Um segredo

Tenho um segredo. O segredo é: o Pai não me ama.

Não sei quando foi a primeira vez em que percebi, mas agora já faz um tempo que tenho certeza. Ele fala: “Bela resposta”, ou “Gostei do jeito que você usou essa citação das escrituras”, ou vai até meu quarto, para na porta e diz: “Tudo bem?”. Mas parece que está lendo as palavras em uma folha de papel e depois me diz como eu poderia ter feito a apresentação melhor e, mesmo que eu fale para ele entrar no meu quarto, ele não entra.

Estas são as razões pelas quais sei que o Pai não me ama.

1. Ele não gosta de olhar para mim.
2. Ele não gosta de tocar em mim.
3. Ele não gosta de falar comigo.
4. Ele está sempre bravo comigo.
5. Ele é triste por minha causa.

1. O Pai sempre evita olhar para mim e, quando olha, seus olhos estão negros. Eles na verdade são verdes, mas parecem pretos porque ele fica bravo. Tem um verso na Bíblia que diz que o espírito de Deus “é mais penetrante que qualquer espada de dois gumes e separa até a alma do espírito, juntas das medulas, sabe os pensamentos e os segredos do coração”. É assim que me sinto quando o Pai olha para mim. Parece que ele não gosta do que está vendo.

2. O Pai não toca em mim. Nós não damos beijo de boa-noite e nem abraços, não ficamos de mãos dadas e, se nos sentamos perto demais, ele de repente percebe e pigarreia ou se afasta e se levanta. Às vezes, quando estamos juntos, alguma coisa muda no ar e é como se fôssemos as únicas pessoas no universo, mas ao invés de termos muito espaço, como seria de esperar se realmente fôssemos as únicas pessoas no mundo inteiro, ficamos trancados em uma sala minúscula, sem nada para falar.

3. O Pai não gosta de falar comigo. Talvez seja porque faço muitas perguntas, como, por exemplo: “Como vai ser o novo mundo?” e “Deus sabe tudo o que vai acontecer no futuro?”. Sobre esta última pergunta, o Pai respondeu: “Deus pode decidir o que saber e o que não saber”. A que eu respondi: “Então Ele deve saber o que vai acontecer para não querer saber nada a respeito”, e ele disse: “É um pouco mais complicado que isso”.

Então eu disse: “Deus deixa coisas ruins acontecerem porque Ele não consegue ver essas coisas acontecendo ou porque Ele não quer impedir que elas aconteçam?”.

“Deus deixa coisas ruins acontecerem para provar que os humanos não podem governar a si próprios. Se Deus impedir que tudo de ruim aconteça, então as pessoas não serão livres. Elas seriam só bonequinhos.”

Falei: “Acho que sim. Mas, se tudo que a gente faz já está escrito em algum lugar, nós somos livres para fazer o que queremos ou só pensamos que somos livres?”.

Ele disse: “Não conseguimos compreender Deus, Judith. Seus caminhos são insondáveis”.

“Então por que ponderar sobre isso?”, perguntei.

O Pai ergueu as sobrancelhas e fechou os olhos.

Eu disse: “Talvez você esteja ponderando demais”.

E ele respondeu que achava que provavelmente sim.

Mas, na maior parte do tempo, não falo muito com o Pai e ele não fala muito comigo, e esse é o nosso maior problema, porque não falamos nada e o tempo todo o ar fica cheio com as coisas que poderíamos falar. Estou sempre tentando puxar essas coisas para baixo, mas elas costumam ficar fora de alcance.

4. O Pai está sempre bravo comigo. Porque tem uma lista de coisas que ele quer que sejam feitas de uma certa maneira, por exemplo:

a. falar (e não resmungar)
b. sentar-se (e não se refestelar)
c. andar (e não correr)
d. pensar (e não sonhar acordada)
e. poupar (e não gastar)

e uma lista ainda mais extensa do que não deve ser feito jamais, por exemplo:

a. chorar
b. brincar com a comida
c. deixar comida no prato
d. ficar correndo por aí (incluindo pular amarelinha na sala, o que quebra outra regra, ver o item f)
e. arrastar os sapatos
f. fazer barulho em geral
g. deixar portas abertas
h. não prestar atenção

E estou destinada a, cedo ou tarde, fazer uma coisa e me esquecer de outra.

Mas, às vezes, não sei por que o Pai está bravo comigo. Certa vez perguntei a ele o que eu tinha feito de errado.

Ele disse: “Você?”.

“É.”

“Por que você está falando isso?”

“Parece que você está sempre zangado.”

Eu?

“É.”

“Eu não estou zangado.”

“Ah.”

“Você ficaria sabendo se eu estivesse zangado!”

“Então está bem.”

Ele disse: “Zangado, mais essa agora!”. E ficou mais bravo do que estava no começo da conversa.

5. Mas pior, muito pior do que o Pai ficar zangado, muito pior do que o Pai não falar comigo, não querer olhar para mim ou não querer tocar em mim, é quando ele fica triste.

Quando era mais nova, às vezes eu descia a escada para beber água à noite e a luz embaixo da porta da cozinha estava acesa. Ficava vendo o Pai pela vidraça, sentado à mesa, fazendo nada, só sentado lá. Ficava junto à porta, esperando ele se mexer e, quando ele se mexia, era como entrar na água morna. Quando ele não se mexia, eu voltava para a cama com uma dor no peito, prometia ser melhor e esperava a luz chegar.

Isso foi na época em que eu pensava que poderia fazer o Pai me amar, mas não penso mais assim. Porque a razão pela qual ele não me ama aconteceu há muito tempo e agora não posso fazer nada a respeito, ainda que, se não fosse por mim, nada disso teria acontecido.