela tinha desaparecido.

Precisei de alguns instantes para entender o que esse homem estava tentando me dizer.

— Vou contar a seu pai — disse a mãe de Cenoura em um tom de voz sem variação — e fazer com que meu filho entenda claramente que roubar é crime. Prometo que ele não o incomodará de novo.

— Em outras palavras, não quer que o caso seja levado ao tribunal. Repetiu isso várias vezes — disse o guarda em um tom aborrecido. Bateu a cinza do cigarro no cinzeiro. Virou-se de novo para mim e disse: — Mas, no que diz respeito à minha função, três vezes é muito. Alguém tem que dar um basta nisso. O que acha?

Respirei fundo, trazendo meus pensamentos de volta ao presente. Aos oito grampeadores e à tarde de um domingo de setembro.

— Não posso dizer nada antes de conversar com ele — respondi. — É um menino inteligente e nunca causou problema nenhum antes. Não tenho a menor noção de por que fez algo tão tolo, mas vou esclarecer tudo. Realmente sinto muito pelo problema que ele causou.

— Sim, mas não compreendo — disse o guarda, franzindo o cenho por trás dos óculos. — Este menino... Shin’ichi Nimura?... é da sua turma, não é? Portanto, o vê diariamente, correto?

— Sim.

— Ele está no quarto ano, o que significa que é seu aluno há um ano e quatro meses. Estou certo?

— Sim, está certo. Estou com essa turma desde que estavam no terceiro ano.

— Quantos alunos há em sua turma?

— Trinta e cinco.

— Então, pode ficar de olho em todos. Está me dizendo que nunca percebeu o menor sinal de que este menino causaria problemas. Absolutamente nenhum sinal?

— Exato.

— Espere um pouco. Até onde sabemos, ele vem roubando há seis meses. Sempre sozinho. Ninguém o está obrigando a isso. E não é um ato irrefletido. Tampouco ele está fazendo isso por dinheiro. Segundo sua mãe, ele recebe uma mesada generosa. Está fazendo isso só para ver se consegue roubar impunemente. Este garoto tem problemas, em outras palavras. Está me dizendo que não havia sinal nenhum disso?

— Falo, aqui, como professor — repliquei. — Mas, especialmente com crianças, o furto habitual não é tanto um ato criminoso quanto o resultado de um desequilíbrio emocional sutil. Talvez se eu tivesse prestado um pouco mais de atenção, tivesse notado alguma coisa. Realmente, eu falhei. Mas com crianças com distúrbios emocionais nem sempre há indícios externos. Se separamos o ato de todo o resto e punimos a criança, o problema básico não será sanado. A menos que se descubra a causa fundamental e que ela seja tratada, o mesmo problema virá à tona mais tarde sob uma forma diferente. Quase sempre as crianças estão tentando enviar uma mensagem ao roubarem, por isso, mesmo que não seja a maneira mais eficaz de lidar com o problema, é importante dedicar um tempo para esclarecer as coisas conversando.

O guarda amassou o cigarro e, com a boca semi-aberta, olhou para mim demoradamente, como se eu fosse um animal de aparência estranha. Seus dedos sobre a mesa eram incrivelmente grossos, como dez pequenas criaturas pretas e peludas. Quanto mais eu olhava para eles, mais difícil ficava respirar.

— É isso que ensinam na faculdade, em pedagogia, ou seja lá o nome que for?

— Não necessariamente. É psicologia básica. Pode encontrar isso em qualquer livro.

— Pode encontrar em qualquer livro — disse ele, repetindo minhas palavras, indiferente. Pegou a toalha de mão e limpou o suor de seu pescoço grosso.

— “Um desequilíbrio emocional sutil.” O que isso significa? Quando eu era policial, passava o dia todo, de manhã até a noite, lidando com personalidades desequilibradas. Mas não tinham nada de sutil. O mundo está cheio de gente desse tipo. Não é tão raro. Se eu quisesse passar o tempo escutando cada uma das mensagens que essas pessoas estavam enviando, precisaria de mais dez cérebros. E ainda não seria o suficiente.

Ele suspirou e pôs a caixa de grampeadores debaixo da mesa.

— O.k., você está absolutamente certo. As crianças têm o coração puro. O castigo físico é ruim. As pessoas são todas iguais. Não se pode julgá-las por suas notas. Converse um pouco e encontre uma solução. Não tenho problemas sérios com isso. Mas acha que é isso que tornará o mundo um lugar melhor? De jeito nenhum. Só irá piorar. Como as pessoas podem ser todas iguais? Nunca soube disso. Considere o seguinte: cento e dez milhões de pessoas empurram-se, abrindo caminho com os cotovelos, diariamente no Japão. Tente tornar todas elas iguais. Seria um verdadeiro inferno sobre a Terra.

“É fácil falar todas essas doces palavras. Feche os olhos, finja não perceber o que está acontecendo e passe a responsabilidade para outro. Não crie problemas, cante ‘Auld Lang Syne’, dê os diplomas às crianças, e todos viverão felizes para sempre. Roubar lojas é uma mensagem da criança. Não se preocupe com o futuro. Essa é a saída fácil, portanto, por que não? Mas quem vai limpar a sujeira? Pessoas como eu, isso sim. Acha que fazemos isso porque gostamos? Vocês têm uma espécie de ei-o-que-são-seis-mil-e-oitocentos-ienes?, estampada na cara, mas pense nas pessoas que foram roubadas. Cem pessoas trabalham aqui, e pode ter certeza de que levam a sério uma diferença de um ou dois ienes. Quando somam os recibos de uma caixa registradora e há uma discrepância de cem ienes, trabalham horas extras para a corrigir. Sabe quanto as mulheres que trabalham nas caixas ganham por hora? Por que não ensina isso a seus alunos?”

Eu não disse nada. A mãe de Cenoura estava calada, e o menino também. O guarda de segurança cansou de falar e deixou-se cair no silêncio geral. Na outra sala, o telefone tocou e alguém atendeu ao primeiro toque.

— Então, o que devemos fazer? — perguntou ele.

Eu disse:

— Que tal o pendurarmos no teto de cabeça para baixo até que diga que lamenta?

— Gostei! Mas, é claro que sabe, nós dois perderíamos o nosso emprego.

— Bem, então a única coisa a fazer é analisar pacientemente o problema. É tudo o que posso dizer.

Uma pessoa da outra sala bateu à porta e entrou.

— Senhor Nakamura, pode me emprestar a chave do depósito? — perguntou.

O senhor Nakamura remexeu na gaveta da mesa por um tempo, mas não a encontrou.

— Desapareceu — disse ele. — É estranho. Eu sempre a guardo aqui.

— É muito importante — disse o outro homem. — Preciso dela imediatamente.

Pela maneira como falaram, a chave parecia ser muito importante, algo que, para começo de conversa, provavelmente não deveria ser guardado nessa gaveta. Rebuscaram todas as gavetas, mas continuaram com as mãos vazias.

Nós três ficamos sentados ali, enquanto isso acontecia. A mãe de Cenoura relanceou olhos suplicantes para mim umas duas vezes. Cenoura continuava como antes, apático, os olhos fixos no chão. Pensamentos fúteis, casuais, atravessaram de repente a minha mente. A sala estava abafada.

O homem que precisava da chave desistiu, resmungando ao sair.

— Basta — disse o senhor Nakamura, virando-se para nós. Com o tom de voz monótono, prático, ele prosseguiu: — Obrigado por terem vindo. Terminamos. Deixarei o resto a seu cargo e a cargo da mãe do menino. Mas que fique bem claro: se ele fizer isso mais uma única vez, não escapará tão fácil. Espero que tenham entendido. Não quero criar problemas. Mas tenho de fazer o meu trabalho.

Ela concordou com a cabeça e eu também. Cenoura parecia não ter ouvido nem uma palavra. Levantei-me e os dois me imitaram sem resistência.

— Uma última coisa — disse o guarda de segurança, ainda sentado. Ele olhou para mim. — Sei que é rude de minha parte, mas ainda assim direi. Desde que pus os olhos no senhor, algo me incomoda. É jovem, alto, causa boa impressão, bem bronzeado, articulado. Tudo o que diz faz sentido. Estou certo de que os pais de seus alunos gostam muito do senhor. Não sei como explicar, mas desde a primeira vez que o vi alguma coisa está me atormentando. Algo que não consigo aceitar. Nada pessoal, por isso não se irrite. É que algo me incomoda. Mas o que está me atormentando?, eu me pergunto.

— Incomoda-se de eu perguntar algo pessoal? — eu disse.

— Pergunte.

— Se as pessoas não são iguais, onde o senhor se encaixa?

O senhor Nakamura deu uma tragada profunda, balançou a cabeça e soltou a fumaça bem devagar, como se estivesse obrigando alguém a fazer alguma coisa.

— Não sei — replicou. — Mas não se preocupe. Nós dois não compartilharíamos o mesmo nível.

Ela tinha parado seu Toyota Celica no estacionamento do supermercado. Eu a chamei de lado, longe de seu filho, e lhe disse para ir para casa sozinha. Preciso falar com seu filho a sós, eu disse. Eu o levarei para casa mais tarde. Ela concordou. Ela ia falar alguma coisa, mas não falou, entrou no carro, pegou os óculos escuros na bolsa e deu partida no motor.

Depois que partiu, levei Cenoura a um pequeno café, que parecia animado, ali perto. Relaxei no ar-condicionado, pedi um chá gelado e um sorvete para o menino. Abri o botão de cima da minha camisa, tirei a gravata e a pus no bolso do paletó, Cenoura continuou em silêncio. A sua expressão e seu olhar não tinham se alterado desde que estávamos no escritório da segurança. Ele parecia completamente apático, como se fosse continuar assim durante algum tempo. Suas pequenas mãos no colo, olhava para o chão, desviando o rosto. Tomei o chá gelado, mas Cenoura não tocou em seu sorvete. O sorvete derreteu-se aos poucos no prato, mas ele parecia não notar. Sentamo-nos um de frente para o outro, como um casal partilhando um silêncio constrangido. Sempre que passava por nossa mesa, a garçonete parecia tensa.

— Coisas acontecem — eu disse finalmente. Não estava tentando quebrar o gelo. As palavras simplesmente escaparam.

Cenoura ergueu, lentamente, a cabeça, e olhou para mim. Não disse nada. Fechei meus olhos, suspirei e fiquei em silêncio por algum tempo.

— Ainda não contei a ninguém — eu disse —, mas durante as férias de verão fui à Grécia. Sabe onde fica a Grécia, não sabe? Assistimos àquele vídeo na aula de estudos sociais, lembra? No sul da Europa, do lado do Mediterrâneo. Lá tem muitas ilhas e plantam oliveiras. O ano 500 a.C. foi o ápice de sua civilização. Atenas foi o berço da democracia, e Sócrates tomou veneno e morreu. Foi para lá que fui. É um lugar bonito. Mas não me diverti. Uma amiga desapareceu em uma pequena ilha grega, e fui ajudar na busca. Mas não encontramos nada. A minha amiga simplesmente sumiu. Como fumaça.

Cenoura abriu ligeiramente a boca e olhou para mim. Sua expressão continuava dura e sem vida, mas um lampejo de luz surgiu. Eu tinha conseguido me comunicar com ele.

— Eu gostava de verdade dessa amiga. Muito mesmo. Ela era a pessoa mais importante no mundo, para mim. Por isso peguei um avião para a Grécia, para ajudar na busca. Mas não adiantou. Não descobrimos nenhuma pista. Desde que a perdi, não tenho amigos. Nem um único.

Não estava falando com Cenoura, mas comigo mesmo. Pensando em voz alta.

— Sabe o que eu realmente gostaria de fazer neste exato momento? Subir ao topo de algum lugar alto, como as pirâmides. O lugar mais alto que eu pudesse encontrar. Onde se vê para sempre. Em pé, no topo, olhar o mundo todo, olhar todo o cenário e ver, com os meus próprios olhos, ver o que se perdeu do mundo. Sei lá... Talvez eu, na verdade, não queira ver isso. Talvez não queira ver mais nada, nunca mais.

A garçonete apareceu, tirou o prato de sorvete derretido de Cenoura e deixou a conta.

— Eu sinto como se fosse sozinho desde pequeno. Eu tinha meus pais e uma irmã mais velha em casa, mas não me dava bem com eles. Não conseguia me comunicar com ninguém da minha família. Por isso, imaginava, freqüentemente, que era adotado. Por alguma razão, parentes distantes tinham me abandonado com a minha família. Ou talvez tivessem me pego em um orfanato. Hoje, percebo como essa idéia era tola. Meus pais não são do tipo que adota um órfão desamparado. De qualquer jeito, eu não podia aceitar o fato de ter parentesco de sangue com essa gente. Era mais fácil pensar que eram completos estranhos.

“Eu imaginava uma cidade distante. Lá, havia uma casa, onde a minha verdadeira família morava. Uma casinha modesta, mas aconchegante e agradável. Ali, todos se entendiam, diziam como se sentiam, independentemente de como se sentissem. À noite, ouvia-se mamãe atarefada na cozinha, preparando o jantar, e sentia-se uma fragrância quente, deliciosa. Lá era o meu lugar. Eu ficava sempre imaginando esse lugar, comigo fazendo parte da cena.

“Na vida real, a minha família tinha um cachorro, e ele era o único com quem eu me dava bem. Era um vira-lata, mas muito brilhante. Ensinava-se a ele uma coisa uma única vez e ele não esquecia nunca mais. Eu o levava para passear todos os dias; íamos ao parque. Eu me sentava no banco e falava sobre todo tipo de coisa. Nós nos compreendíamos. Esses foram os momentos mais felizes da minha infância. Quando eu estava no quinto ano, o meu cachorro foi atropelado por um caminhão, perto da nossa casa, e morreu. Meus pais não me deixaram comprar outro cachorro. Faziam muito barulho e eram muito sujos, disseram, davam muito trabalho.

“Depois que o meu cachorro morreu, passei a ficar muito tempo no meu quarto, lendo livros. O mundo dos livros parecia muito mais vivo do que qualquer outra coisa fora dali. Eu podia ver coisas que nunca tinha visto antes. Livros e música eram os meus melhores amigos. Eu tinha uns dois bons amigos na escola, mas nunca conheci ninguém com quem realmente me abrisse. Conversávamos sobre coisas sem importância, jogávamos futebol juntos. Quando alguma coisa me aborrecia, não falava com ninguém sobre isso. Refletia, chegava a uma conclusão e agia sozinho. Não que me sentisse realmente solitário. Achava que as coisas eram assim mesmo. Os seres humanos, no fim das contas, têm de sobreviver por si próprios.

“No entanto, quando entrei para a universidade, fiz uma amiga, aquela de que já lhe falei. E a minha maneira de pensar começou a mudar. Passei a entender que só pensar por mim mesmo há tanto tempo estava me refreando, me restringindo a um único ponto de vista. E comecei a sentir que estar completamente só é terrível.

“Estar completamente só é como o sentimento que se tem quando se está na foz de um grande rio em uma noite chuvosa, e se observa a água correr para o mar. Já fez isso? Ficar à foz de um rio grande e observar a água correr para o mar?”

Cenoura não respondeu.

— Eu já — eu disse.

Com os olhos esbugalhados, Cenoura me encarava.

— Não sei explicar por que a sensação de tamanha solidão ao observar a água do rio se misturar com a água do mar. Mas é assim. Devia tentar, um dia.

Peguei o meu paletó, a conta e me levantei devagar. Pus a mão no ombro de Cenoura, e ele também se levantou. Paguei e saímos do café.

Levamos a pé cerca de trinta minutos até chegarmos à sua casa. Caminhamos juntos e eu não disse uma palavra.

Perto da sua casa, havia um pequeno rio, com uma ponte de concreto. Uma coisinha suave, mais um canal de escoamento do que propriamente um rio. Quando existia terra cultivável por ali, devia ser usado para irrigação. Agora, entretanto, a água era turva, com um leve odor de detergente. A relva do verão germinava na margem do rio, um gibi jogado fora estava aberto na água. Cenoura parou no meio da ponte, debruçou-se no parapeito e olhou para baixo. Fiquei do seu lado e também olhei para baixo. Ficamos assim por muito tempo. Provavelmente, ele não queria voltar para casa. Eu podia entendê-lo.

Cenoura enfiou a mão no bolso, tirou uma chave e a estendeu para mim. Apenas uma chave comum, com uma grande etiqueta vermelha. A etiqueta dizia depósito 3. A chave do depósito que o guarda de segurança, Nakamura, estava procurando. Cenoura deve ter sido deixado sozinho na sala por um instante, achado a chave na gaveta e a metido no bolso. A mente desse menino era um enigma maior do que eu tinha imaginado. Era uma criança muito estranha.

Peguei a chave e senti o peso das inúmeras pessoas que a tinham usado. Pareceu-me terrivelmente mesquinha, suja, intolerante. Aturdido, acabei deixando-a cair no rio. Caiu fazendo um baque delicado. O rio não era muito fundo, mas a água era turva, e a chave desapareceu. Lado a lado na ponte, Cenoura e eu olhamos fixamente para a água durante algum tempo. De certa forma, senti-me animado, o meu corpo mais leve.

— É tarde demais para devolver — eu disse, mais para mim mesmo do que para ele. — Tenho certeza de que têm uma cópia. Afinal, trata-se de seu precioso depósito.

Estendi a mão, e Cenoura pôs, suavemente, a sua nela. Senti seus dedos magros, pequenos, nos meus. Sensação que eu já tinha experimentado — onde teria sido? — muito tempo atrás. Segurei sua mão e fomos para a casa dele.

Sua mãe estava nos esperando quando chegamos. Tinha trocado a roupa para uma elegante blusa branca sem mangas e uma saia plissada. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Devia ter chorado, sozinha, desde que voltara para casa. Seu marido dirigia uma agência imobiliária na cidade e, nos domingos, ou trabalhava ou jogava golfe. Ela mandou Cenoura subir para seu quarto no segundo andar, e me levou, não para a sala de estar, mas para a cozinha, onde nos sentamos à mesa. Talvez fosse mais fácil, para ela, conversar ali. A cozinha tinha uma enorme geladeira verde-abacate, um gabinete no meio, e uma janela ensolarada de frente para o leste.

— Ele parece um pouco melhor do que antes — disse ela, a voz fraca. — Quando o vi no escritório da segurança, eu não soube o que fazer. Nunca o tinha visto com aquele olhar. Como se estivesse fora do mundo.

— Não tem com que se preocupar. Dê tempo ao tempo, e ele voltará ao normal. Por enquanto, é melhor que não lhe diga nada. Simplesmente deixe-o só.

— O que vocês dois fizeram depois que vim embora?

— Conversamos — eu disse.

— Sobre o quê?

— Não muita coisa. Basicamente eu falei o tempo todo. Nada especial, mesmo.

— Quer beber algo gelado?

Recusei com um movimento da cabeça.

— Não faço mais idéia de como falar com ele — disse ela. — E esse sentimento só tem se tornado mais forte.

— Não é preciso se forçar a falar com ele. As crianças estão em seu próprio mundo. Quando quiser falar, ele falará.

— Mas ele quase não fala.

Tomamos cuidado para não nos tocarmos, enquanto estávamos frente a frente à mesa da cozinha. Nossa conversa foi tensa, o tipo de conversa que se espera de um professor e uma mãe analisando uma criança com problemas. Enquanto ela falava, mexia com as mãos, torcendo os dedos, estendendo-os, apertando as mãos. Pensei nas coisas que essas mãos tinham feito em mim, na cama.

Não vou relatar o que aconteceu na escola, eu disse. Conversarei com ele e, se houver algum problema, eu mesmo cuidarei disso. Por isso, não se preocupe. Ele é um menino inteligente, um bom menino; dê tempo ao tempo, ele tomará juízo. É só uma fase que ele está atravessando. A coisa mais importante é você ficar calma em relação a isso. Repeti tudo isso várias vezes, lentamente, deixando que fosse absorvido. Parece que fez com que ela se sentisse melhor.

Ela disse que me levaria de carro para o meu apartamento, em Kunitachi.

— Acha que o meu filho percebe o que está acontecendo? — perguntou quando paramos em um sinal. É claro que se referia ao que acontecia entre mim e ela.

Sacudi a cabeça.

— Por que diz isso?

— Quando fiquei sozinha em casa, esperando vocês, esse pensamento me ocorreu. Não tem fundamento nenhum, foi só uma sensação. Ele é muito intuitivo, e tenho certeza de que percebeu como eu e meu marido não nos damos bem.

Fiquei em silêncio. Ela não disse mais nada.

Ela parou o carro no estacionamento logo além do cruzamento em que ficava o meu edifício. Puxou o freio de mão e desligou o motor. O motor crepitou e, sem o ruído do ar condicionado, um silêncio constrangido se instalou no carro. Eu sabia que ela queria que eu a pegasse nos braços ali mesmo, naquele exato instante. Pensei em seu corpo flexível debaixo da blusa, e a minha boca se ressecou.

— Acho que é melhor não nos vermos mais — eu disse sem rodeios.

Ela não respondeu nada. As mãos no volante, ela olhava fixo na direção do indicador do nível de óleo. Quase toda a emoção desaparecera do seu rosto.

— Pensei bastante — eu disse. — Não acho certo eu ser parte do problema. Não posso ser parte da solução se sou parte do problema. Vai ser melhor para todo mundo.

— Todo mundo?

— Especialmente para o seu filho.

— Para você também?

— Sim. É claro.

— E eu? Todo mundo me inclui?

Sim, eu quis dizer. Mas as palavras não saíram. Ela tirou o Ray-Ban verde-escuro, depois tornou a pô-los.

— Não é fácil para mim dizer isso — ela disse. — Mas deixar de vê-lo vai ser muito duro.

— Para mim também. Gostaria de que continuássemos como estávamos. Mas não é certo.

Ela respirou fundo e disse:

— O que é certo? Pode me dizer? Eu realmente não sei o que é certo. Sei o que é errado. Mas o que é certo?

Não me ocorreu nenhuma boa resposta.

Parecia que ia chorar. Ou gritar. Mas se conteve. Simplesmente agarrou firme o volante, as costas das mãos ficando ligeiramente vermelhas.

— Quando eu era mais jovem, todo tipo de gente falava comigo — disse ela. — Contavam todo tipo de coisas. Histórias fascinantes, histórias belas, estranhas. Mas, passado certo ponto, ninguém mais conversa comigo. Ninguém. Nem meu marido, nem meu filho, nem meus amigos... ninguém. Como se não restasse nada no mundo do que se conversar. Às vezes, sinto como se o meu corpo estivesse se tornando invisível, como se você pudesse enxergar através de mim.

Ela ergueu as mãos do volante e as estendeu à frente.

— Não que você pudesse entender o que estou tentando dizer.

Procurei as palavras certas. E nada me ocorreu.

— Muito obrigada por tudo que fez hoje — disse ela, recompondo-se. Sua voz quase retomara seu tom usual, calmo. — Acho que não conseguiria ter tratado disso sozinha. É muito difícil para mim. Ter você comigo ajudou muito. Estou grata. Sei que será um professor maravilhoso. Você quase é.

Tinha pretendido ser sarcástica? Provavelmente. Não, definitivamente.

— Ainda não — eu disse.

Ela sorriu, bem levemente. E nossa conversa se encerrou.

Abri a porta do carro e saltei. A luz do sol da tarde de um domingo de verão tinha enfraquecido consideravelmente. Senti dificuldade em respirar, e minhas pernas pareciam estranhas. O motor do Celica ressoou e ela partiu da minha vida para sempre. Ela baixou a janela e acenou brevemente, e eu levantei a mão em resposta.

De volta ao apartamento, tirei a camisa suada e a joguei na máquina de lavar, tomei um banho e lavei a cabeça. Fui à cozinha terminar de preparar a refeição que tinha deixado pela metade e comi. Depois, afundei-me no sofá e peguei o livro que tinha começado a ler. Mas não li nem cinco páginas. Desistindo, fechei o livro e pensei, durante algum tempo, em Sumire. E na chave do depósito que tinha jogado no rio imundo. E nas mãos da minha namorada agarrando-se ao volante. Tinha sido um longo dia que, finalmente, acabara, deixando para trás apenas recordações casuais. Eu tinha tomado um banho demorado, mas o meu corpo ainda estava impregnado do mau cheiro do tabaco. E a minha mão ainda retinha uma sensação lancinante — como se eu tivesse espremido a vida de alguma coisa.

Fiz o que era certo?

Acho que não. Eu só tinha feito o que era necessário para mim. Há uma grande diferença. “Todo mundo”, ela me perguntou. “Inclui a mim?

Francamente, naquela hora eu não estava pensando em ninguém. Eu só estava pensando em Sumire. Não em todos eles lá, ou todos nós aqui.

Somente em Sumire, que não estava em lugar nenhum.