Naquela semana, o Pai chegou em casa de ônibus às seis da tarde todos os dias. Foi estranho ficar em casa sozinha. Não achei que seria muito diferente de quando o Pai estava, porque fico no meu quarto e ele fica na sala, mas foi. May e Elsie se ofereceram para vir ficar comigo, mas pedi para o Pai não deixar, porque elas ficariam contando histórias da Bíblia o tempo todo e, por fim, ele concordou, com a condição de que eu não encostasse no fogão, nos fósforos e nem na chaleira.
O Pai estava sempre pálido quando chegava. Às vezes nem cozinhava os legumes que eu tinha preparado, comia salsichas, feijão e coisas do tipo. Às vezes nem acendia a estufa, ficava sentado junto ao fogão com a grelha ligada até a hora de dormir. Mas, mesmo que estivesse muito cansado, ele sempre fazia questão de lermos uma parte da Bíblia.
Eu queria que Mike viesse fazer uma visitinha. “Por que ele não vem?”, perguntei.
“Ele tem que ir para a casa dele”, o Pai disse.
Eu não gostava de perguntar sobre a fábrica. O Pai não dizia muita coisa, a não ser que tinha bandos de pessoas chamadas Piqueteiros nos portões e que eles ficavam gritando e nunca iam embora. “Já vai acabar”, ele disse. “Dou mais uma semana para eles.”
Mas acho que as pessoas da greve pensavam que ela iria durar. Na terça-feira, depois da escola, a sra. Pew me convidou para um lanche. Enquanto comíamos sanduíches de carne enlatada e biscoitos de amêndoas em sua mesa dobrável, umas pessoas bateram à porta. Ouvi a sra. Pew abrir e um homem dizer que estavam falando com todo mundo, alertando contra a falta de apoio ao sindicato e a relação com alguma coisa chamada “fura-greve”. Ele falou para a sra. Pew bater o telefone se um fura-greve tentasse ligar, para não falar com eles.
A sra. Pew esperou até que ele acabasse de falar, o que demorou um bom tempo, depois disse: “Como é que é?”.
Um instante de silêncio, e aí o homem falou tudo de novo e perguntou se a sra. Pew não gostaria de fazer uma doação aos grevistas famintos.
A sra. Pew falou: “Revista dos jacintos?”.
“Grevistas famintos.”
“Ah, sim, achei que era isso mesmo”, disse a sra. Pew. “Vou pegar um dinheirinho agora mesmo.”
Ela pegou uns trocados no vaso do aparador. Ouvi a sra. Pew dar o dinheiro ao homem e fechar a porta. “Um evento de flores”, ela disse quando voltou à sala de estar. “Eu gosto de doar para as boas causas. Meu marido, o finado senhor Pew, que Deus o tenha, era um amante das flores.”
“O que é ‘fura-greve’?”, perguntei ao Pai quando cheguei em casa.
“Onde você ouviu isso?”
“Bateram na porta da senhora Pew querendo dinheiro para os grevistas e falaram para ela não conversar com os fura-greves.”
“Fura-greve é a pessoa que não apoia a greve.”
“Então você é fura-greve”, falei. “Por que chamam assim? Que nome engraçado.”
Mais tarde naquela noite, eu estava descendo a escada quando mexeram na caixa de correio da porta e uma bexiga cheia de água passou pela fresta e se espatifou no chão. Escutei o zum-zum de bicicletas. Peguei a bexiga. Mas não era colorida, era transparente. Também tinha um formato estranho, mais longa, que nem um tubo, e o buraco era grande demais para soprar dentro. O Pai saiu do banheiro sem camisa e com uma toalha em volta do pescoço.
Ele disse: “Larga isso!”.
Olhei firme para ele.
“Larga isso!”, repetiu. “Vai lavar as mãos!”
Na quarta-feira, alguém virou o latão de cabeça para baixo e espalhou lixo por todo o jardim. Na quinta-feira, Neil e seu irmão arrancaram uns galhos da cerejeira da Mãe, e o Pai ficou acordado até depois da meia-noite. Na noite de sexta-feira, quando as batidas recomeçaram, ele telefonou para a polícia. Ouvi o Pai falar: “Você não pode nem mandar um carro, nada? Está passando dos limites. Eu vou ser preso por agressão se tiver que sair lá e fazer alguma coisa... Não; não sei como começou”.
Mais tarde, quando eu já estava na cama, um carro de polícia desceu a rua. Escutei o carro parar lá fora e o policial falar com os garotos. Depois disso, tudo ficou em silêncio e, quando olhei pela janela, eles tinham ido embora.
“Deus”, eu disse, “o que está acontecendo? Por que Neil Lewis não deixa a gente em paz?”
“Será que tem a ver com o fato de todo dia ele se dar mal na escola por causa de você?”, falou Deus.
“Não é por minha causa”, respondi. “É por causa do que ele faz comigo.”
“Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”, Deus disse.
“Não é justo!”, rebati. “Eu não tinha como saber que nada disso aconteceria. Como eu podia saber que ele iria começar a bater na nossa porta?”
“Que dureza, né?”, falou Deus.
“É. Resolvi um problema e arrumei outro.”
“É a vida”, Deus disse. “As coisas desaparecem e reaparecem em outro lugar. Você ajeita uma aqui e aparece outra lá. Que nem goteira. Agora você sabe como é.”
“Como é o quê?”
“Ser Eu.”
“Achei que era só dizer o que eu queria e aí as coisas iam começar a acontecer.”
“É, mas você pode fazer as coisas pararem de acontecer?”, perguntou Deus. “Você pensou nisso?” Deus deu risada. “Pensar é um negócio perigoso até nos melhores momentos.”
“Mas o que vai acontecer?”, perguntei. “Com Neil e tudo mais?”
“Não acho que vai adiantar muito para você ficar sabendo agora”, Deus falou. “De qualquer jeito, depende de você.”
Era estranho que Neil continuasse vindo à nossa casa porque ele nem chegava perto de mim na escola. Não falava que queria me matar e não passava o dedo pela garganta e não me batia e nem enfiava minha cabeça na privada e nem puxava minha cadeira. Ele não estava fazendo um monte de coisas que costumava fazer. A sra. Pierce fez com que ele se mudasse para a mesa de Kevin, Stacey e Luke, então ele não se sentava mais com Lee e Gareth, mas, sempre que eu virava, seus olhos azuis estavam me encarando, e estavam estranhos, como se ele não estivesse olhando para mim, mas para alguma coisa atrás de mim.
A sra. Pierce deixou Neil de castigo quatro vezes naquela semana. Na hora da saída, quando ele jogava a mochila sobre os ombros, ela dizia: “Neil, aonde você pensa que vai?”.
“Para casa, senhora.”
“Achei que você e eu tivéssemos um compromisso.”
“O pai vai me matar se eu atrasar de novo.”
A sra. Pierce falava: “Também não é nenhuma diversão para mim, você sabe. Então, quanto antes você aprender a se comportar, melhor para nós dois. Sente-se e pegue seus livros”.
Neil não me seguiu até em casa nenhuma vez naquela semana, mas alguns dos outros garotos passaram de bicicleta por mim muito rápido e gritaram palavrões. Na quarta-feira, quando saí da escola, vi um homem de cabeça raspada e jaqueta jeans esperando atrás dos portões. Tinha um monte de tatuagens. Estava de braços cruzados, com o queixo apontando para cima e a boca apertada. Quando passei, ele abriu o canto da boca e um jato de saliva voou para o chão.
“Sue”, eu disse enquanto Sue Lollipop me ajudava a atravessar a rua, “quem é aquele de cabeça raspada?”
“É Doug Lewis”, ela disse em voz baixa. “Está em pé de guerra com alguma coisa.”
Então agora tenho um rosto para o “barra-pesada”.
Na quinta-feira, Doug estava lá de novo, encolhido contra o vento. Dessa vez, estava fumando. E, quando passei, percebi uma coisa que não tinha visto antes: nas costas das mãos dele, enroscadas umas nas outras, havia um monte de cobras verdes.