Mover montanhas

Na manhã de sábado, acordei de um sonho em que eu estava nadando em uma privada gigante e Neil Lewis me fisgou. Quando fui tirada da água, despertei. O relógio do criado-mudo marcava 9h48. Em quarenta e sete horas e doze minutos, eu poderia estar morta.

Naquele dia, pratiquei prender a respiração e consegui chegar aos vinte e oito segundos. Na hora de dormir, estava com dor de estômago e tive que tomar remédio para azia e comer biscoitos. No domingo, acordei como se estivesse saindo da água de novo, as roupas estavam grudadas em mim e a dor tinha piorado. Olhei para o relógio. Agora faltavam vinte e seis horas.

Não consegui tomar café da manhã, mas o Pai nem notou. Ele largou um monte de lenha ao lado do fogão e bebeu um gole de chá. “Pronta?”

Eu estava pronta. Vesti minha melhor jardineira, a blusa com rosas no colarinho e meus sapatos pretos brilhantes. Tranças no cabelo. Não sei se estavam bem-feitinhas. O Pai pegou seu casaco de lã de carneiro e o boné, e botei a mochila nas costas.

Lá fora tudo estava quieto e frio. Tinha névoa no ar e o céu era um bloco de nuvens da cor de penas. Ninguém por perto, a não ser o cachorro da casa vinte e nove. Passamos pela rotatória e descemos a colina. Dava para ver a cidade, as antenas, as chaminés e os telhados, a fábrica, o rio e os postes ao longo do vale que nem gigantes solitários. A fábrica ficava no fundo do vale, uma enorme coisa preta com chaminés, torres, escadas, canos e, acima dela, imensas nuvens de fumaça.

No sopé da montanha, passamos pelo prédio de estacionamento, pelo bingo, pelo Clube do Trabalhador, pelo centro de empregos, pela casa de apostas e pelo bar, onde o cheiro de alvejante se misturava com o de cerveja. Nos finais de semana, a calçada fica cheia de balões de água e, às vezes, de panos manchados de vermelho. Certa vez eu vi uma agulha e aí a gente teve que atravessar a rua.

Nada parece estar no lugar certo na nossa cidade. Há motores de carro nos jardins, saquinhos plásticos nos arbustos, carrinhos de compra no rio. Garrafas na sarjeta e ratos nas lixeiras, palavras escritas nos muros e placas com palavras riscadas. Postes de iluminação sem luz, buracos no asfalto e buracos na calçada e buracos nos escapamentos. Casas com janelas quebradas e homens com dentes quebrados e balanços com assentos quebrados. Cachorros sem orelhas e gatos com um olho só e uma vez eu vi um passarinho quase sem penas.

Passamos pelo mercado Woolworths, pela mercearia, pelo mercado Kwik Save e pela Cooperativa. Depois passamos pelo túnel debaixo da ponte, onde os muros são verde-escuros e gotejantes e, quando saímos, estávamos em um terreno baldio, e é lá que fica o Salão de Encontros. O Salão de Encontros é um galpão de metal preto que tem três janelas de cada lado. Lá dentro, um monte de bancos vermelhos e, em todos os parapeitos, jarros de rosas de plástico amarelas com gotas d´água falsas coladas às pétalas em intervalos regulares.

O Pai e a Mãe ajudaram a construir o Salão de Encontros. Ele não é muito grande, mas pertence aos Irmãos. A congregação não tinha muita gente naquela época, só umas quatro ou cinco pessoas. Sem o Pai e a Mãe, a congregação poderia ter fracassado, mas eles continuaram pregando e, por fim, batizaram mais pessoas. Foi maravilhoso quando finalmente fizeram um lugar de reuniões só para eles. Demoraram três anos para construir o Salão, e cada centavo foi doado pelos Irmãos.

Fazia frio lá dentro porque os aquecedores ainda não tinham esquentado. Na frente do salão, Elsie e May estavam conversando com a velha Nel Brown, na cadeira de rodas.

May disse: “Ora, ora, se não é meu tesourinho!”.

Elsie disse: “Ora, ora, se não é meu amorzinho!”.

“Ah, é uma menina tão adorável!”, May falou, me abraçando.

“Ela é uma bênção, isso sim!”, Elsie rebateu, beijando minha bochecha.

May disse: “Tia Nel estava agora mesmo contando sobre a época em que teve um bate-boca com o pastor”.

“Uva?”, Nel perguntou. Seu queixo se sacudia quando mastigava porque ela não tinha dentes. Seu lábio superior era bigodudo. Seu lábio inferior era cheio de cuspe.

“Não, obrigada, tia Nel”, falei. Eu estava preocupada demais para comer e, mesmo se não estivesse, não iria querer, porque tia Nel tem cheiro de xixi.

Tio Stan se aproximou. Tio Stan é o Presidente Superintendente. Ele bebe leite por causa da úlcera e é de “Beemeengoomb”. Ao que parece, “Beemeengoomb” é um Antro de Iniquidades ainda pior que a nossa cidade. Foi lá que ele arranjou a úlcera de estômago, mas algumas pessoas dizem que foi a tia Margaret quem deu a úlcera para ele. Stan passou o braço em volta da tia Nel e disse: “Como vai minha Irmã favorita?”.

Nel falou: “Aquele tapete está precisando de um bom aspirador de pó”.

Tio Stan parou de sorrir. Olhou para o tapete. Disse: “Certo”.

Stan foi procurar o Aspirador e eu fui procurar o Pai. Ele estava na sala dos livros com Brian, separando as revistas que sobraram do mês passado. Pequenos flocos brancos nos ombros do casaco de Brian e em seu cabelo. “C-c-c-c-como vai v-v-v-v-você, J-J-Judith?”, Brian falou.

“Bem, obrigada”, respondi. Mas eu não estava bem. A dor de estômago tinha voltado. Parava de pensar em Neil só por um minuto e já lembrava de novo.

Alf se aproximou. Sua língua se agitava de um lado para outro da boca, parecia um lagarto. Ele disse ao Pai: “Os relatórios também?”. O Pai fez que sim. Alf é o que o Pai chama de “Subcomandante”. Ele não é muito mais alto que eu, mas usa botinhas com saltos. É quase careca, mas penteia o cabelo de lado e passa spray por cima. Uma vez eu vi o cabelo se levantar com o vento quando estávamos pregando, ele pulou para dentro do carro e disse: “Corre pra comprar um spray de cabelo pra mim, menina!”, e não saiu de lá até eu voltar.

Tio Stan veio carregando o Aspirador. Estava abatido. “O orador ainda não está aqui”, falou. “Não estou a fim de falar se ele não aparecer.”

“Ele vai aparecer”, o Pai disse.

“Não sei, não”, rebateu Alf. Ele puxou as calças para cima. “O último orador que a gente chamou se perdeu.” Aí ele me viu e parou de franzir a testa. “Josie tem uma coisinha para você.”

Não gostei do jeito que ele sorriu. “O que é?”, perguntei.

O Pai disse: “É de bom-tom falar ‘obrigado’, Judith”. Ele fechou a cara para mim, como se estivesse decepcionado, e eu fiquei vermelha e olhei para baixo.

Mas Alf retomou: “Não posso contar o que é, né? Vai estragar a surpresa”.

Josie é a esposa de Alf. É bem baixa e larga, tem um rabo de cavalo comprido e branco, uma boca fina em cujos cantos a saliva cremosa se junta e que se estica feito sanfona quando ela fala. Ela usa roupas esquisitas e gosta de costurar para as outras pessoas. Até agora, ela já fez para mim: um vestido de malha com rosas azuis e cor de pêssego, pelo qual ficou perguntando até que ele encolhesse na máquina de lavar, uma saia azul-turquesa com fita na barra que chegava até o chão, um suporte de papel higiênico com uma boneca Cinderela de crochê que o Pai se recusou a colocar no banheiro e, por isso, fiz com ela uma montanha na Terra Gloriosa, um assento de vaso sanitário que agora segura as correntes de ar no pé da porta dos fundos, polainas azuis e brilhantes, um macacão laranja, dois pulôveres e um capuz. Josie deve achar que somos muito pobres, que sou muito maior do que sou na verdade, ou que sinto muito frio. Um dia vou dizer que ela está errada: que não somos ricos, mas temos dinheiro para comprar roupa, que, embora eu pareça mais velha porque sei ler a Bíblia muito bem e converso com os adultos, tenho apenas dez anos e um metro e trinta de altura, e que, na maior parte do tempo, estou com a temperatura correta.

Passei os olhos pela aglomeração, mas não vi nenhum sinal dela. Para ficar mais segura, fui para trás do equipamento de som, junto com Gordon. Não tem ninguém da minha idade na nossa congregação, por isso, embora Gordon seja bem mais velho que eu, converso com ele. Gordon estava testando os microfones, fazendo uns estalos.

Olhei para o relógio. Agora faltavam exatamente vinte e três horas até Neil Lewis enfiar minha cabeça na privada. Não tinha o que fazer. Gordon ajustava os microfones. Perguntei a ele: “Você tem uma bala?”. Gordon remexeu nos bolsos. Desenrolou um embrulho e deixou um tablete branco e empoeirado cair na minha mão. “Obrigada”, falei. Peço balas a Gordon somente em casos de emergência. Gordon pegou duas e voltou a desembaraçar os cabos.

Não faz muito tempo que Gordon se livrou da heroína. Ele ficou viciado porque Andou com a Turma Errada. Está Enfrentando a Depressão, então faz muito bem em vir aos encontros. A coisa ficou muito séria durante um tempo. Parecia que Gordon teria que ser Removido. Foi marcado como má influência. Dizem que Deus lançou Sua luz sobre o coração de Gordon, mas acho que sua recuperação tem mais a ver com balas de hortelã muito fortes. O Pai disse que a heroína deixa as pessoas felizes porque faz a dor desaparecer; as balas de hortelã deixam você feliz porque, quando você termina de chupar, percebe que já não está mais com dor. Acaba que é a mesma coisa. O problema é que Gordon está se acostumando com elas. Já consegue engolir quatro de uma vez só. Não sei o que ele vai fazer quando conseguir acabar com um pacote inteiro, porque não fabricam balas ainda mais fortes.

Agora tinha muita gente na sala, ou pelo menos muita gente para a nossa congregação, eu diria que quase umas trinta pessoas. Até mesmo umas caras que não vemos geralmente. Pauline, a mulher de quem o tio Stan exorcizou um demônio na primavera passada, e Sheila, do abrigo de mulheres; Geena, do manicômio, com cicatrizes nos braços; e Charlie Powell, o Louco, que mora em uma casinha de madeira na mata, entre os abetos. Parecia que alguma coisa especial estava para acontecer, mas eu não sabia o que era.

No tablado, Alf deu tapinhas no microfone. “Irmãos e Irmãs”, ele falou, “por favor, sentem-se, o encontro já vai começar.”

Então o orador não tinha aparecido. Imaginei seu carro capotando na montanha, seus gritos ficando cada vez mais fracos até o bloco de metal amassado desaparecer na neblina. “A gente se vê”, eu disse a Gordon e fui para meu lugar.

O Pai e eu nos sentamos na frente, nossos joelhos quase tocam o tablado. Meu pescoço fica com torcicolo olhando para cima. O Pai diz que é melhor do que ficar Distraída. A Distração leva à Destruição. Mas a primeira fileira tem suas próprias distrações. O cheiro da tia Nel é uma delas. Fico feliz com minha bala de hortelã extraforte.

Nós nos levantamos para cantar “As alegrias do Reino de Deus”. O Pai canta bem alto, soltando a voz do fundo do peito, mas não consigo cantar, em parte porque estou pensando em Neil, em parte porque a bala de hortelã extraforte secou toda a saliva da minha boca. O Pai me cutuca e franze a testa, então boto a bala na bochecha e grito tão alto quanto ele.

Tivemos que começar com a leitura de um artigo porque não havia orador. O artigo se chamava “Iluminação do Mundo” e era sobre como não devemos guardar nossas qualidades em um balaio, que, no fim das contas, era só um tipo de cesto. Alf falou que o melhor jeito de fazer isso era preencher um relatório. O Pai se manifestou e disse que era um privilégio ser porta-voz de Deus. Elsie se manifestou e disse que todos conhecemos pessoas céticas, mas, se não falamos com elas, como vão saber? Brian disse: “O p-p-p-p-p-problema é que...”, mas a gente nunca ficou sabendo qual era o problema. Tia Nel levantou a mão, mas era só para avisar a May que ela tinha se molhado.

Nessa hora minha bala de hortelã já estava no fim, então levantei a mão e disse que Deus deveria estar muito feliz ao ver todas aquelas luzinhas brilhando na escuridão, e Alf falou: “É, todo mundo aqui está vendo que a sua luz está brilhando, Irmã McPherson!”. Mas minha luz não estava brilhando e eu não me sentia feliz, e aí desejei não ser uma das luzes de Deus, porque, se eu não fosse, Neil Lewis não iria enfiar minha cabeça na privada.

Quando a leitura terminou, o Pai subiu ao tablado e disse: “Agora, Irmãos, devido a circunstâncias inesperadas...”, e eu vi tio Stan reunindo seus papéis e enxugando o pescoço com o lenço. E, então, um sopro de ar varreu o salão e ouvimos a porta de entrada se fechar.

Eu me virei. Um homem atravessava as portas do vestíbulo. Parecia que algo as mantinha abertas, porque ficaram escancaradas enquanto ele passava e se fecharam logo depois. O homem tinha pele de caramelo e cabelos cor de melros. Ele parecia um Homem Antigo, exceto por não usar túnica, mas um terno azul-escuro que brilhava feito gasolina em poça d´água quando bate a luz. O homem veio direto para a nossa fileira e se sentou na ponta, senti um cheiro de bolo de frutas e vinho.

Alf correu até ele. Sussurrou para o homem e depois fez que sim para o Pai. O Pai sorriu. Ele disse: “E ficamos muito felizes em dar as boas-vindas ao...”.

“Irmão Michaels”, falou o homem. Sua voz era o mais estranho de tudo. Parecia chocolate amargo.

O Pai disse: “Nosso orador visitante, de...?”. Mas o Irmão Michaels aparentemente não escutou. O Pai perguntou de novo e o Irmão Michaels só abriu um sorriso. “Bom, enfim, estamos muito contentes em recebê-lo, Irmão”, o Pai falou e desceu do tablado.

Houve uma salva de palmas, e o Irmão Michaels subiu ao tablado. Ele não parecia ter anotações. Tirou algo da maleta e pôs sobre o púlpito. Depois levantou os olhos. Agora que ele olhava para nós, pude ver como sua pele era escura. Seus cabelos também eram escuros, mas seus olhos eram estranhos e claros. Então ele disse: “Que belas montanhas vocês têm aqui, Irmãos!”.

Pude sentir o quanto todos ficaram surpresos. Ninguém nunca tinha falado que o nosso vale era bonito. Irmão Michaels disse: “Vocês não acham? Hoje eu estava passando de carro por elas e pensando em como vocês são sortudos por viverem aqui. Ora, lá do alto achei que dava para ver bem dentro das nuvens”.

Olhei pela janela. Ou o Irmão Michaels é maluco, ou precisa de óculos; as nuvens estavam ainda mais baixas agora; não dava para ver um palmo na frente do nariz.

Ele sorriu. “O tema da nossa conversa de hoje é ‘Mover Montanhas’. Vocês acham que precisam do que, Irmãos, para mover aquela ali?”

“Dinamite”, Alf disse.

“Não ia dar certo”, rebateu o tio Stan.

“Uma escavadeira bem grande”, Gordon falou e todo mundo riu.

Irmão Michaels segurava alguma coisa entre o indicador e o dedão. “Vocês sabem o que é isto?”

“Não tem nada ali”, eu sussurrei, mas o Pai sorriu.

“Quem de vocês acha que não estou segurando nada?”, perguntou o Irmão Michaels.

Algumas pessoas levantaram os braços, muitas outras, não. O Pai ainda estava sorrindo e ergueu a mão, então também ergui. O Irmão Michaels colocou um pedaço de papel logo abaixo do microfone. Aí ele abriu os dedos e ouvimos alguma coisa cair. “Aqueles que acharam que eu estava segurando alguma coisa merecem um tapinha nas costas”, ele disse. “Vocês estavam vendo com os Olhos da Fé.”

“Que é isso?”, perguntei, mas o Pai só botou os dedos em cima dos lábios.

“Isto, Irmãos, é uma semente de mostarda”, disse o Irmão Michaels. Ele mostrou uma foto ampliada da semente de mostarda. Era um tipo de bolinha amarela. “É a menor das sementes, mas cresce até virar a árvore em que os pássaros dos céus vêm pousar.” Aí ele começou a falar sobre o mundo.

Ele disse que muitas dificuldades sucederiam ao povo de Deus antes que o sistema acabasse. Disse que Satanás estava rondando a terra, querendo devorar as pessoas. Nós lemos a passagem sobre como os israelitas pararam de acreditar que chegariam à Terra Gloriosa, como menosprezaram os milagres de Deus e os milagreiros. “Que isso nunca nos aconteça”, ele disse. “A Fé não é um atributo de todas as pessoas. O mundo ri da fé. Elas jamais pensariam em dizer àquela montanha que se mova. Mas abram suas Bíblias comigo, Irmãos, e vejamos o que Jesus diz.”

Aí ele começou a ler e, nesse momento, meu coração batia forte, era como se eu estivesse reluzindo.

Pois em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, direis a esta montanha: ‘Transporta-te daqui para lá’, e ela se transportará, e nada vos será impossível.”

“É claro”, ele disse, “que Jesus estava falando metaforicamente. A gente não pode mover montanhas de verdade. Mas podemos fazer coisas que achamos que são impossíveis, se tivermos fé. A fé vê a montanha como se ela já tivesse se movido, Irmãos. Não é o bastante pensar em como o novo mundo vai ser, nós temos que nos ver lá. Enquanto ficarmos só pensando em como vai ser, ainda estaremos aqui. Mas a fé tem asas. Ela pode nos levar para onde quisermos ir.”

Aí ele começou o discurso, e era como ouvir o desvendar de uma grande história, eu conhecia a história, mas não me lembrava de tê-la ouvido, pelo menos não desse jeito.

No princípio, o Irmão Michaels contou, toda vida era milagrosa. Os humanos viviam eternamente e jamais ficavam doentes. Toda fruta, todo animal, toda porção de terra era um reflexo perfeito da glória de Deus, e a relação entre os humanos também era perfeita. Mas Adão e Eva perderam uma coisa. Perderam a fé em Deus. Então começaram a morrer, as células de seus corpos começaram a se deteriorar e eles foram expulsos do jardim.

“Depois disso, havia apenas lampejos de como as coisas costumavam ser, um pôr do sol, um furacão, um arbusto atingido por um raio. E a fé se tornou algo por que você rezava em um quarto à meia-noite, ou em um campo de batalha, ou na barriga de uma baleia, ou em uma fornalha ardente. A fé se tornou um salto, porque havia uma fenda entre como as coisas estavam e como elas costumavam ser antes. Era o espaço onde os milagres aconteciam.

“Tudo é possível, em todos os tempos e em todos os lugares e para todos os tipos de gente. Se você acha que não, é só porque não consegue ver como está perto, como só precisa fazer uma coisinha que tudo vai começar a acontecer para você. Milagres não têm que ser coisas grandes e podem acontecer nos lugares mais improváveis; os milagres dão mais certo com as coisas simples. Paulo diz: ‘A fé é a garantia dos bens por que se esperam, a prova das realidades que não se veem’, e se a gente tiver só um pouquinho, outras coisas vão acontecer também, Irmãos. Às vezes mais do que sonhamos.”

A fala terminou, mas, por um segundo, ninguém bateu palmas; depois veio uma chuva delas. Senti que eu tinha despertado. Mas que dormira antes mesmo de o discurso começar; senti que tinha passado a vida inteira dormindo.

Mal pude esperar pelo fim da música e da oração. Pensei que o Irmão Michaels seria a pessoa certa com quem conversar sobre Neil Lewis.

Mais tarde, fiquei perto do Irmão Michaels e esperei que tio Stan acabasse de conversar com ele. Mas quando Stan foi embora, chegaram Elsie e May. Depois Alf. O Irmão Michaels apertava suas mãos, ouvia e concordava; ele sorria e sorria. Ninguém queria ir embora.

Eu estava começando a achar que não conseguiria falar com ele nunca, mas por fim houve um intervalo, e ele se virou para guardar seus papéis na maleta e me viu.

“Olá”, ele disse. “Quem é você?”

“Judith”, respondi.

“Foi você que deu aquela resposta linda?”

“Não sei.”

“Acho que foi você.” O Irmão Michaels estendeu a mão. “É muito bom conhecer você.”

Eu disse: “Gostei da sua fala”, mas parecia que minha voz não estava saindo direito. “Acho que nunca gostei tanto de uma fala.”

“Muito obrigado.”

“Estava aqui pensando, será que posso ver aquela semente de mostarda?”

O Irmão Michaels deu risada. “Pode sim”, ele falou. “Mas não posso garantir que vai ser a mesma.” Ele tirou um vidrinho da maleta, cheio de sementes.

Eu disse: “Nunca tinha visto mostarda assim!”.

“Ela é assim antes de triturarem.”

Eu disse: “Gostaria de ter um pouco para mim”.

O Irmão Michaels virou um montinho de sementes na minha mão. “Agora você tem.”

Fiquei olhando para as sementes. Estava tão feliz que quase esqueci o que ia dizer. “Irmão Michaels”, finalmente eu disse, “vim falar com você porque estou com um problema.”

“Eu sabia.”

“Sabia?”

Ele fez que sim. “Que tipo de problema?”

“Tem uma pessoa... eu estou com medo...”, suspirei. Então entendi que precisava dizer exatamente o que era. “Acho que logo, logo já vou ter ido.”

O Irmão Michaels ergueu as sobrancelhas.

“Quero dizer: deixar de existir.”

O Irmão Michaels baixou as sobrancelhas. “Você está doente?”

“Não.”

Ele franziu a testa. “Alguém lhe disse isso ou é só uma sensação?”

Pensei um pouco. “Ninguém me disse, não”, respondi. “Mas tenho quase certeza.”

“E você já contou para alguém?”

“Não. Ninguém pode fazer nada.”

“Como você sabe?”

“Eu só sei”, respondi. Os adultos acham que você pode falar tudo para o professor. Não veem que só piora as coisas.

Por um minuto, o Irmão Michaels não disse nada. Aí ele falou: “Você tentou rezar?”.

“Tentei.”

“Às vezes a resposta da reza demora.”

“Só tenho até amanhã.”

O Irmão Michaels puxou o ar. Depois disse: “Judith, acho que posso dizer com segurança que nada vai acontecer com você até amanhã”.

“Como você sabe?”

“O que você está enfrentando é simplesmente medo”, ele disse. “Não que o medo seja simples; o medo é o inimigo mais traiçoeiro de todos. Mas coisas boas acontecem quando você o enfrenta.”

Eu disse: “Não sei como alguma coisa boa pode acontecer por isso”.

“Então comece a olhar para as coisas de um jeito diferente. É incrível como todos os problemas que a gente achava que não tinham solução desaparecem quando olhamos para as coisas a partir de outro ponto de vista.”

Meu coração batia forte. “Seria bom mesmo”, falei.

O Irmão Michaels sorriu. “Agora preciso ir, Judith.”

“Ah”, eu disse. E, de repente, fiquei com medo de novo. “Você acha que vai voltar aqui?”

“Tenho certeza de que sim, um dia desses.”

Aí ele fez uma coisa esquisita. Pôs as mãos nos meus ombros e olhou dentro dos meus olhos, e uma onda de calor correu pelos meus braços até os dedos e dos ombros até as minhas costas. “Tenha fé, Judith”, ele disse. Olhei para cima. O Pai estava me chamando.

“Um minutinho”, falei, mas o Pai deu tapinhas no relógio. “Tá bom!”, respondi. Eu me virei de novo e a fileira estava vazia.

Corri pelo corredor. “Cadê o Irmão Michaels?”, perguntei. Alf encolheu os ombros. Corri até o vestíbulo. “Tio Stan”, falei, “você viu o Irmão Michaels?”

“Não”, respondeu Stan. “Eu também estava procurando por ele. Margaret e eu queremos convidá-lo para almoçar.”

Corri para o estacionamento. Gordon estava mostrando seu aerofólio novo para outros rapazes. “Pra onde foi o Irmão Michaels?”, falei e senti meus olhos arderem.

Fazia mais frio agora, mas ainda não havia nenhum sopro de vento. A névoa tinha subido, e o céu estava carregado de nuvens.

A mão no meu cotovelo me fez virar. O Pai me entregou o casaco e a mochila. Ele disse: “Seus ossos vão congelar”. E depois: “O que você tem aí?”.

Eu tinha me esquecido.

“Sementes”, falei. Abri a mão e mostrei para ele.