CAPÍTULO DEZ

Frentis

A Varikum ficava sobre uma colina baixa, uma fortaleza vasta de pedra com cinco bastiões circulares interligados. Eles haviam sido obrigados a esperar durante três dias nas colinas ao sul até que uma caravana aparecesse; vinte carroções transportando mantimentos e escravos novos para serem treinados. O comboio estava bem protegido com uma mistura de Varitai montados e mercenários Espadas Livres. Felizmente, tudo indicava que notícias sobre as táticas preferidas do Irmão Vermelho não haviam atravessado o oceano, pois eles reagiram da forma mais previsível ao avistarem um grupo de escravas aterrorizadas andando pela estrada. A pessoa no comando da guarda do comboio despachou de imediato os Espadas Livres a cavalo para investigar, sem se preocupar em proteger os flancos da coluna de maneira adequada. Frentis aguardou que os Espadas Livres cercassem as garotas e assistiu enquanto Lemera contava entre lágrimas a história de seu pobre senhor assassinado, caindo de joelhos diante do terror daquilo tudo. O Espada Livre que liderava os cavaleiros cometeu o erro de desmontar para erguê-la, segurou a cabeça da garota e a virou de um lado para outro, avaliando-a, e então cambaleou para trás quando a faca oculta de Lemera abriu o seu pescoço.

Os arqueiros cuidaram dos outros Espadas Livres, uma nuvem de flechas caindo sobre eles das rochas ao redor, e as garotas atiraram-se sobre os que ainda estavam vivos, caídos na estrada, as adagas subindo e descendo num frenesi. Frentis conduziu a pé o grupo de escravos libertos treinado por Illian contra o flanco do comboio, com Retalhador e Dente Negro indo na frente, cada cão arrancando um Varitai da sela. O destino da coluna foi selado quando Mestre Rensial e sua dúzia de combatentes montados investiram contra a retaguarda, despachando rapidamente os defensores restantes. O capataz do comboio foi o último a tombar, um sujeito tipicamente corpulento, de pé no carroção da frente, estalando o chicote furiosamente sem nenhum sinal aparente de medo contra os cavaleiros que o cercavam. Illian abaixou-se sob o chicote e saltou para o carroção, decepando um dos pés do homem e arrancando com destreza o chicote de sua mão enquanto ele caía. Na Martishe, eles sempre se empenharam em capturar vivo qualquer capataz; os escravos recém-libertados costumavam apreciar isso.

Os escravos somavam mais de trinta pessoas, a maioria homens, sentados com grilhões em carroções enjaulados no meio da coluna. Havia também meia dúzia de mulheres, escolhidas pela juventude e pela força.

— Os espetáculos são mais populares quando oferecem certa variedade — explicou Lekran. — É uma tradição colocar mulheres para enfrentar feras em homenagem a mitos antigos. Os volarianos descartaram os seus deuses, mas mantiveram boa parte das histórias, especialmente as sangrentas.

Frentis ficou feliz ao ver que a maioria dos escravos era gente do Reino, com alguns alpiranos de pele escura do Império Meridional. Pelo tratamento dispensado ao capataz, também estava claro que dariam recrutas dispostos.

— Você agiu bem — disse Frentis a Lemera, que estava agachada sobre o corpo de um Espada Livre enquanto o livrava de quaisquer itens úteis ou brilhantes. Ela respondeu com um sorriso acanhado que desapareceu num estremecimento ao ouvir o grito do capataz. — A liberdade é uma estrada difícil — disse Frentis a ela antes de ir encontrar Trinta e Quatro.

— Você está satisfeito com o seu papel nisso?

Oito olhou para os dois companheiros ex-Varitai e assentiu. Nos dias seguintes à libertação, eles passaram muitas horas de dor insones à medida que a ausência do karn cobrava o seu preço. Contudo, também trouxe de volta uma luz aos olhos deles, além de uma tendência de olhar para o céu ou a paisagem, como se as vissem pela primeira vez. Eles falavam pouco e Frentis começara a se perguntar se eles realmente compreendiam a situação em que se encontravam, mas agora ele via uma consciência no olhar dos volarianos, assim como uma sensação de certeza.

— Libertaremos tantos Varitai quanto pudermos, mas não podemos libertar todos — prosseguiu Frentis. — Compreende?

Oito assentiu mais uma vez e falou devagar, com uma voz rouca e formando palavras com cuidado deliberado:

— Nós estávamos… mortos. Agora… estamos vivos. Faremos outros… viver.

— Sim. — Frentis ergueu a espada tirada de um Varitai morto e a entregou a Oito. — Muitos outros.

A breve conversa de Trinta e Quatro com o capataz revelou que Varikum era protegida por não menos do que sessenta Varitai, complementados por uma dúzia de capatazes. Por sorte, eles se dedicavam principalmente à defesa interna e mantinham apenas alguns para proteger o lugar contra uma incursão.

— Garisai são famosos por serem difíceis de se cuidar — advertira Trinta e Quatro. — Eles nunca recebem drogas e não são dominados como os Kuritai.

— Podemos esperar libertar quantos? — perguntou Frentis.

— O capataz estimou mais de uma centena. Mas não espere que todos sejam recrutas dispostos, irmão, ou fáceis de comandar. A vida na Varikum é brutal e curta, muitos perecem no treinamento e poucos sobrevivem à primeira experiência dos espetáculos. Não é raro Garisai enlouquecerem devido às provações.

Frentis olhou para Mestre Rensial, sentado no chão ali perto com a expressão vazia que sempre parecia tomar conta de seu rosto após uma batalha. Então eles estarão em boa companhia.

Ele fez Lekran assumir o papel de capataz, vestido de preto e de chicote em punho. Frentis e Mestre Rensial vestiram os trajes de mercenários Espadas Livres e cavalgaram junto ao carroção dianteiro, subindo a encosta até o portão principal da Varikum. A falta de preparação do estabelecimento ficou evidente pelo fato de que o portão já estava aberto, e um homem grande adiantou-se para recebê-los com um olhar irritado.

— Estão atrasados, seus merdas! — rosnou ele a Lekran, e então parou, franzindo o cenho, desconfiado. — Onde está Mastorek?

— Se der para acreditar nas velhas da minha aldeia — disse o ex-Kuritai, levantando-se e tirando o machado que estava escondido debaixo de seu colete —, sofrendo mil anos de tormentos para além do mar infindável. Você irá cumprimentá-lo lá.

O capataz ainda tinha uma expressão de espanto no rosto quando o machado desceu e lhe rachou o crânio.

Frentis esporeou o cavalo adiante com a espada desembainhada e atravessou o portão a galope, matando outro capataz que tentava desesperadamente fechá-lo. Dois Varitai saíram correndo de uma entrada sombreada com as espadas curtas erguidas, e então rolaram sob os cascos do cavalo de Mestre Rensial quando este os atropelou. Frentis desmontou e seguiu ao lado de Lekran quando o ex-Kuritai passou por ele correndo de machado em punho, seguido de perto pelos três ex-Varitai e todos os combatentes de seu pequeno exército, uma vez que Frentis já não via sentido em tentar ser moderado a essa altura.

O exército dividiu-se de acordo com um plano preestabelecido quando chegou à fortaleza interior, Lekran levando metade da força para a direita enquanto Frentis seguia pela esquerda. A resistência era esporádica, mas feroz, com três ou quatro Varitai de cada vez tentando lhes bloquear o caminho, mas eram logo sobrepujados pelo ataque furioso. Oito, junto com Artesão e seus dois Varitai libertos, recebera a incumbência de capturar vivos tantos quanto possível; Artesão passava a sua corda grossa em volta de um e o arrastava para o chão, enquanto os outros se aproximavam para amarrá-lo. Tiveram pouco sucesso, capturando somente mais sete vivos quando a Varikum foi tomada, seus elegantes e sinuosos corredores de mármore cobertos de sangue de ponta a ponta.

Frentis ordenou ao grupo de Illian que revirasse a Varikum em busca de sobreviventes e então enviou Draker e o povo do Reino disfarçado às ameias com instruções de aparentar que tudo continuava como antes. Ele seguiu para o amplo círculo coberto de areia no meio da fortaleza principal, onde encontrou um aglomerado de homens e mulheres em formação defensiva. Haviam se posicionado em três fileiras compactas e disciplinadas, seus rostos fechados e desafiadores, embora as armas consistissem apenas em lanças e espadas curtas de madeira. A areia ao redor deles estava apinhada com os corpos dos capatazes, abatidos pelos arqueiros que haviam ocupado a galeria que dava para a arena. Ao que tudo indicava, o ataque pegara a Varikum no meio de seus treinamentos vespertinos.

— Eles acham que somos bandidos de uma expedição para capturar escravos — comentou Lekran quando Frentis entrou no círculo. — Está difícil convencê-los do contrário.

Frentis embainhou a espada e avançou na direção do grupo, vendo como eles ficaram tensos com a sua aproximação e notando as cicatrizes que ostentavam. Parecia que nenhum havia escapado ileso, quer do chicote, quer de quaisquer tormentos que os veteranos haviam sofrido nos espetáculos. Frentis parou a dez metros deles, procurando algum vestígio de reconhecimento entre os rostos, mas vendo apenas desconfiança.

— Há alguém aqui do Reino Unificado? — perguntou ele na língua do Reino. A resposta foi principalmente uma série de olhares furiosos e perplexos, embora um deles tenha se remexido ao ouvir as palavras, um homem de pele clara um pouco mais velho e com ainda mais cicatrizes do que os outros. Ele tinha a cabeça raspada como os demais e vestia uma roupa folgada que revelava um corpo moldado para o tipo de magreza que só se adquiria com anos de árduo treinamento.

— O último dos marinheiros de água doce morreu há dois dias — disse ele com um sotaque meldeneano. O homem inclinou a cabeça para Frentis, a boca contorcendo-se num leve desprezo. — Eles raramente duram muito tempo.

Mais alguém falou, uma jovem baixa porém musculosa que empunhava uma lança de madeira apontada para os olhos de Frentis.

— Diga a ele que, se pretende nos vender, é melhor estar preparado para sangrar pelo privilégio — disse ela em volariano.

— Eu falo a sua língua — revelou Frentis à mulher, erguendo as mãos abertas. — E viemos apenas para libertá-los.

— Para quê? — retorquiu ela, seu olhar tão furioso quanto antes.

— Isso vocês é que decidirão — respondeu Frentis.

Ao todo, duas dúzias de Garisai libertos decidiram ir embora, o meldeneano entre os primeiros a partir.

— Sem querer ofender, irmão, mas para o raio que o parta com a sua rebelião — disse ele num tom afável no portão, erguendo um saco cheio de objetos de valor e provisões. — Participei de dois espetáculos e isso é sangue suficiente para qualquer vida. Vou para o litoral, onde vou encontrar alguma coisa que flutue e navegar para as Ilhas. Imagino que a minha esposa provavelmente já encontrou outro idiota a essa altura, mas, ainda assim, lar é lar.

— Seu povo se aliou a nós — observou Frentis. — Os Senhores Marinhos concordaram com um tratado formal.

— É mesmo? Então para o raio que os parta também. — Ele deu um leve sorriso de despedida e partiu correndo para oeste.

— Covarde — murmurou Lekran.

Ou o homem mais sensato que encontro em muito tempo, pensou Frentis, observando-o se afastar.

A jovem do campo de treinamento fora escolhida para falar pelos seus companheiros Garisai e se apresentou como Ivelda. Frentis percebeu certa inimizade tribal pelos olhares atravessados e o sotaque similar ao de Lekran.

— Ela é rotha — advertiu o volariano, seu olhar tornando-se sombrio. — Não se pode confiar neles.

— Othra significa “cobra” na nossa língua — retorquiu a jovem, colocando a mão na espada curta que pegara da pilha de armas apreendidas. — Eles bebem mijo de cabra e se deitam com suas irmãs.

— Se vocês pretendem se matar — disse Frentis quando Lekran empertigou-se, vendo que estava cansado demais para intervir —, façam isso lá fora.

Ele voltou o olhar para o mapa que Trinta e Quatro abrira nos aposentos luxuosos que o capataz principal da Varikum ocupara. Não conseguiram capturá-lo vivo, para irritação dos Garisai libertos, embora tivessem se divertido com o cadáver, e a sua cabeça agora adornasse uma lança cravada no centro do campo de treinamento.

— A guarnição volariana sem dúvida recebeu notícias de nossas atividades a essa altura — disse Trinta e Quatro, batendo num ícone a uns 25 quilômetros a noroeste da Varikum. — Não será difícil seguir o nosso rastro até aqui.

— Nosso contingente? — perguntou Frentis.

— Duzentos e dezessete.

— Não é o suficiente — observou Lekran.

— Covarde fodedor de irmã — disse Ivelda com uma risada de escárnio. — Cada Garisai aqui vale dez Varitai.

— Ele tem razão — disse Frentis. — Precisamos de mais combatentes.

— Se eles vierem para cá, terão que atacar as muralhas para nos capturar — observou Draker. — Isso equilibra um pouco as coisas.

— Não podemos demorar aqui, por mais que eu queira. Além disso, incendiar este lugar será um sinal bem claro de nossas intenções. Talvez até funcione como um chamado àqueles aprisionados. — Ele passou o dedo por um amontoado de colinas a cinquenta quilômetros a nordeste, uma rota marcada com muitas plantações. — Iremos nos virar para enfrentá-los aqui, com sorte num número ainda maior. Preparem-se para partir numa hora.

Eles atacaram quatro plantações em quatro dias, e suas fileiras aumentavam a cada incursão. As propriedades ficavam maiores quanto mais eles seguiam para o interior, com mais escravos e amplas evidências de que os capatazes empregavam um nível de crueldade ainda maior do que o visto no litoral. A maioria dos novos recrutas era composta por pessoas do Reino; os que haviam nascido em cativeiro mostravam-se menos dispostos a abandonar uma vida inteira de servidão, em alguns casos até lutavam para defender os seus senhores. Isso foi particularmente evidente na quarta plantação, onde os escravos mais leais formaram um cordão de proteção em volta da proprietária, uma mulher alta e grisalha vestida de preto da cabeça aos pés, que permaneceu empertigada e com um olhar desafiador enquanto a sua propriedade queimava à sua volta. Os escravos que a protegiam estavam desarmados, mas deram os braços uns aos outros, recusando-se a ceder apesar dos pedidos de Frentis.

— Nossa senhora é bondosa e não merece isso — disse uma das escravas a Frentis, uma mulher de aparência matronal vestida com uma roupa visivelmente menos esfarrapada do que a maioria dos escravos que haviam encontrado. Seus companheiros escravos também estavam vestidos de maneira similar e ele viu poucas evidências de quaisquer cicatrizes. Aquela plantação também era incomum pelo fato de ser a única até então onde não encontraram um capataz sequer, possuindo somente quatro Varitai fora de forma, todos capturados, com exceção de um.

Frentis olhou para mulher no centro do cordão e percebeu como ela evitava o seu olhar, estoica em sua recusa de notar alguém inferior.

— Sua senhora enriqueceu às custas do trabalho de vocês — disse ele à matrona. — Se ela é tão bondosa assim, por que não os liberta? Venham conosco e saibam o que é a liberdade.

Foi inútil; todos os escravos permaneceram no lugar e não deram ouvidos a nenhuma outra tentativa de persuasão.

— Mate-os, irmão — disse uma das pessoas do Reino, um antigo ferreiro da primeira incursão, que arreganhou os dentes ao cuspir contra o cordão de escravos. — Eles nos traem com esse servilismo nojento.

Os outros escravos concordaram com um brado e, notou Frentis, nem todos eles povo do Reino. Os combatentes libertos estavam ficando mais ferozes a cada ataque, cada capataz ou senhor que torturavam até a morte aparentemente aumentando a sede de sangue.

— A liberdade é uma escolha — disse Frentis a eles. — Recolham esses suprimentos e preparem-se para partir.

O ferreiro grunhiu de frustração, apontando a espada para a senhora empertigada.

— E quanto à cadela velha? Meta uma flecha nela e talvez eles recobrem a razão.

O homem cambaleou quando Illian apareceu ao seu lado e lhe acertou um soco ligeiro no maxilar.

— Esta empreitada está sob o comando da Sexta Ordem — disse ela —, e a Ordem não guerreia contra velhas. — Ela levou a mão à espada quando o ferreiro virou-se na sua direção cuspindo sangue. — Questione o Irmão Frentis de novo e resolveremos isso com aço — prosseguiu Illian numa voz seca e firme. — Agora, junte as suas coisas e mexa-se.

Naquela noite, Frentis viu Artesão libertar os Varitai capturados. Eles haviam parado para passar a noite numa elevação quinze quilômetros ao norte da casa de campo da velha, e os Varitai, que agora chegavam a cerca de trinta indivíduos, haviam estabelecido o próprio acampamento, um pouco afastado da companhia principal. Eles permaneciam um grupo bastante silencioso, uniformes nas expressões de assombro e curiosidade com que encaravam o mundo, e raramente se afastavam de Artesão, lembrando a Frentis gamos recém-nascidos que se aglomeravam em volta de um pai.

Os três prisioneiros estavam sentados no meio do grupo, despidos até a cintura e impassíveis quando Artesão agachou-se ao seu lado com o cantil na mão. Ele mergulhou um junco fino no cantil e tocou com a ponta dele nas cicatrizes dos volarianos, em cada uma das vezes provocando um espasmo de agonia instantânea e um grito estridente que parecia sempre causar um arrepio intenso, não importando quantas vezes Frentis o ouvisse. Os Varitai ao redor aproximaram-se quando os gritos cessaram, os prisioneiros agora encolhidos aos pés de Artesão. Ele se curvou para tocar um de cada vez, apoiando a mão em suas cabeças até eles piscarem e despertarem para as suas novas vidas, cada rosto uma máscara de confusão.

Isso é um ritual, compreendeu Frentis, observando como todos os Varitai se viraram para erguer as mãos para Artesão, tocando um punho no outro e então os afastando. Uma corrente partida, lembrou-se ele de suas lições da língua dos sinais, perguntando-se onde eles a haviam aprendido. Apesar da reverência, Artesão não demonstrava qualquer sinal de estar desfrutando das súplicas dos Varitai, respondendo simplesmente com um leve sorriso, a fronte franzida de tristeza.

— Ele é um sacerdote?

Frentis virou-se e viu Lemera parada ali perto, encarando os Varitai com uma expressão intrigada.

— Não, um curandeiro — respondeu Frentis no seu alpirano hesitante. — Tem… grande poder mágico.

— Você está assassinando a minha língua — disse ela, mudando para volariano com uma risada. — Você a aprendeu no meu país?

Ele se voltou para os Varitai, estremecendo com lembranças que seria melhor se permanecessem esquecidas.

— Eu viajei muito.

— Eu tinha apenas oito anos quando me levaram, mas as lembranças que tenho de casa ainda são nítidas. Uma aldeia na costa sul. O mar era repleto de peixes e azul como uma safira.

— Você voltará um dia.

Ela se aproximou de Frentis, o olhar baixo e pesaroso.

— Não serei bem-vinda lá… arruinada como estou. Nenhum homem fará alguma oferta por mim e as mulheres irão me evitar pela minha violação.

— Parece que o seu povo possui costumes severos.

— Não é mais o meu povo. — Ela indicou com a cabeça os Varitai, que agora ajudavam os irmãos libertados a se levantarem, alguns dizendo palavras de consolo para tranquilizá-los. — Eles são o meu povo agora, e os outros. Você é o Rei de uma nova nação.

— Já tenho uma, e a minha Rainha dificilmente permitiria outra coroa no Reino.

— A irmã disse que você é o maior herói da sua terra. Você não merece ter as próprias terras?

— A Irmã Illian tende a exagerar, e a posse de propriedades é negada aos servos da Fé.

— Sim, ela tentou me ensinar a sua fé. Uma ideia estranha essa de adorar os mortos com tanta devoção. — Lemera sacudiu a cabeça antes de se virar e voltou para o acampamento principal, suas últimas palavras baixas, quase inaudíveis: — Os mortos não podem retribuir esse amor.

Eles chegaram à região das colinas dois dias depois, e já somavam mais de quinhentas pessoas, embora muitas não tivessem armas decentes, cerca de metade delas apenas com porretes ou ferramentas agrícolas. Um número crescente de recrutas era de fugitivos, que escapavam de seus senhores ao ouvirem sobre a grande rebelião conforme aqueles que haviam sobrevivido aos ataques espalhavam as notícias dos feitos da companhia de Frentis. Os fugitivos traziam notícias do terror que os atacantes estavam causando na população livre de Eskethia, as estradas setentrionais estavam agora apinhadas de pessoas vestidas de preto e cinza que buscavam a segurança de terras com mais guarnições.

Frentis os conduziu para o meio das colinas, uma paisagem essencialmente descampada, salpicada de árvores pequenas e marcada pelas pedras monolíticas que adornavam as encostas sinuosas. Ele escolheu um planalto rochoso para o acampamento principal, com vista desimpedida em todas as direções e protegido na extremidade norte por um rio de correnteza veloz. Mandou Mestre Rensial e Illian para fazerem o reconhecimento do terreno a oeste, e eles retornaram após uma cavalgada de dois dias para relatar que uma guarnição volariana os perseguia numa velocidade impressionante, mil soldados numa marcha forçada de oitenta quilômetros por dia.

— Este bando não pode enfrentar mil soldados, Irmão Vermelho — disse Lekran naquela noite. — Os recém-chegados ainda acham que é um jogo e a maioria nunca participou de uma luta de verdade.

— Então é hora de participarem — retorquiu Frentis. — Não podemos fugir para sempre. Levarei os arqueiros para ver se conseguem diminuir um pouco as fileiras deles. Irmã Illian, faça a sua gente começar a empilhar estas rochas em algo que se assemelhe a uma fortificação. Você e Draker ficarão no comando do acampamento até eu voltar. — Ele se virou para Lekran e para a Garisai. — Posso esperar que vocês realizem uma tarefa sem derramar o sangue um do outro?

Ivelda lançou um olhar azedo para Lekran, mas assentiu, e o ex-Kuritai concordou com um grunhido brusco. Eles observaram Frentis desenhar um mapa na terra, escutando com atenção enquanto ele explicava o papel que desempenhariam.

— Muita coisa pode dar errado nisso — disse Lekran.

— Mesmo que não funcione, deve pelo menos acabar com metade deles, e as pessoas aqui terão uma chance ao lutarem. — Frentis levantou-se e ergueu o arco. — Mestre Rensial, junte-se a mim, por favor.

Eles encontraram uma saliência sombreada para se esconder e observar os Varitai marcharem para as colinas, Frentis usava a sua luneta para avistar os oficiais. Foi fácil identificar o comandante, um homem robusto a cavalo no meio da coluna, sua autoridade evidente nos bruscos acenos de cabeça que dava aos homens mais jovens que ocasionalmente cavalgavam até o seu lado. A coluna estava bem organizada, mas possuía uma vaga fileira conflituosa de Espadas Livres na vanguarda, nos flancos e na retaguarda.

— Esse sujeito é um pouco cauteloso demais para o meu gosto, mestre — comentou Frentis, passando a luneta a Rensial.

O mestre a levou ao olho por um breve momento e então a devolveu, encolhendo os ombros.

— Então mate-o.

Frentis fez sinal para que o Cabo Vinten e Dallin se aproximassem e apontou para o flanco sul da coluna.

— Dallin, você vem comigo e Mestre Rensial. Vinten, pegue os outros e dê a volta. Quando eles acamparem, esperem pelo crepúsculo e matem o máximo de homens nos piquetes que puderem. Assim que terminarem, voltem para o acampamento, não se demorem.

O Guarda da Cidade assentiu, relutante.

— Não parece certo deixar você, irmão.

— Façam isso e ficaremos bem. Agora, vão.

Eles seguiram a coluna até o anoitecer, observando-a se transformar num acampamento quadrado com a velocidade e a precisão desconcertantes dos soldados-escravos volarianos. Vendo o modo como o batalhão inteiro se movia como um animal vivo, Frentis ficou feliz por nunca ter tido de enfrentá-los em campo aberto e assombrado com o fato de Vaelin ter conseguido derrotar tantos em Alltor. Não me admira que ela achasse que podiam conquistar o mundo inteiro.

Eles deixaram Dallin com os cavalos a um quilômetro do acampamento volariano e aproximaram-se a pé, seguindo para a fileira de piquetes ao norte. Frentis e Rensial vestiam os trajes dos mercenários Espadas Livres, basicamente idênticos à vestimenta padrão, porém um pouco menos uniformes na aparência, os peitorais adornados com vários escritos em volariano. Frentis não sabia ler as palavras, mas Trinta e Quatro traduzira o suficiente para indicar que consistiam em várias frases cínicas e fatalistas populares entre Espadas Livres veteranos: livre em espírito, mas escravo do sangue era um exemplo típico. Contudo, o traje era similar o bastante aos dos outros Espadas Livres para permitir que se aproximassem do primeiro que viram sem qualquer sinal de alarme.

— Que frio de merda esta noite — cumprimentou ele animado, a fumaça subindo enquanto mijava numa rocha.

Mestre Rensial não falava uma única palavra em volariano, mas repetiu “frio de merda” com uma precisão espantosa antes de se aproximar e cortar a garganta do homem. Eles esconderam o corpo atrás de um rochedo grande e seguiram em frente, chegando até os limites do acampamento sem qualquer interrupção. Varitai estavam postados a intervalos de cinco metros, sentinelas silenciosas que mal se moviam e que também não tentaram detê-los ao rumarem para o interior do acampamento, onde avistaram a grande tenda armada no centro. Frentis ficou consternado ao encontrar dois Kuritai postados do lado de fora da tenda; a cautela do comandante volariano estava se mostrando cada vez mais exasperante. Eles foram até uma fogueira a pouca distância dali, estendendo as mãos para esquentá-las e escutando pedaços da conversa no interior da tenda.

— … recebemos mais críticas por cada dia que demoramos, pai — dizia uma voz, aflita em sua impaciência juvenil. — Pode apostar que aqueles desgraçados em Nova Kethia já estão lucrando muito com os nossos infortúnios.

— Que lucrem — ouviu-se uma resposta muito mais plácida de uma voz mais velha, irritada e cansada. — A vitória sempre silencia as críticas.

— Você ouviu os batedores ontem. Pelo menos duzentos escravos fugiram só na semana passada. Se não acabarmos logo com essa rebelião…

— Não é uma rebelião! — exclamou a voz mais velha, uma raiva súbita espantando o cansaço. — É uma invasão de estrangeiros sedentos de sangue e você não vai me convencer do contrário. Nunca houve uma revolta de escravos na história do império e a nossa família não terá o nome maculado pela menção de uma. Está me ouvindo?

Uma pausa antes de uma resposta mal-humorada:

— Sim, pai.

A voz mais velha soltou um suspiro cansado e Frentis visualizou o seu dono jogando-se numa cadeira.

— Pegue o mapa. Não, o outro…

Eles esperaram até o sol desaparecer além do horizonte e vários alarmes soarem no perímetro sul, indicando que Vinten seguia as suas ordens com a típica eficiência. Frentis puxou uma faca de arremesso e olhou nos olhos de Rensial.

— Não mate o filho.

Eles correram para a tenda, Frentis sacudindo freneticamente a mão vazia para o sul.

— Honorável Comandante, estamos sendo atacados!

Como esperado, os Kuritai avançaram ao mesmo tempo para lhes bloquear o caminho, enquanto uma praga ecoava do interior da tenda e um rosto largo e grisalho surgia na entrada.

— O que é essa balbúrdia? — perguntou numa voz irritada.

Não tão cauteloso, afinal de contas, concluiu Frentis ao arremessar a faca, que passou por entre os dois Kuritai e atingiu o comandante na garganta. Frentis esquivou-se para o lado quando o Kuritai à direita atacou, sua espada chocando-se com as lâminas duplas ao girar, sua própria lâmina cortando fundo o braço do escravo de elite. O ferimento mal pareceu retardá-lo, e o homem desferiu um golpe veloz com o braço bom contra o peito de Frentis, as espadas colidindo-se com uma chuva de faíscas antes de o irmão segurar a espada curta pelo cabo, colocar um joelho no chão e dar uma estocada para o alto contra a cabeça do Kuritai. A ponta da espada atingiu o volariano sob o queixo, atravessando-o até o cérebro.

Frentis ergueu a cabeça e viu Mestre Rensial dando cabo do outro Kuritai, bloqueando um golpe alto com a espada enquanto sua outra mão cravava uma adaga na brecha que encontrara entre a axila e o peito na armadura do escravo de elite. O mestre recuou quando outra figura saiu da tenda, um jovem alto brandindo uma espada curta com as duas mãos, gritando de fúria e pesar, desferindo golpes frenéticos e sem muita precisão. Rensial esquivou-se de uma estocada mal calculada e arrancou a espada da mão do jovem, derrubando-o com uma bofetada no rosto.

O jovem se arrastou para trás quando Rensial avançou, erguendo as mãos para proteger o rosto, uma súplica quase incoerente por misericórdia brotando de seus lábios ensanguentados. Frentis parou sobre ele e o jovem se encolheu ainda mais, os olhos arregalados de terror.

— Está desonrando o seu pai com essa atitude — disse-lhe Frentis com grave desaprovação, e então inclinou a cabeça na direção de Rensial. — Mestre, creio que é hora de ir.

Como esperara, o ataque de Vinten atraíra atenção para o perímetro sul e eles seguiram quase sem serem interrompidos ao se afastarem do acampamento, gritando a cada guarda pelo caminho que estavam sofrendo um ataque e que o comandante havia sido morto. Não surtiu muito efeito com os Varitai, mas os Espadas Livres não tardaram a correr para investigar. Somente um tentou lhes bloquear o caminho, um cavaleiro corpulento de meia-idade com o porte comum a sargentos do mundo todo.

— Vocês viram o Honorável Comandante tombar? — perguntou ele, uma fúria sombria visível no seu rosto marcado.

— Dois assassinos — disse Frentis, colocando uma nota de pânico na voz. — Eles mataram os Kuritai como se fossem crianças.

— Acalme-se — ordenou o volariano na sua voz de sargento, franzindo um pouco o cenho ao olhar com mais atenção para Frentis e Rensial, seus olhos demorando-se nas armaduras cobertas de escritos. — De que companhia vocês são? Quais são os seus nomes e patentes?

Frentis olhou em volta e não viu mais ninguém por perto que pudesse ouvir, parando de se curvar de medo e empertigando-se.

— Irmão Frentis da Sexta Ordem — respondeu ele, acertando o lábio superior do sargento com os nós dos dedos. — Estou aqui a serviço da Rainha.

Ele deixou o homem quase inconsciente, mas vivo. Pela sua reação ao ouvir as notícias, Frentis deduziu que ele havia sido por muito tempo subordinado do comandante morto, e o filho poderia se beneficiar bastante de um conselheiro tão leal.

Dallin estava esperando onde o haviam deixado na face leste de um dos maiores rochedos, segurando firme os cavalos apesar da inquietação dos animais com o barulho crescente que vinha do acampamento.

— Cavalgue depressa — disse-lhe Frentis, montando. — Nada de descanso até o sol nascer.

A perseguição volariana mostrou-se mais lenta do que o esperado; a poeira levantada pelos batedores só apareceu bem depois do alvorecer do dia seguinte.

— Na Urlish eles já estariam nos nossos calcanhares a essa altura — comentou Dallin.

Frentis ergueu a luneta para ter uma visão melhor dos perseguidores; trinta homens, andando bem perto uns dos outros.

— Estou começando a suspeitar de que as melhores tropas deles morreram no Reino.

Frentis mandou Dallin ir na frente com instruções para Ivelda e Lekran, enquanto ele e Rensial ficavam para deixar alguns rastros óbvios para os volarianos: uma pedra virada, uma tira rasgada de roupa num galho de tojo. Ele esperou até que os cavaleiros estivessem a não mais que um quilômetro e meio de distância e a infantaria pudesse ser vista seguindo-os em fila por uma trilha estreita. Cavalgaram durante algum tempo e pararam no alto de uma colina, suas silhuetas visíveis contra o céu. Frentis podia ver a infantaria com mais clareza agora, uma longa coluna de Varitai deslocando-se numa corrida constante e que de alguma forma ainda conseguia acompanhar o ritmo. Os batedores avançavam numa boa velocidade, e a luneta de Frentis discerniu duas figuras na dianteira, um jovem alto seguido de perto por um homem corpulento com o lábio superior roxo. A tristeza acaba com a cautela, pensou ele com satisfação, virando o cavalo mais uma vez para leste.

Avistaram Lekran cerca de duas horas mais tarde, acenando com o machado erguido do alto de um dos rochedos monolíticos, os Garisai surgindo das rochas pelos lados.

— Está tudo pronto? — gritou-lhe Frentis, desmontando e subindo pela face mais escarpada do rochedo.

— A cadela rotha está guardando o flanco sul com metade dos Garisai. — Lekran apontou para o desfiladeiro abaixo, uma fenda estreita na paisagem de uns 150 metros de extensão por quarenta de largura. O desfiladeiro era fechado na extremidade oposta, onde um grupo de combatentes livres montara um acampamento adequadamente óbvio, com fumaça subindo de fogueiras e abrigos simples erguidos entre as rochas. — E a isca foi lançada.

Frentis sabia que aquilo era arriscado; ele só podia esperar que a fúria dos volarianos os impedisse de se perguntarem por que os seus inimigos haviam escolhido um lugar tão ruim para acampar. Contudo, Lekran não via muito risco no plano.

— Os volarianos veem escravos como seres inferiores aos homens — disse ele. — Incapazes de raciocinar de verdade. Confie em mim, Irmão Vermelho. Eles engolirão tudo e nós faremos com que se engasguem.

— E os tojos?

Lekran indicou com a cabeça o local onde os arqueiros de Vinten estavam agachados entre as rochas, pouco depois da extremidade norte do desfiladeiro, cercados por feixes amarrados de tojo. Frentis começou a descer do rochedo.

— É melhor eu assumir a minha posição. Lembre-se de deixar alguns Espadas Livres escaparem.

Ele seguiu para o outro lado do desfiladeiro, onde encontrou Illian supervisionando os preparativos.

— Eu lhe disse para aprontar o acampamento principal, irmã — disse Frentis, aborrecido.

— Draker tem tudo sob controle — retorquiu ela, olhando-o nos olhos sem sinal de arrependimento. — E já que treinei essa gente, não estou disposta a deixar que enfrentem uma batalha sem mim.

Frentis resistiu ao impulso de mandá-la sair dali. Illian tornava-se cada vez menos reverente com o passar dos dias, exercendo certa flexibilidade ao interpretar as ordens dele e com frequência mais do que disposta a defender a própria opinião. Ele sabia que não era necessariamente algo ruim. Sempre chegava um momento na Ordem em que os noviços deixavam a sombra de seus mestres, mas Frentis esperara que com ela isso levasse mais tempo; Illian ainda tinha muito a aprender e ele temia as consequências da ignorância dela.

— Fique perto de mim — disse ele. — Desta vez no máximo a um braço de distância. Entendido?

A atitude desafiadora dela se abrandou um pouco e Illian assentiu, erguendo a besta e encaixando um virote antes de colocar outro entre os dentes no que agora era reconhecido como um ritual pré-batalhas.

— Irmão! — Dallin estava no alto de um rochedo apontando para a abertura do desfiladeiro voltada para oeste, onde a cavalaria volariana surgira.

— Vocês conhecem o plano! — gritou Frentis para os outros enquanto se preparavam, brandindo armas variadas e posicionando-se numa fileira sem uma ordem muito definida.

A maioria era de seus combatentes originais da Urlish, misturados com os recrutas mais habilidosos conseguidos durante a marcha, com Artesão e os seus Varitai entre eles, carregados de cordas e porretes. Todos haviam amarrado panos úmidos sobre as bocas, algo que ele esperava que os volarianos interpretassem como um esforço para não serem reconhecidos.

— Temos que resistir à primeira investida — prosseguiu Frentis. — Quando as fileiras deles se desfizerem, formem pares e abram caminho até o centro do desfiladeiro.

Os volarianos pararam a oitenta metros de distância e começaram a entrar em formação. Era evidente que estava ocorrendo uma discussão acalorada no centro da fileira deles, e Frentis reconheceu a figura alta do filho do comandante, que batia boca com o sargento corpulento, gesticulando com impaciência para a gentalha de escravos celerados que aguardava. Atacar ladeira acima a cavalo em terreno irregular, ponderou Frentis, observando o sargento ser calado aos gritos e o filho do comandante sacar a espada, apontando para o homem. Seu pai sem dúvida teria ficado envergonhado, Honorável Cidadão.

Frentis virou-se para Illian quando os volarianos atacaram em disparada, espalhando pedras ao subirem com dificuldade a encosta.

— O sujeito grande ao lado do homem alto, irmã, por favor.

O virote foi disparado assim que ela levou a besta ao ombro, subindo e descendo num arco calculado com perfeição e cravando-se no peitoral do sargento antes que os cavaleiros tivessem percorrido metade do caminho; a forma corpulenta desabou da sela e permaneceu imóvel no solo rochoso. Illian moveu-se com uma velocidade natural para recarregar a besta e grunhiu ao apoiar a coronha no diafragma, preparando outro virote na arma e segurando mais um entre os dentes, tudo em menos de três segundos, um feito que Frentis jamais viu alguém igualar. A corda da besta zuniu de novo quando os cavaleiros chegaram a quinze metros de distância, e um Espada Livre caiu no chão com um virote fincado no elmo.

Frentis se pegou sentindo uma admiração relutante pelo modo como o filho do comandante avançava, as esporas entrando nos flancos do cavalo enquanto ele se esforçava para alcançar o assassino de seu pai, o ódio cego e a fúria estampados em seu rosto, tentando desfazer a vergonha com coragem, uma coragem que o deixava alheio ao fato de que o solo havia desordenado a sua companhia e que ele deixara os seus homens para trás para atacar sozinho.

Frentis correu para o rochedo mais próximo, o volariano tomado pelo ódio agora a menos de três metros dele, virando-se para interceptá-lo. Ele saltou para o alto do rochedo, o que o deixou na altura do filho, e desferiu um golpe giratório que se chocou com a espada de cavalaria de lâmina longa, estilhaçada pela lâmina da Ordem acima do punho. O volariano parou o cavalo e tentou virá-lo, tateando em busca da espada curta extra presa à sela, e então arqueando as costas quando o virote da besta de Illian cravou-se nelas.

Ela correu quando o filho do comandante caiu, segurando-o no chão com uma bota no pescoço e erguendo a adaga.

— Deixe-o — disse Frentis, aproximando-se e batendo com o pomo da espada na têmpora do volariano, deixando-o desacordado. — Veremos o que ele tem a dizer mais tarde.

Frentis olhou para a cena ao redor, sentindo um orgulho indulgente no modo como a investida volariana fora anulada com sucesso; os combatentes saltavam das rochas e arrancavam os cavaleiros das selas enquanto os Varitai de Artesão derrubavam cavalos com cordas ou desmontavam homens e se aproximavam para golpear com os porretes. Estava acabado dentro de poucos momentos; uma dúzia de cavalos sem cavaleiros trotaram de volta para as profundezas do desfiladeiro, cada volariano morto ou capturado. Eles mesmos tiveram poucas baixas, quatro mortos e dez feridos. Porém, a verdadeira batalha ainda não começara.

Os Varitai aproximavam-se com uma indiferença típica, embora o massacre sofrido pela cavalaria Espada Livre tivesse claramente alarmado os seus oficiais pelo modo como esporearam os cavalos até a retaguarda da coluna, ao mesmo tempo que ordenavam que o batalhão avançasse. Os Varitai se espalharam para formar uma linha ofensiva com quatro companhias, cada uma com quatro fileiras compactas, a primeira avançando com o seu ritmo impecável e inquietante, as lanças de lâminas largas apontadas na altura da cintura.

Quando os Varitai haviam percorrido dois terços da extensão do desfiladeiro, os arqueiros levantaram-se de seus esconderijos e começaram a trabalhar. Apesar de não serem muitos, a essa altura as suas habilidades estavam bem aprimoradas; a chuva de flechas foi esparsa porém mortal ao abater uma dúzia de Varitai a cada saraivada, mas, como sempre, os soldados-escravos mal pareciam notar, avançando naquele passo inabalável, com somente o mais leve sinal de desarmonia em suas fileiras.

O primeiro fardo de tojo flamejante voou em arco da parede do desfiladeiro e caiu bem diante da primeira fileira, erguendo uma fumaça branca, e foi rapidamente seguido por mais até parecer que caíam do céu enormes granizos em chamas. Uma cortina de fumaça logo cobriu o fundo do desfiladeiro de ponta a ponta, e os Varitai foram ocultados pela neblina sufocante.

Frentis prendeu o pano úmido sobre a boca e ergueu a espada, virando-se para dirigir-se aos combatentes ao redor:

— Lutem bem e que os Finados guiem as suas mãos!

Eles investiram num grupo compacto, correndo às cegas em meio à fumaça e chocando-se com a vanguarda da companhia de Varitai, o ímpeto da investida suficiente para fazê-los atravessar as quatro fileiras; Frentis e Illian moviam-se numa dança circular, matando Varitai por todos os lados. Logo tudo havia se transformado num tumulto de metais entrechocando-se e de gritos de dor ou fúria. Às vezes eles se viam numa multidão de oponentes, empurrando e golpeando enquanto tropeçavam sobre os mortos; em outros momentos a resistência desaparecia por completo e ficavam isolados num mundo de fumaça branca à medida que a cacofonia da batalha prosseguia invisível por toda parte. Frentis tinha vislumbres dos Varitai libertos em ação, derrubando os irmãos escravizados e golpeando-os até deixá-los inconscientes. No entanto, o que mais via era cenas de matança, os Garisai realizando a sua tarefa com toda a habilidade e a fúria aprendidas na Varikum. Frentis se pegou distraído por um momento pela visão de Ivelda e dois outros Garisai sendo erguidos pelos companheiros e arremessados sobre uma fileira de Varitai, girando no ar feito acrobatas na Feira de Verão e aterrissando para atacar o inimigo pela retaguarda.

— Irmão!

O aviso de Illian chegou tarde demais por uma fração de segundo, e Frentis girou nos calcanhares, deparando-se com um oficial Espada Livre que surgia a todo o galope da fumaça, perto demais para que pudesse se esquivar dele. Saltou então para a frente, agarrando o freio do cavalo e passando as pernas em volta do pescoço do animal. O cavalo empinou quando o cavaleiro golpeou Frentis com a espada. O golpe não foi bem direcionado, mas deixou um corte superficial em seu antebraço, forçando-o a se soltar. Frentis caiu com força no solo rochoso e perdeu o fôlego com o impacto. Ele rolou, tentou levantar-se e encheu a garganta com o ar carregado de fumaça, engasgando-se. O Espada Livre era um cavaleiro muito mais habilidoso do que o filho do comandante e virou o cavalo numa rápida demonstração de perícia, investindo com a espada preparada para um golpe decapitador contra o pescoço de Frentis.

A faca arremessada por Illian perfurou o rosto do cavaleiro logo acima da correia do queixo do elmo, forçando-o a virar o animal, mas ainda assim o flanco do cavalo chocou-se com Frentis tão logo ele conseguiu levantar-se, derrubando-o mais uma vez. Ele engoliu mais ar contaminado e forçou-se a ficar de pé, procurando de forma frenética pelo cavaleiro, mas vendo que a sela agora estava vazia. Seus olhos avistaram um movimento vago de sombras em meio à fumaça, a quatro metros dali, e ele correu na direção delas, onde encontrou Illian enfrentando o Espada Livre que fora derrubado do cavalo. Apesar da faca cravada na face, o volariano atacava a irmã com uma série de golpes habilidosos, a sua espada longa de cavalaria um borrão enquanto avançava, os dentes arreganhados no rosto ensanguentado. Illian aparou cada golpe e saltou, desferindo um chute na lateral do rosto do homem, enfiando a faca ainda mais fundo. O volariano cambaleou para trás, o sangue escorrendo grosso de sua boca ao cair de joelhos e olhar para Illian, a fúria dissipada agora que havia uma súplica desesperada em seus olhos.

Frentis parou para tomar fôlego, os sons da batalha diminuindo ao redor deles junto com a fumaça, revelando a ruína do batalhão Varitai, as fileiras organizadas rompidas, restando poucos focos de resistência. Nem mesmo eles conseguiam permanecer em formação ao serem cegados.

Frentis parou ao lado de Illian, que observava o volariano morrer.

— Matar sem necessidade é contra a Fé — explicou ela em resposta à sobrancelha erguida de Frentis.

— Sem dúvida, irmã — disse Frentis, apertando rapidamente o ombro dela antes de ir procurar Lekran e garantir que alguns sobreviventes pudessem fugir. — Sem dúvida.

Ela sente o retorno dele com uma torrente de alegria, imaculada pela inimizade feroz que toma conta da mente dele. Os longos dias de sua ausência foram árduos. Fora difícil dominar a solidão, antes uma sensação há muito esquecida, que agora provocava uma dor desesperadora quando ela se entregava às lembranças do tempo glorioso que passaram juntos. Em vez da voz, desta vez ele oferece uma visão, e pela clareza ela conclui que ele passou muito tempo vendo aquela cena, tentando capturar cada detalhe. Ela deduz que o seu retorno não é acidental e que qualquer artifício que ele vinha usando para ocultar os seus sonhos havia agora sido removido; ele quer que ela veja.

Mil ou mais Varitai e Espadas Livres jazem mortos num desfiladeiro, em algum lugar na região das colinas a leste de Nova Kethia, a julgar pela paisagem. Pessoas em armaduras descombinadas andam por entre os mortos dando cabo dos feridos e recolhendo armas. Ela se vê dando um sorriso jocoso. Você obteve uma vitória, amado, diz a ele. Que encantador. Eu procurava alguma desculpa para executar o governador de Eskethia.

A inimizade fica mais intensa, os pensamentos transformam-se em palavras, o seu coração palpita ao som da voz dele. Venha me enfrentar. Terminaremos isso.

Ela suspira, passa a mão pelo cabelo e seu olhar recai sobre o oceano cinzento que se estende para além do penhasco. Está começando a chover; o litoral noroeste sempre é úmido no inverno, embora as águas estejam mais calmas do que o esperado. Seus escravos aproximam-se correndo e trazem um toldo, ansiosos para proteger a Imperatriz das intempéries. Ela os dispensa com um aceno irritado. São escravos experientes, atentos ao extremo; porém, para uma mulher acostumada à privação e ao perigo, a sua devoção pelo conforto dela é irritante, deixando pouco pesar pelo destino iminente deles.

Sinto muito, amado, diz a ele, os olhos agora fixos no horizonte e o coração batendo mais rápido com a alegria da expectativa. Mas tenho assuntos a resolver aqui. Você terá que se entreter com os meus escravos por mais algum tempo.

A inimizade diminui, transformando-se numa curiosidade relutante. Ela ri, jubilante, quando os primeiros mastros surgem no horizonte, e ergue os olhos para o céu repleto de nuvens. Ela faz sinal para que o capitão de sua escolta se aproxime, um Arisai como os outros, promovido graças à sua brutalidade levemente mais controlada.

— Mate os escravos — diz a ele. — Além disso, passamos por uma aldeia a alguns quilômetros. Não pode haver testemunhas de minha presença aqui. Cuide disso.

— Imperatriz. — Ele faz uma mesura, com uma expressão de quase adoração, ainda que, tal como os outros, a crueldade raramente esteja ausente de seus olhos. Ele se vira e anda na direção dos escravos, sacando a espada.

Os membros dela estremecem ao se virar de volta para o mar, alheia aos gritos ao invocar o dom. Ela lamenta um pouco a necessidade de fazer isso, pois se acostumou àquela casca. Contudo, outra a aguarda em Volar, um pouco mais alta, embora não tão atlética.

É preciso cumprir as formalidades, meu amado, diz a ele, erguendo os braços e concentrando-se nas nuvens, observando-as dançar em resposta ao dom. É hora de uma imperatriz receber uma rainha.