CAPÍTULO CINCO

Vaelin

Vaelin certa vez passara um inverno no Passo Skellan tentando combater as investidas dos lonaks. Na época, o local estava apinhado de irmãos e Lobos Corredores, contrastando muito com as muralhas e torres silenciosas que via agora, sem irmãos para recebê-los ao se aproximarem da torre larga na entrada do passo. Ele sabia que Sollis havia abandonado o lugar por um bom motivo, uma vez que os lonaks haviam concordado com a paz e a invasão exigia todas as mãos que pudessem ser reunidas, mas o vazio do grande bastião setentrional do Reino era desconcertante, uma prova do quanto as coisas haviam mudado em tão pouco tempo.

— Antes o meu povo teria exultado com essa cena — disse Kiral, sem dúvida captando os seus sentimentos. — Agora até eles acham que é um presságio sombrio.

Vaelin virou-se quando o Lorde Comandante Orven parou o cavalo ao seu lado, seus cinquenta homens tudo o que restava da Guarda Montada da Rainha.

— Poste guardas. Descansaremos aqui esta noite.

Ele passou a noite na torre com Kiral e os dotados de Ponta de Nehrin, que haviam optado por acompanhá-lo em vez de tomarem parte na viagem iminente da Rainha através do Boraelino. A própria Rainha abençoara a empreitada deles com palavras cuidadosas e um belo sorriso, diferentes de sua reação quando Vaelin explicara em particular as suas intenções.

— Você quer marchar pelas banquisas do norte no meio do inverno?

Ela o chamara aos seus aposentos no palácio tarde da noite. Contudo, a julgar pelas risadas que atravessavam a porta, algumas das crianças ainda estavam acordadas. O número delas aumentara progressivamente desde a libertação da cidade, até haver quase duzentos órfãos ocupando aquela ala do palácio, todos reconhecidos de modo formal como Protegidos da Coroa pela Palavra da Rainha. Quase não havia adornos nos aposentos de Lyrna, estando tomados por livros e uma seleção dos pergaminhos do Irmão Harlick, enquanto na escrivaninha se acumulavam várias pilhas organizadas de notas com a sua letra precisa. O espaço era iluminado por uma única lamparina e pela luz do fogo, deixando as feições dela nas sombras enquanto o encarava franzindo a testa, cautelosa e intrigada, como se esperasse que ele terminasse de contar uma piada ruim.

— A canção de Kiral será a nossa guia — retorquiu Vaelin. — Ela fala com a bênção da Mahlessa e sei que a senhora acredita na palavra dela.

— Acredito que a Mahlessa age apenas em benefício dos lonaks. Se servisse aos propósitos dela nos mandar numa busca infrutífera, não tenho dúvida de que ela o faria. — Sua testa relaxou um pouco e ela pegou um pedaço de pergaminho da escrivaninha, erguendo-o contra a luz. Vaelin o reconheceu como obra de Alornis; as linhas eram precisas e perfeitas demais para terem sido traçadas por outra mão. Mas o tema era novo, algum desenho semicircular, a forma composta por um padrão intrincado de linhas retas.

— Sua irmã propõe uma mudança radical nos métodos de construção de navios — disse Lyrna. — Um casco interno formado por vigas curtas interligadas que descrevem uma curva, em essência uma aplicação prática do conceito de arcos tangenciais de Lervial, embora ela afirme jamais ter lido a respeito. Se adotarmos o método dela, mãos inexperientes podem ser colocadas para trabalhar na produção de milhares de vigas retas, poupando meses de trabalho experiente.

— Então por que não fazer isso?

— Porque nunca foi feito antes. Nenhum navio já foi construído dessa forma. Assim como, pelo que me lembro de qualquer obra histórica que já li, nenhum explorador teve sucesso em atravessar as banquisas, nem mesmo no auge do verão.

— Kiral confia na sua canção, e eu confio nela.

— Esse homem, Erlin, é tão importante assim?

— Acredito que sim. Alguém que viveu tanto tempo possui conhecimentos muito mais valiosos do que qualquer coisa que haja nos pergaminhos de Harlick. E a lenda diz que o Além lhe foi negado, o que pode significar que ele teve um vislumbre de lá, tal como eu. E talvez ele tenha visto mais do que eu vi.

Lyrna franziu outra vez a testa ao se lembrar de algo.

— Arendil uma vez me contou uma história sobre Kerlis, afirmando que o seu tio o havia encontrado anos atrás. Ele disse que havia sido amaldiçoado a viver para sempre por se recusar a juntar-se aos Finados. De modo que ele passava os seus dias intermináveis percorrendo o mundo em busca daquele com os meios para matá-lo, aquele que nasceria dos dotados desta terra. — Ela deu uma risada cansada. — Apenas histórias, Vaelin. Você não pode esperar que eu aprove essa missão, que envie o meu Senhor da Batalha para morrer nas vastidões congeladas com base numa lenda.

— Nós dois pagamos caro ao aprender que nem todas as lendas são baseadas em mentiras. — Ele se empertigou e respirou fundo para falar de modo formal, mas Lyrna ergueu a mão para impedi-lo.

— Poupe-me da oferta de demissão, por favor. Eu posso comandar todas as outras almas deste Reino, mas não fingirei que faço o mesmo com você.

— Obrigado, Alteza. Sugiro que o Conde Marven seja nomeado Senhor da Batalha em meu lugar.

— Muito bem. Quantas tropas você levará?

— Nenhuma. Seremos apenas eu e Kiral.

Ela sacudiu a cabeça.

— Isso é inaceitável. Os dotados dos Confins e a companhia de Lorde Orven irão escoltá-los.

— A esposa de Orven está grávida. Não pedirei que ele me siga num caminho tão perigoso…

— Mas eu sim, meu senhor. Orven é um soldado e conhece o seu dever, havendo ou não notícias alegres.

Vaelin notou a expressão determinada no rosto dela e assentiu.

— Como queira, Alteza. O outro assunto que discutimos?

Lyrna retorceu as mãos sobre a escrivaninha e seu rosto ficou ainda mais rígido.

— Você pede muito de mim, Vaelin.

— Ele não era responsável…

— Eu sei. Mas a cena do assassinato de meu irmão não desaparece com facilidade.

— Se é punição que a senhora deseja, parece-me que o curso que propus fornecerá isso de sobra.

Ela o olhou nos olhos, as linhas pálidas em sua testa destacando-se à luz do fogo, a voz firme de certeza.

— Eu desejo apenas uma coisa, meu senhor. Assegurar o futuro deste Reino. Mandarei o seu irmão para o outro lado do oceano para ser o arauto de minha chegada, mas não me peça para perdoar. Percebo que tal sentimento não está mais ao meu alcance.

Se Janus tivesse conseguido o que queria, nós estaríamos casados agora, ponderou Vaelin. Ele deixara os outros e subira até o topo da torre, enrolado no manto e com a respiração transformando-se em fumaça enquanto olhava para a escuridão plena além do passo. Os nossos filhos teriam sido belos ou terríveis? Ou ambos, como ela?

Houve uma leve mudança no vento que soprava pela torre, trazendo um novo odor: uma mistura de fumaça de lenha e suor.

— Sei que você está aí — disse Vaelin, sem dar as costas para a vista.

Lorkan deu uma risada enviesada ao aparecer ao seu lado, o cabelo desgrenhado caindo sobre o rosto pálido de frio.

— O dom de meu senhor voltou, então?

— Há outros sentidos além da visão. — Ele deixou Lorkan remexer-se inquieto por vários momentos antes de tornar a falar. — Suponho que você veio fazer um pedido, não?

— De fato, meu senhor. — Lorkan esfregou as mãos, olhando para outro lado e tentando falar num tom jovial. — Ao que, hã, parece, meu senhor, essa nossa grande cruzada já forneceu toda a agitação que eu podia querer. Por mais orgulhoso que eu esteja dos serviços que prestei, os quais, como creio que o senhor concordará, foram valiosos, chegou a hora de eu procurar aventuras em climas mais quentes.

— Você quer ser dispensado.

Lorkan inclinou a cabeça com um sorriso.

— Quero.

— Muito bem. Dado o seu dom, eu dificilmente poderia obrigá-lo a vir, de qualquer forma.

— Obrigado, meu senhor. — Ele permaneceu no lugar e se remexeu um pouco mais.

— O que é? — perguntou Vaelin, com um suspiro cansado.

— Cara, meu senhor.

— Ela também quer ser dispensada?

— Não, ela continua firme em sua determinação de segui-lo. Porém, se o senhor ordenasse que ela partisse…

Vaelin lhe deu as costas.

— Não.

O tom de Lorkan ficou mais grave.

— Ela é pouco mais do que uma criança…

— Com um coração de mulher e um grande dom. Ela é bem-vinda em minha companhia e tenho orgulho de contar com a lealdade dela. — Ele caminhou até a escada no meio do telhado. — Você pode ficar com o seu cavalo, suas armas e quaisquer espólios acumulados durante a campanha, mas parta antes do nascer do sol, por favor.

— Não posso! — Lorkan o olhava furioso agora, seu grito ecoando pelo passo. — O senhor sabe que não posso partir sem ela.

Vaelin olhou para trás, para o jovem dotado, que estava com o rosto tenso de raiva e um pouco de medo, numa postura que sem dúvida indicava que ele estava preparado para desaparecer de vista.

— Sei que a vida às vezes nos dá apenas escolhas difíceis — disse Vaelin antes de descer a escada. — Se você não estiver aqui pela manhã, não deixarei de explicar a sua ausência a Cara.

Eles estavam a oito quilômetros do passo, no dia seguinte, quando Kiral parou o seu pônei de repente, olhando para oeste com o semblante carregado enquanto esquadrinhava aquela direção.

— Problemas? — perguntou Vaelin.

Ela apertou os olhos, franzindo o cenho, confusa.

— Algo… Alguém novo.

— Outra canção?

Ela sacudiu a cabeça.

— Não é um cantor, e não há aviso na minha canção. Mas ele me chama.

— De onde?

Uma cautela súbita surgiu em seu rosto, o primeiro sinal de medo que ele a vira demonstrar.

— Da Cidade Caída.

Vaelin assentiu, virou-se e fez sinal para Orven se aproximar.

— Preciso de cinco homens, meu senhor. Acampem no vale mais além e aguardem o nosso retorno. — Ele ergueu a voz, dirigindo-se a uma figura um tanto mal-humorada que se encontrava mais atrás na coluna. — Mestre Lorkan! Junte-se a nós, por favor.

Foi uma viagem de dois dias até a cidade, o trajeto diminuído pela familiaridade de Kiral com as montanhas. As ruínas eram basicamente como Vaelin se lembrava, embora agora não sentisse o peso opressivo que o atormentara durante a sua última visita àquele lugar, mas Kiral e Lorkan não desfrutavam de tal imunidade.

— Pela Fé, é pior do que a floresta. — Lorkan estremeceu e curvou-se na sela, ficando com o semblante pálido.

— Nunca cheguei tão perto — disse Kiral, a sua inquietação evidente na postura dos ombros. — Este não é um lugar para os vivos.

— Mestre Lorkan? — perguntou Vaelin, dando um sorriso de expectativa para o jovem e indicando as ruínas com a cabeça.

Após um momento de longa hesitação, Lorkan inclinou a cabeça e desmontou. Respirou fundo e partiu na direção da cidade, caminhando com firmeza, desaparecendo no ar após alguns passos e provocando murmúrios de inquietação nos guardas.

— Quem quer que esteja esperando lá irá vê-lo — advertiu Kiral.

— Eu sei — disse Vaelin.

— Então por que mandá-lo?

— O que é a vida sem uma diversão ocasional?

Eles continuaram observando as ruínas silenciosas por mais alguns momentos até ouvirem o grito, uma exclamação aguda de alarme que ecoou pelas pedras caídas. Kiral tirou o arco do ombro e os guardas se espalharam com as espadas a postos quando Lorkan surgiu de repente no limite da cidade, o manto esvoaçando às suas costas enquanto disparava na direção deles, os olhos arregalados de puro terror. A razão para a sua fuga logo se tornou evidente: uma grande forma castanha o perseguia, de boca escancarada e dentes arreganhados num rugido desafiador.

— Eu não sabia que eles cresciam tanto — comentou Vaelin. O urso devia ter talvez um metro e meio, de quatro, o que significa que de pé devia chegar quase a três metros. Apesar de parecer ter dificuldade para acompanhar Lorkan, o animal vencia a distância com uma velocidade enganadora graças ao tamanho de suas passadas.

— Matem-no, pela Fé! — gritou Lorkan, correndo na direção deles, o urso agora apenas poucas passadas atrás.

— Não! — gritou Vaelin a Kiral quando ela ergueu o arco, seus olhos discernindo uma figura entre as ruínas, pequena e familiar, com outra ao seu lado, apenas levemente mais comprida e segurando no alto um cajado longo de algum tipo. O urso derrapou até parar, espalhando cascalhos, um rosnado pesaroso saindo do focinho. O animal tomou impulso nas patas dianteiras, cravando as garras no solo pedregoso e continuando a olhar em desafio para Lorkan, que agora estava de quatro atrás de um dos guardas, ofegando e claramente prestes a colocar o desjejum para fora.

Cicatriz, como os outros cavalos, começara a empinar ao avistar o urso e agora estava à beira do pânico, balançando a cabeça em protesto enquanto Vaelin puxava as rédeas.

— Está tudo bem — disse ele, desmontando e passando a mão ao longo do flanco do animal. — Ele não vai machucá-lo.

O urso bufou de novo, sacudindo a grande cabeça de um lado para outro como se reunisse forças para outra investida, mas então se retesou, ficando quase tão imóvel quanto uma estátua.

— Ele ainda jovem. — Um homem pequeno vestindo peles e segurando um osso tão longo quanto um cajado apareceu ao lado do urso, com um tom de desculpas na voz. — Amigo e inimigo têm cheiro igual.

— Urso Sábio! — Vaelin adiantou-se para apertar a mão do xamã, feliz ao sentir a força no aperto do homem. — Você está longe dos Confins.

— Você vai para o gelo — retorquiu Urso Sábio, encolhendo os ombros. — Eu mostro como.

— Ele foi muito insistente. — Dahrena estava parada um pouco mais afastada, sorrindo levemente. — Não podia deixá-lo vir sozinho.

Vaelin aproximou-se dela e a abraçou, a compreensão do quanto sentira falta dela provocando uma dor penetrante. Vou mandá-la de volta, pensou ele, sabendo que mentia. Vou mandá-la de volta pela manhã.

Eles fizeram uma refeição de cabra no espeto, aparentemente vítima das habilidades de caça do grande urso-pardo a julgar pelos cortes fundos na carcaça.

— Garra de Ferro traz carne boa — disse Urso Sábio. — Guarda só as entranhas para si.

Vaelin seguiu o xamã após a refeição enquanto ele percorria as ruínas, olhando para as estátuas despedaçadas e de vez em quando cutucando escombros cobertos de ervas daninhas com o cajado de osso. O urso andava por perto, demonstrando o mesmo escrutínio ao enfiar o grande focinho em vários recantos, às vezes usando as garras semelhantes a adagas para quebrar as pedras.

— Garra de Ferro quer insetos — explicou Urso Sábio. — Barriga de urso nunca cheia.

— Como você soube que tinha de vir aqui? — perguntou Vaelin.

Urso Sábio o olhou com uma expressão intrigada, como se a resposta fosse óbvia, e ergueu as sobrancelhas quando Vaelin não demonstrou saber o ele queria dizer.

— Grande… — Ele franziu o cenho, procurando as palavras certas. — Grande poder, grande… — Ele fez um gesto amplo agitando os braços e assoprando.

— Distúrbio? — perguntou Vaelin, acrescentando “Tempestade?” diante do olhar vazio do xamã.

— Tempestade, sim, grande tempestade no… mar. Mar de poder.

Mar de poder. Ele vê as Trevas como um mar de poder.

— Você consegue ver o mar de poder?

Urso Sábio soltou uma gargalhada.

— Ninguém consegue ver ele todo. Só sentir tempestades, sentir aqueles que tocam nele, ouvir canções, se cantam. Senti a tempestade se formando, ouvi a canção da garota, a segui até aqui com Mulher Voa Alto. — O rosto do velho tornou a se franzir ao chegarem à grande pedra de que Vaelin se lembrava de sua primeira visita ao lugar, o homem barbudo com uma expressão preocupada no rosto.

— A tempestade está vindo para cá? — perguntou Vaelin, observando-o tocar com cuidado a superfície da pedra com a ponta do cajado.

— Tempestade veio aqui antes. — Urso Sábio baixou o cajado, colocou uma das mãos na testa do homem barbudo e fechou os olhos. — Agora só eco.

— De quê?

— Do que foi, do que vai ser. — O xamã tirou a mão da cabeça de pedra, a tristeza dominando o seu rosto enrugado.

— Pensei que ele pudesse ser um rei, um chefe — disse Vaelin, mas Urso Sábio sacudiu a cabeça.

— Não, homem sábio, guardião de muitas histórias.

— Mas não sábio o bastante para impedir que a cidade caísse?

— Algumas coisas nada pode parar. Ele construiu este lugar, xamãs encheram pedras com poder para cantar a sua canção.

Encheram pedras com poder? Vaelin recordou-se da história de Sabedoria sobre como ela recebera o seu nome, a pedra que lhe fora dada pelo fantasma de Nersus Sil Nin — que não passava de uma memória preservada nas pedras na Martishe e na Grande Floresta do Norte.

— Eles podiam colocar as memórias nas pedras? — perguntou ele.

Urso Sábio assentiu.

— Mais do que… memória. Sentimento. — Ele ergueu o cajado e o girou lentamente ao redor, indicando o que restava de uma cidade que já fora fabulosa. — Este lugar, cheio de poder.

Ele seguiu em frente, observando intensamente, examinando as ruínas com uma atenção quase predadora. Vaelin o seguiu pelo labirinto de escombros, passando pela rara construção intacta que o Irmão Harlick usara como biblioteca e chegando até o que parecia ter sido algum tipo de plataforma elevada. Vaelin calculou que poderia ter tido três metros de altura quando intacta, mas os pilares estavam destroçados e a superfície de pedra tombara e se rachara de ponta a ponta. Urso Sábio parou, um espasmo de desconforto evidente em seus membros, antes de pisar na plataforma e ir até o centro, onde tocou a pedra nua com o cajado.

— Algo aqui — disse ele. — Algo… sombrio.

Vaelin não gostou da perplexidade que viu no rosto do xamã, cujas feições ficaram um pouco abatidas, fazendo com que parecesse ainda mais velho.

— Algo sombrio? — perguntou ele quando o velho agachou-se e tocou com cuidado a pedra. — Você quer dizer as Trevas? Algo que tinha o poder?

— Sombrio — disse Urso Sábio num tom enfático antes de se levantar. — Já se foi, para longe. Levado.

— Por quem?

Urso Sábio se virou e olhou Vaelin nos olhos.

— Você sabe — respondeu ele. — Nós atravessar o gelo para encontrar ele.

— Deixei Ultin no comando — disse Dahrena, deitando-se ao lado dele e cobrindo ambos com peles. — Duvido que ele tenha gostado da honraria, mas não havia mais ninguém tão capaz.

— O ouro? — perguntou Vaelin.

— O primeiro carregamento deve atracar em Porto Gélido dentro de um mês, sem dúvida para alegria de Lorde Darvus.

— Ele não será o primeiro nem o último a lucrar com a guerra. — Ele fez uma pausa, desfrutando da sensação de senti-la contra o corpo, lamentando a necessidade das palavras seguintes. Porém, ela evidentemente havia percebido a sua intenção e falou primeiro:

— Não vou embora. — Ela ergueu a cabeça, beijou-o nos lábios e tornou a se deitar. — Como está Alornis?

Vaelin lembrou-se do rosto rígido de Alornis na manhã em que ele partiu, a tentativa valente dela de segurar as lágrimas, que fracassou ao agarrar o irmão, afastando-se somente com um puxão gentil porém insistente de Lyrna. Sua última visão da irmã permanecia como uma mancha culposa, a cabeça dela no ombro de Lyrna ao virar o rosto, recusando-se a vê-lo cavalgar para longe.

— Ela está prestando um bom serviço à causa da Rainha — disse a Dahrena. — Os talentos dela são ainda maiores do que imaginávamos.

Dahrena mexeu-se um pouco e olhou para o céu sem nuvens, que oferecia uma bela visão das estrelas.

— Está mais fraca — sussurrou ela. Vaelin sabia de que estrela ela estava falando: Avensurha, de onde Sanesh Poltar havia tirado o seu nome eorhil. Dizem que nenhuma guerra pode ser travada sob a luz trazida por ela. Agora era apenas um ponto minúsculo entre muitos outros.

— Iremos vê-la brilhar de novo — disse ele. — Só temos que viver por muito tempo.

Dahrena virou-se de novo para ele com um tom de inquietação na voz:

— Não gosto deste lugar.

— Coisas terríveis já foram feitas aqui. Urso Sábio disse que as pedras carregam a memória.

— Não a cidade. As montanhas, o lar do povo de onde vim… — Ela se calou, mas Vaelin sabia que palavras ela deixara de dizer.

— E que matou o seu marido.

Dahrena assentiu levemente.

— Qual era o nome dele?

— O povo dele o chamava de Leordah Nil Usril, Vive em Sonhos. Eu o chamava de Usril. Os seordah o consideravam uma alma silenciosa, que raramente falava e com frequência se perdia em pensamentos. Era raro ele se juntar a bandos de guerra contra os lonaks, embora tenha se mostrado corajoso e habilidoso na batalha com a Horda. Os lonaks apareceram em maior número do que de costume num verão, fazendo incursões mais para o interior da região do que antes. Eu estava visitando meu pai quando recebi as notícias do ataque. Eu voei para a floresta e encontrei o seu corpo entre muitos outros, com um lonak morto sobre ele. Lembro quanto eles pareciam tranquilos, como se tivessem adormecido juntos. Procurei em toda parte por sua alma, mas ele havia morrido há pelo menos um dia.

Ela se calou, sua respiração suave no peito de Vaelin enquanto ele a abraçava com ainda mais força. Quando Dahrena tornou a falar, a sua voz era pouco mais do que um sussurro e era possível perceber o medo contido.

— Fiz o possível para morrer naquele dia, Vaelin. Pairei sobre a floresta e velei o seu corpo, ciente de que o meu próprio corpo logo perderia o calor, esperando poder me juntar à sua eterna caçada nas sombras… O meu pai me trouxe de volta. De alguma forma ouvi a voz dele me implorando para regressar. Mal senti o frio quando voltei ao meu corpo. Na verdade, quase não senti nada por semanas. Então fui até a pedra em busca do auxílio de Nersus Sil Nin. Ela me disse algo, algo em que eu não queria acreditar.

Dahrena ergueu-se, deixando o rosto na altura do dele e lhe olhando nos olhos.

— Ela me disse que eu ainda tinha muito o que fazer. Que havia grandes privações pela frente e que uma vida inteira de pesar era um luxo que não me seria permitido. E ela disse que certa vez dera um nome seordah a um homem, um homem que eu viria a amar. — Ela soltou uma risada, seu hálito suave nos lábios de Vaelin. — Eu pensei que ela era louca. Eu me enganei.

Eles retornaram à companhia de Orven dois dias depois, encontrando todos montados e dispostos em formação de batalha. A razão logo ficou aparente: pelo menos uma centena de lonaks em seus pôneis robustos claramente visíveis no alto de uma colina, quatrocentos metros ao norte.

— Apareceram esta manhã, meu senhor — relatou Orven quando Vaelin se aproximou a cavalo, saudando Dahrena com uma mesura surpresa. — É muito bom vê-la de novo, minha senhora.

— Meu senhor. Suponho que sejam necessárias congratulações.

Orven deu um sorriso discreto antes de lançar um olhar cauteloso aos lonaks.

— Receio que elas tenham de esperar.

Vaelin ergueu uma sobrancelha para Kiral, que observava os seus conterrâneos lonaks com um olhar firme.

— Eles vieram a mando da Mahlessa, ainda que desconfiados.

— Então é melhor dizermos olá.

Vaelin disse a Dahrena e aos outros que esperassem com os homens de Orven e cavalgou adiante com Kiral. Eles chegaram a poucos metros do sopé, parando quando um dos lonaks desceu a colina com o seu pônei, um homem enorme com um traje de pele de urso e uma tatuagem labiríntica que lhe cobria a cabeça raspada. O rosto lhe pareceu familiar quando ele parou o pônei a alguns metros de distância, encarando Vaelin com ódio e cumprimentando Kiral em lonak, num tom brusco.

— Este é Alturk — disse ela a Vaelin. — Tahlessa dos Senthar da Mahlessa.

— Nós já nos encontramos — comentou Vaelin, acenando com a cabeça ao homenzarrão. — O seu filho está bem?

Um espasmo de fúria percorreu o rosto de Alturk e Vaelin resistiu à tentação de sacar a espada quando Kiral ficou tensa ao seu lado.

— Meu filho era varnish — disse Alturk com aspereza na língua do Reino. — Uma vida imprestável que teve o fim merecido.

Vaelin perguntou-se se deveria dizer algumas palavras de condolência, mas supôs que seriam consideradas apenas mais insultos.

— A Mahlessa nos concedeu passagem — disse ele. — Qual é o seu propósito aqui?

Alturk rangeu os dentes e falou num tom lento e controlado, como se temesse que sua fúria pudesse sufocá-lo:

— A Mahlessa ordenou que cem dos Senthar seguissem você. O melhor sangue dos lonakhim, para ser derramado ao seu comando.

— Você sabe o que vamos fazer? Atravessaremos o gelo até as terras de nosso inimigo. São muitos os perigos.

— Ordens que vêm da Montanha não são questionadas. — Alturk puxou as rédeas e virou o pônei. — Sigam o nosso rastro e não se desviem dele. Há poucos aqui que receberiam de bom grado a sua chegada, e não prometo segurança.

Eles percorreram cinquenta quilômetros até o anoitecer, os Senthar mantendo um ritmo difícil através de inúmeros desfiladeiros e vales. Vaelin notou que eles cavalgavam com armas a postos, muitos segurando arcos com flechas nas cordas, olhos esquadrinhando constantemente o topo das colinas ao redor. Avistou também alguns pôneis sem cavaleiros entre eles e percebeu que alguns guerreiros exibiam ferimentos enfaixados havia pouco tempo.

— A Mahlessa pede muito de nosso povo ao permitir a sua passagem — explicou Kiral, seguindo o seu olhar. — A Falsa Mahlessa pode ter caído, mas suas palavras perduram em muitos ouvidos.

— Mas você é… era a Falsa Mahlessa — disse Vaelin. — Sua presença entre nós não irá desencorajá-los?

Kiral deu um sorriso melancólico.

— Quando a Mahlessa me libertou, parti da Montanha com as minhas irmãs, contando a minha história nas fogueiras de cada clã. É uma história bem-vinda em qualquer fogueira por ser tão cheia de acontecimentos. A maioria acreditou nela, mas alguns não, achando que de algum modo eu havia sido desviada de meu verdadeiro caminho pela Mahlessa. A coisa que me aprisionou tinha habilidade com as palavras, uma capacidade de plantar sementes de dúvida nos corações daqueles já acostumados com a malícia e a crueldade. É mais fácil odiar quando é dada uma razão, e ela tinha muitas.

Eles acamparam entre as escarpas de um planalto baixo algumas horas mais tarde, e Alturk posicionou uma guarda pesada em todos os pontos de acesso. A maioria dos Senthar parecia satisfeita em ficar longe dos merim her, mas nem todos eram tão cautelosos. Uma mulher robusta aproximou-se para olhar para Dahrena enquanto ela tirava a sela do cavalo, falando depressa em lonak.

— Não conheço a sua língua — disse Dahrena, visivelmente pouco à vontade com o escrutínio.

— Ela está perguntando se você pertence ao Clã da Flecha de Vidro — explicou Kiral. — Seu rosto a lembra de uma prima que ela perdeu anos atrás.

Dahrena franziu a testa com cautela para a lonak de rosto grave.

— Perdeu como?

— Num ataque — relatou Kiral. — Uma aldeia inteira foi dizimada e a prima dela morreu junto com as irmãs e os filhos. Eles acharam que haviam sido os seordah, mas os rastros estavam errados, e os seordah nunca matam crianças.

A expressão de Dahrena ficou mais atenta e ela largou a sela, aproximando-se da lonak.

— A prima dela tinha um nome?

— Mileka — traduziu Kiral. — Significa Coruja. — Ela fez uma pausa quando a lonak continuou a falar. — Ela está perguntando se você tem uma história para a fogueira.

— Sim. — Dahrena assentiu, relutante. — Tenho uma história.

A lonak levou cerca de uma dúzia de Senthar para ouvir a história, e todos se agacharam em volta da fogueira enquanto Kiral traduzia o que Dahrena tinha para contar. A presença de Urso Sábio e de Garra de Ferro era uma fonte óbvia de desconforto, mas aparentemente não o suficiente para diminuir o desejo por uma nova história. Eles se acomodaram, claramente fascinados, enquanto ela relatava as vagas lembranças que tinha da destruição de sua aldeia. Alguns ficaram agitados quando ela mencionou o lobo que a carregara pela floresta, mas todos permaneceram até Dahrena terminar, relatando como Lorde Al Myrna a encontrara e a tornara sua filha, assentindo e grunhindo em apreciação quando ela se calou.

— Eles gostaram — disse Kiral, com um tom de alívio na voz. — Uma boa história significa muito para o meu povo. — Ela ficou um pouco tensa quando Alturk surgiu da sombra de uma escarpa próxima, de braços cruzados e olhar fixo em Dahrena.

— Você viveu como merim her — disse ele. — Mas seus braços estão cobertos por adornos seordah.

— Sou tanto merim her como seordah — retorquiu ela no mesmo tom. — Se não de sangue, pelo menos de alma.

Alturk grunhiu algo que poderia ter sido uma risada.

— Sangue lonak não enfraquece tão fácil. Talvez você o sinta correndo em suas veias de novo antes desta história terminar. — Ele rosnou algo para os Senthar que observavam e eles se levantaram depressa e desapareceram nas sombras. — Não deixe de acordar antes do amanhecer — disse ele a Vaelin, retornado para a noite.

O primeiro ataque ocorreu no dia seguinte, enquanto eles atravessavam um desfiladeiro profundo a meio dia de marcha do planalto. Um grupo de cerca de duas dúzias de lonaks surgiu da entrada de uma caverna e disparou uma saraivada de flechas antes de se lançar sobre os Senthar, claramente determinados a abrir caminho até os odiados merim her. Somente um conseguiu atravessar o cordão, os outros sendo abatidos sem demora a golpes de porrete ou lança, aparentemente sem qualquer baixa do lado dos Senthar. O guerreiro solitário correu diretamente até Vaelin, gritando enlouquecido com o porrete de guerra erguido, e então derrapou até parar quando Garra de Ferro entrou em seu caminho. O lonak viu de olhos arregalados o urso rugir o seu desafio e ficar de pé. O guerreiro deixou cair o porrete, ao que tudo indicava aturdido de terror e alheio à flecha que se cravou em seu peito um segundo depois. Kiral caminhou até o cadáver de arco da mão e chutou as pernas do lonak para se certificar de que estava mesmo morto antes de se ajoelhar para recuperar a flecha.

Eles foram atacados de novo três noites depois, mas dessa vez os atacantes se contentaram em permanecer nas sombras e disparar flechas na direção das fogueiras, matando um Senthar que se colocara diante da luz no momento errado. Alturk reuniu vinte guerreiros e os conduziu para a escuridão, retornando pouco depois com porretes e pontas de lanças ensanguentados. Seus esforços pareceram ser suficientes para garantir uma noite tranquila e um grupo de Senthar logo se aproximou da fogueira deles à procura de uma história no que estava se tornando um ritual.

— Pode ser a minha vez — disse Orven. — A história do ataque de Lorde Vaelin na Batalha de Alltor.

Vaelin levantou-se com um gemido.

— Poupe-me.

— Mas eles querem uma história, meu senhor — disse Orven com um leve sorriso.

— Mas eu não.

Ele se afastou da fogueira quando Orven começou a narrativa, andando pelo acampamento onde os outros Senthar o recebiam com olhos cautelosos ou com uma indiferença calculada. Encontrou Alturk sentado sozinho, esfregando um trapo de zibelina sobre o porrete de guerra, uma faca recém-afiada no chão ao seu lado.

— Vim perguntar sobre o seu filho — disse Vaelin. — Espero que as minhas ações não tenham contribuído para a sua morte.

Alturk não ergueu a cabeça e grunhiu:

— Sua esperança é vã.

— Você o matou por desobedecer a Mahlessa?

O lonak tirou os olhos do porrete e havia neles um aviso nítido.

— Meu clã o matou. A morte dele foi correta e justa. E não vou falar mais sobre isso.

Vaelin aproximou-se da fogueira, agachou-se e estendeu as mãos para o calor. As noites estavam cada vez mais frias, os ventos que sopravam do norte uma lembrança constante do que se encontrava à frente.

— Minha Rainha me disse que os homens não têm permissão de ficar na companhia de sua Mahlessa. Você nunca a encontrou, e ainda assim a segue sem questionar.

— Você questiona a sua Rainha?

Vaelin sorriu um pouco.

— Não abertamente.

Alturk não respondeu. Deixou o porrete de lado e voltou o olhar para a fogueira. Vaelin notou que os anos haviam envelhecido o rosto do lonak, mas não o seu corpo, as rugas fundas na tinta em volta dos olhos.

— Você precisa saber que acredito que poucos de nós voltarão dessa jornada — afirmou ele ao lonak. — Os que não forem mortos pelo gelo podem acabar mortos em batalha.

Alturk permaneceu em silêncio por vários minutos, observando o fogo com os olhos envelhecidos. Por fim, quando Vaelin ia partir, ele falou:

— Um homem que já está morto não precisa temer nada.

* * *

Eles avistaram o gelo depois de mais duas semanas, uma faixa branca no horizonte a leste, depois de um litoral curvo à beira de um mar de águas cinzentas. As montanhas haviam começado a diminuir de tamanho nos últimos dias até se tornarem meros contrafortes, a maioria desprovida de qualquer vegetação e proporcionando pouca proteção contra inimigos. Os ataques se tornaram mais esporádicos quanto mais seguiam para o norte, possivelmente por simples cansaço, embora Vaelin desconfiasse que o atrito constante com os Senthar fosse a razão principal. Apesar da total falta de uniformidade ou costumes militares, eles eram tão disciplinados quanto qualquer companhia da Sexta Ordem e talvez quase tão habilidosos quanto os irmãos; apenas mais dois deles haviam sido mortos desde o ataque noturno.

— Pela Fé, como dói! — disse Lorkan, encolhendo-se diante do vento cortante e lançando um olhar questionador a Cara. — Você não pode fazer alguma coisa?

Ela se limitou a responder com um olhar aborrecido e desmontou quando Urso Sábio chegou com Garra de Ferro. Os cavalos haviam se acostumado somente um pouco à presença do urso, e o xamã em geral viajava um pouco afastado do grosso da companhia, sacolejando no dorso da criatura. Havia uma estranha cautela na atitude dos lonaks para com Urso Sábio, movendo-se em volta do velho num silêncio circunspecto, e ele era o único dos forasteiros que não precisava compartilhar uma história junto à fogueira.

— Olá! — cumprimentou Cara, coçando a cabeça imensa de Garra de Ferro, o animal bufando de prazer e agachando-se aos pés dela, embora seus ombros ainda batessem no peito da mulher.

— Precisa caçar mais — disse Urso Sábio a Vaelin. — Mais carne.

— Nós temos carne — rebateu Alturk. — Suficiente para pelo menos um mês de viagem.

— Não no gelo — insistiu o xamã. — Precisa de mais e mais.

— De onde? — Alturk gesticulou para a vastidão estéril ao redor deles. — Não há nada para se caçar aqui.

Urso Sábio olhou para o lonak por um momento e então soltou uma de suas gargalhadas, apontando para o litoral.

— Mar traz presentes, Homem Pintado.

* * *

Urso Sábio desapareceu com Garra de Ferro por várias horas, e ao retornar os conduziu até um penhasco que dava para a baía que servia de lar para os animais. Havia pelo menos quarenta deles na costa rochosa, os corpos gordos e cobertos de pelos arrastando-se de um lado para outro enquanto brigavam e gritavam uns com os outros, expondo presas impressionantes.

— O que são eles? — perguntou Lorkan, mantendo a voz num sussurro, apesar de estarem a uma distância considerável das criaturas.

— Lobos-marinhos — respondeu Dahrena. — Temos esses animais nas costas setentrionais dos Confins, embora eu não me lembre de já ter visto algum tão grande.

— Grande — concordou Urso Sábio com um aceno contente de cabeça. — Carne grande para levar no gelo.

— Vai estragar — disse Alturk. — E não temos sal para preservar tanta carne assim.

Intrigado, Urso Sábio respondeu franzindo o cenho e foi necessário algum tempo até Vaelin traduzir o significado.

— Estragar, rá! Carne não estraga no gelo. Frio demais. Basta defumar sobre o fogo. Dura muitos, muitos dias. — Ele fez sinal para Kiral e partiu na direção de uma trilha estreita que levava até a praia. — Nós caçamos, vocês acendem fogueiras.

Eles trabalharam no litoral durante boa parte de outra semana, acendendo fogueiras e matando os desafortunados lobos-marinhos seguindo as instruções de Urso Sábio. O xamã esfolou a primeira vítima com uma habilidade rápida e natural, recolhendo o couro inteiro com o que pareciam ter sido apenas alguns golpes de sua faca, um feito que nenhum deles conseguiu igualar, apesar do trabalho contínuo. A carne foi cortada em tiras e pendurada sobre as fogueiras para serem defumadas enquanto os couros eram separados para serem curtidos, o xamã deixando claro que precisariam deles mais tarde, voltando o olhar com frequência para a linha branca no horizonte.

— Fizemos a viagem tarde demais? — perguntou Vaelin a ele na última noite. Eles estavam sentados juntos num rochedo próximo da praia de cascalhos onde o trabalho sangrento havia terminado, enquanto Garra de Ferro mastigava satisfeito uma pilha de entranhas ali perto.

— Ainda tempo. — Urso Sábio ergueu a mão, formando um espaço estreito com o polegar e o dedo indicador. — Tempo pequeno. — Ele olhou por sobre o ombro para o acampamento, onde um grupo de Senthar escutava enquanto Kiral traduzia a versão um tanto obscena que Lorkan contava da Filha do Lenhador, um conto sobre amor não correspondido que envolvia assassinato e adultério, ainda que em geral não em tal quantidade e com tantos detalhes.

— Nem todos chegar nas ilhas — prosseguiu Urso Sábio. — Jeito das coisas no gelo. Sempre leva alguns, até mesmo Povo Urso.

— As ilhas? — perguntou Vaelin.

— Onde vamos. Outro lado do gelo. Já foi casa do Povo Urso.

— Eu pensei seu povo vivia no gelo.

Urso Sábio sacudiu a cabeça, olhando mais uma vez para o gelo. Parecia brilhar, iluminado por uma luminescência verde-clara no céu noturno que os lonaks chamavam de Sopro de Grishak, em homenagem ao seu deus do vento.

— Só tempos pequenos — disse Urso Sábio. — Nossa viagem para a sua terra mais tempo no gelo que Povo Urso passou.

Vaelin lembrou-se das pessoas emaciadas e de olhos encovados aglomeradas no Riacho Água de Aço, uma nação criada para sobreviver aos climas mais severos e ainda assim vencida pelo gelo.

— Eu jamais pediria a alguém que fizesse isso se não soubesse em meu coração que é algo que precisa ser feito — disse ele.