O teste

Quando acordei na terça-feira, o céu estava azul e limpo, o sol reluzia nas janelas. Os montes de neve nas soleiras das portas e ao longo da estrada já estavam amolecendo. Eu disse: “Hora do meu teste”.

Fui até o baú e peguei meus materiais. Recolhi o céu da Terra Gloriosa e em seu lugar pendurei gaze. Desenganchei as nuvens e em seu lugar pus um furacão de tela de arame e bolas de isopor pequeninas. Tirei o tecido de algodão e espalhei lã sobre casas e campanários, linhas férreas, montanhas e viadutos.

“Mais frio!”, disse a voz, e outra vez eu me senti como se estivesse cintilando.

Coloquei pessoas pequenininhas dentro das casas. E as enrolei em cobertores e casacos. Pus canecas de chocolate quente em suas mãos. Acendi lampiões. Borrifei geada nas janelas e fiz gelo para as ruas com lâminas de acrílico.

“Mais frio!”, a voz falou.

Rasguei o feixe de luz do farol de papel e em cima das ondas espalhei cacos flutuantes de gelo plástico. Colei pingentes nos mastros dos navios, liguei o ventilador e rajadas de granizo de papel agulharam as mãos e os rostos dos marinheiros. Bonecos de neve espirravam. Ursos-polares tremiam de frio. Pinguins dançavam para se manter quentinhos.

Então eu disse: “Neve”, que nem da primeira vez. E vi a cidade, a siderúrgica e a montanha cobertas de neve, montes de neve, mais do que qualquer um jamais tinha visto ou veria de novo.

Eu disse: “Agora é só esperar”.

Esperei durante o café da manhã. Esperei durante o almoço. Esperei enquanto o Pai e eu trazíamos a última tora de lenha para secar no alpendre e ponderávamos sobre Jesus morrendo para salvar o mundo. Esperei enquanto nos sentamos diante da lareira naquela noite e o Pai ouviu Nigel Ogden tocar órgão. Esperei a noite toda, conferindo e olhando para as estrelas e o deserto branco da lua. Corri para a janela na manhã seguinte, mas o sol estava brilhando tão forte que meus olhos doeram, e pingos constantes desciam pela janela.

Eu me senti mal e sentei na cama. Disse: “O que fiz de diferente?”. Falei: “Talvez eu só tenha que ter paciência”.

Naquela manhã nós fomos pregar. O Pai disse que era o momento ideal. O que ele quis dizer é que as pessoas estariam em casa. Pegar as pessoas em casa é um problema para nós porque, apesar de estarmos tentando salvá-las, elas fazem quase tudo para evitar. Não abrem a porta, contam mentiras (“Minha avó acabou de morrer”, “Tenho um ferimento de guerra e não posso ficar muito tempo de pé”, “Estou saindo pra ir à igreja”), ficam rudes (gritam, soltam os cachorros, ameaçam chamar a polícia) ou fogem (é o último recurso, mas acontece; certa vez, uma pessoa saiu correndo quando nos viu na frente da sua porta e derrubou umas sacolas de compras no chão). É o que o Pai chama de Táticas de Evasão. Mas nós também temos nossas táticas, que incluem fazer perguntas instigantes, transformar Bloqueadores de Conversa em Puxadores de Conversa e bater duas vezes à mesma porta na mesma manhã (mas, certa vez, uma pessoa jogou um balde d´água na cabeça do Pai quando fizemos isso, então talvez não seja uma tática muito eficaz).

Encontramos o grupo na esquina da King Street. Havia pequenas montanhas de neve de cada lado da rua. Elsie e May estavam lá, além de Alf e Josie, Stan, Margaret e Gordon. Josie usava chapéu de pelo e uma capa, um conjunto de vestido e casaco costurado que descia até suas canelas. Ela disse: “Fiquei procurando você no domingo. Trouxe uma coisinha para você”.

Fui para o outro lado do Pai. “A gente deve ter se desencontrado”, respondi.

“O que você acha dessa neve?”, tio Stan quis saber. “Incrível, não?”

“A Tribulação está chegando!”, falou Alf.

Elsie disse: “Minhas juntas não gostam nada disso”. Ela me ofereceu uma bala Locket.

“Nem minhas frieiras”, completou May. Ela me ofereceu uma bala Werther’s Original.

“Bom”, disse o Pai, “em todo caso, tivemos uma bela demonstração da natureza.”

Tio Stan fez a oração e nós começamos. Elsie trabalhava com Margaret, Stan com Gordon, Josie com May, Alf trabalhava sozinho e eu, com o Pai. Fazia frio. Nossos passos repercutiam nas calçadas. O Pai dizia oi para quem passava. Alguns acenavam de volta com a cabeça. Outros davam oi. A maioria olhava para o chão e seguia caminhando. Apesar das circunstâncias ideais, poucas pessoas responderam. Às vezes uma cortina se mexia. Às vezes uma criança vinha e falava: “Não tem ninguém em casa” e, quando isso acontecia, alguém dava risada.

O céu estava inacreditavelmente azul. Esse azulado me amargurava. “Ainda pode acontecer”, dizia para mim mesma. “Ainda pode nevar.” Mas, duas horas mais tarde, quando nos reencontramos na esquina, o céu estava tão azul quanto antes. “Parece que a gente não teve muito sucesso”, disse o tio Stan. E eu assinei embaixo.

O Pai e eu dissemos tchau ao grupo e fomos para as Visitas de Retorno. Visitas de Retorno são as pessoas a quem sempre recorremos; elas não se escondem de nós. A sra. Browning se sentou, animada, com bobs nos cabelos, e nos ofereceu chá e torradas com manteiga. Tinha pelos de cachorro e gordura no prato e as xícaras estavam marrons na parte de dentro. Normalmente não consigo beber o chá, que é feito com leite condensado e fica apenas morno, mas hoje engoli sem pensar. Depois o Pai me pediu para ler as escrituras e a sra. Browning disse: “Que garota esperta! Aposto que está louca para voltar para a escola!”.

O Pai ergueu as sobrancelhas. “Eu não contaria com isso.”

Deixamos a sra. Browning e fomos ver Joe e seu cachorro Watson. Joe estava encostado na varanda, como sempre. Havia até uma mancha na parede, de tanto tempo que ele passava ali. Watson arrastava o traseiro nos degraus.

O Pai disse: “Qualquer dia desses, Joe”.

E Joe respondeu: “Só acredito vendo”.

O Pai disse: “Você tem que acreditar para ver”.

Joe deu risada e seu peito chiou. Deixamos algumas revistas com ele e o Pai disse que precisávamos voltar para casa, senão o fogo iria apagar.

Fiquei olhando minhas pernas irem e virem sob mim na subida da rua. Tinha um palito de pirulito na sarjeta. Geralmente faço cercas de jardim com eles, mas, dessa vez, passei por cima. “Nunca mais vou fazer nada”, disse para mim mesma. “Teria sido melhor não ter feito a neve, se foi só coincidência.” Era terrível pensar em voltar de repente para como as coisas eram antes.

Subimos a estrada da montanha pelas trilhas abertas por carros, e o sol atravessava os abetos em golpes derretidos, gaguejando e tagarelando pelos galhos. O Pai dava passos largos. Suas botas espalhavam lama para os lados em pequenos jorros. Eu ouvia o barulho das botas e do couro de carneiro pisando o chão, minha mochila com a Bíblia batendo nas minhas costas e queria que tudo parasse. O Pai disse: “Vamos lá! Que lerdeza é essa?”.

“Não sou lerda”, respondi. “Estou cansada.”

“Bom, quanto mais rápido você andar, mais cedo vamos chegar em casa.”

A montanha parecia mais alta do que eu me lembrava. Fizemos uma curva na estrada e ela subiu de novo. Fizemos outra curva e aí ela subiu ainda mais. Quanto mais alto a gente subia, mais branco ficava. A brancura entrava nas minhas roupas. Passava pelas costuras, pelas casas dos botões, pela lã das minhas calças de malha. Fechei os olhos, mas ela me alfinetava as pálpebras e fazia desenhos nelas.

Chegamos ao topo. O Pai continuava andando, mas eu parei na estrada. Fiquei ouvindo seus passos se afastarem e, por um minuto, não me importaria se eles jamais voltassem. Tapei os olhos com as mãos, fiquei parada, tudo o que conseguia escutar era o vazio ao meu redor, e por um bom tempo não pensei em nada. Então uma rajada de vento frio me esbofeteou e abri os olhos.

O céu já não reluzia. Estava denso e revolto. Alguma coisa pairava na minha frente. Alguma coisa iluminando meu casaco, meu nariz e minhas bochechas, me tocando e depois desaparecendo, várias vezes. Fiquei bem quieta e, de algum lugar dentro de mim, veio uma pressa de voltar para casa.

Eu tinha lágrimas nos olhos, mas não eram de frio. E então eu estava correndo pela encosta da montanha, correndo e gritando: “Espere por mim!”.

Passei a toda velocidade por ele e me virei, escorregando e rindo e me equilibrando. “Está nevando!”

“É, eu percebi.”

“Não é maravilhoso?”

“É uma droga.”

Comecei a correr de novo, apertando os olhos, abrindo os braços que nem um passarinho. O Pai disse: “Cuidado pra não cair!”. E corri mais rápido ainda, só para mostrar que eu não cairia.