O quarto ficou escuro. As sombras escorregavam pelas paredes e se derramavam sobre o assoalho. Roçavam o teto e a luminária de balão, viajavam que nem nuvens sobre a Terra Gloriosa. Apareciam, reapareciam e iam para algum outro lugar.
Vi os postes de luz se acenderem e a lua surgir. Ela brilhava tanto que tinha até uma auréola. Parecia pó de giz, e a lua parecia giz, e o céu parecia um quadro-negro, e por todo o quadro-negro havia pontinhos de estrelas. Eu me lembrei de que estava escrito que o sol iria se escurecer e a lua não daria sua luz e fiquei me perguntando se, quando o fim do mundo chegasse, seria como se um apagador gigante tivesse feito a lua e as estrelas desaparecerem, virado o quadro-negro para a parede num piscar de olhos. Pensei em como seria bom.
Ouvi o relógio da sala bater oito horas. Ouvi bater nove. Ouvi bater dez. Depois devo ter fechado os olhos, pois, quando olhei pela janela de novo, eu tinha escorregado para fora do travesseiro e no lugar da minha boca tinha aparecido uma mancha úmida.
Tudo estava muito quieto e muito frio. Eu tinha a sensação de que era bem tarde e me sentia mal, como se tivesse sonhado com alguma coisa ruim que ainda estava se arrastando atrás de mim. Eu também me sentia confusa, como quando você acorda e não tem certeza se ainda é noite, se já é de manhã ou não se lembra de onde está, o que era estranho, porque eu estava no meu próprio quarto. De repente, pensei que eu poderia nem ser de verdade, ou então que eu era de verdade e todo o resto era de mentirinha: de qualquer jeito, era uma sensação muito solitária.
Um barulho me fez olhar para baixo. Seis garotos montados em bicicletas sob a luz do poste. Neil Lewis estava lá, junto com seu irmão e outros meninos, mais velhos que os da última vez, com uns quinze ou dezesseis anos. Cheguei mais perto da janela e me sentei, para que só o meu rosto ficasse na luz. Achei que eles não poderiam me ver, porque a luz estava refletindo na janela.
Eles empinavam as bicicletas, subiam na garupa, riam e bebiam alguma coisa em garrafas e latas. Neil estava sentado em cima dos ombros de outro garoto. Jogou uma lata no nosso quintal e ela foi parar no meio das palmeiras do jardim. O irmão de Neil bebia uma garrafa. Quando terminou, veio direto para o nosso muro.
O que vi em seguida não fazia o menor sentido. O garoto abaixou as calças e se agachou. Os outros aplaudiam e gritavam, mas os ruídos não faziam sentido para mim e soavam como buzinas de carros ou apitos de navios ou algum tipo de animal. Outro garoto foi até o muro e abaixou as calças, e aí aplaudiram de novo. Deixei a cortina cair e por um minuto não pensei em absolutamente nada.
Não sei por quanto tempo fiquei ali sentada, nem se os ruídos continuaram lá embaixo, porque não ouvi mais nada e, quando olhei de novo, a rua estava vazia.
Depois de um tempo, me levantei. Não sabia ao certo o que ia fazer, mas fui para a porta. Abri e andei até o patamar da escada. Parei nos primeiros degraus porque meu coração batia tão forte que me sentia tonta, como se meu cérebro tivesse se desligado.
Podia escutar o Pai dormindo no quarto dos fundos. Ele respirava com dificuldade. Dava para ouvir o ar entrando. Os espaços entre as respirações eram tão longos que achei que ele ia parar de respirar de vez, mas a respiração sempre voltava. Ela subia, subia, parava bem no alto e, por um momento, não estava em lugar nenhum. Aí começava tudo de novo.
Fiquei me perguntando como as pessoas não morriam todas as noites, como os corações delas continuavam batendo sem que elas pedissem, talvez sem que elas nem quisessem, e pensei em como isso era incrível. De repente, senti pena do meu coração. Ele ficava me agarrando e me soltando e me agarrando de novo, que nem um homenzinho apertando as mãos e dizendo: “Oh, oh, oh”. Falei para o meu coração: “Está tudo bem”. Mas o homenzinho continuava apertando as mãos e me senti mais triste do que nunca e não sabia por quê. Depois de um tempo, desci a escada.
Virei a chave e abri a porta da frente, o luar se derramou pela sala. A rua estava silenciosa. O frio era como fumaça nas minhas narinas.
Passei pelo portão e olhei para a calçada. Não sei por quanto tempo fiquei olhando para ela. Não sabia nem se ainda era uma calçada: espaços em branco onde deveria haver palavras. Depois de um momento, fui até o jardim e peguei umas folhas. Voltei pelo portão, peguei o que estava na calçada e joguei tudo atrás da moita de palmeiras.
Fiz isso mais de uma vez. Não pensava no que estava fazendo. Pensava em outras coisas e, o tempo todo, meu coração, meu coração estava batendo, batendo.
Perguntei: “O que sou eu?”.
“Pó”, respondeu uma voz.
“Só isso?”
“Só isso”, a voz disse.
“E o meu coração?”
“Pó”, falou a voz.
“E a minha mente?”
“Pó.”
“Meus pulmões?”
“Pó.”
“Minhas pernas?”
“Pó.”
“Meus braços?”
“Pó.”
“Meus olhos?”
“Pó.”
“Entendi”, falei.
“Tu és pó”, a voz disse, “e ao pó tornarás.”
Quanto mais a voz falava, mais pesados ficavam meus braços, mais pesadas ficavam minhas pernas e, por fim, estava difícil até respirar.
Então olhei para baixo e vi que a calçada estava limpa, peguei água no regador e lavei tudo. Esfreguei com folhas e grama. Esfreguei tão forte que apareceram uns pedacinhos de pele branca nas juntas dos meus dedos.
“Pó”, disse a voz, e eu concordei.
Fechei o portão, guardei o regador e lavei as mãos na pia. As estrelas estavam tão brilhantes que pareciam pulsar.
“Estrelas são feitas de pó”, falei de repente.
“Tudo é feito de pó”, a voz disse.
Surgiu um brilho repentino, algo que eu quis agarrar. Mas ele desapareceu rápido demais. Entrei em casa, tranquei a porta e subi para a cama.