Naquela tarde, plantei as sementes de mostarda em um potinho no parapeito da janela da cozinha. Perguntei ao Pai se elas iriam crescer e ele disse que não sabia. Depois desligou a eletricidade para economizar dinheiro e foi até a sala do meio para ter Paz e Tranquilidade. Paz e Tranquilidade é mais uma Coisa Necessária. Subi a escada e me sentei no chão. O relógio marcava 14h33. Menos de dezenove horas até Neil me afogar.
Imaginei que encontravam meu corpo no chão do vestiário da escola, meus cabelos embaraçados que nem os de uma sereia, os olhos abertos, meus lábios azuis, como se tivesse chupado balas de amora. Neil estaria olhando também; ele teria dado o alarme; ninguém iria saber. Eu vi o enterro. Elsie e May estariam chorando. Stan rezando. Alf diria que pelo menos eu tinha escapado da Tribulação. O pescoço de Gordon estaria mais afundado na gola do casaco do que o normal. Não consegui imaginar o que o Pai estaria fazendo.
Eu sabia que o Irmão Michaels tinha falado para eu ter fé em que Deus iria me ajudar, que as coisas que a gente achava que eram impossíveis eram possíveis para Deus. Mas eu não enxergava como fazer a escola ou Neil Lewis desaparecerem num passe de mágica. Se eu fosse Deus, mandaria um furacão ou uma praga ou um maremoto varrer a cidade e a escola. Mandaria o Armagedom, ou um asteroide para fazer um buraco na terra, bem onde ficava a escola, ou, se o asteroide fosse pequeno e caísse no lugar certo, só esmagaria Neil Lewis. Mas eu sabia que nada disso iria acontecer.
Comecei a me sentir que nem naquela outra noite, quando a nuvem me engoliu. Fui até a janela e encostei a cabeça no vidro, minha respiração embaçava a superfície, que eu limpava o tempo todo. Uma fileira de casas lá fora. Acima delas, outra fileira e, acima desta, mais outra. Acima das casas, a montanha. Acima da montanha, o céu. As casas eram marrons. A montanha era preta. O céu estava branco.
Olhei para o céu. Era tão branco que até poderia nem estar lá. Era que nem papel, que nem penas. Que nem neve. “Bem que podia nevar”, falei em voz alta.
Certa vez tinha nevado muito e fecharam a escola. Olhei para o céu. Poderia estar cheio de neve bem agora, só esperando para cair. Podia nevar, até que estava bem frio. O Irmão Michaels tinha dito que, se tivéssemos um pouco de fé, outras coisas aconteceriam também, às vezes mais do que sonhamos, e eu achei que tinha sim um pouco de fé, e talvez um pouco já fosse o bastante.
Comecei a pensar na neve, comecei a pensar com força em sua massa crocante e em seu cheiro limpo, no jeito como ela afofa tudo e deixa o mundo novo. Como o ar fica vivo, a terra dormindo, as coisas só prendendo a respiração e escutando. Vi a cidade deitada embaixo de um cobertor de neve, as casas adormecidas e a fábrica coberta, o Salão de Encontros, a montanha branca chegando até um céu que era branco e, do céu, mais brancura caindo. E quanto mais eu pensava, mais carregado o céu parecia e mais frio ficava o vidro debaixo dos meus dedos.
Voltei a olhar para o quarto. Tive uma ideia, mas não conseguia explicar o que era. Não sabia nem de onde ela tinha vindo, sabia apenas que era como se uma mão gigante tivesse escrito “Neve” em uma folha de papel em branco. Podia ver como tinha escrito o “N”, a perninha subindo para o “e”, então mais parecia um “M”. E a mão estava escrevendo mais coisas e comecei a me apressar para fazer o que ela dizia, antes que a folha se apagasse.
Fui para o canto do meu quarto, até o baú que pertencia à Mãe. Dentro dele estão guardados os tecidos, miçangas e fios que ela tinha e todas as coisas que achei por aí. Procurei um pano de algodão branco e puxei-o. Abri o pano de algodão e com ele cobri os campos e colinas da Terra Gloriosa.
“Muito bom”, uma voz disse. “Mais!”
Algo quente lambeu minha espinha. Meu couro cabeludo se arrepiou. “Quem está aí?”, perguntei. Ninguém respondeu.
Minhas mãos tremiam. Senti o coração na garganta. Peguei açúcar e farinha, espalhei sobre as copas das árvores de esponja, sobre a grama de papel e as cercas vivas.
“Mais rápido!”, falou a voz. E, embora não soubesse de onde ela vinha, eu sabia que agora a voz era de verdade e que ela falava sério comigo, e não me importei com quem ou o que estava falando.
Corri para o banheiro. Voltei correndo. Esguichei espuma de barbear nos parapeitos das janelas, nos beirais e nas calhas. Deixei secar cola em pequenas gotas nos telhados e nos galhos, nos coretos e nos postes de rua.
“Mais!”, a voz disse.
Um tambor no meu cérebro. O quarto inteiro estava pulsando. Com papel de bala dourado fiz uma fogueira dentro de um pote de caramelos e o coloquei onde se erguiam abetos imensos, na beira do lago. Fiz espetos de salsichas e marshmallows com pedaços de massinha. Fiz um boneco de neve com uma bola de isopor, uma fila de gansos de papel branco e depois os pendurei na lua com uma linha. Peguei meu edredom esfiapado e o balancei, então choveram plumas sobre cidades, mares, colinas e lagos.
Fiz nevar sobre casas, lojas, correios e escolas. Cobri de gelo as estradas, bloqueei pontes e prendi limpadores de cachimbo brancos nos cabos telegráficos. Coloquei garotos escorregando sobre papelão em um lago de papel-alumínio e, na montanha, um tobogã de lã.
Apertei minhas próprias mãos e não as senti.
Meu pé dormiu.
Bati os pés no chão e me sentei de novo.
Quando abri os olhos, a luz tinha ido embora e a Terra Gloriosa reluzia branca na escuridão, os gansos eram pequeninas setas no céu. Eu estava encolhida de lado, na beira do mar. Minha bochecha doía porque estava apertada contra a borda do espelho. Eu me sentei. Aí ouvi o Pai me chamando. Prendi a respiração. Ouvi seus passos chegarem ao pé da escada.
Meu coração estava batendo tão rápido que até doía, e eu não sabia por quê. Ele chamou de novo e fechei os olhos bem apertados. Por fim, o Pai voltou para a cozinha e fechou a porta. Deve ter pensado que eu tinha ido dormir.
Estava tremendo. Eu me levantei e fui até a janela. Agora não conseguia ver a montanha e o céu estava preto. Atrás de mim, o quarto quieto. Podia sentir a quietude ao meu redor, que nem água. Respirei fundo, me virei para o quarto e disse: “Neve”. Olhei para o céu e disse: “Neve”.
Um carro passou correndo. Ele me iluminou e depois me deixou na escuridão. O som daquele carro me atraiu. Achei que já tinha ido embora, mas ele voltou. Fiquei ouvindo o som até ele desaparecer, depois fechei as cortinas e fui para a cama.
Escutei o relógio badalar nove vezes na sala. Escutei a sra. Pew chamar Oscar para o jantar. Escutei o sr. Neasdon voltar do Clube do Trabalhador e o cachorro da casa vinte e nove começar a latir. Escutei o apito da fábrica chamar o turno da noite e o Pai subir a escada, passos ocos sobre as tábuas do chão.