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30 de abril, 12h45 AMT
Roraima, Brasil
Quem diria que tantos problemas poderiam vir numa embalagem tão pequena?
Escondido nas sombras nos limites da sua propriedade, Cutter Elwes observava a jovem rapariga a descer com hesitação do helicóptero para a cume do tepui. Estendeu uma mão com a palma virada na direção da luz brilhante do sol, puxando para baixo a pala do seu boné de basebol. Tinha vestida uma blusa larga e um colete e o cabelo preso num rabo de cavalo.
Não era nada desagradável à vista.
Mas nada se comparava à beleza que a seguia de perto e lhe segurava o cotovelo. Cutter sorriu ao ver a gémea da sua mulher, de feições idênticas às de Ashuu, embora Rahei tivesse um coração de pedra quando comparada com a alma generosa da irmã. Nem naquele preciso momento Rahei demonstrava qualquer emoção ao ver Cutter, apenas virando os seus olhos negros para ele e empurrando a prisioneira na sua direção.
Anteriormente, Cutter recebera um fax com o passaporte da sua convidada, encontrado enquanto vasculhavam os seus pertences depois de a terem capturado. Uma breve investigação ao seu historial revelara muitos pormenores interessantes sobre a sua nova convidada, uma mulher chamada Jenna Beck. Ao que parecia, Jenna fazia parte dos guardas-florestais da Califórnia, no lago Mono, onde Kendall Hess estabelecera as suas instalações de investigação.
Não podia ser uma coincidência.
Mateo mencionara uma guarda-florestal persistente que talvez tivesse testemunhado o rapto do doutor Hess. O homem também relatara a presença dessa mesma guarda-florestal no tiroteio no cimo da colina.
Será que era a mesma pessoa que se encontrava à sua frente?
Interessante.
Curioso por saber mais, Cutter saiu da sombra da caverna que abrigava a sua casa. O sol brilhava intensamente no céu, mas mesmo assim não era suficiente para dissipar a neblina que envolvia os flancos da sua casa no cimo da montanha.
Reparou numa série de emoções percorrerem o rosto da mulher quando o viu. Pelo ligeiro arregalar de olhos dela, uma expressão era fácil de identificar.
Reconhecimento.
Então, ela conhece-me.
Será que a sua visita em má altura à base do lago Mono despoletara uma série de eventos que levara à chegada da equipa americana a Boa Vista, onde teriam feito perguntas sobre um homem morto? Esta questão levantou outras, mas haveria tempo para elas dentro de breves momentos.
Cutter aproximou-se dela e estendeu a mão para a cumprimentar.
Jenna ignorou-o.
— És o Cutter Elwes.
Cutter fez uma ligeira vénia com a cabeça, como que a admitir a verdade da afirmação de Jenna, não encontrando qualquer razão para continuar a farsa.
— E tu és a Jenna Beck — respondeu ele. — A guarda-florestal que nos tem dado tantas dores de cabeça.
Ele sentiu algum prazer em observar a expressão de espanto no rosto de Jenna. Ainda assim, a mulher recuperou a compostura de forma muito calma.
— Onde está o doutor Hess? — perguntou ela, olhando em volta, o seu olhar demorando-se na casa que se encontrava atrás dele.
— Está são e salvo. A fazer um trabalhinho para mim.
A desconfiança era evidente no rosto de Jenna.
Cutter também tinha uma pergunta para fazer.
— Como me encontrou, menina Beck? Esforcei-me muito para permanecer no mundo dos mortos.
A mulher ponderou a sua resposta antes de começar a falar. Um erguer desafiador do seu queixo sugeriu que ia optar por dizer a verdade, quaisquer que fossem as consequências.
— Através da Amy Serpry — disse ela. — A informadora que colocaste no laboratório do doutor Hess.
Cutter já suspeitava disso, visto que as suas tentativas anteriores de contactar a jovem devota ao Dark Eden tinham falhado. Inicialmente, pensou que ela tivesse morrido durante a fuga do agente, mas era mais provável que tivesse sido capturada.
— E onde está a Amy agora?
Cutter ponderou o que a mulher revelara às autoridades. Não que estivesse muito preocupado. Amy nunca visitara o seu tepui e não sabia nada sobre a verdadeira dimensão dos seus planos.
— Morta — respondeu Beck. — Vítima do mesmo organismo que libertou na Califórnia.
Cutter refletiu para compreender o que sentia em relação à sua perda, mas não descobriu uma resposta emocional intensa.
— A Amy conhecia os riscos. Era um soldado dedicado ao Dark Eden, feliz por contribuir para a causa.
— Não me parecia muito feliz no final.
Cutter encolheu os ombros.
— Existem muitos sacrifícios penosos que têm de ser feitos.
E muitos mais serão feitos, como esta jovem rapariga vai perceber muito em breve.
Cutter fez sinal a Rahei para trazer a prisioneira, enquanto se virava. Dirigiu-se para a entrada da sua casa. Viu um pequeno rosto a espreitar. O seu filho, Jori, ficava sempre curioso quando via pessoas desconhecidas. Cutter era o culpado, pois mantinha o rapaz sempre tão isolado de tudo e de todos.
Fez sinal ao filho para voltar para dentro de casa.
Esta era uma visita que Jori não precisava de conhecer.
— Quero ver o doutor Hess — insistiu Jenna —, antes de dizer mais alguma palavra.
Apesar da sua coragem, Jenna sabia que Rahei era capaz de a fazer falar em menos de uma hora, mas tal não seria necessário.
Cutter olhou de relance para trás.
— Para onde achas que te estou a levar?
12h48
Não pode ser…
Kendall olhava fixamente para o ecrã do computador no laboratório principal, enquanto Mateo rondava por perto.
Depois de ter completado a sua análise ao código genético que Cutter desenhara — o código que se destinava ao seu invólucro viral —, Kendall despiu o fato de biossegurança e regressou à sua bancada de trabalho na sala que ficava do lado de fora do laboratório.
Utilizara a técnica CRISPR-Cas9 para decompor o código de Cutter, gene a gene, nucleótico por nucleótido. Descobriu que o código era muito simples: uma única sequência de ARN, uma apresentação comum para uma ampla família de vírus.
Esta abordagem minimalista sugeria que Cutter pegara num vírus comum e inserira um novo código no seu interior, utilizando a mesma técnica de hibridização a que recorrera para criar as espécies quiméricas que habitavam aquela dolina.
Mas qual seria a origem primordial do vírus?
Era um puzzle simples de resolver. Analisou o código num programa de identificação e encontrou 94 por cento de correspondência com um norovírus comum. Este vírus específico era a praga dos navios de cruzeiro ou de qualquer outro local onde se reunisse uma grande quantidade de pessoas. Era um dos vírus mais contagiosos da natureza, sendo apenas necessárias cerca de vinte partículas para infetar uma pessoa. Podia ser transmitido através de fluidos corporais, pelo ar ou, simplesmente, pelo contacto com superfícies contaminadas.
Se a intenção fosse criar um organismo universalmente contagioso, o norovírus seria uma boa escolha. A desvantagem era a sua elevada sensibilidade a desinfetantes, lixívias e detergentes comuns, pelo que podia ser prontamente combatido.
Contudo, se aquele vírus estivesse protegido dentro do meu invólucro, nada o poderia parar.
Ainda assim, o norovírus não costumava ser fatal, sobretudo em indivíduos saudáveis. Despoletava apenas sintomas parecidos com os da gripe. Este facto levantava uma preocupação ainda maior.
O que é que Cutter adicionou à mistura?
O que constituía os outros seis por cento do código?
O restante material genético parecia ter as mesmas sequências repetidas de um gene codificador de proteína específico. Para descobrir de que proteína se tratava, Kendall analisou a sua descoberta num programa de modelação que convertia o código numa cadeia de aminoácidos, e depois, a partir dessa cadeia, o computador criou um modelo tridimensional dessa proteína final.
Kendall olhava fixamente para o modelo, observando-o a girar no ecrã.
Apesar de ter sido ligeiramente alterado, Kendall ainda conseguia reconhecer esta proteína enovelada única. Confirmou-o com o mesmo programa de correspondência.
Meu Deus, Cutter, o que estás a planear fazer?
Como se tivesse sido evocado pelo seu pensamento, a porta do laboratório abriu e Cutter entrou. Duas mulheres acompanhavam-no. Uma era a sua esposa, ou pelo menos parecia ser, embora algo não batesse certo. Faltava-lhe a paixão calorosa da mulher de Cutter e não existia o afeto latente entre marido e mulher que Kendall testemunhara antes.
Depois percebeu tudo, lembrando-se da característica invulgar da tribo.
Esta deve ser a gémea da mulher de Cutter… a outra irmã de Mateo.
A confirmar a conclusão a que chegara, a reação do homem marcado por cicatrizes a esta mulher foi muito diferente da forma como recebera Ashuu. Mateo mal olhava nos olhos desta irmã, parecendo estranhamente assustado e nervoso.
Antes que conseguisse perceber a razão, surgiu a segunda mulher. Pela roupa e atitude, parecia ser americana. Ainda assim, havia algo de estranhamente familiar nela, como se já se tivessem conhecido. Mas não conseguia perceber de onde, nem quando.
Cutter fez as apresentações.
— Kendall, esta é a minha cunhada, Rahei. E esta jovem adorável ao meu lado vem dos teus lados. Uma guarda-florestal da Califórnia. A menina Jenna Beck.
Kendall pestanejou, surpreendido, lembrando-se de súbito. Conhecera de facto esta jovem por breves instantes, em Lee Vining, enquanto tomavam café no Bodie Mike’s. Ela fizera-lhe perguntas sobre a sua investigação no lago. Teve dificuldade em processar a confusão que sentia.
O que fazia ela aqui, agora?
Pela raiva evidente no seu rosto e pela sua atitude tensa, não era cúmplice nesta situação.
Jenna passou para o lado de Kendall, tocando-lhe com o cotovelo, preocupada.
— Está bem, doutor Hess?
Ele humedeceu os lábios com a língua, demasiado chocado para sequer saber responder a esta pergunta.
O olhar de Cutter recaiu sobre o ecrã.
— Ah, Kendall, vejo que fizeste grandes progressos durante a minha ausência.
Kendall olhou de volta para a proteína que girava lentamente no ecrã.
— Aquilo é uma espécie de prião, não é?
— Muito bem. É, de facto. Na verdade, é uma versão modificada da proteína infeciosa responsável pela doença de Creutzfeldt-Jakob, uma doença que se apresenta nos humanos como demência que progride de forma rápida.
Jenna olhou para os dois homens.
— De que estão a falar?
Kendall não tinha tempo de explicar em pormenor… não que ele próprio compreendesse tudo. Os priões eram meros fragmentos de proteína sem um código genético próprio. Assim que a vítima era infetada, aquelas proteínas danificavam outras proteínas, sobretudo no cérebro. Como consequência, as doenças causadas por priões costumavam ser lentas, mais difíceis de disseminar.
Mas agora já não.
Kendall virou-se para Cutter.
— Criaste um norovírus contagioso, que se pode disseminar rapidamente e espalhar este prião mortífero em grandes quantidades.
— Antes de mais, não é mortífero — corrigiu Cutter. — Eu modifiquei a estrutura genética do prião para não ser fatal. Tal como te prometi logo no início, nem humanos nem animais serão mortos pela ação direta do meu organismo.
— Então, qual é o teu objetivo? É óbvio que queres inserir a tua criação no meu invólucro, para fazer com que o teu código seja praticamente impossível de erradicar. Assim que for encapsulado, poderá espalhar-se rapidamente sem haver qualquer possibilidade de o parar.
— É verdade. Mas foi também o tamanho pequeno do teu invólucro que me intrigou, um sistema de distribuição genética suficientemente pequeno para passar facilmente através da barreira hematoencefálica. Isto permite que estas pequenas fábricas de priões tenham livre acesso aos sistemas neurológicos dos infetados.
Kendall não conseguiu esconder o seu horror e até mesmo a guarda-florestal percebeu o suficiente para ficar pálida. As doenças causadas por priões já eram incuráveis, os danos que provocavam permanentes. Os sintomas clínicos típicos eram demência generalizada e a perda progressiva das capacidades cognitivas superiores, transformando uma pessoa inteligente num vegetal.
Kendall imaginou a doença criada por Cutter a espalhar-se por toda a população, tão imparável como o organismo que escapara do seu laboratório, deixando um rasto de destruição neurológica à sua passagem.
Cutter deve ter-se apercebido do desânimo nos olhos de Kendall.
— Não temas, meu amigo. Não só manipulei o prião para não ser fatal, como o concebi para se autodestruir após um determinado número de repetições, evitando assim a aniquilação total do cérebro da vítima.
— Então, qual é o seu propósito?
— É uma dádiva — disse Cutter, sorrindo. — Deixará os infetados a viver num estado mais simples, em harmonia com a natureza, para sempre livres de funções cognitivas superiores.
— Por outras palavras, reduzindo-nos a animais.
— E o mundo ficará melhor assim — disse Cutter.
— Isso é desumano — protestou Jenna, igualmente horrorizada.
Cutter virou-se para ela.
— A Jenna é guarda-florestal. Devia compreender isto melhor do que ninguém. Ser desumano é humano. Nós já somos animais que fingem ter alguma moral. Precisamos de religião, governo e leis para exercer algum nível de controlo sobre a nossa natureza básica. Eu pretendo eliminar a doença que é a inteligência, acabar com o engano que leva a humanidade a acreditar que é a espécie mais poderosa e mais merecedora deste planeta.
Cutter acenou com o braço para englobar tudo.
— Nós queimamos florestas, poluímos oceanos, derretemos calotas glaciares, lançamos dióxido de carbono para o ar… somos a maior força por trás de uma das maiores extinções em massa neste planeta. É um caminho que levará, inevitavelmente, ao nosso próprio fim.
Kendall tentou contra-argumentar, mas Cutter interrompeu-o.
— Ralph Waldo Emerson é que tinha razão. O fim da raça humana será trazido pela eventual morte da civilização. Já nos encontramos quase lá, mas o que deixaremos para trás na hora da nossa morte? Um planeta tão poluído a ponto de nada conseguir sobreviver nele?
A guarda-florestal levantou-se, discordando das suas afirmações.
— Mas é a civilização… é a nossa inteligência inata que contém, também, a possibilidade de nos salvarmos a nós mesmos e a este planeta. Enquanto os dinossauros não conseguiram ver o meteoro que vinha na sua direção, muitos de nós vemos o que está a acontecer e estamos a lutar por mudanças.
— Tens uma perspetiva muito limitada sobre a civilização, minha querida. Os dinossauros dominaram o planeta durante cento e oitenta e cinco milhões de anos, enquanto o homem moderno só existe há duzentos mil anos. E a civilização há uns meros dez mil.
Cutter abanou a cabeça para dar mais ênfase ao seu discurso.
— A sociedade é uma ilusão de controlo destrutiva, nada mais. E vejam os danos que causou. Durante esta curta experiência com a civilização, nós, enquanto espécie, já estamos à beira de um colapso ecológico absoluto, provocado pelas nossas próprias mãos. Acreditam mesmo que algo vai mudar neste mundo industrial, flagelado por nações em guerra constante, por políticas motivadas pela ganância?
Jenna suspirou ruidosamente e disse:
— Temos de tentar.
Cutter bufou.
— Isso nunca irá acontecer, muito menos a tempo. O melhor caminho? Está na altura de descivilizar o mundo, a fim de travar esta experiência ridícula antes que não sobre nada neste planeta.
— E esse é o teu plano? — perguntou Kendall. — Espalhar este vírus e privar a humanidade da sua inteligência.
— Eu prefiro pensar que estou a curar a humanidade da doença chamada civilização, a fim de deixar apenas o animal natural, nivelando a existência de todos. Para fazer com que a única lei seja a sobrevivência do mais apto. O mundo ficará, assim, mais forte e mais saudável.
Jenna olhava fixamente para Cutter, com um ar desconfiado.
— E tu? — perguntou ela. — Também vais receber esta cura?
Cutter encolheu os ombros, mas parecia irritado pela pergunta, a qual fez Kendall gostar ainda mais dela.
— Alguns têm de ser poupados para supervisionar esta transição.
— Estou a ver — disse Jenna, claramente salientando a sua hipocrisia. — Isso é muito conveniente.
Bastante irritado, Cutter virou-se para Kendall.
— Já está na hora, meu amigo, de me mostrares o teu método para armar o teu invólucro viral.
Kendall buscou força na coragem da jovem.
— Não posso — disse ele com toda a honestidade.
— Não podes ou não queres? — perguntou Cutter. — Tenho sido muito paciente contigo, Kendall, porque já fomos amigos, mas existem maneiras de te fazer cooperar.
Cutter olhou de relance para a irmã da sua mulher. Um brilho nos olhos escuros de Rahei sugeriam que ela gostaria desse desafio.
— Não é uma questão de me recusar, Cutter, ainda que estivesse disposto a fazê-lo se adiantasse alguma coisa, mas não adianta. É o simples facto de a chave que queres estar fora do alcance de qualquer um de nós. Não posso fazer a sua síntese. Não aqui. A sequência de AXN necessária para desbloquear o meu invólucro só pode ser encontrada na natureza.
Aquela natureza de que tu tanto gostas.
— Onde?
— Tu sabes onde, Cutter.
Cutter acenou com a cabeça, fechando os olhos.
— É claro… na Antártida — murmurou ele. — Deve existir uma espécie específica daquela biosfera-sombra, algo que contenha um código genético único que funcione como a chave que procuro.
Kendall ainda se assustava com a velocidade a que a mente daquele monstro funcionava.
Cutter abriu os olhos.
— Qual é a espécie?
Kendall fitou aquele olhar impassível, pronto para tomar uma posição. Se Cutter colocara uma informadora no seu laboratório, de certeza que tinha uma pessoa ou uma equipa infiltrada na estação de Harrington. Era um facto que Cutter sabia o suficiente sobre Hell’s Cape. Se este sacana descobrisse a verdade, poderia obter a última peça deste terrível puzzle genético.
Isso nunca poderá acontecer.
Cutter leu a determinação na expressão de Kendall e abanou a cabeça, desiludido.
— Como queiras. Então, vamos ter de o fazer da maneira mais difícil.
Kendall sentiu os joelhos tremer. Daria o seu melhor para suportar a tortura que estava por vir.
Cutter virou-se para Jenna, acenando a Rahei com a mão.
— Vamos começar por ela e deixar Kendall assistir, para que perceba melhor o que aí vem.
13h00
— Estamos a uma hora do destino! — gritou Suarez da frente, sentado ao lado do piloto do Valor.
Painter olhou pela janela atrás do seu ombro envolto em ligaduras. Antes da descolagem, tomara uma mão-cheia de ibuprofeno e retirara a ligadura que lhe segurava o braço ao peito, mas até este simples movimento lhe provocava dores que mais pareciam facadas. Estudava o terreno, apenas conseguindo ver o mar verde que se estendia por baixo das turbinas murmurantes do rotor basculante. Algures à frente ficava o seu destino, o tepui onde o homem morto, Cutter Elwes, construíra a sua casa.
E, esperamos nós, onde encontraremos a Jenna e o doutor Hess.
Estavam a ficar sem tempo.
Ainda tinha o telefone com receção por satélite encostado ao ouvido.
— Não existe alguma maneira de empatar o Lindahl? — perguntou ele.
Lisa respondeu.
— Os padrões climatéricos alteraram-se na última hora. E não para melhor. A próxima tempestade está a aproximar-se mais depressa do que prevíamos inicialmente e espera-se que chegue às montanhas a meio da tarde. As estimativas da velocidade do vento e da precipitação sugerem que esta tempestade será três ou quatro vezes mais violenta que a anterior. Devido a essa ameaça, agendaram a opção nuclear para o meio-dia, em vez do final do dia.
Meio-dia…
Painter olhou para o relógio e calculou a diferença horária. Faltavam apenas duas horas. E ainda tinham mais sessenta minutos pela frente antes de chegarem ao tepui, o que não lhes dava quase tempo nenhum para encontrar Kendall Hess e descobrir se existia uma opção não nuclear para fazer face à ameaça.
Painter reconheceu a impossibilidade da tarefa em mãos. Olhou fixamente para os fuzileiros à sua volta. Estava sentado entre dois homens sob o comando do sargento Suarez: Abramson e Henckel. Do outro lado da cabina, Drake conversava em voz baixa com Malcolm e Schmitt. Foi buscar forças aos homens duros que o acompanhavam.
Ainda assim…
— Quando vão evacuar a base? — perguntou ele.
— Já estão a fazê-lo. A Guarda Nacional passou a pente fino a região durante o dia, evacuando todos os habitantes locais mais teimosos, que desobedeceram à ordem obrigatória de evacuação. O pessoal da base está a desmontar os laboratórios e a transferir o Josh neste preciso momento.
— E tu e o Nikko?
— Não confio no Lindahl. Vou esperar pelo último autocarro a sair daqui. A Sarah… a cabo Jessup já preparou um pequeno helicóptero para nos pôr a salvo.
— Não esperes demasiado — avisou ele, temendo por ela de tal maneira que lhe secava os lábios.
— Não te preocupes. O Edmund vai-me mantendo informada regularmente sobre os avanços da equipa nuclear que está a preparar o dispositivo. Ainda estão a fazer os cálculos finais. O plano é elevar a bomba com um helicóptero teleguiado até uma determinada altitude, para alcançar o máximo efeito possível em todos os cumes de montanha e vales da região. A equipa ainda está a trabalhar nos últimos pormenores. — A voz de Lisa tornou-se mais tensa. — Por isso, Painter, tens de descobrir alguma coisa… se não uma cura, pelo menos alguma esperança para adiar o inevitável.
Painter suspirou profundamente. Não era um pedido simples. Mesmo que conseguisse descobrir alguma solução para esta ameaça, algum agente biológico desconhecido, será que era possível manipulá-lo ou usá-lo a tempo de travar esta resposta nuclear?
— Vou fazer tudo o que puder — prometeu Painter.
Despediu-se e terminou a chamada, pousando o telefone sobre os joelhos.
Drake decifrou a expressão no seu rosto e disse:
— Deixa-me adivinhar. As notícias de casa não são boas.
Painter abanou a cabeça lentamente.
Não eram mesmo nada boas.
Sentindo uma súbita dor no ombro, Painter virou-se para a janela, avistando, por fim, uma montanha escura a surgir no horizonte.
Duvido muito que a situação seja melhor por ali.
13h05
— Isto é capaz de arder — disse Cutter Elwes.
Jenna estava sentada no laboratório, presa a uma cadeira pelo enorme nativo, Mateo. Era o mesmo homem que a emboscara naquela cidade-fantasma no cimo da colina. Reconheceu-o pela cicatriz arroxeada que lhe percorria a face até ao queixo. Parecia que a situação tinha dado uma volta de trezentos e sessenta graus.
— Não faças isso — pediu Kendall. — Por favor.
Cutter endireitou-se, segurando nas mãos uma ferramenta com a forma de uma pistola. Reconheceu uma pistola injetora modificada, utilizada para administrar vacinas. Preso na ponta, encontrava-se um pequeno frasco invertido, contendo um líquido cor de âmbar.
Jenna desconfiou que não ia ser ameaçada com a vacina contra a gripe.
— Diz-me apenas o nome da espécie de AXN que é a chave biológica — disse Cutter a Kendall. — E nada disto tem de acontecer.
— Não diga — protestou Jenna, sentindo alguns dedos cravarem-se de forma dolorosa nos seus ombros, avisando-a para ficar em silêncio, mas ela ignorou a ameaça. — Não lhe dê o que ele quer.
Kendall hesitou, claramente, mas acabou por cruzar os braços.
— Muito bem — disse Cutter.
A mulher morena, Rahei, puxou a manga de Jenna mais para cima.
Cutter pressionou o cano da pistola injetora contra o braço de Jenna.
— É a tua última oportunidade, Kendall.
O investigador desviou o olhar de Jenna, sentindo uma enorme culpa.
Cutter encolheu ligeiramente os ombros e premiu o gatilho. Ouviu-se o assobiar do gás comprimido e uma picada penetrou a pele de Jenna, que a sentiu até ao osso.
Jenna praguejou entredentes quando Mateo a largou. Esfregou o braço e pôs-se de pé.
— O que foi aquilo?
Cutter ergueu a pistola injetora, espalhando o resto do conteúdo do frasco.
— ARN sem cápsula viral.
Jenna lembrou-se da discussão anterior.
— É o código genético que tu manipulaste. Aquele que afeta o cérebro.
— Precisamente. Mas, na sua forma atual, é apenas moderadamente viral e muito sensível às pressões ambientais. É por esta razão que preciso do invólucro viral de Kendall.
Jenna percebeu. Ele queria criar um microrganismo com resistência antibiótica que derrubasse a raça humana e a fizesse regredir até à Idade da Pedra… ou até antes disso.
— Mas no seu estado mais puro — acrescentou ele —, os danos neurológicos serão os mesmos.
Jenna respirou fundo, receosa da resposta à sua próxima pergunta.
— Quanto tempo tenho?
— Deves começar a sentir os efeitos dentro dos próximos trinta minutos. Febre moderada, ligeira dor de cabeça, rigidez no pescoço… depois, ao longo das horas seguintes, as mudanças degenerativas irão manifestar-se a um ritmo cada vez mais acelerado. A linguagem costuma ser a primeira função a ser afetada, depois os pensamentos complexos, por fim, a noção de si mesmo desaparece, deixando apenas desejos básicos e o instinto de sobrevivência.
O horror instalou-se no fundo do seu estômago.
— Então… então já testaste isto em pessoas? — perguntou Jenna, na esperança de que ele tentasse justificar os seus atos hediondos.
Em vez disso, Cutter respondeu calmamente:
— Minuciosamente, minha querida. Minuciosamente.
Kendall tocou na mão de Jenna.
— Desculpa.
Cutter dirigiu-se a Rahei.
— Leva a menina Beck para uma das nossas jaulas de testes. Lá em baixo, no Nível Negro.
Assim que ouviu as instruções, os lábios da mulher nativa esboçaram um sorriso de pura malícia. Era a primeira emoção intensa que Rahei expressava.
Isso assustava Jenna mais do que qualquer outra coisa.
Rahei agarrou-lhe o antebraço e levou-a para fora do laboratório, levando consigo outro nativo que se encontrava junto à porta com uma espingarda ao ombro. Jenna reparou que a arma tinha um pedaço de metal amarelo, em forma de U, enfiado na ponta do cano, como uma baioneta, com pontos de contacto de cobre expostos na ponta.
Jenna reconhecia o desenho.
Um bastão elétrico para controlo de gado.
Jenna manteve-se afastada daquela arma, enquanto Rahei a encaminhava para fora do laboratório. Levaram-na ao longo de um túnel comprido que parecia atravessar o coração de pedra da montanha. Depois de passar uma porta fortemente blindada no final, reparou que estava novamente no exterior.
Protegeu os olhos do sol, que queimava mesmo por cima da sua cabeça, brilhando intensamente pela garganta do que parecia ser uma dolina. Alguém a convertera numa espécie de jardim dividido em vários níveis, repleto de orquídeas, bromélias e trepadeiras em flor. No fundo, as copas verdejantes de uma floresta refletia a luz do sol. Cada nível, do fundo ao topo, parecia estar separado por níveis com vedações, ligados entre si por uma rampa de pedra em espiral, esculpida ao longo das paredes.
Rahei empurrou-a para uma escada que se estendia da plataforma de aço para a estrada sinuosa. Um carrinho de golfe fechado esperava em baixo. Foi obrigada a sentar-se atrás com Rahei, enquanto o guarda armado se juntou ao condutor no banco da frente.
Quando estavam todos sentados, o carrinho de golfe desceu a rampa, com o seu motor elétrico a ronronar. Passou por uma série de portões, que abriam como que por magia à sua frente, provavelmente respondendo a um chip de identificação por radiofrequência inserido no carro.
Ao início, nada parecia invulgar nestes jardins, mas depois de passar alguns níveis Jenna começou a reparar em coisas estranhas. Embora não conhecesse bem a vida selvagem que habitava as florestas tropicais, algumas das plantas e dos animais pareciam ser extraterrestres. Inicialmente, os indícios eram subtis: abelhas do tamanho de nozes, uma parede de orquídeas pretas, cujas pétalas abriam e fechavam sozinhas, uma boa-anã que rastejava para dentro de um lago límpido, revelando uma série de guelras ao longo dos seus flancos.
No entanto, quando mais fundo iam, criaturas maiores apareciam, ainda mais fora do normal. Num ramo fino por cima da estrada, estava uma fila de ratos com listas de zebra pendurados pelas suas caudas preênseis, semelhantes às que se encontram nos gambás. Enquanto esperavam que o portão abrisse por completo, uma vinha volumosa disparava espinhos contra eles, atingindo o carrinho de lado. Noutra curva, um bando de papagaios da Amazónia de grandes dimensões levantou voo à sua passagem, revelando um monte de plumagem de todas as cores, um caleidoscópio de penas que deliciavam a vista.
Um destes papagaios voou demasiado alto, parou de repente e caiu vários metros antes de recuperar os sentidos e voar ao encontro dos outros.
Jenna olhou fixamente para cima. Será que Cutter usava etiquetas eletrónicas ou chips para manter cada criatura confinada ao seu próprio nível? Ponderou esta possibilidade… qualquer coisa que ocupasse a sua mente e afastasse o terror que sentia dentro de si.
O carrinho continuou a descer vários níveis, o ar estava cada vez mais quente e mais húmido. O suor surgiu na sua testa e escorreu pelas suas costas abaixo.
Ela olhava para cima, para a entrada distante da dolina, estimando que estivessem a cerca de dois quilómetros de distância da mesma.
Nunca mais vou sair daqui.
O desespero dominou-a… até que, por fim, chegaram à floresta que crescia no fundo da dolina. Estimou que tivesse mais de oitenta e cinco mil metros quadrados.
Ao atravessar o último portão, passaram para baixo da copa das árvores.
Bem-vinda ao Nível Negro, pensou ela com tristeza.
Mas o que estaria lá em baixo?
A sua descida ao longo da rampa tornou-se cada vez mais sombria. A luz brilhante do sol transformou-se numa luz verde ténue. Quando os seus olhos se habituaram, reparou em filas de fungos, ligeiramente luminescentes, que brotavam ao longo do tronco das árvores. Pelo chão, charcos minúsculos e riachos estreitos refletiam a luz ténue, enquanto fetos com folhas volumosas preenchiam tudo em redor, compactados ao longo da solitária estrada de cascalho até à floresta.
O carrinho chegou a essa estrada e dirigiu-se para o interior da floresta.
Ligaram, finalmente, os faróis.
Aproveitando a luz mais forte, Jenna tentou espreitar através das espessas paredes de vegetação, mas não conseguia ver muito longe. De vez em quando, o para-choques do carrinho tocava num feto e as suas folhas e caules esponjosos retraíam e enrolavam, oferecendo uma melhor visão da floresta.
No entanto, era apenas mais do mesmo.
Acabou por desistir e focar a sua atenção em frente, pensando para onde estaria a ser levada. Insetos zumbiam ruidosamente nos feixes de luz dos faróis. Por todo o lado, escorria água pelas folhas e pétalas de flores caíam suavemente para o chão.
A conversa entre o condutor e o guarda esmorecera assim que chegaram a este nível. O medo deles era palpável, o que fez o coração de Jenna disparar.
Cerca de trinta metros à frente, algo grande caiu vindo de cima e ficou esparramado na estrada. Quando chegaram ao local do embate, o carrinho contornou o que se encontrava despedaçado sobre o cascalho.
Jenna olhou fixamente para o esqueleto ensanguentado de uma cabra ou de um veado. Alguma carne ainda se encontrava presa à carcaça, incluindo um dos olhos, que a fitava, desprovido de vida, à medida que o carrinho passava.
Encostada à janela, Jenna procurou entre o emaranhado de ramos volumosos por cima da sua cabeça e a pérgula das copas escuras das árvores.
Não viu nada.
Quem ou o que deixara cair o…
Um rugido tremendo, repleto de raiva e fome territorial, estilhaçou o silêncio pesado. Em resposta, surgiram ruídos vindos do interior da floresta, ecoando por toda a parte.
Horrorizada, Jenna virou-se para Rahei.
A mulher estava novamente a sorrir.