SARAH

Montreal, Canadá

No início, o plano de Sarah funcionou bem.

Ela tirou duas semanas de férias para a operação. Deviam ter sido três semanas — foi o que recomendou o médico, uma semana de hospitalização seguida de duas de repouso absoluto, mas Sarah ficou apenas uma semana em casa, sem dizer nada. Não podia prolongar a sua ausência sem levantar suspeitas. Há dois anos que não tirava férias, as crianças estão nas aulas; quem iria de férias em novembro, quando os julgamentos caem como neve sobre a cidade?

Não disse nada a ninguém, nem no escritório nem em casa. Aos filhos, explicou que teria de se submeter a «uma intervenção», acrescentando «sem gravidade», para não os preocupar. Programou tudo de modo que eles estivessem em casa dos respetivos pais nessa semana. Hannah protestou, mas acabou por ceder. Sarah disse-lhes que não poderiam visitá-la no hospital, fingindo que as crianças não podiam lá entrar. Uma pequena mentira, disse para consigo, para aligeirar o aperto que sentiu no coração. Quer poupá-los àquele lugar, um inferno branco de odores acres — mais do que qualquer outra coisa, são os cheiros do hospital que a deixam indisposta, aquela mistura de desinfetante e lixívia que lhe põe o estômago às voltas. Não quer que os filhos a vejam assim, vulnerável, debilitada.

Hannah, especialmente, é tão sensível. Estremece como uma folha ao mínimo sopro de ar. Sarah detetou muito cedo na filha essa propensão para a empatia. Ela entra em ressonância com o sofrimento do mundo, tornando-o seu. É como um dom, um sexto sentido. Em criança, Hannah chorava quando via outra criança magoar-se ou ficar de castigo. Chorava ao ver as reportagens na televisão ou desenhos animados. Sarah preocupa-se por vezes: que fará ela de uma tal sensibilidade exacerbada, que a expõe tanto às maiores alegrias como aos piores tormentos? Queria tanto dizer-lhe: protege-te, blinda-te, o mundo é duro, a vida é cruel, não te deixes tocar, não te deixes magoar, sê como eles, egoísta, insensível, imperturbável.

Sê como eu.

Sabe, todavia, que a filha é uma alma vibrante e que tem de levar esse facto em conta. Por isso, não, não pode dizer-lhe. Com doze anos, Hannah compreenderia demasiado bem o que a palavra «cancro» implica. Compreenderia, acima de tudo, que a batalha não está ganha à partida. Sarah não quer infligir-lhe o peso e a angústia que acompanham aquela doença.

Claro que uma parte de si sabe que não poderá mentir eternamente. Chegará um momento em que os filhos farão perguntas. E nessa altura terá de falar sobre o assunto, terá de lhes explicar. Quanto mais tarde, melhor, pensa Sarah. Será, talvez, como recuar para saltar melhor. Seja como for, é a sua forma de lidar com o problema.

Também não diz nada ao seu pai nem ao seu irmão. Há vinte anos, a mãe de Sarah morreu da mesma doença. Não quer impor-lhes tudo aquilo de novo, o caminho do combatente, as montanhas-russas emocionais, esperança, desespero, remissão, recaída, conhece bem demais aquelas palavras. Vai lutar sozinha e em silêncio. Considera-se suficientemente forte para isso.

No escritório, ninguém desconfiou de nada. Inès achou-a apenas cansada — está pálida, foi tudo o que lhe disse, quando Sarah regressou ao trabalho. Por sorte, é inverno, os corpos estão escondidos, cobertos de camisas, camisolas, casacos. Sarah tem o cuidado de não usar camisolas decotadas, maquilha-se um pouco mais do que antes, e tudo corre bem. Criou um engenhoso sistema de códigos na sua agenda: tem uma sigla para as sessões de tratamento no hospital (RDV H), outra para os exames, análises e radioterapia, que marca sempre para o intervalo do meio-dia às duas (Almoço R), e assim por diante. Os seus colaboradores vão acabar por pensar que ela tem um amante. Na verdade, a ideia agrada-lhe. Dá por si a imaginar que tem um encontro romântico à hora de almoço… Um homem solitário, numa cidadezinha à beira-mar… Como seria agradável… As suas fantasias ficam-se por ali, levando-a inexoravelmente ao hospital, aos tratamentos, aos exames. Na equipa de juniores, os rumores correm de feição: hoje ela saiu outra vez… ontem esteve fora durante uma parte da tarde… desliga o telemóvel, sim… Então Sarah Cohen tem uma vida fora daquele escritório?… Com quem se vai encontrar à hora de almoço, de manhã e, às vezes, à tarde?… Será um colega? Um sócio? Inès aposta que é um homem casado, outro colega acha que é uma mulher. Porquê tantas precauções se não for assim? Imperturbável, Sarah continua nas suas idas e vindas. O plano parece funcionar.

Pelo menos por agora.

Será um pormenor a denunciá-la, como nas histórias de crime, em que tantas vezes é um pormenor que trai o assassino. A mãe de Inès está doente. Sarah devia sabê-lo. Pensando bem, Inès falou-lhe do problema há muito tempo, no ano passado. Sarah mostrara-se preocupada, mas depois a informação perdera-se no limbo do seu cérebro assoberbado. Quem poderia levar-lhe a mal?, tem tanto em que pensar. Se tivesse tempo para conversar um pouco junto à máquina de café, para passear pelos corredores ou para se sentar para almoçar — algo que nunca faz —, teria voltado a ouvir falar do assunto. Mas as suas trocas de palavras com os outros limitam-se ao essencial, ao estritamente profissional. Não é indício de desprezo ou hostilidade, antes falta de tempo e de disponibilidade. Sarah não revela nada da sua esfera privada e não se imiscui na dos outros. Cada um tem os seus segredos. Num outro contexto, numa outra vida, teria podido criar laços com os colegas, talvez até tivesse feito amigos. Mas nesta vida não tem espaço para mais do que o trabalho. Com os seus colaboradores, Sarah mostra-se sempre cordial, mas nunca familiar.

Inès é como ela. Não se abre, não fala sobre a sua vida. É uma qualidade que Sarah aprecia. Em Inès, parece-lhe reencontrar a jovem advogada que foi em tempos. Foi ela própria que a contratou, aquando das entrevistas para empregar colaboradores juniores. Inès revelou-se determinada, trabalhadora, muito competente. É a melhor do seu grupo. Irá longe, disse-lhe Sarah um dia, se souber munir-se dos recursos necessários.

Dadas as circunstâncias, como havia de saber que Inès levaria a sua mãe, precisamente naquele dia, a fazer um exame de rotina ao hospital?

Na página da sua agenda, Sarah anotou «RDV H». H não é um Homem, nem Henry do serviço de contabilidade, nem sequer Herbert, o jovem e bonito colaborador da equipa do lado, tão parecido com aquele ator americano. Não, H é simplesmente o doutor Haddad, o oncologista de Sarah, que infelizmente não tem nada de hollywoodesco.

Quando Inès lhe pediu, na semana anterior, para tirar excecionalmente aquele dia, Sarah aquiesceu. Registou mentalmente a informação e depois esqueceu-a — nos últimos tempos, há coisas que lhe escapam, certamente devido ao seu profundo estado de fadiga.

Dentro de instantes, vão cruzar-se na sala de espera do serviço de oncologia do hospital universitário. Uma mesma expressão de surpresa desenhar-se-á nos seus rostos. Sarah ficará sem palavras. Para recuperar a compostura, Inès apresentar-lhe-á a sua mãe.

É a Sarah Cohen, a advogada associada com quem trabalho.

Muito prazer, minha senhora.

Sarah será educada, não deixará transparecer a sua agitação. Inès não precisará de muito tempo para compreender o que faz a sua chefe, em plena tarde num dia de semana, naquele corredor do serviço de oncologia com radiografias debaixo do braço. Num segundo, tudo se desmoronará: a aventura, o homem casado, os almoços românticos, os encontros secretos, os fins de tarde maliciosos. Sarah será desmascarada.

Numa tentativa algo vã de manter as aparências, diz que se enganou na sala, que veio visitar uma amiga… Sabe que Inès não é tola. Não tardará a reconstituir o puzzle: a sua ausência de quinze dias no mês anterior, que surpreendeu toda a gente, as reuniões fora do escritório nos últimos tempos, a sua palidez, a perda de peso, o mal-estar no tribunal, todos esses indícios serão tomados como provas, elementos capazes de a condenar.

Sarah gostaria de desaparecer, de se desintegrar, de levantar voo como os super-heróis que põem os gémeos loucos. Tarde demais.

De repente, sente-se idiota, a tremer diante de uma colaboradora júnior, como se tivesse sido apanhada em falta. Sofre de cancro, não é um crime. De resto, não tem de se justificar perante Inès, não lhe deve nada, nem a ela nem a ninguém.

Ante a urgência de romper o silêncio desconfortável que se instalou, Sarah cumprimenta a jovem e a sua mãe, e afasta-se, tentando caminhar num passo seguro. Quando entra no táxi que tem à sua espera, uma dúvida atormenta-a: que fará Inès com esta informação? Irá divulgá-la? Sarah sente-se tentada a voltar atrás, a apanhá-la no corredor, a suplicar-lhe que não diga nada. Mas não o faz. Isso seria admitir a sua vulnerabilidade, seria dar poder a Inès, dar-lhe ascendente sobre ela.

Adota uma estratégia bem diferente: amanhã, ao chegar ao escritório, vai chamar Inès e propor-lhe que lhe dê assistência no caso Bilgouvar, o dossier mais apetecível do momento, para o cliente mais importante do escritório. Uma promoção, sem dúvida, uma oferta inesperada que a jovem colaboradora não poderá recusar. Ficará lisonjeada, em dívida para com Sarah. Melhor do que isso: dependente dela. Uma forma hábil de comprar o seu silêncio, de garantir a sua lealdade. Inès é ambiciosa, compreenderá que não tem interesse em falar, em irritar a sua chefe.

Sarah deixa o hospital satisfeita com o plano que acaba de traçar. É um plano quase perfeito.

Há apenas um ponto que Sarah esquece, algo que aprendeu ao longo da sua carreira: quando se nada no meio de tubarões, o melhor é não sangrar.