CAPÍTULO NOVE

Reva

— Por que você não… com medo?

A língua do Reino de Lieza era adequada, mas não perfeita, embora fosse consideravelmente melhor do que o volariano de Reva. Ela estava sentava na única cama, com os braços em volta dos joelhos, os olhos brilhantes enquanto observava Reva praticar suas séries de movimentos de espada. No primeiro dia de confinamento, Varulek lhe fornecera uma espada curta de madeira e alguns conselhos veementes. “Prepare-se com todo o vigor. A arena não se importa com quem você era, apenas com o que pode ser”.

Seus alojamentos consistiam numa câmara cavernosa sem janelas, o que lhe dava espaço mais do que suficiente para praticar. Reva dançava pelo piso coberto de mosaicos, esquivando-se por entre pilares elegantes de mármore negro com veios brancos. As paredes eram decoradas com pinturas desbotadas que retratavam várias feras e homens em combate, e Reva notou como Lieza fazia o possível para não olhar para elas. Uma grande banheira havia sido inserida no piso no fundo da câmara, enchida com água quente através de algum dispositivo oculto de canos. Porém, fora a cama, havia pouco que pudesse ser chamado de mobília, ou qualquer coisa pesada o suficiente para ser usada como uma arma decente. Até mesmo a espada de madeira era feita de sândalo, e provavelmente se despedaçaria ao primeiro contato com qualquer coisa sólida.

— O medo mata — disse Reva à escrava, rodopiando numa última combinação de aparas e estocadas. — Você teria menos medo se treinasse comigo.

A série era invenção sua, uma variante bastante modificada de uma das séries padronizadas da Ordem de Vaelin, elaborada para enfrentar os Kuritai. No entanto, de acordo com o que Lieza lhe contara sobre os espetáculos, Reva concluiu que talvez fosse preferível enfrentar os escravos de elite. Ela questionara rigorosamente a garota durante horas, parando somente quando ela começou a chorar, as lágrimas escorrendo enquanto se atrapalhava com a descrição de alguma espécie de gato com dentes como adagas.

— Eu não uma… guerreira como você. — Lieza abraçou-se com mais força, encostando a cabeça nos joelhos.

— Então o que você é? — perguntou Reva.

— Escrava. — A garota falou num murmúrio, sem erguer a cabeça. — Sempre só escrava.

— Você deve ter habilidades.

— Números, letras, língua. — Lieza encolheu os ombros. — Meu mestre me ensinou muito. Não vai ajudar aqui. Eu sou Avielle, você Livella.

— E quem são elas?

— Irmãs. Uma fraca, outra forte.

Reva grunhiu de irritação e foi até a cama, agarrando a garota pelos pulsos e a colocando de pé.

— Olhe para mim! — Ela segurou o queixo de Lieza e o ergueu, sacudindo-a até que abrisse os olhos, úmidos e brilhando alarmados. — Basta disso. Precisaremos de todas as nossas forças, suas e minhas, para o que quer que nos espere aqui, se quisermos sobreviver.

A garota se encolheu e as lágrimas voltaram a escorrer.

— Eu não como você…

Reva ergueu a mão para esbofeteá-la. Bote alguma coragem nela à força, faça-a praticar e bata nela toda vez que vacilar. Ela aprenderá depressa o suficiente se eu colocar alguns hematomas naquelas pernas perfeitas, a pecadora desgraçada e bastarda…

Suas mãos tremeram com um espasmo involuntário, permitindo que Lieza se afundasse de novo na cama, a cabeça abaixada, sentindo-se miserável.

— Desculpe — disse Reva, afastando-se da garota chorosa, seu coração batendo depressa.

O som de chaves sacudidas foi ouvido do outro lado da grossa porta de ferro. As dobradiças rangeram ao se abrir, revelando Varulek com dois Kuritai às suas costas. Ele olhou de Reva para Lieza, que ainda chorava.

— Fui instruído a punir essa aí caso ela não consiga lhe agradar — disse ele.

— Ela me agrada o suficiente — afirmou Reva. — O que você quer?

Varulek afastou-se da porta, inclinando a cabeça num gesto surpreendentemente cortês de convite respeitoso.

— O louro lutará hoje. A Imperatriz achou que você gostaria de assistir.

Sua ideia inicial foi recusar, não desejando testemunhar o assassinato do Escudo. Contudo, ela não encontraria uma oportunidade para escapar ali, e talvez o pirata merecesse que o seu fim fosse testemunhado por pelo menos uma aliada. Reva jogou a espada de madeira na cama, ao lado de Lieza.

— Tente, pelo menos — disse ela em voz baixa, colocando a mão no ombro da garota. — Copie o que me viu fazer.

A cabeça da garota balançou no que pareceu ser um assentimento e Reva foi até a porta, notando como os Kuritai mantinham um espaço de no máximo quinze centímetros entre eles e Varulek. Ele tem medo de mim, concluiu ela, deprimida pelas constantes evidências de que o Mestre da Arena não era tolo. Ele permanecia inabalado com os insultos que Reva lhe lançava, estava sempre fora de alcance e certificava-se de que os punhos dela estivessem agrilhoados nas raras ocasiões em que tinha permissão de deixar a câmara.

Reva ficou imóvel quando um dos Kuritai levou uma faca à sua garganta, o outro fechando os grilhões em volta de seus pulsos. Ela calculava que despachar um deles seria relativamente simples, bastaria passar as correntes em volta da garganta e quebrar o pescoço, mas ainda precisava elaborar uma manobra que evitasse que o outro a matasse um segundo depois. Além do mais, Reva achava improvável que Varulek simplesmente ficasse parado e a ajudasse a escapar. Embora o volariano tivesse proporções medianas, ela podia ver pela sua postura e pela força evidente nas mãos tatuadas que o combate não lhe era estranho. Talvez já tenha sido um soldado?

— Seus aposentos são aceitáveis? — perguntou ele, conduzindo-a ao longo da passagem. Eles estavam nas profundezas da arena, o corredor levando a uma longa escadaria que subia num arco curvo alinhado com a gigantesca arena oval.

— Seria bom ter uma mesa e uma cadeira — falou Reva ao começarem a subir os degraus.

— Seriam quebradas com facilidade e as pernas usadas como porretes — retorquiu ele. — Então, infelizmente, tenho de recusar.

Reva segurou um suspiro de frustração, ponderando mais uma vez sobre a predileção do Pai de colocar obstáculos em seu caminho. Por que não me permitir um carcereiro estúpido?, perguntou a ele. Se o seu objetivo é me punir, tentar escapar deste lugar sem dúvida servirá para isso num piscar de olhos. Não houve resposta, é claro, e o Pai permanecia tão alheio às suas súplicas como sempre fora, embora agora ela pelo menos visse uma razão. Eu menti em seu nome. Não posso achar que mereço viver.

— Alguns livros para a garota, então — disse ela. — Acho que ela apreciaria uma distração.

— Cuidarei disso.

Subiram em silêncio durante algum tempo, passando por várias plataformas de sentinela, cada uma com uma dupla de Kuritai em sua típica imobilidade de olhar vazio. Quanto mais subiam, mais ornamentada a estrutura que os cercava se tornava, os tijolos expostos dando lugar a paredes lisas decoradas com mosaicos e ocasionais esculturas em alto-relevo. Reva ficou surpresa ao notar que a maior parte da decoração mostrava sinais de vandalismo não reparado, escritos desconhecidos arrancados a cinzel ou imagens sujeitas a marteladas despedaçadoras. Pela cor da pedra, ela deduziu que aqueles eram estragos antigos.

— Esta é uma construção muito antiga — comentou Reva ao se aproximarem do nível térreo da arena, a passagem estreita ecoando com um zunido baixo que aumentava a cada passo. Era um som que Reva conhecia muito bem, similar aos gritos coletivos dos arqueiros nas muralhas de Alltor quando desafiavam os volarianos a marcharem para outra chuva de flechas, o brado de muitas almas sedentas de sangue.

— De fato — disse Varulek. — Na verdade, é a mais antiga da cidade. Produto de uma era menos esclarecida. — Ela notou uma entonação nova na voz geralmente impassível dele, um leve porém discernível tom de desprezo.

— Menos esclarecida?

— Assim dizem os historiadores imperiais.

Reva viu como os olhos de Varulek se demoraram numa estátua ao subirem o último degrau e entrarem na passagem larga e arqueada que levava à arena propriamente dita. Era uma figura de bronze típica, como as muitas que vira na viagem até ali, um homem, como costumavam ser, que empunhava uma espada curta no alto num gesto de desafio heroico. Ela podia ver pelo lustre no bronze que a estátua era relativamente recente, mas o pedestal em que estava era muito mais antigo, um cilindro entalhado de mármore dourado-avermelhado, uma placa de ferro pregada na lateral sem muita consideração com a pedra, que estava rachada e lascada em vários lugares.

— Antes havia outra estátua no pedestal — disse Reva. — Quem era?

Varulek tirou os olhos da obra e começou a andar a passos mais largos.

— Savorek — respondeu ele numa voz seca. — O maior dos guardiões.

— Guardiões de quê?

Ele a conduziu até outra escada, que levava ao nível superior. Varulek permaneceu em silêncio até subirem a escada e o barulho da multidão tornar-se uma cacofonia incessante, quase abafando a sua resposta, mas Reva a ouviu.

— De tudo o que nos foi tirado.

Ele a levou por uma série de corredores, o caminho ladeado por guardas a cada dez metros. A maioria ali era de Espadas Livres, embora suas armaduras e armas tivessem uma aparência menos uniforme do que a dos recrutados que enfrentara no Reino. Contudo, apesar da falta de uniformidade, Reva notou que todos tinham a mesma expressão: olhos mais arregalados do que o normal, rostos pálidos e maxilares que se contraíam intermitentemente. Todos eles estão aterrorizados, compreendeu ela, voltando o olhar para o balcão onde uma figura esguia estava sentada num banco acolchoado.

A Imperatriz levantou-se para recebê-la ao entrar no balcão, o seu sorriso desconcertante em sua cordialidade genuína. Ela se aproximou e inclinou-se para lhe beijar o rosto.

— Que bom que você veio, irmãzinha.

Reva cerrou os punhos com a proximidade dela, não gostando do fato de que o perfume da Imperatriz agradava os sentidos de modo sutil. Porém, qualquer impulso violento foi contido ao avistar os cinco Arisai no balcão, cada um cumprimentando Reva com um sorriso de boas-vindas, enfurecedor por sua intimidade. Acham que estão vendo alguém igual a eles, pensou ela, enojada com a ideia.

A Imperatriz recuou, virou-se para Varulek e acenou para a multidão de forma impaciente.

— Cale-os.

O homem de preto foi até a beira do balcão e ergueu a mão para olhos invisíveis abaixo. Quase que de imediato ouviu-se o som de muitas trombetas, as notas formando uma melodia estridente repleta de uma autoridade implacável. A multidão ficou num silêncio absoluto no mesmo instante, não perturbado nem mesmo pela mais leve tosse ou grito ocasional, como se cada alma presente tivesse prendido a respiração ao mesmo tempo e temesse soltá-la.

— Honoráveis Cidadãos e gentalha de todos os tipos! — gritou-lhes a Imperatriz, avançando até que os dedos dos pés descalços ficassem para fora da beirada do balcão, sua voz ressoando com uma facilidade quase sobrenatural até os cantos mais afastados da arena. — Antes de deliciar os seus corações pestilentos com ainda mais sangue, eu gostaria de apresentar uma convidada ilustre do outro lado do oceano. — Ela gesticulou para Reva, seus lábios dando o sorriso encorajador de uma irmã mais velha. Reva não se mexeu, até que um Arisai forçou uma tosse, coçando o queixo com uma careta de desculpas, a outra mão apoiada na adaga em seu cinto. Ela foi lentamente para o lado da Imperatriz, contraindo-se quando a mulher agarrou o seu pulso agrilhoado e o ergueu. — Eu lhes apresento a Senhora Governadora Reva Mustor de Cumbrael! — tornou a gritar a Imperatriz. — Muitos de seus filhos e esposos sem dúvida tombaram pelas mãos dela, merecidamente, aliás. No entanto, mesmo que nenhum de vocês seja digno de beijar os pés desta mulher, eu ainda assim determinei que ela irá entretê-los aqui no seu devido tempo. Sua Imperatriz não é generosa?

Ela apertou com mais força os pulsos de Reva, o rosto uma máscara de intensa malícia. A Imperatriz continuou encarando a multidão no que pareceu uma eternidade, percorrendo com os olhos cada fileira silenciosa, como se procurasse a menor expressão de deslealdade. Por fim, ela grunhiu e soltou Reva, voltando para o banco e gesticulando irritada para Varulek.

— Ande logo com isso. Irmãzinha, venha se sentar ao meu lado.

As trombetas tornaram a ressoar, uma nota menos estridente desta vez, quase alegre. Os murmúrios da multidão aumentaram de novo quando Reva se sentou ao lado da Imperatriz, não ouvindo nenhum grito de empolgação entre a tensão de milhares que trocavam sussurros temerosos.

Um escravo trouxe chá em pequenas xícaras de vidro, assim como uma seleção de bolos belamente decorados, cada um deles um cubo perfeito de coberturas coloridas, encimados por algum tipo de folha de ouro minúscula.

— Meu brasão — disse a Imperatriz, erguendo um dos bolos para que Reva o examinasse, revelando que o brasão era uma adaga diminuta dentro de um círculo de corrente. — Morte e servidão, minhas duas dádivas. — Ela riu e colocou o bolo na boca, franzindo o cenho consternada ao mastigar, seu rosto não revelando mais satisfação do que se estivesse comendo um pão puro.

Reva voltou a atenção para a arena, vendo que o balcão oferecia uma visão quase total do campo de areia. Ela calculou que talvez tivesse duzentos metros de largura e quase trezentos de comprimento. A areia estava sendo preparada por alguns escravos, que passavam rodos sobre diversas manchas escuras, sem dúvida evidências de alguma matança que ocorrera antes. O olhar de Reva esquadrinhou a multidão e ela notou como a entonação das vozes misturadas havia mudado, o medo dando lugar a um burburinho coletivo de expectativa. Eles a temem, mas não conseguem resistir ao que ela oferece aqui, concluiu Reva com desprezo.

— Sim, horríveis, não? — comentou a Imperatriz, bebericando o chá.

Reva engoliu um suspiro.

Não sinta nada. Não pense em nada.

— Você odeia o seu povo como eu odeio essa gente? — prosseguiu a Imperatriz. — A ingenuidade deles deve ser cansativa às vezes.

Reva sabia que estava sendo provocada, que aquela coisa estava tentando estimular uma raiva que pudesse revelar algo de novo. No entanto, não havia raiva em seus pensamentos ao voltá-los para o seu povo, o seu povo crente e confiante.

— Eles rechaçaram o seu melhor exército durante meses — disse Reva. — Famintos e sem esperança, eles deram o sangue e a vida para salvarem uns aos outros. Seu povo se deleita com a crueldade e faz do assassinato um entretenimento. Reservarei o meu ódio a eles.

— E a sua culpa para si mesma. — A Imperatriz deu uma mordida em outro bolo, erguendo as sobrancelhas com leve desapontamento. — Tudo tem gosto de cinzas — murmurou ela, jogando o bolo de lado.

Reva tentou ignorar o peso do olhar da Imperatriz concentrando-se numa nova agitação na arena. Dois grupos de homens estavam surgindo de portas em extremidades opostas, os brados excitados da multidão logo cessando quando a condição dos homens tornou-se clara. Estavam todos nus e a maioria era de meia-idade ou mais velhos, pálidos e trêmulos sob o escrutínio da multidão, alguns com as mãos sobre os genitais de forma protetora, outros parados em aparente perplexidade ou choque.

— Com licença por um momento, irmãzinha — disse a Imperatriz, levantando-se mais uma vez. Ela foi até a beira do balcão, onde um Arisai aguardava com um joelho no chão e estendia uma espada curta. — Como mais uma prova da generosidade ilimitada de sua Imperatriz — gritou ela, gesticulando com o braço de um extremo ao outro da arena —, acrescento mais duas equipes às veneráveis Corridas da Espada! À minha direita, a Honorável Companhia de Traidores. À minha esquerda, a Nobre Ordem dos Oficiais Corruptos. Ambas conquistaram o meu desagrado com sua deslealdade e ganância, mas a minha compassiva alma feminina me obriga a ser misericordiosa. Haverá apenas um vitorioso na competição de hoje, que terá permissão de viver o resto de seus dias como escravo e a família poupada das três mortes.

Ela pegou a espada do Arisai ajoelhado e a arremessou no centro da arena. Reva não conseguiu deixar de ficar impressionada com a habilidade do arremesso, que fez a espada afundar na areia até o punho. A Imperatriz virou-se quando as trombetas tocaram uma nota curta, o murmúrio da multidão agora uma mistura de espanto e confusão.

Os dois grupos de homens nus continuaram imóveis quando a nota cessou, trocando olhares cautelosos ou olhando para a multidão com o rosto manchado pelas lágrimas e uma leve esperança no ar. Por um momento pareceu que simplesmente continuariam parados ali, paralisados pelo terror, até que um grupo de arqueiros Varitai posicionado nos níveis superiores disparou uma saraivada de flechas na areia ao redor de seus pés. Um dos homens nus afastou-se do grupo de imediato, disparando na direção da espada com uma velocidade surpreendente para um sujeito com uma barriga tão avantajada. Vários homens começaram a correr no seu encalço, fazendo os seus oponentes se moverem. Logo os dois grupos estavam correndo na direção um do outro num estouro de carnes flácidas e suadas, as vozes erguidas num desafio desesperado. O homem gordo foi o primeiro a chegar à espada, arrancando-a da areia e a agitando contra a equipe adversária quando se aproximaram, uma nuvem brilhante de sangue surgindo na massa de carnes que se chocaram. O homem gordo logo desapareceu de vista, afundando num mar de membros agitados enquanto os combatentes se atracavam com uma ferocidade inexperiente. A espada reapareceu, erguida na mão de um velho magricela de cabelos grisalhos e desgrenhados. Ele golpeou repetidas vezes a multidão que o cercava, os olhos arregalados de loucura, antes de ser arrastado e desaparecer de vista.

— Não desperdice a sua piedade — disse a Imperatriz a Reva, tornando a se sentar. — São todos homens de preto, e não há um entre eles que não tenha sangue nas mãos. — Ela se aproximou, baixando a voz a um sussurro conspirador, como se fossem duas garotas trocando fofocas: — Então, está gostando de Lieza? Não a acha uma coisinha doce?

Reva estava determinada a não responder e manteve o olhar na multidão agora minguante de infelizes combatentes. Muitos estavam caídos na areia, feridos ou cansados demais para continuar lutando, mas um grupo compacto deles ainda se enfrentava no meio da arena, uma massa rodopiante de carnes avermelhadas com a espada no centro.

— Posso providenciar uma substituta — prosseguiu a Imperatriz. — Caso ela não esteja se mostrando do seu… agrado.

Não pense em nada. Não sinta nada.

— Eu a acho… aceitável.

— Fico feliz. Afinal, você é a Honorabilíssima Garisai. Os aposentos que lhe foram dados são tradicionalmente reservados para os campeões mais celebrados. Veja bem, antigamente os Garisai não eram escravos, mas sim homens e mulheres livres, que vinham honrar os deuses com sangue e coragem. Os invictos eram elevados a grandes posições, recebiam todos os luxos e prazeres, pois os deuses favoreciam aqueles que conseguiam saciar a sua sede infindável.

— O que aconteceu com eles? — perguntou Reva, observando um grupo de cinco sobreviventes cercar o homem que agora empunhava a espada, aproximando-se enquanto ele tentava afastá-los com estocadas desajeitadas, o rosto pálido de exaustão. — Com os deuses.

— Nós os matamos — respondeu a Imperatriz, voltando a atenção para a arena quando a competição se aproximou de sua conclusão.

O homem com a espada matou um oponente alto mas idoso, antes que os outros chegassem perto e o derrubassem, punhos subindo e descendo num frenesi até que um se afastou com a espada, virando-se de pronto para golpear os antigos aliados, soltando um grito bestial a cada golpe. A multidão havia ficado mais uma vez em silêncio e a fúria ritmada do homem reverberava pelos níveis ascendentes, parando em meio a arfadas ao dar cabo da última vítima e cair de joelhos na areia, chorando, o torso flácido vermelho do pescoço à cintura.

A Imperatriz estreitou os olhos por um momento para a figura encolhida.

— Um dos corruptos — disse ela antes de se virar para Varulek. — Certifique-se de que ele dê cabo dos feridos e então o mande para a Casa da Moeda. Carregar sacos de ouro e prata pelo resto da vida talvez lhe ensine o verdadeiro valor do dinheiro.

Ela se recostou, esticou a mão e passou os dedos pelas madeixas do cabelo de Reva que haviam escapado de sua longa trança.

— Os deuses já não tinham serventia para um povo disposto a ter um grande futuro, um destino que só poderia ser alcançado pela união e pela razão objetiva — afirmou ela num tom de reflexão. — Pelo menos foi o que o meu pai me disse certa vez.

— Eles não eram reais — disse Reva. — Seus deuses morreram enquanto o Pai do Mundo permaneceu. — Ela observou quando dois Arisai ergueram o único sobrevivente e o empurraram na direção da forma prostrada de um homem com a barriga aberta por um talho, uma mão agarrada às entranhas que saíam enquanto erguia a outra numa súplica vã por misericórdia. — Vocês construíram uma nação de horrores.

— E o que é a sua nação, irmãzinha? Uma perfeita civilização? Eu a vi, e acho que não. Vocês rastejam para um sonho anotado séculos atrás, continuando com a rixa interminável com aqueles que por sua vez rezam às almas imaginadas dos mortos.

— Uma rixa que agora terminou, graças a você.

— E a você, Senhora Abençoada. Aquela que fala com a voz do Pai. — Ela deu uma risada baixa quando o desconforto de Reva aumentou. — Ah, sim, eu compreendo. Você mentiu. Milhares a seguiram até aqui para morrer, tudo por causa das palavras que você disse em nome de um deus surdo-mudo. E, apesar de nunca de fato ter ouvido a sua voz, você ainda receia ser punida por ele.

Ela se inclinou para mais perto, e Reva manteve o olhar fixo na arena e no último homem, cambaleando feito um bebê ao ir de uma figura aleijada a outra.

— Deixe isso de lado, irmãzinha — sussurrou a Imperatriz no tom urgente de um pedido honesto. — Eu posso lhe mostrar tantas coisas.

Reva viu o último dos feridos morrer antes de os Arisai arrastarem o sobrevivente para fora da arena, suspenso entre eles, a cabeça jogada para trás enquanto tagarelava com uma voz enlouquecida.

— Já vi o suficiente — disse ela.

Reva sentiu o hálito da Imperatriz em sua face quando ela soltou um pequeno suspiro, beijando-lhe o rosto antes de se afastar.

— Sinto que tenho de discordar, minha senhora.

Os escravos levaram quase meia hora para remover os corpos da arena e limpar o sangue empoçado da areia. A Imperatriz permaneceu em silêncio durante esse tempo, seu rosto assumindo uma expressão estranhamente vazia, os olhos embaçados. De vez em quando seus lábios se moviam num murmúrio silencioso, sua fronte se franzia em confusão com alguma perplexidade interna, suas feições ocasionalmente retesando-se numa máscara de espanto tão pesaroso que Reva se viu abafando uma pontada de pena. Esta coisa é louca, compreendeu. Uma Imperatriz louca para um império erguido com razão objetiva.

As trombetas soaram de novo e a Imperatriz piscou, endireitando-se para ver as figuras que saíam de uma porta da parede da arena. Havia dois homens, ambos altos, um louro, outro moreno. O louro empunhava uma espada curta, enquanto o seu companheiro carregava uma lança. Vestiam calças de couro, mas nenhuma armadura, os peitos nus enquanto olhavam para os níveis ao redor. Ao contrário dos infelizes homens de preto que os haviam precedido, não havia qualquer sinal de súplica em seus rostos; estavam tensos, por certo, mas não dispostos a implorar.

A multidão recobrou um pouco da animação diante da perspectiva de um entretenimento que lhes era familiar, numerosas vozes erguendo-se em escárnio ou apreciação, o horror da Corrida da Espada aparentemente esquecido. Os pulsos de Reva rasparam nos grilhões quando ela cerrou os punhos, e seu olhar voltou-se para o rosto do Escudo. Sua barba havia sido raspada, revelando feições belamente esculpidas que ela sabia terem atraído a atenção de muitas senhoras do Reino. Ela notou o reconhecimento dele quando Ell-Nestra encarou o balcão e baixou a cabeça numa saudação rápida. Reva olhou para o moreno e viu que era um jovem de não mais do que vinte anos, o rosto rígido com um medo controlado que desapareceu quando a avistou. A sensação de reconhecimento foi quase nauseante, e Reva se viu de pé quando o jovem alto caiu de joelhos, a lança erguida no alto com as duas mãos. Ele gritou alguma coisa que se perdeu em meio aos brados bestiais da multidão, mas Reva sabia bem qual era o significado.

Alegra-me vê-la, Senhora Abençoada.

— Você conhece o mais novo também? — perguntou a Imperatriz, seu dom decifrando os sentimentos de Reva com uma facilidade execrável.

Reva não soube por que respondeu. Talvez porque quisesse que ele tivesse alguma forma de memorial, alguém que dissesse o seu nome antes que morresse.

— Allern Varesh — disse ela, as palavras arranhando a garganta seca. — Da Terra dos Rios e Guarda da Casa Mustor.

— Tanta culpa. — A Imperatriz colocou uma mão solidária em seu ombro, puxando-a para perto. — Você precisa aceitar quem e o que é. — Ela acenou para Allern, que continuava ajoelhado. — Ele e a sua laia jamais chegarão ao nosso nível. A natureza fez deles nossos servos. Uma verdade que acredito que a sua rainha compreendeu há muito tempo.

Ela deu um último abraço em Reva e foi mais uma vez para a beira do balcão, a multidão calando-se de imediato com o toque das trombetas.

— Antigamente! — gritou ela. — Quando este império sofria com superstições e ilusões, este dia era conhecido como o Festim dos Irmãos Caídos. Uma celebração da batalha final travada pelos únicos mortais a serem elevados à posição de Guardiões. Eu lhes apresento Morivek e Korsev!

Ela estendeu um braço para o Escudo e Allern, o jovem agora de pé, o olhar ainda fixo em Reva, sorrindo e aparentemente alheio às palavras da Imperatriz ou aos gritos entusiasmados da multidão.

— Desfrutem enquanto eles enfrentam os mais mortais dos Dermos — entoou a Imperatriz, erguendo a mão para um portão na extremidade oeste da arena. — Os Arautos da Queda!

O portão se abriu quando as trombetas tornaram a soar, a multidão explodindo em vivas ao ver as criaturas que entravam na arena. A princípio Reva achou que fossem parentes da gata guerreira de Lorde Nortah, mas logo percebeu que era uma raça completamente diferente, de corpo mais esguio e não tão alto. Além disso, a coloração também era diferente, o pelo rajado de amarelo e preto do pescoço à cauda. Porém, a principal diferença eram os dentes, e cada um dos animais possuía um par de presas semelhantes a adagas, que arreganhavam sem parar ao fazerem força contra as correntes. Havia nove deles, acorrentados em grupos de três sob o controle de um domador, homens grandes em armaduras de couro segurando as correntes dos gatos numa das mãos e um longo chicote na outra.

— Dentes-de-adaga — disse a Imperatriz, voltando para o lado de Reva. — Dizem que foram criados no fosso de fogo pelos Dermos e enviados como anúncio da iminente destruição da humanidade. Os antigos sacerdotes estavam sempre prevendo o fim de tudo, grandes calamidades e pragas que só podiam ser evitadas com mais homenagens aos deuses, e tributos aos templos, naturalmente.

Reva tentou acalmar o coração quando os domadores permitiram que as feras chegassem mais perto dos dois homens no centro da arena, os gatos sibilando e contorcendo-se nas correntes, aparentemente enlouquecidos de desejo por sangue.

— Os filhotes mais ferozes foram criados dessa forma. Mantidos num estado permanente de inanição. A arena é o único lugar que eles associam com carne em abundância. Por isso tal ânsia.

Allern e o Escudo se aproximaram um do outro, o jovem guarda fazendo uma última mesura a Reva antes de assumir postura de combate. Arentes o ensinou bem, pensou ela, perdendo a batalha para controlar o coração, o suor acumulando-se em sua testa enquanto ele palpitava contra o peito.

— Não — disse ela num sussurro, deixando de lado todo o orgulho e a atitude desafiadora, sabendo que aquilo era algo que não podia testemunhar. — Por favor.

— Está pedindo um favor, irmãzinha? — A Imperatriz colocou as mãos nos ombros de Reva, virando-a e ficando face a face com ela. — O que você me dará em troca?

— Eu lutarei — sussurrou Reva. — No lugar deles.

— Você lutará aqui de qualquer forma. E prometi um espetáculo terrível ao meu povo terrível. O que mais você pode oferecer? — Ela abraçou Reva, sua respiração suave no ouvido dela. — Quando o meu amado vier até mim, derrotaremos o Aliado e o mundo será nosso. Venha comigo, irmãzinha. Eu lhe darei o Reino para governar em meu nome. Fique com o seu Pai do Mundo, se quiser. Não me importa que mentiras você conte. Leve estes dois como servos. Com o condicionamento certo, eles serão realmente aterradores. Você poderia destruir todas as outras crenças, banir para sempre a fé herética, levar o amor do Pai a todos os cantos do Reino.

Ela recuou, sorrindo com ternura ao passar a mão pelo rosto de Reva, enxugando a lágrima solitária que escapara de seu olho.

— Não é o que você sempre quis?

Reva olhou para a arena, vendo como os domadores colocavam os gatos em círculo ao redor de Allern e do Escudo, aproximando-se cada vez mais.

— Você tem um dom — disse Reva à Imperatriz. — Uma canção que lhe conta os sentimentos dos outros.

— Ela me conta muitas coisas.

Reva virou-se e a olhou nos olhos.

— O que ela está lhe contando agora?

Um lampejo de alarme passou pelo rosto da Imperatriz e sua boca crispou-se numa mistura de divertimento e frustração quando começou a recuar, tarde demais.

Reva jogou a cabeça para a frente, batendo com a testa na boca da Imperatriz, fazendo-a cambalear para trás. Os Arisai responderam de imediato, as espadas chiando ao deixarem as bainhas, aproximando-se por todos os lados, exceto um. Reva correu para a beira do balcão e pulou.