Uma voz no escuro

Quando terminei de escrever no diário, eu o guardei sob uma tábua solta no assoalho embaixo da minha cama. Agora eu tinha que escondê-lo. Até que o Pai começasse a pensar melhor e visse diante do que estava.

De repente comecei a pensar no que o Irmão Michaels diria se soubesse o que tinha acontecido e tive vontade de dizer como ele estava certo, que eu podia fazer coisas acontecerem, sim, exatamente como ele tinha dito.

Fui para a cama. Minha cabeça ainda estava quente e me sentia ainda mais estranha do que antes. Podia me ver deitada, como se eu estivesse fora do meu corpo. Uma vez desmaiei e me senti do mesmo jeito. Estava pensando no Pai e na discussão, pensando em como ele ficaria surpreso quando finalmente percebesse que eu posso fazer milagres, mas agora era como se tudo tivesse acontecido com outra pessoa, como se o corpinho deitado na cama e a casa e a nossa rua e a cidade e todo o universo estivessem se derramando sobre minha cabeça, e a minha cabeça era grande o bastante para tudo isso, mas ela foi ficando cada vez mais quente, e tudo era tão estranho que eu só me deitei e deixei acontecer. Foi aí que ouvi uma coisa.

“Quer dizer que você pode fazer nevar”, disse uma voz. “Fico aqui me perguntando o que mais você pode fazer.” Algo me subiu pela espinha até os cabelos e tive a sensação de que alguma coisa havia derretido dentro de mim.

“Olá?”, eu disse, mas ninguém respondeu. Esperei.

Aí alguém suspirou. Não tive dúvida.

Eu me sentei na cama. Estava com a respiração acelerada. Puxei os cobertores e respirei fundo. “Quem está aí?”, sussurrei.

Tudo ficou em silêncio de novo. E, então, a voz falou: “Eu perguntei: ‘o que mais você pode fazer?’”.

Fiquei ofegante. “Quem é você?”

“Essa é uma boa pergunta.”

Abri a boca. Fechei de novo. “De onde você veio?”

“Mais uma.”

Falei: “Eu quero saber...”

“Você já sabe”, disse a voz. Parecia estar bem perto.

Balancei a cabeça. “Quem é você?”

“Estou em toda parte”, a voz falou. “Dentro das coisas e fora delas também. Eu fui, eu sou e eu serei.”

Aí meu coração bateu uma vez, bem forte, e eu falei: “Você é Deus, não é?”.

“Xiiiu”, disse a voz.

Engoli em seco. “Você pode me ver?”

“Claro que sim”, falou Deus. “Venho observando você há algum tempo. Você poderia ser muito útil para Mim.”

Eu me endireitei. “O que Você quer dizer com isso?”

“Bom”, Deus falou, “você tem uma imaginação muito fértil. Preciso de alguém como você para ser Meu Instrumento.”

“Seu Instrumento?”

“É.”

“Para quê?”

“Milagres, coisas desse tipo.”

Cobri o rosto com as mãos e depois descobri. Falei: “Eu sabia que estava destinada a fazer uma coisa importante!”.

“Xiu!”, falou Deus. “Fale baixo. Não queremos acordar o seu pai.” Ele parou. “Mas tem uma condição: você tem que ter fé absoluta, você tem que estar preparada para fazer tudo que Eu pedir, sem duvidar, sem resmungar, sem perguntar por quê.”

“Combinado”, respondi. “Pode deixar comigo.”

“Está falando sério?”

“Estou!”

“Ótimo”, Deus disse. “A gente se fala depois. Agora tenho que cuidar de umas coisas.”

“Que coisas?”

“Bom, estou com muito serviço aqui no céu agora. Quatro cavaleiros estão soltando as rédeas, tem uns ventos bem inquietos e um monte de gafanhotos correndo atrás de todo mundo. Ah, e mais uns selos para serem abertos. Enquanto isso, nada de tagarelice, combinado?”

“Posso continuar usando meus poderes?”

“Pode sim”, respondeu Deus. “Vou deixar você se acostumar um pouco com eles.”

“Você acha que posso fazer coisas acontecerem com pessoas e animais também?”

Deus disse: “Judith, é tudo uma questão de fé”.

“A semente de mostarda!”

“Exatamente.”

“Não vou falar mais nada para o Pai.”

“Muito sábio de sua parte.”

“Mas ele vai acreditar em mim, no fim?”

“Vai.”

“Porque vou fazer mais e mais coisas e ele vai ter que ver. Ele vai ter que ver que estou fazendo uma coisa especial.”

“Sem dúvida”, disse Deus.

Então Deus foi lá para onde quer que Ele vai e eu me deitei e fiquei pensando em duas coisas. A primeira era que eu tinha sido boba de esperar que o Pai compreendesse os milagres, mas agora não precisava mais me preocupar com isso, porque tudo iria dar certo no fim.

O segundo pensamento era estranho. Era que aquilo tinha ficado esperando para acontecer comigo, e pensar nisso me deixava mais feliz do que eu jamais estivera em toda a minha vida. Os milagres tinham ficado esperando esse tempo todo, e eu também. E agora a espera tinha terminado, e as coisas podiam começar.